sábado, 16 de setembro de 2017

O BOTÃO ASSASSINO - I


Era um botão cinzento escuro, de aspecto pesado, com quatro buracos no meio. Podia bem passar por um homem maduro, largo de ombros, com algum excesso de peso, enfiado num fato de bom corte e com óculos redondos, sobreponde-se a um par de olhos um tanto arregalados. O Senhor C.

Era um botão preto, baço no centro, onde espreitavam dois buracos, e brilhante no rebordo. Pela cor e pelo aparato - aquele contraste brilho/baço -, passava bem por um padre. Não era difícil idealizar a batida esvoaçante, acompanhando o andar acelerado de quem tem de acudir aos necessitados da paróquia e, ao mesmo tempo, angariar, insistentemente, fundos junto dos poderosos. O Padre P.

O Padre P entrou na igreja, vindo não se sabe donde, e, após um esboço de genuflexão frente ao altar-mor, dirigiu-se ao casinhoto lateral, sentou-se, ajeitou aquela confusão de roupas, saia sobre calças, recostou-se o mais comodamente que conseguiu, afastou a cortina de tecido adamascado vermelho escuro, tipo sangue seco, e espreitou pelos buraquinhos da divisória de madeira fina. Não viu ninguém. Suspirou, matutando no alheamento dos paroquianos. 

Interrompeu-o o chiar das dobradiças da porta da igreja, seguido do ecoar duns passos firmes e pesados, que conduziram um botão entroncado e arquejante até ao seu casinhoto.

Esperou que o botão se acomodasse, no seu fato cinzento escuro de fazenda cara. Sentiu-lhe o bafo, quente, mas de hálito indefinido, quando ele, o Sr. C, dobrado sobre os joelhos, encostou a cabeça à divisória onde pequenos orifícios desenhavam uma filigrana indefinível. Ao fim dum tempo considerado razoável, vendo que o outro não tomava a iniciativa, disse, num tom suave e convidativo, - Então, meu filho, o que te traz por cá?
O Sr. C agitou-se, num desassossego comprometido, sem conseguir expulsar da boca seca uma palavra sequer. O botão preto exortou, com um timbre de impaciência na voz, 
- Vamos lá, meu filho, diz lá o que te trouxe aqui, que o tempo urge, em menos de nada há missa, e tenho de me despachar.
A resposta surgiu, de rajada, - Padre, eu pequei!
- Ora, isso não é novidade, por que outra razão estarias aqui? E, afinal, não pecamos todos? Preciso é que me digas qual foi o teu pecado e se estás arrependido.
- Ó, foi grave, tão grave que tenho receio de o confessar, e, para ser sincero, não estou arrependido, se é que isso serviria para alguma coisa...
- É claro que serve, é, mesmo, requisito essencial para seres perdoado, o arrependimento e, claro, a penitência. Mas, antes de mais, precisas de me dizer o que fizeste de tão mau. Sabes, por certo, que o que aqui disseres aqui permanecerá, ao abrigo da mais estrita das confidencialidades.
Talvez reassegurado pelas palavras do padre, sobretudo as alusivas à confidencialidade, o Sr. C respirou fundo, como quem se prepara para alijar uma carga pesada, e disse, - No princípio...

Havia um botão castanho, dum castanho esmaecido, que não chegava a ser cor de café com leite, com uns arrebiques no rebordo e umas estrias, aqui e ali, devidas ao excesso de uso. Podia bem passar por uma senhora de meia idade, sem profissão, encarregada da canseira da casa e da família, vivendo na sombra dum marido cinzentão, com uma profissão bem remunerada mas pouco entusiasmante, que voltava a casa macambúzio,  exigindo as refeições a horas e a mulher à disposição para lhe satisfazer os apetites sexuais, não que fossem muitos ou muito frequentes e não que se empenhasse minimamente em os tornar agradáveis. A Sr.ª C. Por coincidência casada com o Sr. C.

O casal C, está bom de ver, vivia emaranhado numa rotina entediante, mas nem parava para pensar que a vida podia ser outra coisa. Até que.

Havia um botão vermelho, dum vermelho vibrante, com reflexos dourados e, talvez por isso, um ar provocador. Bem podia encarnar uma mulher da vida, bamboleante na sua roupa justa, com as pernas à mostra mais do que a decência impunha, e uns lábios grossos e suculentos, entreabertos sobre dentes ligeiramente desviados. Só podia ser a rapariga da esquina, a Menina P.

- No princípio - continuou o Sr. C - limitei-me a olhar, mas fiquei logo perturbado. Ali estava ela, enrolada num vestido vermelho vivo, cheio de brilhos dourados, que mal lhe tapava as coxas, e com um sorriso descarado a explodir dos lábios rechonchudos, por entre os quais deixava espreitar uma ponta de língua muito cor de rosa e húmida. Parecia que me convidava e desconvidava ao mesmo tempo. Já tinha escurecido, eu dirigia-me a casa após mais um dia de trabalho árduo - sou gerente duma loja de automóveis, ganho bem, mas sai-me do pêlo - e, admito, aquela visão perturbou-me. Senti-me desafiado, veio-me à ideia a figura doméstica da minha mulher, a esperar-me à porta como uma imposição, ali especada, sem outra ambição que não a de satisfazer necessidades alheias, minhas e dos filhos. Deu-me raiva a sua passividade e, sobretudo, a sua falta de brilho...

Estúpida que fui, trocar uma carreira de gestora, que, por acaso, se anunciava de êxito, por esta pasmaceira que é a casa, esperar pelo mastronço do meu marido, cada vez mais previsível e igual a si próprio, sem sombra de imaginação ou interesse em mim! Os filhos, esses, nem se fala, muito queridos em pequeninos, a fazerem-me dar por bem empregue o abandono da profissão, depois, cheios de embirrações adolescentes, e, finalmente, em fuga ou em vias disso, que querem casas próprias, carros próprios, vidas próprias, e eu, eu para aqui, neste abandono de doméstica, ao serviço desta cambada. Que estúpida fui! E agora é tarde, definitivamente tarde!

