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quarta-feira, 25 de junho de 2014

ONLY LOVERS LEFT ALIVE


SÓ OS AMANTES SOBREVIVEM (na tradução portuguesa), de Jim Jarmusch, é um filme absolutamente fascinante e encantatório.
 
Desde logo, pela originalidade e subtileza do argumento, em que se assiste à desconstrução pura do mito do vampiro, enquanto ser predador e insensível, e, do mesmo passo, se inverte a perspectiva de reflexão, passando-a para o lado do vampiro, em relação à humanidade, em detrimento da habitual, de sentido inverso. Temos, assim, um vampiro dotado da mais elevada sensibilidade artística - compositor de belíssima música (fúnebre) e coleccionador de maravilhosos instrumentos musicais - e, simultaneamente, ferido pelo desencanto (depressão?), por, ao longo da sua existência de séculos, testemunhar a constância da maldade (ou será estupidez?) dos zombies, quer dizer, dos seres humanos, que não há maneira de aprenderem com os seus erros. Acresce o amor entre o vampiro e a vampira - personagens principais -, não um amor qualquer, mas um amor de séculos, que permanece, aqui e agora (e sempre), tecido no romantismo duma ligação cúmplice, profunda, intemporal e, até, interespacial, revelada, aliás, duma forma bela, sugestiva e eloquente, na pose em que os seus corpos repousam, entrelaçados e harmónicos. Esta simbologia encontra-se, também, na invocação da teoria da interligação das partículas e no papel que esta assume no desenho do final do enredo - de que, por motivos óbvios, nada vou adiantar.
 
  
 
Não sem o mesmo relevo, impõe-se salientar a beleza e o significado da ambiência transmitida, quase onírica ou surreal - quer por via dos cenários, quer por via da fotografia -, bem como a mestria com que a narrativa é conduzida, elementos que me produziram, só por si, um tal encantamento que, mesmo no tempo inicial do filme, enquanto se retarda a revelação do enredo, admiti bem poder prescindir deste. Aliás, estabeleci uma associação automática com aquelas obras primas da literatura, que maravilham pela qualidade e profundidade da escrita, e não, necessariamente, pela história contada.
 
 
As interpretações, maxime, da Tilda Swinton e do Tom Hiddleston, são magistrais. E  adorei a banda sonora.
 
Enfim, um dos filmes mais belos dos últimos tempos!   
           
 

Nota: Imagens obtidas em pesquisa Google.



 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

DONDE HAY AMOR, HAY DOLOR


Donde hay amor, hay dolor, eis a frase chave do filme Quase Gigolo, do John Turturro, interpretado pelo próprio e pelo Woody Allen (para além doutros nomes sonantes). 
Belíssimas interpretações, as de ambos, a do primeiro, no registo do personagem solitário, sensível e romântico, expressando-se mais pela profundidade e pela lonjura dum olhar desamparado, do que por palavras, a do segundo, no registo dos personagens que lhe são habituais,  e a que sempre imprime um cunho tão particular, naquela espécie de distracção da vida, meia infantil, meia excêntrica, e nas típicas idiossincrasias, desta vez, com ênfase na religião.
Se a história parte duma situação em que aquele primeiro personagem é levado, pela mão do segundo, a envolver-se num esquema de prostituição, aparecendo como um contrariado, mas bem sucedido, gigolo, acaba por tomar um rumo diverso quando ele se apaixona...
Donde hay amor, hay dolor é, justamente, a frase proferida ao acaso, quando o gigolo conhece aquela por quem se apaixonará, e vem, mais tarde, a ser proferida por esta, já não ao acaso... Daí eu tê-la considerado a frase chave do filme.
De resto, trata-se dum filme leve, com uma óptima banda sonora, que convida ao sorriso e se deixa ver com uma certa ternura. E, mais do que, em certa medida, viver do Woody Allen, pode considerar-se uma homenagem a este magnífico actor e realizador, tanto o personagem que representa apenas parece fazer sentido em função dele. E tem o maravilhoso cenário de New York. 
Enfim, não é um filme espantoso, mas é de ver.
 
 
 
 
 
  

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

MORRER É NORMAL, ENVELHECER, NÃO...

 
...NÃO É NORMAL, É EMBIRRAÇÃO DAS ALTAS PATENTES DA CRIAÇÃO (SE É QUE EXISTE ALGO DO TIPO). SÓ PODE!
 
