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segunda-feira, 4 de julho de 2016

DISCURSO A JUDAS


Tinha acabado de atingir o topo do penhasco. Subira com passos largos e rápidos, como se empurrada pela mais aflita das urgências. Os ténis, na realidade azuis, pareciam esfregões acastanhados, tal a camada de poeira grossa que os surpreendera no percurso. As jeans colavam-se-lhe à pele e os cabelos desgrenhados à cabeça, efeito de escorregadia camada de transpiração. A ascensão revelara-se dura, embora não tão dura quanta a dureza do discurso que preparara para lhe debitar. Até o vento, responsável pela camada de poeira espessa que lhe tingira os ténis, era escaldante. Transportava assédio em vez de alívio. Por falar em assédio, não seria assédio o que se preparava para fazer? Interrogação breve e logo apreendida, que os vingadores e justiceiros não costumam deter-se em questões de consciência, convictos que estão da superioridade das suas razões. Aquilo, a interrogação, fora puro momento de fraqueza, talvez efeito do sol a pique sobre a cabeça destapada, acompanhando-a, na penosa mas decidida escalada, com a persistência e a fidelidade das determinações irrevogáveis.

Espalhou o olhar em redor, mas não o viu. A certeza estremeceu-lhe, por efeito de repentina e inusitada dúvida, ter-se-ia enganado no local? Mas não, os vingadores e justiceiros nunca se enganam, conhecem bem o objectivo e o ponto de chegada, elegem cuidadosamente o percurso mais funcional, a infalibilidade é a sua marca. Estava apenas a olhar na direcção errada, mero deslize, talvez devido à extenuação da subida, à pressão daquele sol fosco, tapado por nuvens vermelhas de sangue estagnado, a empurrá-la para baixo e a interferir-lhe com a retina, como fogo a brincar com crianças desarmadas. 

Deslizou as mãos tensas e inquietas pelas longas coxas, deixando largos traços de suor, um de cada lado, estradas simétricas dirigidas para o fundo, parecendo apontar uma vertigem de vazio. Para o fundo. Era isso, lembrou-se de espetar os olhos lá em baixo. Desvio inesperado, afinal esperara encontrá-lo ali, no cume do penhasco. Vingadores e justiceiros não costumam depender de desvios, tal a certeza dos seus desígnios. Todavia, por vezes, necessitam dum inesperado jogo de cintura. Há que reconhecer.

E era mesmo lá no fundo, metade para cada lado, como boneca de porcelana feita em fanicos, que ele se encontrava, aliás, jazia. Já pronta para descer, em largas passadas escorregadas, deteve o olhar num galho raquítico duma árvore raquítica das poucas árvores raquíticas que por ali se erguiam a custo, toldadas pelo rodopio da poeira seca e pelo desprezo da humanidade. Do galho pendia um resto de corda perdida a meio dum rasgão imperfeito e, tudo indicava, violento. Encontrou-lhe o resto lá em baixo, à volta do pescoço magro dele, último enfeite duma vida desperdiçada. Não foi isto que ela pensou, evidentemente. Os vingadores e justiceiros não se detêm em tal tipo de reflexões. Fazem o que têm a fazer e, orgulhosamente, passam à missão seguinte, como quem come tremoços de enfiada.

Lá em baixo a desolação não era menor, a mesma secura, o mesmo ar queimado pelo incêndio do sol toldado. Pairavam aves estranhas, prontas a atacar, apenas aguardando a partida dela. 

Finalmente podia debitar o discurso. Com a secura altiva duma tacada certeira de campeão de snooker, penetrou os seus olhos nos dele - sem sequer reparar que estes já moravam, irremediavelmente, para além das pálpebras descaídas como persianas mudas - e disse:

- Muito bem, Judas, foi de homenzinho, isso de ires a correr suicidar-te, depois de teres traído o teu amigo e mestre, a troco de meia dúzia de euros! Parabéns!

Ele não respondeu. Por motivos óbvios.





segunda-feira, 13 de junho de 2016

NUMA PRAIA DO MAR DA MORTE


A casa morava numa praia do mar do norte. Casa isolada, praia bravia. Vento gemente ou irado, consoante, sempre a ventar. Enfiava-se pela chaminé adentro, enchia-lhe as paredes de letras e outros símbolos. Desconhecia-os, mas lia-lhes o sentido, como quem capta habilmente pensamentos alheios ou decifra mistérios (é quase a mesma coisa). Refiro-me à pessoa que morava na casa que morava, isolada, numa praia bravia do mar do norte. Longa era a extensão que conduzia ao mar. Multiplicava-se em areia cinzenta, rodopiando sob o vento, a mando do vento. Longa era a extensão das dunas que separavam do lado de lá, o lado de sabe-se-lá-onde. A vegetação seca e esguia inclinava-se sob a força do vento, como quem foi condenado a fazer vénias à terra. Todavia, ao primeiro sinal de amaino do carrasco, levantava-se até à vertical perfeita, como quem diz, orgulhosamente, não verguei, não vergarei, limito-me a cumprir a sentença, este maldito ter-de-ser, contra o qual não há saída, e daí...