Que grande palerma, mais um que já apanhei e nem deu por isso. Coitado!

- Estou a ouvir-te, meu filho, podes continuar - disse o padre, já inquieto por adivinhar longa a confissão.
- No dia seguinte, lá estava ela, na mesma esquina, ainda mais provocante. Hesitei, não sabia como abordá-la, não estava habituado a transgredir, quero dizer, a sair da rotina. Como se tivesse adivinhado, ela dirigiu-se a mim, perguntou-me se tinha lume, estendendo um cigarro, como quem diz, vem cá. Tartamudeei, respondi-lhe que não, - não fumo, menina, - P, disse ela, e eu, - não fumo, menina P. Devia estar um bocado apalermado, porque ela riu, exibindo toda a sensualidade dos lábios grossos e suculentos, como se tivesse acabado de se lambuzar em mel. Palavra puxa palavra, acabei num apartamento manhoso, não longe dali, com ela colada a mim, a enfiar-me a língua pelas goelas, a desapertar tudo quanto era botão e a correr o único fecho éclair das minhas peças de roupa. Aplicava-se com um vagar langoroso e sistemático que me deixava em ebulição, como já não sentia há muito e, de resto, nunca senti com a minha mulher. No entusiasmo crescente (e digo crescente em todos os sentidos) em que me encontrava, nem reparei na aproximação dele...

Havia um botão roxo, feio na cor e na grosseria do seu plástico barato, talvez proviesse da loja do chinês, parecia um proxeneta enfiado num fato garrido, piroso, com a ponta da unha do mindinho quase do tamanho do dedo. Podia bem ser o Sr. Prx.

- E depois? - impacientou-se o padre, já a olhar para o relógio e a clamar secretamente por mais originalidade.
- Senti um impacto na nuca, desabei sobre o sofá ali ao lado, virei-me como pude e vi-o, um sujeitinho nojento, cheio de gel no cabelo, enfiado num fato roxo de tecido e corte grosseiros, e com um bigode que lhe escorria, num riso diabólico - desculpe a alusão - pelos cantos da boca. Atordoado como estava, não consegui perceber o que ele dizia ao botão vermelho, quero dizer, à Menina P, mas bem vi que trocavam risos alarves, enquanto esvaziavam os bolsos do meu casaco e calças, que jaziam, espalhados pelo chão forrado de uma alcatifa velha e suja, manchada sabe-se lá de que fluidos. Em menos de nada, tinham-me limpado a carteira, com tudo o que tinha dentro, e o telemóvel. Exigiram-me os códigos, sob ameaça duma navalha de ponta e mola e da promessa de morte, caso os números fornecidos não fossem os correctos. Depois, saíram por entre gargalhadas cínicas, enquanto ela, desenhando um gesto obsceno com o dedo do meio da mão direita, não sei porque fui reparar neste pormenor, me dizia, - bye-bye, babe...
- Bem, parece-me que já tiveste parte da tua penitência, só não percebo como não estás arrependido! Espero que agora, que verbalizaste o teu pecado, já tenhas reconsiderado. Vai para casa, leva um bonito ramo de flores ou um perfume à tua mulher, reza um terço antes de dormires, e fica em paz. Agora vai, que o teu pecado está perdoado, obviamente na pressuposição do arrependimento e do cumprimento destas duas pequenas penitências.
- Mas, padre, ainda não cheguei à parte que queria confessar, isto é só o contexto, os factos que levaram ao verdadeiro pecado...

- Nesse caso, e desculpa-me interromper-te, mas tenho missa dentro de 5 minutos, considera a confissão suspensa, volta amanhã pelas 16H, e, entretanto, aproveita para reflectires no arrependimento, sem o qual não te valerá a pena voltares, que isto é um confessionário católico e não uma qualquer agência de desabafo ou espécie de reality show privado. Até amanhã.

Sem mais, levantaram-se ambos ao mesmo tempo. O botão cinzento, quer dizer, o Sr. C, dirigiu-se para a rua, cabisbaixo, enquanto o botão preto, quer dizer, o Padre P, se orientou para a sacristia, tropeçando na batina e quase caindo, na pressa de se preparar para a  missa. Na igreja, por entre o sussurro de rezas murmuradas, espalhava-se meia dúzia de botões velhos e escuros, que bem podiam ser o grupo habitual das beatas resistentes.

(continua)



(Imagem obtida em pesquisa Google)





quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A MORTE DA SR.ª T.


dança-te na cabeça a canção, era uma vez um morto, e lembras-te do teu primeiro morto, que, por sinal, foi uma morta. dás contigo a pensar que a canção deveria antes chamar-se era uma vez a primeira mortamas, obviamente, isso não faz qualquer sentido, visto não existir canção com tão macabro título (seja numa ou na outra versão). 

a tua primeira morta foi a velha sr.ª T., dona da padaria. vivia com duas filhas, ambas solteiras e já mulheres feitas, a C., ao que constava (e aparentava), meio tolinha, e a A., nada tolinha e amantizada com o padeiro, o sr. A., que era ou parecia meio doido, de vez em quando soltava uns berros que atordoavam a vizinhança, e vivia com elas. segundo as más línguas, o sr. A. teria sido amante da própria sr.ª T. ou, numa versão mais ousada ou mais criativa, chegara a acumular tais funções em proveito (espera-se!) de ambas, mãe e filha. 

a casa da morta (enquanto viva, está bom de ver) era bastante grande, albergando a habitação, a padaria, incluindo zona de fabrico e de venda ao público, e uma pequena loja, a cargo da menina J., vendedora, entre outros artigos de mercearia, duns tristes rebuçados de chocolate de confecção caseira, quadradinhos castanhos desbotados, algo ásperos ao toque da língua, embrulhados em papel de seda branco, atado nas pontas. a menina J. de menina só tinha o ser solteira, pois já era entrada de idade, ou assim a vias, e usava uns óculos com lentes tão grossas que mais pareciam fundos de jarra grosseira.