Há pessoas que deviam ser proibidas de envelhecer, quer dizer, devia ser proibido o envelhecimento de certas pessoas (ou de todas, ninguém envelhece por gosto). Estou a pensar em Michael Caine (para além de mim, obviamente...). Estou a pensar apenas na degradação da aparência física que, inexoravelmente, marca a recta final deste intrigante passeio para a morte que é a passagem pela vida. Deixo, pois, de parte a eventual degradação física e mental, não estão agora em causa. A morte  em si é irrelevante, apenas o cumprimento do ciclo anunciado (embora talvez não iniciado) com o nascimento. Mas envelhecer, não seria dispensável o envelhecimento?
 
Michael Caine sempre foi um dos meus actores favoritos, não só pela enorme qualidade artística, mas também pela beleza e elegância que emanam da sua pessoa (por interposta câmara, nunca tive o privilégio de o ver ao vivo). Elegância, essa, tanto mais admirável quanto é certo ser oriundo dum meio social humilde, o que só comprova a tese segundo a qual a elegância é uma imanência não dependente das origens.
 
A ÚLTIMA PAIXÃO DO SR. MORGAN, em exibição por aí, é um belo filme em que Michael Caine, com a realidade dos seus 80 anos feita estampa, interpreta um velho, social e familiarmente desenraizado, isto é, mergulhado em solidão, que, tendo perdido a mulher, calhando ser a mulher da sua vida (passe o lugar comum), reencontra, ao fim de cerca de três anos de desistência, numa jovem mulher, um novo élan, condição para o esboço dum novo parêntesis (ou simulacro) de vida e, a final, para se situar, consciente e lucidamente, perante a evidência da impossibilidade.
 
A esta altura já se deverá vislumbrar o motivo de ter começado por me referir à questão do envelhecimento. Todavia, o filme não se esgota nesta temática, também nos fala do amor/afeição (será amizade?), da atenção ao próximo, sintonizada na partilha empática (sim, tenho para mim que a empatia é uma forma de partilha, na sua fonte e no seu exercício), no luto (da morte ou do amor) e, já agora, nas barreiras surdas e nos  constrangedores não-ditos das relações familiares. 
 
E agora apetece-me rever ALFIE, ANA E AS SUAS IRMÃS, A EDUCAÇÃO DE RITA, VESTIDA PARA MATAR, AS REGRAS DA CASA, etc., etc., etc.   
 
 
 
Poster Michael Cainefoto Michael CaineO Sol de Cada Manhã : Foto Michael Caine
 
             
 
Nota: Contrariamente à regra deste blog, as fotografias não são de minha autoria, tendo sido copiadas do site ADOROCINEMA
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

AO ENGANO!


Assim fui ver o filme intitulado LAST VEGAS!
 
Porque fui? Pelo facto da interpretação estar a cargo de quatro grandes actores, Robert De Niro, Kevin Kline, Morgan Freeman e Michael Douglas.  
 
Razão do engano? A expectativa de que um tal elenco fosse garantia de qualidade. 
 
É óbvio que, caso não andasse tão distraída, teria dado atenção à sinopse e resistido à promessa das performances interpretativas dos ditos actores.

Na verdade, o que esperar dum argumento em que se largam quatro velhos amigos, não só velhos amigos, mas amigos velhos, na patética mimetização da despedida de solteiro dum deles, que, prestes a completar 70 anos, se prepara para casar com uma mulher de 30? Para mais, no estapafúrdio cenário de Las Vegas, a tão feérica quanto idiota e artificial Las Vegas.
 
Está bem, a ideia terá sido a de abordar o tema da velhice, em perspectiva humorística. Mas uma coisa é a ideia, outra a concretização. Ou seja, o filme tem tanto de humor como este post de elogio. Tem, sim, um enredo fraquíssimo e sentimentalóide, sustentado por uma série de clichés.
 
