segunda-feira, 29 de junho de 2015

O ESTADISTA


Hoje, aquele senhor que dizem ser o presidente da República, em pronto comentário - sim, por vezes dá-lhe para comentar - sobre a questão da Grécia (provável saída do Euro) afirmou não haver problema, pois ainda ficam dezoito e outros querem entrar.
Não vou dizer que fiquei atónita, pois daquela alminha espero tudo menos bom senso, elevação e decência. Limitei-me a procurar uma tabela de equivalências, susceptível de permitir a avaliação do grau de decoro e inteligência duma tal asserção. Não se revelou tarefa difícil, prontamente concluí pela seguinte equivalência: visita a família  de B e C, em missão de condolências, pelo falecimento de um dos seus cinco filhos; aperta a mão a B, o pai, dá um beijinho a C, a mãe, e, com um maroto e ufano sorriso, diz-lhes, aliviado: pensem na felicidade que têm, ainda ficam com quatro filhos e, sorte a vossa, há por aí uns desgraçados duns órfãos ansiosos por adopção! Não vou dizer que C caiu redonda no chão, enquanto B enfiou um valente soco no pescoço de A, deixando-o arrumado, a um canto, e que, pensando tratar-se doutro morto, os senhores da Funerária o enterraram com o falecido. Não estou aqui para inventar.
Tudo isto, apenas para concluir que este é o exemplo que as juventudes ibero-americanas têm a esperar do seu recém-nomeado embaixador Aníbal Cavaco Silva. Ainda bem que não havia nenhuma creche a precisar de representação diplomática!

(Imagem obtida em pesquisa Google)





   

sábado, 27 de junho de 2015

ONDE A LEVARIA AQUELE VESTIDO-TELA?


Por vezes, acontece. Um simples traço, o brilho duma cor, talvez nada disto, e lá vem a evocação. Um vestido, numa repetição esporádica, de tempos a tempos, sem cadência ou razão certa, que se saiba. Sabe-se lá despertado por que pormenor (ou não, talvez não seja um pormenor...). Constava de três cores, azul, vermelho e branco, geometricamente separados, como se só assim pudessem conviver, o branco na parte de cima, o corpo, o azul na parte de baixo, a saia, e um cinto vermelho a rematar, na cintura descaída, a meio da anca. Linha direita, o tecido não era linho, nem seda, de resto não interessa nada qual seria. Sente-lhe a textura, como se ainda lhe envolvesse o corpo. Era fresco e macio ao toque, sem ser mole. Ah! e tinha manga curta, já se percebeu que era um vestido de Verão. Um vestido dos alvores da adolescência, que lhe vem à memória como convite repetido, embora não se saiba para quê (uma coisa a pensar). Partilhava a geometria do vestido-tela de Yves Saint Laurent, mas  num modo mais contido, sem o desacerto das linhas assíncronas, descoincidentes, e faltava-lhe o separador preto e o berro do amarelo, ainda bem, não gostava nada de amarelo, precisamente porque sempre lhe pareceu um grito, e não estava habituada a gritos - e, mais importante, já sabia, embora sem consciência, que a fronteira entre os sussurros e os gritos é tão breve como a espuma dum cappuccino, mas isso não é para aqui... Naquela altura, nem sonhava que existia um YSL, com o seu vestido-tela e o seu smoking feminino e outros clássicos mais, talvez ainda não tivesse ouvido falar nas telas da inspiração, dum tal Piet Mondrian. Não, seguramente. Nada disso importava, tinha o vestido chique, para exibir os seus recatados catorze ou quinze anos, para fantasiar deslumbramentos, com aquele fundo de inspiração que eram as únicas viagens da sua vida-até-aí de menina crescida - afinal, tinha brincado com bonecas até aos treze anos, embora já embalada num pensamento adulto. Enfim, contradições. As viagens à cidade que parecia Londres - Londres, o que era Londres? Não, ainda não lhe ocorrera Londres... - e às praias dos seus arredores, o lado chique - na altura esta palavra usava-se - dos meninos bem da Foz, nos seus impecáveis blazers azuis escuros e calças cinzentas, cabelos alourados, calculadamente espavoridos pelo vento, sobrevoando os descapotáveis de corrida, ou quase. Onde a levaria aquele vestido-tela