Por cima acolchoavam-se camadas sucessivas de nuvens espessas, grávidas, sempre prontas a explodir em gritos de chuva grossa. Muitas vezes acompanhados do estoiro dos trovões. Mesmo quando se desintegravam, havia sempre nova camada, eterna reserva de cinzento. Apesar disso, certas vezes, uns raios de sol faziam gala de as trespassar. Apareciam e desapareciam, esquivos e provocadores, como se a sua função fosse apenas a de lembrar, alô, alô, o sol existe, é brilhante e aquece, mas não para aqui.

Não que a pessoa que morava na casa que morava na praia se importasse muito com isso. Gostava de chuva, gostava de cinzento. O problema é que também gostava doutras coisas, mas essas não estavam ao seu alcance. Coisas que o vento, vindo sabe-se lá donde, contava, em seu contínuo ventar. Eterna ventania, transmitida em ondas médias e frequência modulada. Com imagem agregada.

E o mar.

Havia o mar, afinal era uma praia. Praia bravia do mar do norte. Poderia ser a praia de Scheveningen, na Holanda. Hipótese plausível, se a tornassem vazia de tudo (farol incluído), excepto da casa. Afinal tratava-se duma casa isolada.

O mar bramia, como quem chama imperiosamente. Um dia, ela, a pessoa, decidiu atender. Estava cansada da conversa do vento, da luta das plantas da duna, do inchaço das nuvens, da inquietação da areia, da provocação esquiva dos raios de sol. E de tudo o resto, sobretudo, de tudo o resto, ou seja, do nada. Tomou as rédeas da decisão que sempre soubera ser sua, espécie de reserva fiel e reconfortante, e caminhou a direito, sempre em frente, em direcção ao chamamento do mar, deixando-o convencer-se que era a ele que obedecia. Não se deteve na fímbria da rebentação, castelo de espuma impetuosa. Adentrou um pé, depois outro, um joelho, o outro joelho, a cintura e assim por diante. Em menos, muito menos, do que leva a contá-lo, tinha os olhos mergulhados no mar. Não os abriu, porque nunca conseguira abrir os olhos dentro de água, como se isso fosse mais difícil do que abri-los para dentro de si. Não fez qualquer diferença. A sua intenção não era de descoberta. Era mesmo e apenas fechar os olhos. Cerrar os ouvidos. Des-sentir. 

Por entre um riso descontrolado - ou seria o mar dentro de si a fazer glu-glu, enquanto o seu corpo, quase a deixar de ser, esbracejava numa incongruência libertadora - sobrou-lhe um pensamento sarcástico, não tarda nada, vão inventar que uma pessoa morava numa casa isolada numa praia bravia do mar da morte





(Fotos obtidas em pesquisa - sobre Scheveningen - no Google)


  






     








sábado, 21 de maio de 2016

AS MENINAS CASAVAM TODAS


Lembro-me bem. Tinha ido de férias e encontrámos-nos, casualmente, na Central da Vila, a pastelaria chique lá da terrinha, o longínquo sítio em que, sem me terem consultado, me despejaram neste mundo. De seu nome, Vila Cinzenta, a terrinha, nome que já diz tudo. 

Ele, o senhor ... como-é-que-era?-não-me-lembro-do-nome!, armado dum ar todo composto, que escondia (tanto quanto revelava) um contentamento secreto de ascensão social, disse-me, - a minha filha vai casar com um médico. A filha era a Emília, minha colega do Liceu, por sinal muito bonita (como eu também era, segundo ouvi dizer). Tinha uma irmã mais nova, não-me-lembro-do-nome, mas não se lhe comparava e era um bocado espalha-brasas.

Seguiu-se a pergunta fatal, - e a menina, quando casa?, talvez formulada na esperança secreta de que lhe anunciasse um noivo enfermeiro, empregado de balcão ou manga de alpaca ao serviço duma qualquer repartição. Mas não, não tinha notícias para lhe dar nesse capítulo. Não porque não tivesse a intenção de casar, aliás, crescera com a ideia ou convicção íntima de que o casamento era uma coisa natural, quero dizer, uma coisa-a-suceder, uma certeza, como tomar o pequeno almoço de manhã, estudar para arranjar um bom trabalho ou morrer quando tivesse de ser. Sucedia, apenas, que nunca corri atrás do casamento, nem sequer fantasiei com tal ideia, por exemplo, com o grande dia, como, um dia, aí por volta dos dezasseis anos, lhe ouvi chamar, não sem basta admiração. Nem estava a perceber ao que ela se referia, a menina-não-sei-quantas-também-não-me-lembro-do-nome, uns anos mais velha do que eu, quando, ao falar com grande entusiasmo do seu iminente casamento, disparou, - então, e quando é o seu grande dia? Devo ter assumido uma expressão bem intrigada, que a levou a explicar-se melhor, - quero dizer, quando se casa?   