voltando à casa da Sr.ª T., dava para as duas ruas, aquela em que moravas e a outra, inclinada, que com ela se juntava num perfeito ângulo recto. chegaste a fazer vertiginosas descidas de bicicleta, em que o objectivo era contornar esse ângulo sem travões. duma das vezes, espalhaste-te ao comprido, com grande aparato, embora não muitos estragos e nenhum queixume, não fossem os pais lembrar-se de te apreender o veículo. de alguma forma, já intuías que as queixas nunca produzem bom resultado, servindo, quando muito, à infrutífera e nefasta confissão de fraqueza. mas isso são outras águas... 

da sr.ª T. apenas conservas o vulto, muito esfumado, de uma velhota, mesmo velhota, pelo rigoroso critério de comparação com a tua avó, sentada algures, na loja da padaria ou na da menina J., a passar o tempo e a manter a conversa em dia com as freguesas. na vida, já tinha cumprido a sua parte de trabalho, e agora distraía-se por ali, enquanto a filha, a menina A., e o padeiro regiam eficazmente o negócio. a outra filha, a C., assistia ao desenrolar da vida com o seu ar aparvalhado de alegada tolinha, sabe-se lá se beneficiando também, ocasionalmente, das habilidades do cunhado, embora isto não passe de mera e inútil especulação.

chegou um dia em que a velha sr.ª T. trocou a posição habitual de sentada - em que reside, cristalizada, na tua cabeça -, por um decúbito dorsal forçado e definitivo, como, mais cedo ou mais tarde, costuma acontecer a todos, no momento em que lhes finda esta vida de andar por cá.

terias uns seis, sete anos, um pouco mais ou um pouco menos, quando ouviste anunciar lá em casa que a sr.ª T. tinha morrido. foi a primeira vez que recebeste semelhante notícia, quer dizer, a propósito duma pessoa conhecida, real, ali tão perto. até então, só te tinham morrido pessoas (ou animais falantes, é praticamente igual) na magia das histórias, mas isso não era, de todo, a mesma coisa. para não falar nos pássaros que caíam do telhado e aos quais organizavas funerais, mais ou menos cerimoniosos, de conluio com o teu irmão, que se arrogava as funções de padre...

embora a sr.ª T. não pertencesse ao círculo de próximos (familiares, amigos), revestia, sem dúvida, a natureza de dado adquirido, fazia parte da paisagem do dia-a-dia, era vizinha, costumavas vê-la para ali sentada, calhando, falava com a tua mãe ou a tua avó, e, quem sabe, até te dizia olá ou sorria para ti. portanto, apesar de não haver razões para lhe sentires a falta ou entristeceres com a sua partida, percebeste, muito claramente, a diferença entre o estar e o deixar de estar, em suma, o enigma do sumiço dos mortos.

talvez por isso, por se ter consubstanciado numa tal percepção, tão súbita, vertiginosa e palpável, a notícia da morte da sr.ª T., a primeira morte duma pessoa propriamente dita, de carne e osso, real, deixou-te deveras perturbada. consegues perfeitamente (res)sentir o estado que sofreste na altura, mas não descrevê-lo. consegues, apenas, classificá-lo, coisa que, então, não dispunhas de ferramentas para fazer. e o que sentiste foi angústia. radicava num profundo medo face ao desconhecido, a morte, a ideia de morte, precisamente porque não compreendias bem o que isso era, mas criara-se a tal respeito, pelo modo como se falava, a ideia de que não devia ser coisa boa. todavia, recusaste aproximar-te para perceber melhor, ao contrário do teu irmão e doutros miúdos, pouco mais velhos do que tu, que foram, em romaria, espreitar o decúbito dorsal definitivo da Sr.ª T.. depois, o enterro desfilou pela rua e o teu medo e confusão ficaram a vê-lo passar. obviamente, não perguntaste aos outros miúdos o que tinham visto. muito menos endereçaste aos crescidos os porquês que a situação poderia ter requerido. e ainda muito menos partilhaste com eles o teu estado de alma. fizeste como quando te espalhavas nas corridas de bicicleta ou noutras andanças. talvez já soubesses que não vale a pena fazer perguntas difíceis, cujas respostas ninguém conhece ou pode fornecer. fechaste tudo muito bem fechado numa caixinha especial e guardaste num canto. para mais tarde. agora, por exemplo.



(a sr.ª T., estacionada na tua memória)









domingo, 30 de julho de 2017

QUATRO ESTAÇÕES, UMA INFÂNCIA


e havia o alarido das cigarras
porque era verão
e a cor grená do calor
espalhada como manto de veludo
mas sem peso
e o sabor metálico da limonada fresca
e a letargia das tardes intermináveis
desdobradas para cá das serras
sem um vislumbre de mar
e as noites mágicas, povoadas de estrelas vivas
contadoras de histórias
algumas deslizavam, cruzando-se com um desejo
às vezes, estoirava a trovoada
brava como raiva em puro desnorte
entravam os cobertores de lã
oferta de isolamento, protecção
calor exponenciado, mal dava para aguentar
e as rezas da avó, s. jerónimo e santa bárbara...
era o verão

e havia novelos de nuvens cinzentas a comandar o céu
porque era outono
e o cheiro dos lápis e das borrachas, dos cadernos e dos livros novos
o começo das aulas
e havia uns sapatos de carneira com atacadores
cor indefinida entre o bege, o cinzento e o branco sujo
e uma saia de flanela de lã, em várias cores
rodopiava em pregas ou em volumes redondos, já nem sabes
envaidecia-te e pensavas em não sei que enigma
talvez só percebido muito mais tarde
e uma colecção de bandoletes de lã que a mãe tricotou
uma de cada cor, aí umas seis, todas diferentes, todas iguais
bastava escolher e conjugar com as camisolas
era o outono

