terça-feira, 6 de agosto de 2013

MAIS MAIAS!


Respondendo à criativa iniciativa Eça Agora, lançada pelo Semanário Expresso - www.ecaagora.com -, dei comigo a reler, à velocidade da luz, Os Maias, de Eça de Queirós, numa pressa alucinada de chegar aos novos Maias, a inaugurar, triunfalmente (só podia!), por um dos nossos melhores escritores contemporâneos, José Luís Peixoto, sob o sugestivo título, Depois de tudo, antes de alguma coisa.  
 
Devo admitir que a releitura acabou por ficar pelo caminho, não apenas devido àquela urgência, mas também (e sobretudo) porque, tornando-se o tempo cada vez mais escasso, importa direcionar as opções para o (muito) que falta (ler, ver, criar, descobrir, surpreender...), em detrimento do que, de alguma maneira, pode considerar-se déja vu. E não é que não gostasse de reler tantas obras, rever tantos filmes, revisitar tantos lugares! Trata-se, como disse, de mera questão de tempo, ou melhor, da sua falta. 
 
Em todo o caso, a parcial releitura permitiu-me constatar, com admiração, a contemporaneidade da escrita de Eça de Queirós, a irónica acutilância da sua crítica social e pertinente aplicação aos tempos que correm. Segundo julgo, bastaria mudar as datas e os nomes para, sem necessidade de alteração de estilo, termos o retrato perfeito do actual  Portugal no seu melhor, aliás, pior, que disso se trata.
         
Para mim, Depois de tudo, antes de alguma coisa vinha embrulhado em brilhantes celofanes de expectativa, atados com garridos laços de curiosidade e interesse. Como iria José Luís Peixoto, dotado duma interioridade tão profunda, duma inteligência tão sensível e dum estilo tão próprio, responder ao desafio, prolongando a saga de Carlos da Maia até aos idos de 1910?  
 
A expectativa adensou-se ainda, quando, através da página oficial (Facebook) e palavra do Escritor -  www.facebook.com/pages/José-Luís-Peixoto -, fiquei a saber que alguém o questionara pelo facto de ter incluído no texto a referência a uma mensagem de telemóvel! Não li, até ao momento, a explicação por ele adiantada; fá-lo-ei mal publique este texto, onde irei deixar a minha hipótese, por mais parva que possa vir a revelar-se. 
 
Para mim, Depois de tudo, antes de alguma coisa foi desembrulhado com sofreguidão, celofanes e laços rasgados à toa, até à revelação do presente, e que presente, mais um texto maravilhoso!
 
Sem perder a sua marca tão própria, JLP, à medida que evolui no enredo, consegue, de forma gradativa, com admirável mestria, elegância, fluidez e leveza, operar uma espécie de metamorfose (ou será osmose?) queirosiana, que, aliás, parece assumir, tão clara quanto subtilmente, na cumplicidade estabelecida com o escritor original, esse de Queirós, como, inspiradamente, refere - também numa piscadela de olhos ao trocadilho, Eça Agora (?).
 
Veja-se: "- Esse de Queirós - murmurou Carlos para si próprio. - Quem diria, esse de Queirós...
Não se lembrava do prénom do sujeito. O artigo, incompleto, cometia a proeza de nunca o referir. Nomeava apenas um livro mas Carlos tinha a certeza que era assinado por esse de que não se lembrava do nome, mas apenas o sobrenome: de Queirós, qualquer-coisa de Queirós." (in p. 40)
 
E, mais adiante, na reacção de Carlos à morte desse de Queirós: "Esse escritor de Queirós, português que tinha conhecido num cocktail dinatoire, causara-lhe uma impressão forte. Apesar de todas as diferenças, vira nele um paralelo, uma possibilidade de vida que, só por acaso, não seguiu." (in p. 58)
 
É assim que profundas observações convivem com a vívida e irónica análise da mais superficial espuma das andanças sociais e amorosas dum Carlos já em processo de decadência. E que melhor pode ilustrar esta espuma do que a confissão da suposta Claudine: nem francesa nem Claudine, apenas portuguesa e Claudina? 
 
Claudine ou Claudina que, a dado passo da sua insistente imposição perante Carlos, lhe envia a tal mensagem de telemóvel, nos alvores do século passado...
 
Ora bem, cá para mim, trata-se duma metáfora alusiva ao avanço de Eça de Queirós em relação ao seu tempo (e aos do seu tempo, já agora). E, se não for nada disto, vou ficar muito triste.
 
