sábado, 3 de outubro de 2015

ONDE O SOL NASCE (III)



(continuação)

Cheguei, pois, a Tóquio, envolvida num manto de primeiras boas impressões, embalada numa maravilhosa sensação de positivismo e relax, e agitada por viva expectativa em relação ao resto da viagem, que, daqui em diante, verdadeiramente começava.

A chegada ao hotel - New OTANI - apenas contribuiu para sublinhar aquelas impressões, dada a sua elevada qualidade e localização, garante de magníficas vistas. Foi-me atribuído um bonito e espaçoso quarto, no 28º andar, com uma vista deslumbrante sobre um conjunto de edifícios de vários tamanhos e feitios, desenhando um típico skyline de grande metrópole.






Pouco depois da chegada, dirigi-me ao 40º andar, sede do restaurante BELLA VISTA, um dos vários do hotel, onde prossegui a reportagem fotográfica iniciada no meu 28º.







Aproximava-se o meio da tarde e a ânsia de partir à descoberta dos lugares previamente seleccionados era enorme, mas maior foi o peso do cansaço.

Rendi-me a ficar pelo hotel, onde, após a quase maníaca organização da bagagem, desfrutei duma refeição buffet, num elegante restaurante, dum lado, aberto para o longuíssimo e larguíssimo corredor central (ligando a main tower à garden tower, aquela onde se situava o meu quarto) e, do outro lado, comunicando, através de enormes painéis de vidro, com um harmonioso jardim, para o qual segui, uma vez terminada a refeição e atentamente observado o ambiente, onde pontuavam elegantes senhoras (na maior parte), lanchando sossegada e alegremente (ou assim me pareceu). Pelo que vim a ouvir mais tarde, é habitual as mulheres deixarem de trabalhar, quando se casam, entretendo-se neste tipo de reuniões e em actividades de shoping… 

O tempo pesava, escuro, desabando, ocasionalmente, numa bátega de chuva tão generosa quanto fugidia. Mas, quando saí para o jardim - também pertença do hotel - mal caíam uns pingos esparsos, insuficientes para me afugentarem ou afugentarem o gato que por lá se passeava, plácida e astutamente, como é costume de gato.


O jardim maravilhou-me, com a sua ponte de madeira vermelha sobre o lago, onde rodopiavam peixes cinzentos ou cor de salmão (que vim a saber serem carpas e estarem associados à sorte), a queda de água, a estátua pétrea dum ser (divindade?) de cara zangada (esperei que não fosse comigo!), rodeada dum laguinho de oferenda de moedas (seria um altar?) e, claro, a vegetação, onde pontuavam os primeiros bambus.































Grossas pingarolas de chuva restituíram—me ao interior. Por essa altura, seriam cerca das cinco horas da tarde e começava a instalar-se a noite oriental.

Passeei-me pelos longos corredores, especialmente pelo principal e mais extenso, ladeado de lojas de artigos diversos, incluindo uma galeria de arte, todas elas caras ou caríssimas, e de atendimento irrepreensível. Porém, a que me despertou mais atenção, foi uma que congregava livros - uma das minhas paixões - artigos de papel - outra das minhas paixões -, em particular, ligados à cultura nipónica, e artigos de utilidade, como as máscaras sanitárias, com que viria a ver tantas pessoas cobrirem o nariz e a boca, assim se protegendo contra eventuais contaminações ou evitando contaminar terceiros.

Tomavam conta da loja duas idosas baixinhas, de aspecto frágil, com os rostos engessados em pó de arroz, parecendo saídas de imagens fílmicas (ou outras) reportadas a antes da II Guerra Mundial. Também o seu comportamento ostentava algo de desusado. Especialmente uma delas pareceu-me bastante desconfiada, quando me demorei a folhear os mais variados e apelativos livros, mantendo-me sob  permanente observação, em regime de proximidade (não fosse eu fugir com um livro na mão?!). A situação era tanto mais inquietante (para a senhora, presumi, não para mim, que me via, divertidamente,  dentro dum filme antigo) quanto ela insistia em responder em japonês às questões que eu, desconhecedora da língua, lhe apresentava em inglês. Menos mal que a outra balbuciava algum inglês, tendo, talvez, percebido que eu voltaria mais tarde, para comprar um livro. Assim fiz, tendo adquirido dois, maravilhosos, um do género documentário fotográfico do País, o outro de contos japoneses, com ilustrações (ambos em versão inglesa, of course). O primeiro destinou-se a oferecer, o segundo cumpriu (mais) uma das minhas idiossincrasias, despertada pela compra, em Copenhague, duma belíssima versão dos Contos de Andersen - em memória do deleite que os mesmos me causaram na infância. A partir daí e vá-se lá saber porquê, sempre que viajo a um novo país, compro um livro deste tipo, de preferência com tradução numa língua entendível. Mas, se não encontro, vem mesmo na língua local, como aconteceu com o croata Patka Zlatka (O Pato Zlatka). 


Enfim, mais uma mania inofensiva e, como tal, tolerável. Quando da compra, surgiu uma terceira idosa, advertindo-me, com um aspecto a que não era alheio um quase desespero, que devia efectuar o pagamento em cash (não fosse lembrar-me de sacar um cartão de plástico ou qualquer outra modernice - pensei). A conversa sobre a forma como pretendia os embrulhos foi amavelmente intermediada por um senhor asiático, risonho e divertido, que, entretanto, entrara na loja. Terminadas as operações, saí entre sorrisos, convencidas, finalmente, as senhoras, de que as minhas intenções sempre tinham sido benignas (ou assim imaginei!).

(Bonito, o papel de embrulho!)
Aproveito para adiantar que a questão da língua constitui, efectivamente, um problema de comunicação com os japoneses. Excepção feita ao staff dos hotéis, e aos guias e demais pessoal dos operadores turísticos, foi-me deveras difícil encontrar pessoas habilitadas a falar inglês (obviamente nem tentei outras línguas), mesmo entre os jovens e em lojas, incluídas as de dimensão significativa, como os department stores. Sucede, todavia, que, tratando-se dum Povo tão educado, cerimonioso e acolhedor, não resistem a dizer que falam a little bit (de inglês), vindo a revelar-se que é muito mais little do que bit, por assim dizer; noutros casos - muitos -, confessam, de imediato, não falar inglês, mas com um polido, sorridente e quase envergonhado sorry. Também ao nível da comunicação gestual, não consegui grande sucesso (quem sabe se por inépcia minha!). É, pois, recomendável andar sempre com um mapa legendado em japonês, o mesmo se aplicando às direcções dos hotéis e demais sítios que nos interesse alcançar. 

(Claro que não resisti a captar o magnífico skyline nocturno!)

Natureza, Tradição e Modernidade





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