e havia frio (mas não se sentia)
porque era inverno
e caía chuva grossa
furava a terra do jardim com a certeza de balas
mas sem a maldade das balas
libertando um cheiro e um som inigualáveis
e também calhava nevar
o céu plúmbeo, cristalizado
anúncio de qualquer coisa a acontecer
e acontecia
alvos flocos a atirarem-se lá de cima, devagar
como quem se suicida docemente
sem desespero, mera oferta de paz
e os jogos e os bonecos de neve
e as recomendações ansiosas
cuidado não escorregues
cuidado não molhes os pés, que te constipas
cuidado não vivas
viver é um perigo
a vida está povoada de monstros
nem sabes quais, nem quantos, nem te digo
por isso é que são monstros, não?
havias de pensar, mais tarde
era o inverno 

e havia as flores amarelas, oferecidas em botão
porque era primavera
e um brilho inocente e poderoso
espalhado pelo sol
e diversos tons de verde espirravam promessas doutras cores
múltiplas e vibrantes cores
e uns sapatos novos de verniz, cor creme
fivela no peito do pé
para estrear no domingo de páscoa
e um vestido branco de bordado inglês
ajustado à cintura com fita de cetim
e a blusa amarela, leve como asas de borboleta
era a primavera 

e era assim
quatro estações bem definidas
os monstros ainda por vir
escondidos na barriga das advertências surdas
era a infância desprevenida
rolando em sucessão apetecida
sabia-se da sua ordem e cadência
diferença/repetição
conforto/segurança
o exacto contrário dos monstros anunciados
e tu amavas
amavas, sobretudo, as margens de transição
verão/outono/inverno/primavera
plenitude/sonho/aconchego/renovação
e era assim, como se eternamente








quinta-feira, 27 de julho de 2017

CORAÇÃO COM ESCRITOS



estava para ali um coração com escritos, arrenda-se! papelinhos brancos esvoaçavam-lhe sobre o fundo vermelho, dum vermelho seco como areias marcianas. os papelinhos levantavam e baixavam, empurrados pela aragem desprendida das incessantes pulsações. ali - onde se encontrava - era um lugar-não-se-sabe-qual, digamos, um lugar qualquer ou qualquer um lugar, no sentido de não importar onde.
desfilaram vários rostos, alheados, como cães por vinha vindimada (no pressuposto de que os cães adoram uvas, está claro!). talvez só lhes interessasse comprar. talvez já estivessem (bem) servidos de corações alheios. talvez se bastassem por si próprios, habitassem os seus próprios corações. cheios de si ou vazios de si. 
o coração com escritos (arrenda-se!) não procurava morada, limitava-se a propor morada. mediante o pagamento duma renda, está bom de ver, basta pensar na ideia de arrendamento. os escritos não concretizavam, mas teria sido suficiente perguntar-lhe e ele responderia, - quinhentos beijos por mês, mil abraços por semestre, etc. meros exemplos, afinal não se apresentou ninguém a indagar.
nenhum interessado em tomar o coração de arrendamento. em comprar, sim, em usar sem pagar, também, nem numa coisa nem noutra, igualmente. houve mesmo quem só quisesse entrar e desarrumar. 
o coração desprendeu os escritos. papelinhos brancos, manchados de vermelho seco, desataram a voar por aí, pelas alturas, completamente à toa. pareciam farripas de flores ao vento, prestes a desaparecer numa vastidão de silêncio. 
o coração, saído do mercado de arrendamento, fechou as portas. não usou estrondo. compreende-se, também não chegara a colocar anúncio, apenas os escritos.   
alguém bateu, truz-truz, coração, truz-truz, coração, truz-truz, coração. três vezes, quem sabe se um clone do sheldon cooper, aquele da série the big bang theory. perguntou, numa vozinha esganiçada (devia ser mesmo o shelly), - arrenda-se
o coração não abriu a porta, espreitou pela janela sem se deixar ver, resguardado na espessura da cortina. observou, pensou, voltou para dentro, disse para com os seus botões (há corações assim, com botões), - não, agora não, definitivamente, não.
e aquele som, elevado ao desespero, truz-truz, coração, truz-truz, coração, truz-truz, coração, três vezes, exactamente três vezes, sempre três vezes, até ao infinito...
e os escritos a voar, prestes a desaparecer na voragem do incomensurável nada.
e o coração a esquecer, a recolher-se, a ficar cada vez mais pequeno, mais mínimo, até atingir o ponto zero dos corações.










terça-feira, 4 de julho de 2017

O DR. QUINTINO AIRES, O DESENTUPIDOR DE CANOS E OUTRAS PARVOÍCES


I

Longas asas agitavam-se compassadamente
Dos extremos desprenderam-se penas breves
Vieram por aí a flutuar como macacos

II

macacos a flutuar? não, não pode ser, os macacos trepam, saltam, correm e guincham, mas não flutuam. que parvoíce! por vezes, acontece caírem, mas isso é outro departamento. sucedeu com o macaco andré - ignoro quem o baptizou -, habitante da aldeia dos macacos, ali ao jardim zoológico. galgou pela rede acima, lançou-se para os galhos da árvore mais alta e, vai daí, precipitou-se, em voo picado, até se esborrachar no chão, de cabeça. não foi lindo de ver e os outros macacos desataram numa berraria sem limites. o pasquim da manhã noticiou, com estrondo, DESGOSTO AMOROSO LEVA MACACO ANDRÉ AO SUICÍDIO.

o chefe da oposição, cansado de não ser ninguém e invejoso por não ter tirado o país do procedimento por défice excessivo - o máximo que conseguiu foi mergulhá-lo em austeridade excessiva -  apresentou-se aos noticiários nacionais, lamentou, com jeito condoído, o suicídio do macaco, e avançou, determinado, para a responsabilização do governo, designadamente por não ter disponibilizado apoio psicológico ao macaco, que, segundo desenvolvia o pasquim da manhã, acabara de sofrer um violento desgosto amoroso.