 
 


3 comentários:

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  2. OS MAIAS E OS NOVOS MAIAS
    Fiz também o exercício de redescobrir os Maias e a sua contemporaneidade na edição do jornal o Expresso - com o entusiasmo de ler a sua continuidade anunciada com "os Novos Maias" escrito por vários autores. Os Maias não são um retrato de época mas de épocas porque continuam a existir por aí Salcedes e Gouvarinhos ( "tem todas as condições para ser ministro: voz sonora e é um asno"), maus jornalistas que se deixam comprar, etc. A "Choldra" está toda lá. Só falta o lápis de Bordalo ilustrando-a. Desta vez no entanto apreciei com mais detalhe as descricções formidáveis de Eça. Há cheiros (desde a Verbena e Jasmim até ao maus odores da cidade suja), há cores incríveis, há ambientes que se respiram, sons entre as páginas, e todas as fabulosas descrições das salas e das ruas (mormente Lisboa e Sintra). Deu-me vontade de ir passar um fim de semana à Lawrence em Sintra (onde não vou há muitos anos). E vi no Ega outra voz do próprio Eça. Não há só a troca do "ç" por um "g" mas a descrição física e sobretudo o pendor revolucionário contra a burguesia. E não podemos esquecer que um dos objectivos principais de Eça era atingir essa burguesia e a sua hipocrisia. Em suma a "Portuguese way of life", moldada pela Inquisição mais longa da História, está toda lá. Mas os "Novos Maias" trouxeram desilusão perante as minhas expectativas. Se a intenção era como se diz na nota prévia: "os textos vão transportando a narrativa desde a cena que encerra os Maias" - esse objectivo então falhou. E falhou porquanto a metodologia utilizada impede o conhecimento de cada autor dos textos anteriores ou dos seguintes. Possibilitando uma leitura sem sentido. Um personagem que morreu no final do Sec. XIX pode estar vivo em 1910 - no texto seguinte. Carlos da Maia está em 2 lugares diferentes ao mesmo tempo consoante JL Peixoto e JE Agualusa (com a irmã e sem a irmã). Os lugares e a descricção do tecido social perdem-se em grande parte. Há equívocos quanto à idade de Carlos (2 anos mais novo que a irmã) e colocam-no aos 39 anos envelhecido (p.ex. quase sem forças para apanhar um "Americano") para no texto seguinte aos 62 anos calcorrear ligeiro dezenas de quilómetros numa caçada sob o calor tórrido de África. Sem desconsiderar um autor que aprecio, parece-me óbvio que o tão falado episódio do telemóvel em 1899 lá colocado propositadamente por JL Peixoto torna-se grotesco porque falha o que é pretendido (retirar seriedade, divertir, e auto-ironia = explicações do autor perante a onda de críticas sobre um telemóvel a tocar, no final do Sec. XIX, e atirado depois para o fundo de uma gaveta). O anacronismo propositado soa afinal despropositado e o toque isolado do telemóvel cai como uma pedra, incoerente e afinal sem graça, desintonizado do restante texto de Peixoto que de certo modo cumpre um certo registo narrativo Queirosiano. Não levar, aliás, o Eça a sério era o pior que podia acontecer. Essa é que é essa.

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  3. Antes de mais, agradeço o seu texto e o facto de o colocar aqui!
    Concordo, inteiramente, com a 1ª parte (sobre os Maias). Já quanto à 2ª (sobre a continuação e suas manifestas incongruências), a minha opinião é outra. Considero desempoeirado e criativo o desafio lançado a escritores contemporâneos, alguns dos quais muito bons - JLP e JRC - para darem sequência ao romance de Eça, embora reconheça que teria sido preferível recorrer a um método sequencial. Não o tendo sido, aceito plenamente as bases e foco-me na "releitura" (não "reescrita", que isso seria exigir muito!) que cada um dos convidados "conseguiu" fazer duma obra tão inquestionável. Portanto, a minha prioridade não consiste em encontrar coerência, mas em surpreender talento (o talento de conseguir não desiludir Eça, com toda a sua ironia...). Como já deixei expresso, entendo que o JLP conseguiu muito bem. Quanto ao episódio do telemóvel, a mim pareceu-me divertido, enquanto recurso literário (entendido, v.g., nos termos em que o entendi), mas não pelas razões adiantadas pelo próprio (que, entretanto, fui ver). Ou seja, não me parece literariamente incoerente (apesar da sua incoerência fáctica), mas também não me parece que faça sentido enquanto elemento de diversão e, muito menos, de auto-ironia. Mas, aqui, dou a tolerância da (muita) admiração ao JLP, ele não é, propriamente, um cultivador do humor e não me parece, de todo, que ele não pretendesse levar o Eça a sério. Parece-me, aliás, que o seu texto demonstra o contrário. No tocante ao JE Agualusa, esse desiludiu-me imenso. Tenciono, aliás, escrever sobre isso. Desacordos são naturais e desejáveis. Que seria de nós se o pensamento fosse único?

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