Sucede que, para muitas pessoas, envelhecer é lixado! Primeiro, porque quando se dá conta, já é demasiado tarde, assim tipo, um belo dia, sem mais nem menos, olha-se para o espelho e constata-se - olha, parece que esta era eu! ou - parece que já fuiCHOQUE. Depois, começam a ouvir-se, cada vez com mais frequência, elogios póstumos, assim tipo - Você era um espanto! ou - Não, não estou a ver quem é, mas deve ter sido muito bonita! (Juro que se passou comigo e fingi um ar tão melindrado que ele corou por assim dizer até à raiz dos cabelos e acrescentou - ainda é. Só aí comecei a rir, já receosa de que lhe desse um AVC). CHOQUE. A seguir, de cada vez que se fita um espelho - e, estupidamente, há espelhos por todo o lado, nem que seja a superfície das montras - adquire-se um novo traço de identidade, quer dizer, uma manchazinha castanha, uma ruga aqui, outra ali... CHOQUE. Chego a pensar se estes traços de identidade não deveriam substituir as impressões digitais no cartão de cidadão definitivo. Há mulheres sábias que dizem não se importar, teorizando que cada ruga é testemunho dum episódio de vida. Não é, seguramente, o meu caso. E também não creio ser o delas, a avaliar pela quantidade de plásticas, botox, ácido hialurónico e afins que, as mais das vezes, levam em cima.  
 
Quer dizer, isto do processo de envelhecimento (PdE), ao menos enquanto não surgem as maleitas corporais, resume-se a uma questão estética. Esta é a minha teoria. Ou seja, uma pessoa sente-se muito bem, muito fresca, muito criativa, muito viva, e, na primeira esquina, dá de caras com um espelho e ... CHOQUE. O grau de arrelia do PdE  está, assim, na proporção directa da elevação estética de quem o sofre. E da vaidade. E da glória passada. Em síntese, quanto maiores forem as aspirações estéticas, a vaidade e a beleza falecida, mais lixado é envelhecer.
 
Mas, entenda-se, a razão de ter ficado lixada com o filme não foi o tema, mas a sua pobreza estética e intelectual.
 
Diferentemente de dois outros filmes sobre a mesma temática, de que aqui dei testemunho: GIANNI E AS MULHERES ( post de 31 de Julho de 2011, ABOUT GIANNI) e QUARTETO (post de 16 de Junho de 2013, ABOUT QUARTET).
 
Bem, o espelho reclama-me (não vá ter surgido mais um traço de identidade).
...
 
CHOQUE!




 
 
 

sábado, 19 de outubro de 2013

HANNAH ARENDT

Num mundo e, particularmente, num País em que as pessoas cada vez menos se dão ao trabalho de pensar - ou assim parece - é muito bem vindo o filme HANNAH ARENDT, um filme sobre o PENSAMENTO
 
Quando da 2ª Guerra Mundial, H.A., Judia alemã, conseguiu evadir-se dum campo de detenção - eufemismo para campo de concentração, utilizado pelos colaboracionistas franceses -  situado em Gurs, França, tendo-se estabelecido nos EUA, onde publicou, entre outras obras de filosofia política, As Origens do Totalitarismo, e onde leccionou em diversas Universidades.
 
Fez a cobertura do julgamento, em Jerusalém, do nazi Adolf  Eichmann, para o The New Yorkeratravés de cinco artigos - reunidos no livro Eichmann em Jerusalém.    
 
O filme trata, justamente, do pensamento então desenvolvido por H.A. sobre Eichmann e sobre a alegada colaboração de alguns líderes judeus com os nazis, bem como da forte polémica a propósito gerada no seio da Comunidade intelectual e, em particular, Judaica.
 
Em oposição ao pensamento dominante, H.A. não considera Eichmann como a personificação do demónio, antes o remetendo à condição da mais banal das normalidades, a do homem comum, zeloso e acrítico cumpridor de ordens, (logo) alheio à compreensão ou à consideração da fronteira entre o bem e o mal.  Portanto, um homem destituído de pensamento. E pertencente à categoria de homens que maiores males causam ao mundo.

Simultaneamente, quando, em sua defesa, explica as suas ideias, não deixa de reconhecer que o extermínio dos Judeus foi um crime contra a Humanidade (visto os Judeus serem humanos), do qual, mesmo sem o alegado colaboracionismo de alguns, não poderiam ter-se defendido.

Somos, pois, convocados a reflectir sobre o pensamento da Filósofa e daí eu ter começado por dizer tratar-se dum filme sobre o pensamento, desafiando, consequentemente, o exercício do pensamento.