no dia seguinte, lá teve de regressar à hora nobre dos noticiários para pedir desculpa, porque, entretanto, veio a saber-se, agora com provas e tudo, que o macaco andré não se suicidara. tratara-se de mero acidente - escorregadela numa casca de banana largada pela macaca flausina, ignoro quem a baptizou -, ao qual, aliás, sobreviveu. a única ponta de verdade era o alegado desgosto amoroso (de primeiro grau).

o chefe do governo limitou-se a não comentar, de resto, nem sequer foi encontrado para perguntas. uns dias depois, veio a saber-se que tinha ido a banhos, para uma manta rota qualquer. cá para mim, o que ele quis foi deixar passar a carruagem até o som dos cães se extinguir - metaforicamente falando, claro. tudo muito pianinho, não fosse ter de dar explicações mais amplas sobre o estado subterrâneo - também metaforicamente - da aldeia dos macacos. para mais, a banhos ou não, já o chefe do governo se via confrontado com um novo escândalo, devido ao furto (?) dum dos submarinos - ou algo assim - do Portas, sem que ninguém se tivesse apercebido. assim tipo, elefante assalta Starbucks a meio da tarde e ninguém dá por nada. abençoada manta rota, ele há banhos bem oportunos. 

por essa altura, indiferente aos factos políticos, o dr. Quintino Aires, sob o esclarecido patrocínio da TVI, ofereceu-se para dar apoio psicológico ao macaco andré, no sentido de o instruir a ultrapassar a desilusão amorosa, por via da aquisição duma performance imbatível. quer dizer, prontificou-se a dar-lhe dicas sobre como fazer amor de tal forma que nunca mais macaca alguma ousaria abandoná-lo. e seguiu para o jardim zoológico, com uma câmara atrás, repleto de boa vontade (e de alguma vontade de protagonismo). 

a chegada do dr. QA foi saudada com enorme gritaria, que ele pensou ser de júbilo e reconhecimento. enganou-se, não passava dum disfarce para o riso que assolou a macacada, especialmente duas macacas que se contorciam de gozo, enquanto diziam:

- ó prima, já viste como o homem é feio?, mais feio só um autoclismo dos antigos, aqueles de maçaneta, ou uma esfregona Vileda consumida pelo uso! 

- eheheh tens razão, quando olho para ele só me vem à ideia um desentupidor de canos, acho que é a boca, faz-me lembrar a parte de borracha dos desentupidores...

- bem visto, para não falar na expressão bovina dos olhos e nas mãozinhas sapudas...

- e na voz, na maneira adamascada ou almiscarada, quer dizer, enjoativa, de falar, sempre acompanhada do sorriso aparvalhado, como se a vida fosse um arco-íris permanente de cambalhotas...

- é mesmo, de o ouvir fica-se logo sem vontade de fazer amor! os televisivos deviam escolher melhor as pessoas que põem a falar do amor!

- parece que estás parva, não se diz do amor, é de amor...

- olha, vai dar uma curva com o Quintino, parva estás tu!

e riram, riram, escondidas num canto, para ele não perceber. 

III

Bem, se conseguiram chegar até aqui, já devem ter reparado que isto começou por tentar ser um poema. Depois, sem que eu saiba explicar porquê - inclino-me para o calor, cada vez me dou pior com o calor - descambou. Assim sendo, descambado por descambado, deixo mais duas pequenas notas: 

1) Espero que o Dr. Qintino Aires nunca passe por aqui, até porque, se passar, é capaz de pensar que me estou a atirar a ele; 

2) Porque, ao falar dele, me veio à mente outro homem igualmente interessante, o Dr. Pedro Arroja, sugiro à TVI que faça mais um reality show, com a seguinte designação e formato: Dá-te Aires e Arroja-te!, onde ambos se baterão por explicar as técnicas do amor e disputarão as mais modernas teorias sobre a proveniência das criancinhas. Ganha o que menos contribuir para o incremento da natalidade em Portugal.







(imagens obtidas em pesquisa no google)




sábado, 1 de julho de 2017

TALVEZ ÍCARO, PELAS RUAS DA AMARGURA


foi largada nas ruas da amargura. não percebeu porquê. quer dizer, mais tarde, quando se interrogou, não obteve resposta.
desenhou um objectivo, o objectivo - isto, antes de se interrogar. voar até ao cu do mundo.
ganhou asas. elevou-se. chocou com um raio de sol. queimou a ponta das asas, desequilibrou-se, veio por aí abaixo. desvoou aos tram-
-bo
-lhões. 
aterrou no beco dos caídos. esparramou-se. completamente ao comprido. não sobrou osso inteiro, pele lisa ou mente cristalina.

desdesparramou-se. Quanta dificuldade! endireitou os ossos, restaurou a pele à custa de muito betadine (mais tarde, veio a saber que betadine já não estava a dar. o mercurocromo tinha sido a vítima precedente. hoje em dia apregoa-se o bepanthene. nessa altura, ignorava tudo isto). clareou a mente. muita teimosia, foi o que foi.

restaurou a ponta das asas. com penas, muitas penas. nada ficou igual, nem os ossos nem a pele nem a mente nem as asas. numas coisas tornaram-se mais fracos, noutras mais fortes. o objectivo permaneceu, alcançar o cu do mundo, em modo de voo.

meteu-se a caminho, elevou-se. desta vez à tardinha, na hora em que o sol começa a abrandar. foi por aí acima, à força de mexer os braços, aliás, as asas. a ponta das asas, agora remendada com penas, começou a voar por si. desprendeu-se do resto. veio por aí abaixo. desvoou aos tram-
-bo
-lhões. 
não aterrou no beco dos caídos. soube amparar-se nas nuvens reboludas. circuitou até uma superfície aquática. mergulhou fundo e voltou. espavorida, a respirar a custo. mas nada de ossos partidos, nem pele arranhada ou mente menos cristalina. bem, talvez um pouco de cada coisa, mas pouco. só uma grande zanga. já tinha passado a fase de perguntar porquê.