(Imagem obtida em pesquisa Google)






domingo, 21 de junho de 2015

O ESTRANHO CASO JOSÉ SÓCRATES OU UM PAÍS DE M****


Antes de mais, uma declaração de (des)interesses: como bem sabe quem me conhece e, também, quem tem o hábito de passear por este blog, nunca nutri qualquer tipo de apreço pelo ex-primeiro ministro José Sócrates. Aliás, qual cãozinho de Pavlov, habituei-me a mudar imediatamente de canal, quando ele aparecia na televisão - embora deva reconhecer que criei tal condicionamento com o também ex-primeiro ministro Durão Barroso e assim prossegui com o actual primeiro ministro, ao menos até ter desligado em modo (quase) definitivo o comando da televisão. (Está bem, a esta altura, já estão a pensar que o problema é meu, que não gosto de primeiros ministros! Mas não, por favor não se precipitem, não gosto é de falta de qualidade, de verdade, de respeito e por aí...). Acresce que também não nutro particular simpatia pela nossa magistratura judicial e do ministério público. (Não, também não é embirração maníaca, é pensar, por exemplo, nas circunstâncias de arquivamento dos processos Freeport e dos Submarinos, na inconclusão - que se saiba! - dos processos do BPN, no adormecimento - que se saiba! -, de eventuais processos alusivos ao BES/Ricardo Espírito Santo, e, enfim, num extenso rol de casos talvez mais corriqueiros, mas não menos relevantes).
Vem isto a propósito do caso Sócrates, ou seja da investigação criminal que contra ele pende, nas condições que vêm sendo relatadas na comunicação social, congregando, em síntese, os seguintes elementos:
- Situação processual: detenção espectacular no aeroporto de Lisboa, apanhado à chegada de Paris, com direito a espera e escolta jornalística até às instalações do DCIAP, para ser interrogado, e donde saiu em direcção a uma cadeia de Évora, onde se mantém até hoje, em regime de prisão preventiva;
- Presumível objecto da investigação: alegada prática de diversos crimes, nomeadamente, o de corrupção;
- Presumível base (ponto de partida) da investigação: alegado (alto) nível de vida do visado, alegadamente sustentado por avultadas quantias de dinheiro, directa ou indirectamente entregues pelo seu reclamado amigo Carlos Santos Silva;
- Posição que terá vindo a ser mantida pelo visado: negação liminar das acusações; invocação do factor amizade e do título empréstimo, enquanto fundamento para as referidas entregas de dinheiro.
- Segredo de justiça: sistematicamente violado, com uma criteriosa saída para a comunicação social (através dalguns mídia) de sucessivas notícias sobre alegados factos novos contra o visado; em contrapartida, alegado défice de comunicação ou ocultação, à defesa deste, da matéria constitutiva desses (eventuais) factos novos.