A tese de H.A., eventualmente atraente na pureza da sua abstracção - enquanto produto puramente intelectual -, comporta, em meu entender, algumas lacunas e contradições.

Em primeiro lugar, a aceitação de que o cego cumprimento do dever, erigido em critério de referência do comportamento do homem normal, o verdadeiro burocrata, é de molde a obnubilar a capacidade de discernimento entre o bem e o mal, carece, em absoluto, de demonstração; aliás, se não num plano mais elevado - que nos levaria, por exemplo, às questões da ponderação do livre arbítrio e a outras mais -, ao menos no plano factual é, mesmo, desmentida, como o comprova, v.g., o facto de, dum modo geral, os nazis julgados em Nuremberga usarem como estratégia de defesa a distorção da realidade - extermínio dos Judeus -, com o objectivo de se demarcarem da mesma que, todavia, sem a sua acção conhecedora e esclarecida, não poderia ter ocorrido. Tal estratégia não será, por si só, o reconhecimento de que bem sabiam ter agido do lado errado da possibilidade de escolha, o do mal? Abro aqui um parêntesis para referir que um esclarecedor testemunho desta realidade pode encontrar-se em NUREMBERG DIARY, de Gustave Gilbert, psicólogo militar junto da prisão em que aguardavam julgamento os criminosos nazis julgados em Nuremberga. Aí são recolhidas as entrevistas e conversas informais que com os mesmos manteve, a par das suas notas pessoais.

Por outro lado, a tese de H.A., levada às suas extremas consequências, não deveria conduzir à total desresponsabilização social - mesmo esquecendo a pessoal - do tal homem normal - por cujas mãos, todavia e como acentua, se produzem os piores males do mundo? Seria isso justo ou sequer admissível? 

Não me parece, nem parece tratar-se de consequência aceite pela própria, já que, por um lado, afirmou ter ficado satisfeita com a condenação de Eichmann e, por outro lado, reconheceu  ter-se tratado dum crime contra a Humanidade. Caso para perguntar, um crime sem autores, um crime sem responsáveis?

Por outro lado, independentemente da sua bondade intrínseca,  afigura-se-me que certos exercícios puramente intelectuais - plano em que a mente, na sua plasticidade e habilidade, parece vocacionada para aceitar um infinito de teses e o seu contrário... - deverão, talvez, manter-se no resguardo dos seus pensadores, quanto mais não seja, por oferecerem a  susceptibilidade de branqueamento de horrores, que, nunca devendo ter assombrado a Humanidade, ao menos não convém que se repitam. E de horrores destes ou doutros já a Humanidade está farta ou deveria estar, caso pensasse ... com conhecimento e sentido da consequência.

Mas isto sou eu a falar. E não sou filósofa. Nem judia (tanto quanto sei).


Nota: Não conheço a obra da H.A., baseando a minha análise naquilo que captei do filme.  
 
 
 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O TALENTOSO MR. ALLEN


Mais uma vez, Woody Allen conseguiu transcender-se, tal como sucedera com Match Point. E, mais uma vez, fê-lo duma forma magnífica.
 
Não que W.A. precise de se transcender para ser magnífico. Ele é-o, naturalmente. Assim, quando apelo ao conceito de transcendência, não me refiro a uma qualquer espécie de superação, mas a uma completa mudança de registo, dom com o qual nem todos os Artistas, por melhores que sejam, merecem a graça de ser contemplados.
 
Blue Jasmine é, indubitavelmente, uma boa história, mas, em minha opinião, não reside aí a sua principal qualidade, aquilo que o diferencia de qualquer outro filme com semelhante objecto de narração (afinal, financeiros burlões, mulheres e homens traídos ..., who cares?).
 
A diferença - qualitativa - está, desde logo, na maneira como a história é contada, reveladora, nomeadamente, dum absoluto domínio dos tempos da acção, tal a mestria com que os flashbacks são introduzidos, de modo a deixarem-nos a sensação duma sequência perfeitamente síncrona (símbolo da linearidade do percurso para o desastre?).
 
A diferença reside, também, no ritmo e, sobretudo, na (profunda e constante) tensão, transmissora (e geradora?) dum permanente estado de alerta, de inquietação e de angústia - tal como em Match Point.
 