Era mania das pessoas, especialmente das mais velhas, amigas ou conhecidas dos Pais, formularem aquela pergunta. Eu achava aquilo uma idiotice, primeiro, porque sempre entendi que ninguém tinha nada a ver com a minha vida, segundo, porque não percebia qual era a pressa.

Ao longo do tempo, a pergunta foi mudando de formulação, à entusiasta curiosidade inicial, seguiu-se um espasmo de preocupação (de faz de conta, está claro!), à medida que me aproximava dos trinta, - olhe que o tempo está a passar! E eu, sempre fechada, para não dizer trombuda, na resposta.

Finalmente, seguiu-se um conformismo (fingidamente) entristecido, ia eu aí por meados dos trinta, - não quis casar, não é verdade?, olhe fez muito bem! E eu de explicar que não, que não era nenhuma opção, nada tinha contra o casamento (e, aqui entre nós, não era por falta de namorados, para não falar nos pretendentes que não aceitei nessa qualidade).

Ora bem, consoante já referi, nunca fantasiei com o casamento, sobretudo depois de saber que se tratava dum contrato, facto que me deixou completamente siderada. É que eu sempre fantasiei com o amor, e, na plenitude romântica em que o sonhava (ao amor), o casamento seria mera consequência, mero remate social, como tal, dispensável. Por exemplo, sempre me pareceu um desperdício investir num sumptuoso vestido-para-um-dia e correspondente festança.

Agora, ultrapassados os noventa, fiz ontem noventa e dois - ou seriam noventa e três?, já não me lembro bem, isto da idade é f*****, quanto mais tempo se tem menos tempo se tem, se chegar aos cem hei de explicar melhor este conceito -, lembro-me assim de coisas parvas, embora já não saiba se as escadas para sair de casa são a descer ou a subir. Para o caso não importa muito, pois já nem sei se habito uma casa ou uma daquelas coisas a que chamam lar. Hahaha, lar está muito bem apanhado.

Só mais uma historieta, com a qual muito me ri e continuo a rir. Trata-se duma anedota contada por uma amiga, com o objectivo de me persuadir a casar com o namorado da altura, tinha eu uns vinte e seis ou vinte e sete anos. Sabes - disse-me ela - lá na minha terra havia um par de namorados que nunca mais se decidiam a casar. O tempo foi passando, primeiro lentamente, depois, com a vertigem que se sabe, e, atingidos os sessenta, ela, a Maria, virou-se para ele e perguntou, Oh! Manel, e se casássemos, que é que achas? Resposta dele, - Por mim, acho bem, mas, por esta altura, quem é que nos quer?! 

Enfim, pode dizer-se que, naquele tempo, as meninas casavam todas...

Eu não casei, não por não ser dada a fantasiar com o casamento, mas por ser dada a fantasiar com o amor... Ah!, e nunca fiz a pergunta que a Maria fez ao Manel.

Portanto, teria escolhido um bolo deste tipo:

(Imagem encontrada em pesquisa do Google)







quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

TEM DIAS!