o objectivo permaneceu, na essência. alcançar o cu do mundo, não importava o modo. talvez em nome da zanga, talvez por teimosia. talvez pela razão inicial.

não restaurou a ponta das asas. as penas que se f*******. deixá-las voar, dispersar-se. abandonou as ruas da amargura, que se f*******, elas e os becos sem saída e os tram-
-bo
-lhões
trambolhões traumáticos. aliteração? sorriu.

o cu do mundo ainda lá estava, não ia mudar de sítio.
não havia pressa.

meteu-se a caminho, desta vez, a pé. com calma.

ainda vai a caminho, desfrutando a paisagem.
que se f*** o resto, incluídos os porquês, sobretudo os porquês.

obviamente, houve muitos outros voos. outros haverá, talvez. não cabem todos aqui.

  





quarta-feira, 14 de junho de 2017

RABO ASSADO


Avenida da República, Lisboa, Portugal, há poucos dias. Calor de fritar os miolos. Cruzo-me com um casal jovem. Ela, uma miúda magra, enfiada numas calças muito justas, alça uma perna, joga-a para o lado, desenhando um passo incerto e alargado, e declara, tenho o rabo assado! Assim, exactamente isto, com o ar mais natural deste mundo, como quem anuncia, apetece-me um gelado, vou comprar frango assado para o jantar, ou algo do género.

De imediato, passa-me pela cabeça a imagem da Shakira no video clip do seu mais recente disco, a abrir as pernas dum jeito estranho, como quem vai seccionar-se em duas. O mesmo registo de vulgaridade.

Depois, começo a imaginar, cheia de curiosidade, qual a reacção do companheiro, destinatário de tal partilha de estado de rabo, por assim dizer (e não me ocorre uma maneira mais delicada). Infelizmente, como seguimos percursos inversos, não pude testemunhar a reacção do jovem, se de preocupação, de riso ou de vergonha ou qualquer outra. Talvez se tenha enfiado debaixo dalguma pedra solta, resto das recentes obras na avenida, é sabido que os trabalhos camarários deixam sempre buracos e pedras soltas.

Prossegui, sem pensar mais no assunto. Mas aquilo ficou submerso na minha mente sensível, o embate pelo que considerei uma expressão maior de mau gosto e falta de educação - mera constatação, desprovida de qualquer juízo censório, entenda-se - ficou a matutar-me nos miolos, quer dizer, na parte desocupada dos meus miolos. E, dias depois, acabou por vir à tona, em forma de hipóteses várias. Comecei a imaginar a resposta do namorado, caso não se tivesse atirado para debaixo duma pedra ou não tivesse perdido a fala ou a respiração ou ambas. Como não sei de que tipo ele era, vi-me forçada a divagar por um leque de suposições, de que deixo algumas:

(Tipo Velho do Restelo) - Olha, Sandra Vanessa, bem te avisei que não abusasses da pimenta!

(À defesa) - E eu com isso?

(Ao ataque, ciumento) - Tu lá sabes o que andas a fazer (ao mesmo tempo que, num gesto brusco, lhe larga a mão);

(Engraçadinho) - Não será gratinado?

(Sensível) - Ui, tadinha!

(Cinéfilo, evocando o clássico de cinema, O Último Tango em Paris) - Põe manteiga!

(Chocado, a dar razão à mãe, que está farta de lhe dizer que a Sandra Vanessa não é flor que se cheire, e após ponderar se há de meter-se debaixo da primeira pedra, permanecer calado ou fingir um ataque de surdez) - Nem sei que te diga!

(Do tipo dela) - ...


(Imagem obtida em pesquisa Google)




domingo, 11 de junho de 2017

A ACUSAÇÃO


(Nota prévia: o que segue fará parte, com as devidas adaptações, do projecto A Não História de Vladimir Blue, que nasceu neste espaço, em 13/05/2014, e, após alguns posts, continuou fora dele, com o ritmo ditado pela preguiça da autora...)

Desceu as escadas do duplex, quase em voo picado, ao mesmo tempo que gritava, já vou, já vou, parem de espremer a campainha. Mas a campainha não se calou enquanto não abriu a porta, assarapantado, o cabelo colado à testa, devido ao suor do pesadelo, e a mão agarrada ao peito, não fosse o coração escapulir-se, de tão acelerado batimento.

Deparou-se com dois homens, um dos quais, com ar sisudo e agressivo, rosnou:

- Polícia de Investigação Criminal, Coordenador Marques, Abílio Marques - aquela maneira de se fazer passar pelo James Bond de serviço, prosseguindo - e Inspector Neves. O senhor é? 
- Vladimir Blue. Posso saber o que desejam?
- Ora bem, o que nós desejamos mesmo, para começo de conversa, é saber onde o senhor estava ontem, entre as duas e as quatro da tarde. Mas vai responder-nos na sede. Esperamos aqui enquanto se vai vestir.
- Vestir?!
- Sim, a menos que queira vir assim, em pijama. É isso?
- Ah, ok, é que acabei de me levantar e vim por aí abaixo abrir a porta, mas posso dizer já onde estive, lembro-me perfeitamente, não preciso de ir à esquadra para isso, e...
- Não é esquadra, é sede da Polícia de Investigação Criminal...
- Ou isso. Mas, afinal, qual a razão da sua pergunta, será que posso saber?
- Vai saber tudo o que há para saber no momento e no lugar certos, agora é só acompanhar-nos.

Algo hesitante, Vladimir Blue retrocedeu, deixando a porta entreaberta, o que eles consideraram um convite para entrar, metendo os pés no átrio e cruzando os braços, como se tivessem combinado, em desafiadora atitude de espera.