A diferença encontra-se, máximo dos máximos, na densidade conferida à análise psicológica da personagem principal, aliás, em mais uma brilhantíssima interpretação da Cate Blanchett - que se sente nos mais mínimos gestos da sua expressão corporal, de que destacaria, obviamente para além do rosto, as mãos.
 
Com mais este filme, a par do anterior Match Point, creio poder dizer-se que W.A., um dos mais preciosos ícones do humor inteligente, em clima de auto análise, se constrõe um  outro ícone, o da tensão das profundezas da mente humana (qual novo Ingmar Bergman, salvaguardadas as diferenças de estilo e de conteúdos narrativos). Com um fundo negro, pelo peso explícito (e implícito), mas que não é humor. Nem era necessário que fosse. Antes pelo contrário. A matéria poderá, ainda, ser a mesma, a abordagem e a dimensão, manifestamente diferentes. Mas sempre magníficas.
 
E, todavia, há uma marca constante, denunciadora da autoria: a óptima banda sonora jazzística, também ela introduzida com um acerto notável, cumprindo (apenas) o papel dum oportuno sublinhado.
 
E há, ainda, as referências ao Xanax , ao Prozac, à ansiedade, claustrofobia e medo da morte. Mas estas, creio eu, nunca poderão desaparecer dos filmes do talentoso Mr. Allen, seja qual for o seu registo (e ainda bem, pois as imagens de marca, quando boas, devem manter-se).
 
Enfim, se Blue Jasmine não ganhar, pelo menos, os Óscares para melhor filme, melhor realizador e melhor actriz principal, vou ficar muito decepcionada. E só não prometo fazer greve ao cinema, visto não gostar de prometer o que não posso cumprir. 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

NEM GAIOLA, NEM DOURADA!


Estava decidida a não ir ver o filme A GAIOLA DOURADA, do realizador Ruben Alves. Não, necessariamente, por ser um filme português (ou, pelo menos, em português), mas porque detestei o título - apelando a uma anterior gaiola qualquer coisa? - a apresentação - com foco num estridente grito da Rita Blanco a chamar alguém e nas habituais facécias e esgares da Maria Vieira, em suma, no que me pareceu ser a ridicularização dos Portugueses (a este propósito, nunca esquecerei, pela negativa, o filme O AMOR ACONTECE...) -, e o facto de, ao menos na bilheteira do cinema UCI do Corte Inglés de Lisboa, o filme ser anunciado por entre um folclore de dispensáveis símbolos da Portugalidade (?), com relevo para um bacalhau. 
 
Entretanto, disseram-me que o realizador é luso-descendente e que o filme se inspira numa história de vida, aspecto este que, por regra, sempre confere alguma credibilidade.
 
E pronto, lá fui vê-lo, adiando um outro que me interessava deveras, SÓ DEUS PERDOA, do realizador Nicolas Winding Refn, que, entretanto, passou para as duas da manhã, hora não cinéfila, para mim.
 
A Gaiola, dourada ou não, aliás, gaiola ou não, revelou-se uma agradável surpresa. O alardeado tom de comédia pareceu-me, felizmente, o menos relevante, pois ali se trata de assuntos bem sérios. Aliás, em minha opinião, seria perfeitamente dispensável a inclusão da personagem representada pela Maria Vieira, a que, pretensamente, mais justifica aquela qualificação, sabe-se lá se para atrair público - motivação, aliás, totalmente justa e compreensível. Acontece que o filme não é nenhuma revista do Parque Mayer...
 
Esses assuntos sérios são, nem mais nem menos, o drama (não a comédia) da emigração portuguesa, em que trabalhadores e trabalhadoras esforçados, competentes, diligentes, bem intencionados e cheios de boa vontade, trocaram a sua pátria lusa pela desconhecida França, sempre dispostos a dar o máximo de si, para conseguirem o que, por cá, sabiam nunca poder alcançar. Elas, como porteiras, eles, como trabalhadores das obras.
 
Esses assuntos sérios são, também, a forma como tais trabalhadoras e trabalhadores eram (são?) sugados, por uma estirpe de oportunistas, mal agradecidos e exploradores patrões.
 
Obviamente, não vou contar o filme, mas chamou-me, ainda, a atenção, o traço da incultura dessas pessoas, mais chocante, por não mostrarem aspirações a ascender a um nível superior de entendimento/conhecimento, sobretudo em contraste com os filhos, associando o desejo de superação e fusão (no meio ambiente), com a vergonha mal disfarçada (mas, custe o que custar, justificada) dos próprios pais.
 