Nunca te apeteceu riscar a raiva, com traços ríspidos, rápidos, rígidos, traços raspadores de quem se desgarra, esventra, expõe? Rasgar a pele e a carne e depois o osso, até ao inferno do osso, desfazer as unhas na fúria de deixar a medula de fora, exposta? Exibir as frustrações como se fossem troféus, num esforço determinado, raivoso, fulgurante, de quem procura um exorcismo? Matar as frustrações com a fúria devastadora dos riscos com que riscas a raiva, riscos duros, assertivos, gritados em altos berros estereofónicos? Atordoar quem passa, se calha alguém passar, com os teus traços gritados, calculadamente gritados, calculadamente riscados, mas mais nada, calculadamente mais nada? Pura exibição catártica - pura e dura - do que te vai por dentro, deixar à mostra, não para exibir, mas para libertar, explodir, enfrentar e desprezar e amesquinhar e poder ignorar, deixar para trás, se possível para o nunca? Não que importe quem passa, se alguém passa, trata-se apenas de ti, mesmo que tenhas público, que se lixe o público,  fuck the people, isto é contigo, apenas contigo, podes até fechar-te numa caverna para te explodires em riscos e traços e gritos e nunca mais parar, a não ser de exaustão. Já te aconteceu, já te aconteceu? Não respondas, não venhas com a porra duma resposta fofinha, reconfortante, modelo livro de autoajuda ou ronronar de beato S. Paulo Coelho ou o outro, o S. Pedro Chagas-Qualquer-Coisa, poupa-me a isso, a única coisa que agora me apetece, não, de que necessito, é isso, riscar, desenhar a raiva em riscos, não riscos de desespero, que o desespero é coisa que não me assiste, ao menos isso, o desespero já não me assiste, é só raiva, raiva pura, esta necessidade de esfolar até às profundezas do osso, deixar a medula de fora. Podes pensar que isto é completely fucked up (fucked up é muito mais cool do que o correspondente português), não é bonito de se ver, mas repara, a tua presença é-me indiferente, nem sempre foi assim, mas agora é-me indiferente, podes desaparecer que nem dou por isso, e mais, isto não é um espectáculo, muito menos para ti, é uma necessidade visceral minha, só minha, é a mim que me apetece, sou eu que necessito de riscar a minha raiva, não em traços doces de néon, lamúrias, murmúrios de quem pede piedade, consolo, não se trata disso, de nada disso. Não respondas, sei que não estás aí, como poderias responder se não estás aí? Nunca estiveste, criei-te como uma fantasia, naveguei um sonho contigo, eu, logo eu, que não sou dada a fantasias, ok, agora estou a enganar-me descaradamente, sou dada a fantasias, sou, embora nunca perca de vista que são fantasias, sei que não passaste duma fantasia, uma espécie de boneco de papel couché, macio como seda, quer dizer, sedutor, e nunca mais voltaste, aliás nunca estiveste, não posso levar a mal, nem sequer posso dar-me ao luxo de levar a mal. Hoje vou precisar de riscar, riscar, riscar, riscar a minha raiva com traços tão violentos quanta a violência que dita estas palavras. Sou o alvo, não prejudica ninguém, e a mim só pode beneficiar. Uma coisa forte, exuberante, estridente, para variar das fantasias. De resto, sei que esta cena não te assiste. Tinha de usar e abusar desta expressão,  uma vírgula por entre os traços rígidos, nem que fosse à força ou (ligeiramente) a despropósito, como acabou por ser, não te assiste, expressão divertida, ouvi-a ontem e estava desejosa de a utilizar. Afinal, divertimento não contende com raiva, com riscar a raiva em traços ríspidos, rápidos, rígidos, porque riscar a raiva é um divertimento ou se não é um divertimento é uma espécie de libertação, o que não anda longe. Agora, depois destas palavras, raivosamente marteladas no teclado do Mac, talvez consiga respirar melhor. Não que a minha respiração pareça alterada. Acho.



(Fotografia duma das minhas primeiras esculturas, que bem poderia intitular-se A Perfuração da Mioleira :)












domingo, 31 de janeiro de 2016

O ÚLTIMO RISO DE AKEMI


Acabo de me libertar do meu cárcere ambulante. Apesar da leveza que me envolve,  permaneço presa no eco daquela última cena. Espero que por pouco tempo, não é de todo agradável.
Vejo-o afastar-se, sem pressa especial, embora perdendo-se rapidamente na neblina. Balança, com inusitada descoordenação, os braços longos, como se procurasse libertar-se do seu acto, e esse é o único sinal de inquietação. O som das ondas esvai-se-me nos tímpanos (ainda) melindrados pelas palavras, as únicas que foram proferidas, não aos berros, mas num sossego premeditado, frio, calculado. E eu para ali… 
Chamo-me, aliás, chamava-me Akemi. Tenho (ou tinha) vinte e um anos e, segundo consta (constava), sou (era) bonita, inteligente, irreverente e dotada dum afiado sentido de humor. Enfim, só coisas boas ou nem tanto, que, excepto a juventude e a beleza, os outros atributos só me trouxeram dissabores. Refiro-me às relações com os homens e, em especial, com ele. Mas isso já não me interessa, já não me pode interessar. Alguém se encarregará de juntar as pontas desprendidas desse passado curto, em cujo futuro tantas esperanças foram depositadas (não apenas por mim). Será ensaiada a reconstituição dos factos, mas duma coisa estou certa, nada poderá ser reconstruído. Isso também já não me interessa, situo-me, agora, para além da reconstrução. Ainda não me habituei bem à ideia, mas lá chegará o tempo e tempo é coisa que não me falta. Poderá mesmo dizer-se - embora com risco de cedência ao cliché - que tenho a eternidade à minha espera, ahahaha. Riso estranho, este, dadas as circunstâncias, mas cresci a acreditar que o riso é melhor remédio do que o choro. Mais uma coisa que o irritava sobremaneira.
Quase não ouço as ondas, ignoro se o mar morreu, mas a areia está bem viva, levanta-se em nuvens agressivas, que rodopiam sobre a minha pele nua, branca, derramada na vegetação ressequida das dunas. Imagino-me um pacote de leite vertido no chão. Mas alguém misturou xarope de framboesa ou algo do género, não consigo ver bem, já não consigo ver bem. Fecho os olhos ao sangue que me foge da carótida esventrada, muito sangue, demasiado apressado,  um gorgolejo enjoativo, glu-glu, a fazer-me evocar o peru de Natal da minha infância. Arregalo os olhos na estranheza desta associação parva e é assim que ficam, colados à imensidão do céu toldado de cinzento. Já não serei eu a fechá-los.  

