sexta-feira, 22 de julho de 2016

A NÃO HISTÓRIA DE VLADIMIR BLUE (UM SALTO, 7 POSTS DEPOIS)


No dia seguinte, Vladimir Blue chegou no seu amarfanhado modo habitual, mas, a dado passo, soergueu abruptamente a cabeça, fazendo rodar alguns rostos na sua direcção e despertando súbita agitação na folhagem das árvores, tal o inusitado do gesto. Tudo porque sentiu um impacto surdo, um paf abafado, que lhe ressoou a estilhaço de bomba, tal a auto imersão e a ausência de contactos físicos em que, desde há tanto tempo, seguia o seu rumo, se é que se lhe podia chamar rumo. Elevou a mão ao chapéu e sentiu um empastamento mole e quente, que lhe provocou uma tremura fria, feito da lembrança desesperada do sangue, ainda morno, com que se deparou naquela tão longínqua quanto presente tarde, lá longe, na duna. Fez um esforço para fugir da evocação, levou a mão suja para debaixo dos olhos, agora regressados à posição habitual, a que acompanhava a cabeça descaída, e viu, com alívio, que se tratava apenas do excremento dum pássaro. Os pássaros são com o destino, podem passar anos a cagar ao lado, mas chega sempre um exacto microsegundo em que, sabe-se lá por que conjugação de sortes, te acertam, infalível e implacavelmente, na cabeça ou num ombro. E cagam sempre de alto. Sem saber bem o que fazer à mão peganhenta, malcheirosa e sabe-se lá carregada com quantos veículos de doença, micróbios, bactérias e coisas assim, Vladimir Blue sacudiu-a brevemente, antes de a recolher no recato do bolso da gabardine, onde, por sorte, jazia amarfanhado um lenço de papel, talvez testemunho de lágrimas perdidas no esconderijo da sua reclusão ou de simples ranho inoportuno. Enrolou nervosamente os dedos no trapo de papel, recuperou o ritmo habitual da batida cardíaca e seguiu para o poiso do costume, disposto a retomar os murmúrios. Assim esperou a Sombra, que, na escuridão do seu anonimato, o seguia, qual instigador secreto à continuação, agora que Akemi, a lembrança súbita de Akemi, tinha marcado tão forte e angustiante presença. Mas não, não seria esse o argumento a debitar, ao menos nesse dia, ao menos nos momentos mais próximos. Era demasiado doloroso e, bem vistas as coisas, Vladimir Blue ainda não se recompusera do susto causado pelo ataque da ave. Regressou a Natasha.
Natasha era uma mulher apaixonada. Quer dizer, Natasha procurava a paixão e entregava-se-lhe, sem tréguas e sem reservas. Enfim, não podia viver sem a paixão, não a paixão idealizada, mas a paixão em estado real. Não apenas um objecto de paixão, mas vários. Não é isso a característica dum ser apaixonado, a concretização versus o simples sonho, o desejo suspenso, inerte, inactivo e inoperacional? De que vale ansiar e não ir em busca, não abocanhar com todos os dentes e lábios e corpo, esse concreto sujeito (ou objecto) da paixão? O que distingue tal estado do nada, ou pior, da negação? Um vazio, uma cobardia, uma insatisfação e uma censura permanentes. Em nome de quê? De ilusória segurança, de resguardo frustrado para os tempos do nunca, do nunca há de acontecer, do zero. Vladimir Blue encaixava mais nesta categoria, vivia a paixão por dentro, quer dizer, tinha medo de se (deixar) queimar pela paixão. Akemi - lá voltava Akemi, difícil mantê-la à distância, nesse dia! - era diferente. Brincava com a paixão como quem brinca com fósforos ou lança bombas de Carnaval. E ria, sempre aquele riso em que a brancura imaculada dos dentes perfeitos parecia desenhar a palavra provocação. Vladimir Blue vivia suspenso daquele riso, embora tivesse preferido ler uma palavra diferente, que, verdade seja dita, não sabia exactamente qual. Aquele riso mantinha-o vivo e alerta e assim era mais fácil dissimular a paixão, limitar-se a entrar no jogo da sedução, aquele jogo que o mantinha atado a ela como cão a trela.




Nota: Este é um extracto, não sequencial, da história - com o mesmo título - que aqui comecei a publicar em 13 de Maio de 2013, com continuação por mais seis posts, o último dos quais datado de 8 de Setembro de 2014.







Sem comentários:

Enviar um comentário