Por último e como nota meramente pessoal, este filme fez-me lembrar as diversas vezes nas quais, em contactos profissionais ou em viagem, com franceses, boa parte deles sempre teve a amabilidade de me lembrar que tinha uma Maria porteira ou empregada doméstica! Claro que também houve uns, seguramente mais civilizados, que me falaram do Dr. Mário Soares e das três Marias. Enfim, talvez estes tivessem querido ser simpáticos ... e aqueles, também.
 
Em resumo e conclusão, um filme a ver!
 
 
 
 

domingo, 4 de agosto de 2013

PAIXÕES PERMITIDAS


Eis que ainda não perdi a capacidade de ficar perplexa! Desta vez, com o filme intitulado PAIXÕES PROIBIDAS, da realizadora Anne Fontaine, que vi, há dias, num cinema perto de mim.
 
Não revelo nenhum segredo cinematográfico (consta da pertinente sinopse), ao adiantar que o filme gira à volta duma dupla paixão cruzada, entre os filhos de duas grandes amigas e estas ou, dito doutra maneira, para evitar confusões, o filho duma apaixona-se pela outra e o filho da outra apaixona-se pela uma, sendo também certo que uma se apaixona pelo filho da outra e a outra se apaixona pelo filho da uma. Quer dizer, paixões não só totalmente cruzadas como retribuídas. E vivem em (magníficas) casas vizinhas, servidas por deslumbrante paisagem marítima.
 
Baseados no precedente parágrafo, não comecem já a pensar que não sei escrever ou que, hoje, estou um tanto ou quanto arrevesada. Nada disso! Foi só a maneira que encontrei de expressar a minha perplexidade, a explicar mais adiante.
 
Antes, porém, devo esclarecer estarmos em presença de gente gira, como convém a um tal imbróglio: as mães, aí nos seus quarenta e tais, são interpretadas pela Naomi Watts e pela Robin Wright; os filhos (interpretados não sei por quem), quais magníficos deuses gregos, ainda não terão atingido os vinte. Um é louro, outro é moreno - como diria aquele cantor pimba -, mas ambos muito, muito bem e muito, muito atléticos.
 
Claro que há umas cenas bastante, como dizer, sensuais, pronto. E os ambientes (interiores e exteriores) são fantásticos.
 
Portanto, uma conclusão é certa: o filme não faz nada mal à vista.
 
Já ao intelecto, tenho as minhas dúvidas. E daí a razão da anunciada perplexidade.
 
Não se trata, naturalmente, da temática das paixões entre pessoas com assinaláveis diferenças de idade. Elas existem, normalmente são datadas, mas isso também não interessa nada, pois, mesmo sem essa marca, é habitual as paixões terem prazo de validade. Nem é o caso de, aqui, os mais novos serem os homens, pois, segundo consta, essa situação é cada vez mais comum.
 
A questão reside, antes, no facto de toda aquela proximidade  - dois filhos, praticamente criados juntos e os melhores amigos, duas mães, idem - e improbabilidade. Claro que se trata de cinema, logo, dum domínio de evasão, alheio, nomeadamente, à lógica das probabilidades. Mas o problema é que nada no filme parece funcionar em termos de conferir sentido a esse alheamento. Inexiste, em minha opinião, uma lógica alternativa, fundamentadora da opção por um tal tipo de narrativa (considerado, evidentemente, todo o seu percurso, aqui omitido, pela óbvia razão de não desvendar o argumento, com prejuízo para eventuais interessados em ir ver). Não é que eu pretendesse o filme veiculador de qualquer mensagem; não gosto é de quando uma história se consome em si mesma, sem dela se poder retirar um qualquer sentido, ainda que meramente especulativo ou, por exemplo, onírico, sobre o seu propósito.
 
Serve, então, para quê? Para distrair ... o olhar, por exemplo. Num magnífico paraíso australiano ... por exemplo.
 