Após me observar demoradamente, a mim e à minha volta, com atenção minuciosa, cerra-me as pálpebras, enquanto explode, numa fúria a que não é alheia uma mistura de raiva e frustração, - nada, absolutamente nada, nenhum vestígio, nem a porra duma pegada, que o cabrão foi matreiro e este vento estuporado encarregou-se de desfazer tudo, é só areia no ar! Uma coisa é certa, a desgraçada não podia estar mais morta. Grande naifada lhe atravessou o pescoço. Mal empregue pescocinho de cisne! Trata-se do Inspector Marques, Abílio Marques, como tem a mania de se apresentar, talvez convencido de que pode  passar por Bond, James Bond. A azáfama à sua volta não passa dum intróito. 








segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

PAISAGEM DE BAIXO PARA CIMA


Sempre para ali estendida, que essa é a forma de cumprir o seu destino. Sente-lhes o peso e observa-lhes as formas e as maneiras. Por vezes, um arraso, outras, uma leveza saltitante. E todas as cambiantes possíveis entre extremos. Pelo intervalo das fendas de pesos diversos, os olhos espreitam cenários duma variedade alucinante e, todavia, repetidos. Bainhas bem alinhadas ou em vias de descoser, directamente saídas de mãos tristes e laboriosas da China ou do Bangladesh, bordas de camisas estranguladas em cintos de todos os feitios e cores, quando não esparramadas por fora de calças e saias, pendendo como panos de cozinha a assombrar  paredes límpidas ou engorduradas. Barrigas salientes ou metidas para dentro e todos os seus intermédios. Peitos largos, espalmados, enormes, descaídos, atirados para a frente e mais. Mãos que afagam queixos proeminentes ou retraídos, ainda virgens de peles ou semelhantes a pingos de perú. Também um perú, uma vez. Surgiu, precedido dum gru-gru desorientado, em pânico, ela atrás, de faca em riste, a cozinheira, que não, que não podia ir para ali, não eram domínios nem dum nem doutro. Enfim, só aconteceu uma vez, compreende-se, era véspera de Natal. Mais um aparte, a cabeça do corpo alapado no sofá - sim, também via as solas dos pés do sofá, sempre imóveis, pesando no mesmo sítio, tolendo-lhe os movimentos, impedindo-lhe a fuga - desnorteou-se num movimento circular, quer dizer, semi-circular, elevou umas pálpebras condenatórias, sublinhadas por várias linhas paralelas, situadas um pouco acima, na testa. E houve palavras desagradáveis. Ouviu-as, embora a sua missão fosse mais ver. Ver e observar. Por vezes passam-lhe por cima duma forma atabalhoada. Elevam-lhe lombas, desamassam-lhe a penugem, agora mais lisa do que no início, quando da entrada triunfante na sala. Olha, é esta, genuína, disse alguém orgulhosamente. Naquela sua perspectiva de vistas, também calha observar intimidades, descuidos de quem lhe ignora a existência. Por vezes fica chocada. Outras vezes ri-se, divertida, animada pelo pensamento (mágico, diga-se de passagem) de que um dia poderá falar. Entretanto, continua a cumprir o seu papel, ao menos até ficar no fio e ser substituída (como todos nós, aliás!). É bege e por isso passa a vida na lavandaria. Só nessas alturas se liberta do peso permanente do sofá. Enfim, vida de carpete.   


(Imagem obtida em pesquisa Google)





segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

IMUNIDADE


Naquele dia - o dia de ontem, hoje ou amanhã-, os teus olhos divagavam, abstractos, na poeira que dançava à tua frente, animada por um inusitado raio de sol.


Bem vistas as coisas, os teus olhos perdiam-se para além da fina onda de poeira fracamente iluminada, como se procurasses alguma coisa há muito perdida ou há muito ansiada.

