quarta-feira, 25 de junho de 2014

ONLY LOVERS LEFT ALIVE


SÓ OS AMANTES SOBREVIVEM (na tradução portuguesa), de Jim Jarmusch, é um filme absolutamente fascinante e encantatório.
 
Desde logo, pela originalidade e subtileza do argumento, em que se assiste à desconstrução pura do mito do vampiro, enquanto ser predador e insensível, e, do mesmo passo, se inverte a perspectiva de reflexão, passando-a para o lado do vampiro, em relação à humanidade, em detrimento da habitual, de sentido inverso. Temos, assim, um vampiro dotado da mais elevada sensibilidade artística - compositor de belíssima música (fúnebre) e coleccionador de maravilhosos instrumentos musicais - e, simultaneamente, ferido pelo desencanto (depressão?), por, ao longo da sua existência de séculos, testemunhar a constância da maldade (ou será estupidez?) dos zombies, quer dizer, dos seres humanos, que não há maneira de aprenderem com os seus erros. Acresce o amor entre o vampiro e a vampira - personagens principais -, não um amor qualquer, mas um amor de séculos, que permanece, aqui e agora (e sempre), tecido no romantismo duma ligação cúmplice, profunda, intemporal e, até, interespacial, revelada, aliás, duma forma bela, sugestiva e eloquente, na pose em que os seus corpos repousam, entrelaçados e harmónicos. Esta simbologia encontra-se, também, na invocação da teoria da interligação das partículas e no papel que esta assume no desenho do final do enredo - de que, por motivos óbvios, nada vou adiantar.
 
  
 
Não sem o mesmo relevo, impõe-se salientar a beleza e o significado da ambiência transmitida, quase onírica ou surreal - quer por via dos cenários, quer por via da fotografia -, bem como a mestria com que a narrativa é conduzida, elementos que me produziram, só por si, um tal encantamento que, mesmo no tempo inicial do filme, enquanto se retarda a revelação do enredo, admiti bem poder prescindir deste. Aliás, estabeleci uma associação automática com aquelas obras primas da literatura, que maravilham pela qualidade e profundidade da escrita, e não, necessariamente, pela história contada.
 
 
As interpretações, maxime, da Tilda Swinton e do Tom Hiddleston, são magistrais. E  adorei a banda sonora.
 
Enfim, um dos filmes mais belos dos últimos tempos!   
           
 

Nota: Imagens obtidas em pesquisa Google.



 

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