Não pertencendo a nenhum dos clubes nacionais prontamente florescidos à sombra do caso, e que, nos seus extremos, confluem no atavismo duma absoluta condenação, um, e duma absoluta absolvição, o outro, o meu posicionamento (e creio que o de mais alguns portugueses) radica no interesse, da exclusiva ordem da cidadania, em saber se o (talvez) engenheiro José Sócrates, enquanto no exercício de funções políticas, praticou ou não qualquer acto juridicamente censurável, v.g., consubstanciador do crime de corrupção. 
Neste contexto e apesar de seguir este, por assim dizer,  folhetim jornalístico-judicial ou vice-versa quase exclusivamente - e, mesmo assim, en passant - pelas notícias da rádio (TSF e Antena 1), rendi-me a comprar a revista Sábado da semana passada, publicitada como trazendo factos novos, com os quais o visado teria sido confrontado no último interrogatório, com direito a transcrição integral.
E o que encontrei (para além da inadmissível e inqualificável transcrição duma peça processual em segredo de justiça)? Nada que me permita concluir pela existência de tais factos (enquanto susceptíveis de consubstanciar fundamento indiciário bastante para uma acusação minimamente sólida).
O interrogatório transcrito demonstra aparente incompetência de quem o preparou/conduziu, visto não se traduzir em perguntas rigorosas e concretas, mas antes no arremesso de questões genéricas, demonstrativas da falta de elementos materiais relevantes (ou da ausência de nexo de ligação entre os elementos apresentados e o interrogado). Ou seja, exceptuada a questão dos recebimentos de dinheiro do tal amigo - pelos vistos, a única que, por indesmentível (imagino!), admite, embora na inconcebível versão do empréstimo por amizade... -, não se confronta o arguido com qualquer sua acção concreta, em termos de configuração e circunstâncias de produção, que dele permita reclamar uma resposta igualmente concreta e circunstanciada. Daí que, completamente aberto o flanco, as respostas do mesmo venham embaladas naquela arrogância tão sua característica, a roçar o desrespeito pelo magistrado interrogador. Ora, é bem sabido que uma investigação competente e eficaz não pode basear-se, exclusivamente, numa confissão e, o que é mais, não pode esperar uma confissão (para mais dum arguido com as características reveladas por José Sócrates...), sem um mínimo de elementos indiciadores ou seja, desde logo, sem um interrogatório adequadamente sustentado e construído. Bem podem atirar-lhe com os negócios do amigo e do primo e de mais não sem quem no Algarve ou não sei onde, que a resposta dele sempre será a mesma, assim do tipo, e eu com isso? (à semelhança do interrogatório transcrito).
A quem aproveita, pois, o aparente conluio judiciário-jornalistico que tem acompanhado (se não construído) este caso? Só se me afiguram duas hipóteses (aliás, conexas) e, escusado será dizer, nenhuma do meu agrado: a) conseguir a condenação, em praça pública, daquilo que talvez se não consiga no meio próprio, os tribunais; b) instumentalizar a justiça em favor da política, no caso, dos partidos do governo (PSD/PP), em desfavor do seu concorrente no chamado arco governativo (PS). Em troca ou não de vantagens (como poderá ser um novo Estatuto do Ministério Público?).
Tudo isto é muito mau para o País! Tudo isto diz muito mal do País! E tudo isto abrange:
- Não se chegar a apurar a verdade sobre (em síntese) as alegadas entregas de dinheiro a José Sócrates, por parte de Carlos Santos Silva, sendo certo que ninguém, em seu juízo perfeito e na posse dum mínimo de senso comum, pode dar crédito à versão dos empréstimos, a título de amizade;
- Conseguir-se - como creio já se ter conseguido - uma condenação em praça pública, sem eventualmente, vir a conseguir-se na sede própria, os Tribunais;
- Instrumentalizar-se a justiça e a comunicação social (pior, ambas, em eventual conluio), para fins de proveito político-partidário;
- Corrermos o risco de ter de pagar isto muito caro se, como aparenta o célebre interrogatório transcrito, não houver matéria para sustentar uma condenação séria, e o cidadão José Sócrates resolver pedir uma indemnização ao Estado pela maneira como o seu caso tem sido tratado pela justiça.
Então, resta-me pedir aos senhores magistrados que se agarrem ao trabalho, investiguem o que devem investigar, e comprovem, duma vez por todas, a quem pertence, donde provém e a que título, o dinheiro canalizado por Carlos Santos Silva para José Sócrates. E que o façam depressa, para além do mais, a fim de poderem dedicar-se a outros casos igualmente prementes e pungentes, em que, à semelhança deste, também a suspeita de corrupção é gritante, como é o caso das eventuais luvas alegadamente pagas no caso dos submarinos

(Imagem obtida em pesquisa Google, alusiva a - e cito - Who Was That Lady? ... Uma bem divertida comédia de equívocos, sobre a verdade da mentira ...)


   

domingo, 7 de junho de 2015

VIDAS!