Pensamentos vários - de que, aliás, nem chegavas a tomar consciência -, confundiam-se com o panejamento urdido pelos etéreos dedos da poeira flutuante, como se uma orquestra reunida ao sabor do acaso.


O acaso, curiosamente o acaso! Não seria o acaso a raiz dos teus pensamentos?

Embarcavas numa maré de recordação, recordação do que poderia ter sido, misturada com a recordação do que poderia vir a ser, assim tipo, e se as coisas tivessem sido de tal modo?, quem sabe como virão a ser as coisas?

Sorriste, amparada pelo abraço da racionalidade, tua amiga e protectora de sempre, único valor seguro - ou talvez não, afinal tudo é o que é e o seu contrário e, na síntese, nada é ou é tudo...


Uma luz muito mais intensa e reveladora do que a do parco raio de sol que comandava a dança da poeira à tua frente ilumitou-te, qual aparição,  e segredou: o passado não passa dum futuro retrógrado, com presença relâmpago no momento auto-instantâneamente-consumido, portanto, nulo, do presente.

E se, afinal, não passasses, não passássemos,  de espantalhos plantados em campo aberto, no exacto ponto de  aleatório cruzamento duma maré de passados/futuros, a acontecer/acontecidosÍmanes predeterminados, na confluência do que calhar? Foi o que pensaste.

Entretanto, a poeira ía esmorecendo, à medida que o sol caminhava para lua, era aquela hora de transição, de que, aliás, tanto gostas - ou, segundo as últimas revelações, tanto te tinha/terá calhado gostar.

E lá estavas tu, os olhos num sorriso, já para cá - o mesmo é dizer, definitivamente para lá - da poeira, da poeira do tempo, quero dizer.

Imune.











domingo, 2 de agosto de 2015

OS ANIMAIS NÃO RIEM, ELES LÁ SABEM PORQUÊ


Lá ia ela, completamente imersa em pensamentos descabidos e outros nem tanto, desviada da atenção às coisas ali ao lado e, mesmo, às coisas em frente. Desta vez, dera em congeminar na razão por que os animais não riem, nunca tinha visto um animal, real ou em imagem fotográfica ou outra, que mostrasse os dentes num sorriso ou arregalasse os olhos numa boa gargalhada. Isto, porque acabara de ver um vídeo idiota, com um qualquer mantra - chamavam-lhe assim, fosse lá o que fosse - onde escorregavam, ao som duma melodia açucarada, bonitas imagens da natureza, animais incluídos e também um casal de humanos (o tal mantra whatever era sobre o amor, esse tema do tamanho do universo!). Enquanto o casal se derretia num sorriso amarelo torrado, os animais permaneciam imutáveis, naquela sua ausência de sorrisos, muito menos de risos. Pensou na cadeia alimentar que engrena e regula os fenómenos vitais e mortais, para não dizer concorrenciais, das espécies deste formoso planeta, a Terra (local dos factos), e não lhe custou perceber o comportamento dos animais, os outros, que não os humanos.
Foi assim, desenvolvendo este tema ao nível do interior da caveira, a sua, que entrou no quarto, batendo com a porta distraidamente. Nem ouviu o estalido do fecho ou então pensou que era alguém a rebentar um balão de pastilha elástica (como se houvesse alguém por perto!).
Fez o não sei quê que a levara ali e, ao deixar cair os olhos sobre certa foto em cima da cómoda, avivaram-se-lhe aqueles três homens. Todos tinham partido, um, o marido, para não mais voltar - vou ali comprar um frango assado, não me apetecem os rissões, volto já, foi o que disse, sem se deter sequer num beijo ou num olhar ou num gesto de mão, talvez uma festa. - E agora o que faço aos rissões, pensei que gostavas de rissões?, foi a resposta dela, esbanjada para o vazio, ele já desaparecido para lá da porta, como quem quer ir morar longe. Quando as páginas do calendário foram passando e ele sem aparecer ou dar notícias, ultrapassada a fase da preocupação e as outras, tipo, angústia, fúria, desgosto e etc., ela acabou por aterrar numa espécie de resignação sarcástica e pensou, como quem põe um ponto final num assunto ultrapassado, ao menos, o sacana do cabrão podia ter dito que ia comprar tabaco, sempre era um clássico!
Os outros dois, os filhos, na fúria da emigração tinham ficado por lá, fosse onde fosse, raramente apareciam ou davam notícias, e, quando vinham era para reverem os amigos e assim.
Voltou a fotografia de costas, já que, bem lá no fundo do poço de si, não conseguia voltar as costas à fotografia, e pensou, nada de mais, apenas acontece que estou só, aliás, ao fim de todo este tempo, já é mais caso para dizer, sou só. Que se lixe, antes só do que a fazer rissões para porcos (nesta parte sorriu, divertida, com a fusão de dois vulgares aforismos).   
Rodou o puxador da porta, como quem pretende dar a volta à vida, já a pensar em coisas banais, como, tenho de ir arejar a mioleira, e nada, a porta não abriu. Insistiu, insistiu, já a panicar dum ameaço de claustrofobia, e nada. Sentou-se na cama, respirou fundo, sossegou um pouco o coração desabrido, pensou, o telemóvel!, mas o telemóvel não estava consigo, aliás, começou a guinchar naquele preciso momento, lá longe, nos confins da sala (era um dos filhos, ao fim de quatro anos de ausência, a avisar - caso a chamada tivesse sido atendida - que ia aparecer daí a uma semana, para levar o Rolex do pai, sempre era uma recordação). Vociferou desesperos em forma de asneiras pensadas, sobretudo a começada por f, em todas as suas variações - que se f, estou f, vida f, f-se, sem esquecer a versão inglesa, sempre tão expressiva, nos filmes... -, passou à acção, arremessando coisas e, mesmo, arremessando-se contra a maldita porta, até que, ingloriosa nas suas tentativas, desabou no chão de madeira corrida, brilhante como a via láctea, sossegou e fez o ponto da situação, ora bem, estamos em Agosto, ninguém no prédio, sempre poupo a berraria, comida e bebida também não, resta-me dormir - e, depois disto, ainda aditou, bem que o puxador andava um bocado lasso, agora que penso nisso, se não tivesse por hábito a distracção, não me acontecia nada disto.
Vários telefonemas não atendidos depois, o filho do telefonema começou a realizar que algo não batia certo, afinal ela sempre estivera disponível para atender chamadas longínquas. Não encontrou ninguém a quem ligar, pois desconhecia contactos de eventuais amigos ou pessoas próximas dela, nunca se preocupara com isso. A Polícia estava fora de questão, não pretendia criar alarido sem razão certa. Na data programada apresentou-se à porta. Pressionou insistentemente a campainha, mas ninguém atendeu. Só depois duma  meia hora, em que a campainha rasgou as paredes do prédio como navalha a atravessar carne tenra, resolveu pedir a intervenção dos bombeiros. 
Eles lá sabem porquê - foi o pensamento que, embalado num sorriso irónico, a acompanhou para além da porta do quarto, pouco antes da entrada do filho, seguido dos bombeiros.  