Subiu as escadas, duas a duas, e, ainda mais rapidamente, pensou, já me relacionaram com ela, como poderá ter sido?, estou certo de não ter deixado vestígios, aliás, nem pegadas, aquele vento maluco tê-las-ia desfeito, com toda a certeza. Só se fui seguido para a duna, mas não me lembro de ter visto ninguém e, quando me vim embora, fartei-me de olhar para trás, à procura de mirones. Bem, a verdade é que toda a gente sabia que namorávamos, devem lá ter chegado por essa via. Nada do outro mundo. Basta-me acompanhá-los sem levantar ondas e responder às perguntas. Bem vistas as coisas, não tenho nada a confessar ou a temer.

A escuridão apavorada da noite cedera lugar à clareza da lógica, aleluia!, possuía um belo raciocínio matemático, esteio seguro para os trambolhões a que a emoção, não raras vezes, o expunha.

Já mais calmo, o batimento cardíaco serenado, dirigiu-se à casa de banho, passou a cara por abundante água fria, esfregou-a energicamente com a toalha felpuda, lamentou as olheiras descaídas quase até aos cantos da boca, o que poderia não dar muito bom aspecto, mas, enfim, sempre seria menos mau do que quando os atendeu à porta, vestiu um dos seus fatos de marca, sobre uma camisa com monograma e uma gravata casual, e desceu, enviesando um desvio em direcção à cozinha. Precisava desesperadamente dum café.

Quando o cheiro forte e convidativo se espalhou pela casa, o Neves (simplesmente Neves, pensou) disse, em voz tonitruante, a destoar do seu ar enfezado: 
- Ó Vladimir, não temos cá tempo para cafés, acompanhe-nos e é já, que se faz tarde.

Estremeceu, a chávena oscilou-lhe na mão sobressaltada e um respingo manchou-lhe as calças imaculadas. Aquelas manchas lembraram-lhe o sangue que vira escorrer do pescoço fino e acetinado de Akemi, os olhos toldaram-se-lhe numa névoa feita de água reprimida. Recompôs-se, sem perda de tempo, pousou a chávena no balcão da cozinha, olhou a máquina, já se tinha desligado, era automática, o último modelo da Nespresso. Fazia-lhe mesmo falta, aquele café abortado.

Quando se dirigiu à porta, já os dois polícias se encaminhavam para ele, caras de poucos amigos, olhares espantados no luxo liso do apartamento, nada de bugigangas, só grandes janelas, de alto a baixo, um sofá tão liso quanto branco, uma mesa de vidro, um enorme quadro quase a ocultar uma das paredes, cinzento, em várias gradações de cor e textura.

- O que é aquilo - perguntou o Marques, Abílio Marques.
- Aquilo?
- Sim, aquela tábua cinzenta pendurada na parede.
- Ah! é um quadro, intitula-se, Um Pouco de Nada. Gosta?
- E pagou por isso?
- Sim, claro, não foi oferta, mas, por acaso, tenho um mais pequeno, todo em tons de azul, também do mesmo pintor, oferecido pela minha namorada.
- E quem é a sua namorada?
- Como assim? O que é que isso interessa?
- Responda, limite-se a responder.
- Ok, não é segredo nenhum, a minha namorada é minha colega na Universidade e chama-se Akemi.
- Chama-se ou chamava-se?
As pernas tremeram-lhe, uma fuligem rosada cobriu-lhe o rosto. Disse:
- Como assim?
- Ora, a sua namorada, essa Akemi, está morta, não é verdade?
- O quê, o que está para aí a dizer? Como, está morta?
- Olhe isso é o que lhe viemos perguntar, como a matou, aliás, com o quê, como, até já sabemos.
- O senhor tem a noção da monstruosidade do que está para aí a dizer, dessa acusação sem sentido?
- Então vamos começar pelo princípio, ou seja, onde esteve ontem entre as duas e as quatro da tarde? Mas vai responder na sede. Toca a mexer, que já se faz tarde. Olhe e não se esqueça de trazer o telemóvel.












terça-feira, 23 de maio de 2017

PERDA


Rostos desfilam-me, claros, nos horizontes da memória
Rostos idos, entenda-se
Retidos num sorriso, numa exclamação, ou noutra expressão determinada
Suspensos nas pregas do tempo, imutáveis, vívidos

Outros rostos, os mais queridos, desvanecem-se, em sombra, nos horizontes da memória
Ameaçam perder-se para sempre
Ocultos nas esquinas do tempo, deslavados, fugidios
Revelam-se apenas por ínfimas parcelas
Uma boca, uns olhos, o mero esboço dum gesto perdido
Em vão, tento recuperar-lhes a voz, o olhar, o sentido
Sim, em vão

Recorro aos registos fotográficos
Desesperada forma de suprir a fuga destes rostos
Baralho-me nos horizontes da memória
Já não distingo o que lhes pertence e o que ficou simplesmente registado

Ocorre-me a palavra perda, formulo-lhe o pensamento
É isto a perda
Um tremendo animal que se alimenta de grandes esquecimentos e de pequenos truques


(Vídeo obtido em pesquisa no YouTube)








sábado, 6 de maio de 2017

A MULHER QUE ACABOU A CONTAR AS PALAVRAS


Os tempos iam-se sucedendo, primeiro lentamente e depois nem tanto, quando notei que falava cada vez menos. Descontadas as palavras de saudação e poucas mais, quase inexistiam conversas. Não que me fizessem grande falta, sempre fui mais de ouvir que de falar, ao menos até certa altura, justamente aquela em que as conversas começaram a escassear ou me dei conta disso. De qualquer das formas, sempre considerei que o mundo podia passar muito bem sem as minhas asserções. Cheguei assim ao ponto de, por dias seguidos, me limitar a exclamar bom dia, ao acordar, um bom dia dirigido a mim mesma, entenda-se. Obviamente, atrás do cumprimento, escondia um sorriso sardónico, uma vaga esperança, uma teimosia ou qualquer outra amostra de razão ou emoção. 