PS: Aceitam-se críticas à crítica, que, estou em crer, faria mais pelo filme do que muita publicidade paga (caso o universo de leitores o permitisse) ... (esta parte era destinada a provocar sorrisos).
 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

DENTRO DE CASA


Dans la Maison (Dentro de Casa, na tradução portuguesa) é o título dum óptimo filme do realizador François Ozon - que estreou ontem em Lisboa (UCI) -, verdadeiramente representativo da marca própria do cinema de autor francês (enquanto contraponto ao denominado cinema comercial, maxime, norte-americano).
Tendo como objecto (principal), o relacionamento entre um professor liceal de literatura, escritor frustrado, e um seu aluno, especialmente dotado para a escrita, apoia-se no desenrolar de duas outras histórias paralelas - objectos do objecto, por assim dizer -, a da vida daquele com a sua mulher e a duma família sobre a qual este escreve.
Aquilo que é aparente - perversão de voyeurismo, por parte do professor(?), versus perversão de intrusão/usurpação, por parte do aluno (?), num bem orquestrado despique – acaba por revelar-se realidade bem diferente – identidade de vazios e aspirações.
A caracterização e interligação dos distintos universos enunciados, o timing, em crescendo, de inquietação e suspense, bem como o detalhe da abordagem psicológica dos personagens são, apenas, alguns dos aspectos que fazem de Dentro de Casa um grande filme.
Dignas de menção são, ainda, a banda sonora, as magníficas interpretações, e, enquanto elemento substantivo, a apreciável lição de escrita criativa que nos é servida, pela mão do personagem professor.
 
 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

JAPAN FOREVER!

 
Hoje foi dia de confluência de propostas, desde a inauguração duma exposição póstuma individual de pintura (de Vasco Costa, Paisagens Interiores, Galeria António Prates) até um espectáculo de música (Júlio Resende, pianista, e Gisela João, fadista),  integrado no festival Largos da Mouraria.
 
Todavia, o anúncio de Emperor entrou, inesperadamente, no meu campo de visão e o apelo sobrepôs-se a qualquer outro. 
 
É que Emperor, do realizador Peter Webber, é (mais) um filme que traz o Japão até nós e, dado o meu fascínio por este País, ir vê-lo revelou-se uma questão inadiável.
 
Passa-se no Japão, pouco depois do fim da 2ª Guerra Mundial, tendo por tema a tomada de decisão, pelos ocupantes americanos,  sobre se o Imperador Hirohito deveria ou não ser levado a julgamento, como criminoso de guerra. Entrelaçada, surge, em flashback, uma história de amor entre o general encarregado da investigação (destinada a fundamentar aquela decisão) e uma rapariga japonesa.
 
Não me parecendo excepcional (por momentos, o género em que se insere, dramático, resvala um pouco para o melodramático), ainda assim, considero-o um bom filme. Pelo testemunho cru da terrível destruição provocada pela guerra (é bom nunca esquecer...), pelo retrato das profundas diferenças culturais entre o Japão e o Ocidente, no caso representado pelos EUA, e pelas questões políticas suscitadas, nomeadamente, em termos de (pertença/distribuição de) responsabilidade pelos nefastos acontecimentos em causa (pese embora a superficialidade da abordagem).
 
Mas, para mim, existe uma outra razão particular, pela qual não poderia deixar de ver o filme, a rememoração, embora em pequenas doses, de paisagens que nunca me abandonam, tais como, os bosques de bambus, o inacessibilidade do Palácio Imperial, a sobriedade dos interiores japoneses e o fabuloso e enigmático Monte Fuji.
 

 

 
  
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 16 de junho de 2013

ABOUT QUARTET

Sendo este "Quarteto" o primeiro filme realizado pelo Dustin Hoffman, é caso para dizer que instala em nós uma curiosa expectativa sobre o(s) próximo(s).
 
Trata-se duma abordagem elegante, leve (não ligeira), terna (não ternurenta) e divertida (nos limites da contenção que o melindre do tema impõe, ao menos numa sociedade como a nossa, ocidental).
 
O tema é, precisamente, a velhice, ou melhor (pior?), o envelhecimento, circunstância que, devendo, à primeira vista, ser encarado de forma tão natural como os restantes fenómenos da vida (o seu início - nascimento e infância -, desenvolvimento - adolescência e juventude -, estabilização - idade adulta - e fim - morte), acaba por o não ser, quer queiramos quer não.
 
E com alguma razão, atrevo-me a dizer, pois não será o envelhecimento, com a degradação física e, por vezes, psíquica, que envolve, a pior das traições que a vida, na sua proverbial generosidade e gentileza, faz questão de nos providenciar amavelmente (caso não nos force a uma retirada antecipada)?!