quinta-feira, 23 de julho de 2015

A MENINA QUE VIVIA A SONHAR


lá longe, num planeta extremo, havia uma ilha, de pés dados ao mar
albergava uma casa pequena, refulgente de branco, qual campo de neve sob o luar do sol
mas não era neve, era simples cal
bem, escondia um segredo, não era apenas cal, pois - e só aqui entre nós - pó de diamante se lhe misturara
era mesmo isso que tanto brilhava!
tinha uma varanda, enrolada à volta, qual écharpe flutuante
uma varanda redonda, um círculo fechado, quero dizer, um círculo
só podia, pois a casa circunferenciava
dispensava telhado, escancarava-se para cima, com intenção
assim, os seus moradores podiam colher directamente farrapos de nuvens, aves vagabundas e estrelas cadentes
e até as outras, quiçá
tinha uma só porta, de caras para o mar
quando não alterava a localização, espantando-se para os lados ou para a parte de trás
quando, não cansada do mar - nunca se cansava do mar -, lhe apetecia ver o arvoredo, mudava de posto e quando, não cansada do arvoredo - nunca se cansava do arvoredo -, lhe apetecia o mar, voltava a mudar
e o mesmo quando queria ver ambos...
era apenas isso
mas, ao contrário do telhado, a porta permanecia sempre fechada
porquê?
porque não havia ninguém para lá entrar, a não ser quem, vindo da parte de cima, lá quisesse aterrar, embora depois fosse livre de voltar a voar
ah! já me esquecia de dizer, a ilha era deserta, sem sombra de alminha para a habitar
bem, não era exactamente assim, alguém lá haveria, mas era segredo, bem guardado da porta para dentro - e só aqui entre nós deixa de o ser, que falo baixinho, num murmúrio brando e estou bem ciente que não ireis contar
e quem era esse alguém?
isso já não sei, toca a adivinhar!
seria um duende, um troll, um dragão, um cãozinho agitado, uma fada madrinha, uma bruxa má, uma pessoa bonita, uma rã coxa, sempre a coaxar, a princesa da ervilha, o joão ratão, o burro do schreck, um qualquer minion ou então quem?
toca a adivinhar!
nada disso, estou já a avisar
quando descobrirem, venham-me contar!
... ora, ninguém sabe, vou confidenciar: era uma menina que vivia a sonhar!
   