Há vidas que são meras abstracções, não passam de coisa nenhuma.  Os seus ocupantes nada têm para contar. Mantos lisos, planícies intocadas. Nem sequer uma história, mesmo sendo a daquele  sem abrigo, o da reportagem da televisão, do sorriso metido para dentro, como quem pede desculpa por se apresentar, mas simultaneamente  estremece de orgulho dos seus quinze minutos de fama. Bastou perguntarem-lhe e começou logo a desfiar, como quem cospe caroços de cerejas, o sorriso engolido, sempre. Primeiro foi a infância abundante de bolachas e brinquedos e amor de pais e avós e irmãos e cânticos celestiais, depois o casamento desejado (sim, saltou da infância para o casamento, talvez por restrições do tempo de antena, afinal são apenas quinze minutos...). Tinha um óptimo trabalho, muito bem remunerado, socialmente relevante, uma mulher bonita e esperta, que se fazia passar por burra quando convinha, dois filhos deliciosos, um rapaz e uma rapariga, como convém (o casalinho, costuma dizer-se, embora eu ache ridículo, muito pequeno burguês e mesmo salazarento, como se as pessoas estivessem obrigadas a parir médias em nome da família perfeita e compostinha), um carro topo de gama, um Rolex que quase lhe esmagava o pulso forte, e por aí fora, tudo nos conformes do deus da abundância e do consumo, símbolo de perfeição, ao menos naquela década, em que perfeição era sinónimo de sucesso e sucesso significava aquilo, aquele padrão, soletrado por entre dentes, agora escurecidos. Depois veio a crise,  no início não ligou, parecia que só afectava os outros, os que, parvamente, se tinham deixado apanhar, até que um dia os despedimentos bateram à porta da empresa, as entranhas a espremerem-se de expectativa, depois a lividez a corar de alívio, quando os Recursos Humanos ainda só clamavam pelos outros, por fim o estrondo, a porta a fechar-se-lhe nas costas desabrigadas, começar a descer as escadas às arrecuas do sucesso, inventar uma coragem desconhecida, porque até então desnecessária, caminhar até ao carro numa nuvem de tontura, atinar com a chave na ignição, por entre a tremura dos dedos moles, a escorrerem de suor, aquela coisa pegajosa, antes só conhecida dos jogos de ténis e da sala de cardio do ginásio XPTO, nunca do espanto e do medo do inimaginável. DESPEDIMENTO! Dar voltas e voltas à toa, ainda sem pensar onde iria de futuro buscar o dinheiro para a gasolina, uma indemnização miserável, nenhuma desculpa, apenas a crise - lamentamos muito, Sr. Dr., mas temos de dispensar os seus serviços, aliás, magníficos - se são magníficos por que dispensá-los?, pensou, mas omitiu, porque o espanto, a incredulidade e ainda não a raiva, apenas a sua promessa, se lhe enrolaram na garganta, como se tivesse acabado de engolir um emaranhado de cabelos espessos, os da mulher..., não, não podiam ser os da mulher, os dela eram sedosos, a condizer com o brilho dourado da cor, e compridos, bem abaixo dos ombros..., a mulher, como havia de lhe contar? Ensaiava um sorriso medroso, merdoso, uma coisa ou outra ou ambas, era medroso e era merdoso, porque aliava o medo à vergonha da confissão, ia ter de assumir, perdera a condição de macho alfa, o providenciador de alimento e luxo, de status e sexo (embora este último, nem sempre quando ele queria...). Chegou a casa, custou-lhe ainda mais acertar com a chave na fechadura do que com a chave do carro na ignição, as mãos tremiam com mais força, como varas verdes, só lhe vinha à ideia esta expressão, ressoando sabe-se lá de que profundezas, a avó, sim, era a avó que tinha a mania de dizer aquilo, que alguém tremia como varas verdes, porque estava pedrada de medo - bem, a avó não dizia pedrada. Mas estava com medo de quê? Ora, tinha as suas competências, ainda agora se estreara nos quarenta, contactos e influências não lhe faltavam, havia de arranjar algo, rapidamente, para esfregar na cara do Dr. António Pinto, o dos Recursos Humanos, e do patrão, embora não soubesse bem quem era o patrão, afinal a empresa era uma multinacional. O abraço da mulher, embrulhado num grande ponto de interrogação, e a farpa, as farpas - mas escolheram-te a ti porquê? E agora, vais fazer o quê? E ele, todo amarelo por dentro, a cara torcida num sorriso de AVC, a sentir-se desapoiado e desafiado e culpado, uma mistura que o vergava com a força dum dever, o dever da sua condição de macho-alfa, o preço a pagar, um dos preços a pagar por poder apresentar-se perante a sociedade como um número positivo, um símbolo de realização e de sucesso, poder exibir um Rolex esmagador, um trabalho de prestígio, uma família esplendorosa - por essa altura, Deus e a Pátria tinham abandonado a trilogia, a família manteve-se, porque fica sempre bem. Depois, a passagem dos dias e dos meses, ele a multiplicar-se em energia e a desdobrar-se em contactos e iniciativas, entrevistas e testes, e as portas a fecharem-se-lhe, primeiro de mansinho, primeiro, e depois com estrondo, atrás das costas, contra as costas, fechando a esperança, amordaçando o orgulho, quebrando a vontade de continuar. O dinheiro a esvair-se como pulmão de tuberculoso, os amigos a passarem ao largo, os filhos a mudarem para a escola pública, a mulher a reclamar e, não tardou nada, a fechar-se em copas até que um dia, ele a chegar ela a sair, toda aperaltada com o resto dos luxos acumulados, e o anúncio - vou trabalhar, alguém tem de sustentar a casa, os meninos, a família, tudo palavras atiradas que nem facas de circo, mas mais certeiras do que facas de circo. E ele apanhado pelo mesmo espanto e incredulidade, gago de vergonha e de ressentimento, ainda não era ou já não era o tempo da raiva, porque já estava desistente, sentia-se um farrapo, até os filhos fugiam dele, não o reconheciam, como cães que ladram a mendigos. Ela a regressar e ele a descair do sofá, a garrafa de JB acabada de diluir, a fúria dela a subir e a comandar - rua, isto não é albergue de desocupados!, os filhos espavoridos, cada um para seu lado, a menina, seis anos, dava saltinhos aflitos, o menino, oito anos, desaguava lágrimas sobre o comando da PlayStation, enquanto devorava as unhas, um fio de sangue a deslizar pelo sabugo - lindo exemplo para os teus filhos, olha para eles, já nem te reconhecem, rua, deixa-nos em paz! - rugia ela, agora mais despreziva do que raivosa. E ele saiu e daí até debaixo da ponte, por assim dizer, foi questão de meses, as últimas janelas - já não restavam portas - fechadas, o horizonte a fechar-se, a fechá-lo naquele imenso espaço aberto que é a rua, terra de todos e por isso de ninguém. Foi no dia 23 de Dezembro que o entrevistaram, no salão da Paróquia de não sei das quantas, à espera daquela espécie de consoada, servida por voluntários, um deles, o dos Recursos Humanos. Talvez ocupasse uma vida abstracta, o dos Recursos Humanos. Ou talvez não. 








