terça-feira, 3 de setembro de 2013

OUTRAS VIDAS


Há pessoas que acreditam noutras vidas, quer dizer, vidas do passado, vidas do futuro e, inclusivamente, vidas paralelas, de acordo com a suposta (ou agora inventada) teoria dos mundos paralelos.
 
Refiro-me a vidas dos próprios, repetidas (ou a repetir), assim qualquer coisa do tipo da crença na reencarnação, com o tendencialmente eterno rodízio de vidas (ou vidinhas) que tal conceito perpetua.
 
Acredito que não lhes faltem razões e argumentos, todos eles tão justos e tão fortes, como, respectiva e nomeadamente, um (sabe-se lá porquê?) anseio de eternidade e fenómenos do tipo do déja vu, aquela estranha sensação de repetição de vivências, que, todavia, não se atina a explicar.
 
Quanto a mim, apesar de já ter experimentado este género de episódio (déja vu) - que atiro para trás das costas à velocidade com que me atinge e enfrento com a resignada ignorância que só o inexplicável me permite aceitar -, devo confessar não nutrir qualquer espécie de simpatia nem, consequentemente, sentir qualquer espécie de anseio, pela ideia de eternidade, conceito que, aliás, considero um tanto ou quanto aterrador. De resto, também detesto rodízios e qualquer outro tipo de indefinidas repetições, sobretudo se desinteressantes e inúteis. Perante esta espécie de situação, prefiro passar adiante.
 
Portanto, já se deve estar a adivinhar que não pertenço ao supracitado grupo de pessoas subsidiárias da crença nas tais vidas passadas, futuras e etc.
 
Não afirmo não poderem existir - embora torça para que não existam, visto integrar o grupo dos adeptos da ideia de uma vida ser muito mais do que suficiente e, por vezes, até de sobra. Pura e simplesmente, não vislumbro qualquer evidência de que assim seja. E, como agnóstica convicta, acredito que onde não há evidência não há fundamento para crença, indo até um bocadinho mais longe, porquanto, verdadeiramente, considero que a própria evidência pode, em muitos casos, não passar de mera aparência.
 
Independentemente disto, que sentido teria essa tal repetição de vidas (ou vidinhas) se a consciência dumas não se mistura com a consciência das outras?
 
Não é que esta temática tenha um interesse por aí além ou que, hoje, me tenha dado para filosofias baratas, tratou-se, apenas, de enquadrar dois casos algo curiosos, embora, em si mesmos insignificantes, que se passaram comigo, um há bastantes anos, o outro há uns dias.
 
Cenário do 1º: intervalo dum espectáculo (creio que de ballet) na Fundação Calouste Gulbenkian. As pessoas, eu uma delas, encaminham-se para o espaço do bar.
 
Num instante, o meu olhar cruza-se com o dum homem mais ou menos da minha idade e, com a maior naturalidade e simpatia, sorrimos um para o outro, um velho e empático sorriso de amigos, se não de toda a vida, pelo menos de há muita vida. De permeio há outras pessoas e cada qual segue o seu caminho, eu, seguramente, à procura dum café (ou talvez não, talvez tivesse tomado café anteriormente).
 
O espectáculo continua e segue-se um 2º intervalo. Voltamos a dar de caras, eu e o tal homem. Há menos gente de permeio. Ele aproxima-se, cumprimenta e apresenta-me a mulher. Eu correspondo e apresento a pessoa que estava comigo (já nem sei quem era!). Só então pareço tomar consciência de que não faço a mínima ideia de quem ele é, passo a explicar: apesar da certeza de nos conhecermos, não me lembro nem do nome dele, nem da origem do nosso mútuo conhecimento. O mais amavelmente possível, tomo, então, a iniciativa de explicar a situação e pedir as referências em falta. Com a mesma naturalidade e amabilidade, o homem revela um estado exactamente idêntico ao meu. Bonito! Estamos os dois absolutamente em branco em relação um ao outro e julgamos ser impossível não nos conhecermos de parte nenhuma! Começamos a inventariar todos os possíveis pontos de contacto, desde os elementares nome e naturalidade até aos locais de estudo, vida, trabalho, etc. Nada! Absolutamente nada coincidia. Estranho, mesmo, foi o nosso sorriso ter coincidido daquela maneira (note-se, para evitar confusões, que nada teve a ver com atracção, se com alguma coisa teve a ver, foi com conhecimento, fosse qual fosse a sua espécie). Goradas todas as tentativas de estabelecer a ponte daqueles olhares, despedimo-nos, muito prazer, até à próxima. Nunca mais nos cruzámos. Que eu me tenha dado conta. Apenas sei que, durante algum tempo, andei a puxar pela cabeça para descobrir o mistério. Não houve descoberta!
 
Este caso estava mais do que adormecido até que.
 
Cenário do 2º: fila da bilheteira dos cinemas UCI do El Corte Inglés de Lisboa (com a quantidade de vezes que já referi este espaço, já devia ter direito, pelo menos, a bilhetes de graça...). Venho de comprar o meu bilhete.
 
Num instante, a minha habitual desatenção ou distracção é chamativamente interrompida pelo sorriso doce e educado, mas insistente, dum senhor, talvez a rondar os 70 anos (mas não sei, não tenho feeling nenhum para calcular idades), bonito, alto e de porte elegante, estacionado na fila dos bilhetes. Aquele olhar era exactamente do tipo do supracitado olhar Gulbenkian, só que unilateral, na medida em que eu não fazia a mínima de quem era o seu dono. Talvez por isso (por perceber, sem sombra de dúvida, que o Sr. estava convencido de me conhecer) retribui o sorriso (um sorriso titubeante e interrogativo, o meu). Sem demora, o Sr. estendeu-me a mão e pronunciou: - Coimbra?, ao mesmo tempo que executava um perfeito beija-mão (ou seja, levava a minha mão perto dos seus lábios, sem, todavia, a tocar, que ele era, verdadeiramente, um cavalheiro). Entre o despistado e o confuso, contrapus - nome?  - Não, não esteve em Coimbra? - respondeu. E eu: - Não, não estive, é engano (esta parte, mais falada para dentro, pois não queria deixá-lo pouco à vontade). E, assim, tão rápido o cumprimento quanto a despedida! Os sorrisos extinguiram-se em sentidos opostos, o dele em direcção às bilheteiras, o meu em direcção a um café (começo a pensar se serei viciada em café ou, no mínimo, se a minha história de vida, nos seus pequenos pormenores, anda sempre associada a um qualquer café, mas agora não vou dizer marcas, visto ainda não cobrar patrocínios).
 
O meu sorriso estendeu-se um pouco mais, pois dei comigo a pensar que a cena do sorriso UCI, com o seu equívoco Coimbra, não destoaria num filme do Woody Allen.
 
E é isto. Pequenas coisas da vida. Pretexto para interrupções outras.
 
 
 
 

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Então porquê? Achas que o Woody Allen vai mesmo pegar no "argumento"? O mais engraçado é que eu nunca pensei que este post fosse tão hilariante, mas já és a 2ª pessoa que, declaradamente, se fica a rir! Sinto-me perplexa e ... encantada. Ah!Ah!Ah

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