domingo, 3 de janeiro de 2016

O BONECO IMPERTINENTE


Corria a madrugada avançada do passado dia um deste mês de Janeiro (de 2016), quando sonhei que estava a moldar um boneco, numa qualquer pasta difícil de trabalhar. Ignoro, ao certo, qual o material, mas posso garantir que não se tratava de barro ou de plasticina, para só citar alguns.
Estranhamente - embora, no sonho, talvez não -, o boneco tinha vida própria. E que vida!
Empenhava-se em me dificultar o trabalho, não parando de se mexer e de resmungar, numa zanga e numa resistência que, ao menos para um boneco, me pareceram absolutamente  inusitadas e irritantes.
Prometi-lhe dinheiro, em concreto, dez euros, mais umas canetas e não sei que mais, a troco de um mínimo de bom comportamento. Deixasse-me, por favor, completá-lo, corrigir-lhe os defeitos causados por tamanha agitação e má vontade!
Não sem óbvia relutância, prometeu aquietar-se, para que eu pudesse fazer dele  um modelo de perfeição.
O meu objectivo era avançar para uma exposição, com ele, com um certo desenho (não sei bem qual) e não sei com que outros tesouros escondidos, e não tinha tempo a perder.
Apesar do compromisso assumido, não mudou o comportamento nem uma vírgula que fosse. Continuou a desatinar, mexendo-se sem parança, como se atacado por uma invasão de pulgas, e a rezingar, qual abelhão, dificultando-me o trabalho com todas as suas forças.
Entretanto, a pasta de modelação, talvez empenhada numa estranha solidariedade com ele, esboroava-se como lama ressequida. Precisava de água para lhe juntar os pedacinhos soltos, a fim de aperfeiçoar e solidificar as formas finais do boneco. 
Tudo em mim era agitação contínua e desmedida, em busca, não do tempo perdido - que não acredito nisso... -, mas, quem sabe?, da perfeição, ou melhor, duma ideia de perfeição, que, todavia, queria materializar numa forma, talvez para me convencer de que era possível. 
Quando acordei, a luta com o boneco tinha-se esvaído no canto do esquecimento. Todavia, pouco tempo depois - já eu ultrapassara o estado de ansiedade onírica - assaltou-me a memória.
Sorri do boneco, na sua graça de objecto animado em truculento e assumido modo reivindicativo. Continuei a lavar os dentes ou lá o que estava a fazer.
Só passados alguns momentos compreendi que a criatura, o boneco, era - sou - eu. E a sua criadora, também. E que essa é a razão por que não formulo intenções de Ano Novo ou do que seja, nem como as passas (limito-me a fingir, para não destoar), nem essas coisas.
Afinal, com bonecos deste calibre, o melhor é ir vendo e agindo, qual work in progress...


(Imagem obtida em pesquisa Google)






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