Digo isto por crer que tal estado foi a causa (última) da minha decisão: partir. Partir sem mais e sem propósito especial, a não ser o objectivo único de me afastar para um longe cada vez mais distante, de me confundir com realidades cada vez mais outras, em suma, de estranhar cada vez menos a ausência das palavras.

Não, não me podia queixar de falta de ligações, tinha-as, algumas até bem profundas, embora, isso sim, em número reduzido. Acontece que notava cada vez mais a fragilidade dos respectivos laços de sustentação, ou porque se criam fortes ao ponto da desnecessidade de demonstração, ou porque se julgavam eternos ao ponto da desnecessidade da urgência, ou porque... sei lá!, (já) não interessa. Fossem quais fossem as razões ou a sua falta, concluí que  os dois lados das minhas ligações, o meu e o dos outros, não partilhavam o mesmo tempo ou o mesmo lugar ou ambos. 

Gizado o diagnóstico, apressei-me a concretizar a decisão: parti. As despedidas foram breves, detesto dramas e dar nas vistas. Tudo se passou como um até logo (aliás, na vida quase tudo não passa dum até logo, embora, frequentemente e a posteriori, transformado em até nunca, por força da natureza das coisas,  das circunstâncias, do acaso ou sabe-se lá do quê, consoante).

Fiz-me à estrada, por assim dizer, usando tudo quanto se movia, desde automóveis e camionetas até aviões e navios, passando por comboios e quantos outros meios de transporte se possam imaginar. Presidia um só critério: levarem-me cada vez mais longe.

Através do mundo, cruzei-me com muitas pessoas e com ninguém, por vezes falei, nunca muito, cheguei a comunicar gestualmente, por desconhecimento da língua, outras vezes nem assim, que o significado dos gestos não obedece a um código universal. Alternadamente, senti-me entusiasmada, atordoada, cansada, despropositada, aparvalhada, perdida e encontrada (por efémeros segundos). Nunca admiti descontinuar o desígnio inicial, regressar apresentava-se-me como uma impossibilidade.

Já muito caminho adiantado, deparou-se-me a possibilidade de embarcar numa nave espacial, a caminho duma das primeiras viagens intergalácticas destinadas ao comum dos mortais, categoria a que pertencia. 

Por essa altura, ocorrera-me começar a contar as palavras proferidas diariamente. Não se tratou propriamente duma decisão racional, não pretendia, por exemplo, lançar as bases ou recolher dados para um estudo sobre a influência da falta de uso das cordas vocais no respectivo estiolamento ou, porventura e hipótese mais radical, na perda da fala. Talvez se tratasse, apenas, duma espécie de mania, do domínio da obsessão-compulsão: palavra dita, (logo) palavra contada. Talvez fosse isso. Ou não.

Comecei a viagem espacial em companhia de trinta e cinco pessoas, incluída a tripulação. O espaço era exíguo, mas havia um lounge, com bar ao canto, destinado ao convívio daquela gente suspensa em tanto de ociosidade quanto de curiosidade. Aí eram organizados passatempos, em especial, quando atravessávamos anos-luz de escuridão, creio que destinados a serenar alguma mente mais ansiosa e susceptível a ataques de claustrofobia. 

Calhou-me ganhar um dos passatempos, uma espécie de concurso em que venceria quem, num dado período de tempo, conseguisse proferir menos palavras. Num primeiro momento, fiquei admirada, pois nunca tive sorte ao jogo (nem ao amor ou a qualquer outra coisa, diga-se de passagem). Logo a seguir, caí em mim, e concluí, cheia de convicção, ora, está tudo explicado, isto não foi sorte, foi competência, fruto de muito tempo a contar palavrasPassei a interrogar-me sobre o prémio, alguma merda, pensei, com a sorte que me costuma assistir (diverte-me sempre usar esta expressão)! Mas não, tratava-se dum passeio numa nave monolugar, toda artilhada de automatismos, que me levaria ao Asteróide B612, em visita ao Principezinho. Não era mau de todo e sempre cumpria o objectivo de me conduzir para o mais longe. 

Animada de contentamento, agradeci o prémio, muito obrigada (duas palavras, contei) e preparei-me para partir. Um dos viajantes propôs-se comprar-me o prémio, mas, evidentemente, rejeitei, embora com certa cortesia, obrigada, mas não, quem sabe não ganha para a próxima (dez palavras, contei, quase um recorde). E lá fui a navegar, com a promessa do regresso da nave-mãe daí a umas horas, que não me preocupasse, e eu, ok, tudo bem, cheia de vontade de atingir o mais longe.

Passado um tempo, não sei calcular quanto, avistei um pontinho minúsculo que rapidamente se fez ali. Era o Principezinho, escarrapachado sobre o B612, uma perna para cada lado, quase a escorregar para o infinito. Os olhos derramavam-se-lhe pela cara abaixo, reflectindo em mim um olhar muito triste. Levantei a capota da nave, disse-lhe, olá, Principezinho (duas palavras, contei) e fiquei-me por aí, a tempo de não perguntar o que me ía saindo pela boca fora, porque estás tão velho? (seriam quatro palavras, suspirei, com pena). Ele não foi capaz de dizer nada, a não ser através do olhar. Fez-se-me uma vontade pungente de o convidar a vir comigo, talvez conseguisse arranjar-lhe ocupação, quem sabe, uma digressão pelos ministérios, escritórios e fábricas do Planeta Terra. Simultaneamente, um brilho intenso levou-me o olhar para outro lado. Seguiu-se um fragor de estilhaços e era a nave-mãe a desintegrar-se em fogo de artifício. Quando libertei o olhar daquela visão irreal e incandescente, já não vi o Principezinho.

Duma coisa, duma única coisa, estava certa, atingira o ponto mais longe da minha viagem. Como se o Principezinho e os ocupantes da nave ainda pairassem por ali, disse, adeus (uma palavra, contei). A última palavra.