Mas isto sou eu a divagar, não que o DH se perca em aprofundamentos filosóficos ou em tónicas negativas, antes pelo contrário. Felizmente!

O tema surge, antes, enquadrado numa trama descomplicada e fluida, que termina ... (Ah!, não posso dizer, detesto ouvir o enredo de livros e filmes que ainda não li ou vi, aliás, nem leio críticas, ao menos previamente).

Vão ver, divirtam-se subtilmente e, depois, digam-me se gostaram, ok.?

Só mais uma coisa: um outro filme muito bom, verdadeiro exercício de imparável ironia, sobre a mesma temática, andou por aí em Julho de 2011, devendo agora habitar num vídeo club junto de si (não tenho qualquer comissão, apenas postei um comentário sobre o mesmo, em 31 daquele mês, com o título, "ABOUT GIANNI"). Chama-se "Gianni e as Mulheres".






 

domingo, 31 de julho de 2011

ABOUT GIANNI

Gianni e as Mulheres, eis o título de um filme que está por aí, apesar de ser Verão, quase Agosto.
Estabeleço esta ressalva, porque qualquer cinéfilo que se preze sabe que a época estival não é a mais propícia à qualidade dos filmes em cartaz, antes pelo contrário. Todavia, achei Gianni ... um filme muito bom.
Fala-nos da inexorável instalação da idade e da devastação que a acompanha, servindo-se do caso de Gianni, um sexagenário (62) reformado, com uma vidinha sofrível, que, espicaçado por um amigo, mas sem grande convicção, tenta recuperar o fulgor da juventude.
Se o consegue ou não, não conto, pois também não gosto que me antecipem o final dos filmes (ou seja do que for).
Acrescento, apenas, a seriedade (ou realismo ou lucidez) com que o tema é abordado, oferecendo-nos, sem misericordiosas contemplações, a ideia de  que, se há traço diferenciador entre os humanos, esse traço é o que divide os jovens dos menos jovens (e os belos dos menos belos).
Sem dramatismos, até com laivos daquele humor (aqui, mais na vertente irónica) típico das comédias italianas - trata-se, aliás, de um filme italiano -, como fica patente na cena em que a bela ragazza diz ao protagonista ter sonhado com ele, um sonho belissimo, e ele, com o brilho do sorriso luminoso  a desabar em abrupta sombra, quando ela, com toda a naturalidade deste mundo e do outro, encerra,- sonhei que eras meu avô.
Imperdíveis, também, a cena do jogo de cartas das velhotas e a do viagra ... 

Isto, como, por certo, se deixa perceber, é a opinião de quem não acha graça nenhuma ao aparecimento de mais uma ruga, de mais um grama ou de mais um pingo de flacidez, e que, consequentemente, fica sempre perplexa (no mínimo), quando aquelas socialites  que dão (ou vendem) entrevistas, perguntadas sobre esta (tão desagradável) temática, respondem, invariavelmente, algo do género: - isso não me incomoda nada, até gosto, pois cada ruga que me aparece é testemunha (elas não dizem bem assim, pois não falam desta maneira ...) de uma experiência de vida. Mas isto é o quê, estão a enganar-se a elas mesmas ou, apenas, a pretender enganar os outros ou, talvez, as outras? Inclino-me para a segunda hipótese, pois, normalmente, já estão carregadas de plásticas.

Não me parece, contudo, prejudicado que outro tipo de pessoas apreciem o filme, pois sempre poderão desfrutar, descontraidamente, da diversão que o mesmo proporciona. E, repito, sentido de humor não lhe falta.

Mudando de onda: sobre os tesouros que a juventude e a beleza podem proporcionar (certo tipo de tesouros, entenda-se), pode ver-se (pois é um filme que se deixa ver e apenas isso) Confissões de Uma Namorada de Serviço
Confesso que, neste caso, aquilo de que mais gostei foi da decoração dos interiores (a casa do casal e a loja em que ela compra aquelas sóbrias e bonitas roupas e acessórios, com que desfila pelo filme) e da pequena amostra do Soho de NY.  Quer dizer, gostei do bom gosto formal. 
E ainda gostei de mais um pormenor, o recurso pontual à música de rua, como componente da banda sonora.