quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

JÁ MORRIA!


uma infinidade de passos curtos e inconstantes levou-a até ao cadeirão de verga que repousava à sombra da macieira. Sentou-se devagar, como devagar era a sua existência, já ia para uma eternidade, parecia-lhe. encostou a um lado a bengala brilhante, encimada por uma figura pequena e delicada, talhada em prata, agora escurecida. era um pato ou ou cisne. sempre gostara de animais, quer dizer, como elementos decorativos. reproduções de animais. animais a sério era assunto diverso, requeriam condições especiais, como um jardim ou um quintal onde pudessem habitar e soltar-se para a vida. para estarem presos em apartamentos, isso não, não era coisa que fizesse sentido. agora tinha o jardim, aquele jardim, mas já era tarde.

já era tão tarde, nem dava para perceber aquele atraso, tal a falta de sentido para continuar a permanecer. quer se quisesse quer não, a partir de certa altura - senão, mesmo, do início! - fazia-se tarde para todas as pessoas. era o que sempre constatava quando se punha a olhar para a sua figura, agora tão diminuta, para a sua vida e para a vida, em geral.

recostou-se no cadeirão já um pouco usado, olhou para cima, na medida das possibilidades da sua cervical empedernida - como se estivesse zangada com ela, que disparate! - e prendeu os olhos embaciados nas maçãs verdes que começavam a despontar. o sol, repartido em pequenos pedaços que desenhavam os intervalos da folhagem, quais caramelos de formato irregular, aquecia-lhe as faces. pensou no tempo em que passara tardes inteiras de torreira, na paria, toda oferecida ao clamor ardente do astro-rei, sem se preocupar com coisas que só mais tarde entrariam em artigos de revistas banais, coisas do tipo de cancro de pele, envelhecimento precoce, etc. por essa altura a sua pele era límpida e lisa e brilhante como as faces do mais puro diamante. não que tivesse consciência disso. como tal, também não tinha consciência de que pudesse deixar de ser assim, ou melhor, de que um dia haveria necessariamente de deixar de ser assim. por isso ficou muito espantada quando, décadas depois, um qualquer espelho lhe devolveu uma cara que já não era a sua. mas isso eram águas passadas. foram os tempos do écran total diário, verão ou inverno, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, na esperança de sustar estragos futuros. isso agora já não interessava, não que se tivesse habituado àquela cara que não era a sua, que cada vez era menos a sua, apenas se habituara a essa desabituação. não é a mesma coisa.

pensou na sua vida por etapas, dos zero aos dez anos, a infância protegida, as primeiras desconfianças do mundo, as expectativas depositadas no futuro, não por ela, entenda-se. dos onze aos vinte anos, a adolescência amordaçada, a juventude enclausurada, um tédio descomunal, um mundo paralelo, sabido paralelo, para fugir a tudo aquilo. dos vinte e um aos trinta anos, um início relampejante da vida, da vida boa e compensadora que podia ter sido e o seu oposto, quando as esperanças se esboroaram. dos trinta e um aos quarenta anos, o mergulho nos infernos, a vida a negar-se-lhe ou seria ela a negar-se à vida? e por aí fora, tudo medido em décadas, nisso era um bocado maníaca. até chegar ao agora, quase a fechar os oitenta e cinco anos, números redondos, a mania dos balanços. nada que verdadeiramente se aproveitasse, que pudesse dizer-se, valeu a pena o esforço e o tormento.

ouviu um remoinho de passos amansando tufos de relva. lá vinha a bandeja do chá, o chazinho, como ela dizia, a outra, a empregada do lar de luxo em que se tinha feito depositar quando concluiu já não ter mais nada a cumprir no mundo lá de fora (não que alguma vez tivesse tido!). que mania aquela, falar por diminutivos, como se os velhos recolhessem à criancice. 

murmurou por entre dentes, já morria (nada que não se viesse repetindo há décadas). a outra, a empregada, ouviu e, com a alegria encomendada que lhe pagavam para exibir, disse, no seu ar apalermado de quem não percebe nada, o quê, senhora D. Maria Luísa, o que é que já morria, o sconezinho delicioso que lhe trago aqui? ainda quentinho, acabado de fazer, é um regalo...

ponha aí na mesa, deixe ficar, interrompeu-a a velha senhora, procurando, sem êxito, dissimular a irritação. 

o sol fez-se menos quente por entre a folhagem da macieira. depois apagou-se. já não era sem tempo.








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