terça-feira, 16 de julho de 2013

O MOLESKINE DE JANETE (III)

(continuação)

Espesso manto vermelho escuro encobria o tecto que se abatia sobre a sua cabeça. Dominado pelo pânico, o coração galopava contra as costelas, escoiceando dolorosas fracturas, por onde escorriam veias dilaceradas. As pernas esbracejavam e os braços esperneavam, numa urgência absoluta de fuga e libertação. Mas o tecto não fazia senão baixar, elevando o desespero claustrofóbico ao limite do insuportável.
Uma capa preta, donde sobressaiam, desenhados, dois alvos e pontiagudos caninos, sussurrou, em tom apaziguador: O desespero tem suas formas próprias de trazer a calma.
A frase ecoou repetidamente, sempre mais longe, mais longe, até se confundir com um ruído contínuo.
Com a angústia a dominar-lhe a mente e a transpiração a inundar-lhe o corpo, Francisco abriu os olhos numa interrogação atarantada e, com mão desajeitada e brusca, emudeceu o despertador.
A frase ainda percorria o seu cérebro, em ondas sucessivas, qual intruso indesejado reclamando hospedagem, o resto tinha-se desvanecido, sem hipótese de recuperação.
Nem sequer se lembrava de como atingira a cama. Apenas a vaga recordação do mergulho na banheira. E a certeza de que já eram horas de se levantar.
Aquele calor estava a dar com ele em doido. Devia ser isso.
Um duche rápido e um café depois, pôs-se a caminho da Agência de Publicidade, tentando concentrar-se na reunião com os novos clientes - e clientes era coisa que, sobretudo nestes tempos, não podia dar-se ao luxo de dispensar.
À medida que caminhava – era esse o seu modo preferido de deslocação e, por muito que lhe custasse, nem a excessiva canícula o demovia – as ideias iam ganhando alguma ordem e deu consigo a pensar no Moleskine encontrado na véspera. Teria alguém dado sinal após o seu anúncio no Facebook? Em que contexto e com que significado teria Drácula proferido aquilo: O desespero tem suas formas próprias de trazer a calma?
A verdade é que andava com uma crise de imaginação, pensou, o que, sendo Publicitário, podia revelar-se fatal. Não era a primeira vez que lhe sucedia, e nessas alturas, lamentava-se por não ter outra qualquer profissão, por exemplo, taxista ou electricista. Porém, reequacionava, de imediato, a questão, admitindo que, caso fosse taxista, talvez sofresse de desmemoriação selectiva para nomes de ruas e, sendo electricista, talvez tivesse tendência para apanhar choques. Quem sabe, talvez fosse sua sina pender para a complicação, talvez tivesse sido isso o que levara Rita a partir, talvez devesse descobrir a calma que o desespero pode trazer, pensamento que lhe soou a déja vu, ou, melhor dito, déja entendu.  Demasiados talvez! Whatever, concluiu, agora impunha-se o encontro com os clientes.
- Olá, Francisco, saudou Joana, a Secretária, com um sorriso rasgado. Os Clientes já chegaram.
- Ok., Joana, dê-me cinco minutos e, de seguida, leve-os à minha sala, por favor.
Bolas, uns minutos de atraso e já tinha que fazer má figura, censurou-se. Bem, talvez eles não levassem a mal, afinal, sendo seus concidadãos, já deviam estar habituados a esperas bem mais prolongadas. O que era preciso era surpreendê-los com alguma ideia brilhante!
Os clientes pretendiam lançar um inovador conceito de colchão, que, para além de reunir as melhores características de todos os existentes no mercado, tinha a particularidade de induzir o sono, por efeito duma avançadíssima tecnologia de propagação de ondas acústicas, associadas ao uso de aromaterapia.
Um colchão que tinha as suas formas próprias de trazer o sono, pensou Francisco.
Adiantou a ideia e os clientes gostaram. Pareceu-lhes simples, directo e eficaz.
Terminada a bem sucedida reunião, Francisco sentiu um novo ânimo, como há muito não experimentava.
Concedeu-se uma curta pausa para espreitar o Facebook, à procura de notícias de Janete. Só então, enquanto revia o seu anúncio, realizou que o nome da rapariga desenhada coincidia com o da sua namorada, aliás, ex-namorada, Rita.
O mundo está cheio de coincidências, talvez o mundo não passe duma  descarada e incongruente coincidência do acaso, pensou.
 
(Nota: Prevê-se continuar, noutra poiso; de momento ignora-se onde e como)
 

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Uau! Que boa notícia, "Passageiro"! Aí está um verdadeiro desafio para quem anunciou que se "prevê continuar noutro poiso"...
      Bluegirl

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