sábado, 28 de junho de 2014

A CARTA QUE NÃO FOI


quero escrever-te, descrever-te, inscrever-te, transcrever-te. quero escrever-te, para te dizer os adjectivos com que te descrevo, para te anunciar o modo como te inscrevo e o desejo que tenho de transcrever-te.
desejo que concretizo, porque eu não ameaço, eu faço o que quero, quer queiras quer não, porque está ao meu alcance, isso, tudo isso, embora possa ser ou parecer apenas isso, escrever-te, descrever-te, inscrever-te, transcrever-te.
sei que já recebeste a carta, oh! não, não foi carta, foi e-mail, que te escrevi. sei que bebeste os adjectivos com que te descrevi. sei que percebeste como tinhas ficado inscrito em mim, tão tatuado a fundo, coisa que antes nem sequer tinhas notado (curioso, ainda há pouco ouvi dizer que um homem era bem capaz de não entender quando uma mulher o ama, não sei se por distracção, desinteresse, mal entendido ou medo, mas isto já sou eu a acrescentar).
falta-me perceber se percebeste que te transcrevi, eu própria não sei bem se consegui. transcrever-te, transcrever alguém, requer menos ímpeto, mas está rodeado duma rendada tessitura de melindre, talvez seja o mesmo que guardar-te, inteiro, conservar-te, mesmo depois de teres partido ou até antes de sequer teres chegado.
assim, abalancei-me, escrevi-te, descrevi-te, inscrevi-te, mas, para ser honesta, não estou certa de poder ou sequer querer transcrever-te.
olha, já percebi, ninguém transcreve ninguém, não é possível nem sequer desejável. já viste o peso que seria carregar uma pessoa transcrita? e a solidão?
assim, por muito que me custe, não te transcrevo, já não te transcrevo, foi mero ameaço de desespero.
retiro a carta, melhor o e-mail, não chegaste a ver nada, nem que te escrevi, nem que te descrevi (e eram do melhor, os adjectivos!), nem que te inscrevi na minha pele como uma tatuagem funda, nem que não cheguei a transcrever-te.
como não deste por nada, não vale a pena acenar-te com palavras e muito menos com gestos.
fico por aqui, talvez a transcrever-me e a desinscrever-te de mim.
mas da próxima vez, quero tudo claro, talvez com palavras ditas, solenidades dispensam-se, não há necessidade de escrever.
estás a ver a diferença?
 
 





 
 

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