sábado, 6 de junho de 2015

PATRICK QUÊ?



Há factos que nada abonam em favor da nossa cultura, já não digo geral, mas literária. Um deles é, seguramente, só saber da existência dum escritor francês - digo francês, porque a França é mesmo ali à esquina e, até há relativamente poucos anos, pode dizer-se que a vida cultural portuguesa foi tributária da congénere francesa... -, através da notícia de que lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura!
Aconteceu-me isso com Patrick Modiano, beneficiário, em 2014, deste prémio (ia escrever galardão, para não repetir prémio, mas detesto a palavra, demasiado barroca...).
Para além de curiosa, senti-me quase obrigada - perante mim própria, entenda-se! - a correr à Bertrand mais próxima, com o objectivo de suprir tão incómoda lacuna. Acabei, assim, por adquirir O HORIZONTE (Porto Editora), para o qual só avancei há duas semanas, após ter vencido uma inexplicável resistência, desaconselhadora de grandes expectativas, e duas tentativas falhadas (em que não passara das primeiras páginas).
Devo confessar que me custou vencer o horizonte dessas páginas e de muitas mais, aí até metade do romance, onde, finalmente, comecei a surpreender alguma história, numa narrativa errante, tão errante quanto o assunto sobre que versa, a memória, aliás, uma particular categoria de memória, se assim se pode dizer. Nesse aspecto, devo reconhecer uma assinalável consistência - ignoro se intencional ou acidental, embora me incline para a primeira - entre a forma e o ritmo da narrativa e as vagas difusas mas impressivas daquela memória, que parece erigir-se em personagem-líder, ao comandar a vida (vazia) do protagonista, enchendo-a de fragmentos dum passado incumprido (aquém do horizonte, portanto), e impondo-lhe a necessidade (ou será obsessão?) de os reconstituir e, mais, de os redimir, na ideia do cumprimento dum futuro susceptível de ajustar contas com aquele passado, reeditando-o no presente. O que, aliás, é deixado em aberto. Como convém.
Mas será essa consistência suficiente para fazer de O HORIZONTE um romance maior, ao nível dum Autor nobelizado? Não creio. A utilização daquela particular ideia de memória, se bem que interessante, não me parece, propriamente, original. Por outro lado - e mais relevante - as personagens e a sua história carecem, a meu ver, de espessura e profundidade, não suscitam empatia (positiva ou negativa) suficiente para despertar no leitor aquele interesse que o conduz a uma reescrita, para si, da obra alheia, para assumi-la como património seu, ainda que no plano abstracto duma (eventual) partilha de identificações. Também o estilo - cuja qualidade, aliás, não questiono - e o pensamento - longe de atingir profundidade assinalável - não me conduzem ao reconhecimento duma característica maior neste romance.
Obviamente, não sendo um livro que faz um Autor - nem, de resto, um leitor -, reservo-me opinião mais fundamentada sobre Patrick Modiano para quando tiver lido mais uns livros seus (não que, de momento, me apeteça muito...).     







quinta-feira, 4 de junho de 2015

DARKNESS II


Finalmente, na semana passada, dei por mim a revisitar o caderno dedicado aos desenhos da tertúlia mensal de Desenho Cru  (por aqui referido em diversas ocasiões, com pertinente documentação de imagem).
A partir dos rabiscos encontrados, recriei alguns dos desenhos, nomeadamente da magnífica performance de Kina Karvel (fotograficamente reportada em post de 10 de Março passado) e da que se lhe seguiu. Deixo o resultado, com a nota de que, como pode ver-se, algumas das fotografias reproduzem a parte de trás dos desenhos  (por me parecer que oferecem um registo curioso). 


DESENHOS NA SESSÃO DE  2 DE MARÇO DE 2015 (COM KINA KARVEL)













DESENHOS DA SESSÃO DE 6 DE ABRIL DE 2015