sábado, 11 de julho de 2015

PALAVRAS CALADAS, GESTOS MUDOS


Não entendo o que te deu, de repente iniciaste um murmúrio, como quem reza a nenhum santo, como quem entrega palavras ao vento que passa devagar ou se limita a deixá-las cair, sem qualquer intenção de arremesso, nem zanga nem mágoa nem resignação, apenas um cântico da indiferença, da mera constatação, liberto de juízos, melindres ou acusações, como quem está tão de fora, do lado do além, que só pode ter mergulhado fundo, por dentro, ultrapassado as paredes de si e, com elas, o desgosto, o irrealizado, o conto dos amores desfeitos, e começaste a dizer: 

calam-se as palavras do desejo
poupam-se os gestos da ternura
prendem-se os beijos
desaprende-se o sonho
fecham-se os corpos, hirtos
apagam-se as luzes 
resta a penumbra 
uma réstia
resta uma réstia de penumbra
para ver
apenas
o filme
das ausências
para lá das ausências
na paz 
da simples
observação

Espantei-me para ti, como quem interroga, o que estás a dizer, isso é contigo, é de ti que falas, nessa abstracção de desenganos, nessa calma de quem reza mas não é a santos? E tu, nada, nem sequer me retribuíste o olhar! Já te perdias nas próximas palavras, talvez, nessa litania sem o ser. Vestiste o casaco, levantaste a gola, que estava frio, já ia estando frio, olhaste para fora e, de repente, já de saída, rodaste o corpo na minha direcção e disseste, sabes, apetecia-me chuva, que chovesse, quero dizer. Derramei-te a minha perplexidade, esquecendo-me que sempre gostaste de chuva e perguntei, sem jeito, chuva, apetece-te chuva, mas porquê? Já estavas de saída, nem ouviste a pergunta, já ias longe, mas continuava o tempo seco. Pensei e, ao mesmo tempo, disse, como quem reza a nenhum santo, como quem entrega palavras ao vento que passa devagar ou se limita a deixá-las cair, sem qualquer intenção de arremesso, nem zanga nem mágoa nem resignação, apenas um cântico da indiferença, da mera constatação, liberto de juízos, melindres ou acusações, como quem está tão de fora, do lado do além, que só pode ter mergulhado fundo, por dentro, ultrapassado as paredes de si e, com elas, o desgosto, o irrealizado, o conto dos amores desfeitos, disse:

cala-se a chuva
até a chuva se calou

Espanejo os cabelos,  e é a minha vez de sair, preciso de apanhar ar, visto o casaco, levanto a gola, que está frio, já vai estando frio, bato a porta, coloco os olhos em modo de ver e estás lá, e, como se nada fosse e nada importasse, dizes, estava à tua espera, vamos? Ou terá sido uma ilusão, porque, como começaste por dizer,  calam-se as palavras...  Calam-se as palavras do desejo, foi o que comecei por dizer - corriges. 

Seja, engolem-se as palavras do desejo... 







sábado, 27 de junho de 2015

ONDE A LEVARIA AQUELE VESTIDO-TELA?


Por vezes, acontece. Um simples traço, o brilho duma cor, talvez nada disto, e lá vem a evocação. Um vestido, numa repetição esporádica, de tempos a tempos, sem cadência ou razão certa, que se saiba. Sabe-se lá despertado por que pormenor (ou não, talvez não seja um pormenor...). Constava de três cores, azul, vermelho e branco, geometricamente separados, como se só assim pudessem conviver, o branco na parte de cima, o corpo, o azul na parte de baixo, a saia, e um cinto vermelho a rematar, na cintura descaída, a meio da anca. Linha direita, o tecido não era linho, nem seda, de resto não interessa nada qual seria. Sente-lhe a textura, como se ainda lhe envolvesse o corpo. Era fresco e macio ao toque, sem ser mole. Ah! e tinha manga curta, já se percebeu que era um vestido de Verão. Um vestido dos alvores da adolescência, que lhe vem à memória como convite repetido, embora não se saiba para quê (uma coisa a pensar). Partilhava a geometria do vestido-tela de Yves Saint Laurent, mas  num modo mais contido, sem o desacerto das linhas assíncronas, descoincidentes, e faltava-lhe o separador preto e o berro do amarelo, ainda bem, não gostava nada de amarelo, precisamente porque sempre lhe pareceu um grito, e não estava habituada a gritos - e, mais importante, já sabia, embora sem consciência, que a fronteira entre os sussurros e os gritos é tão breve como a espuma dum cappuccino, mas isso não é para aqui... Naquela altura, nem sonhava que existia um YSL, com o seu vestido-tela e o seu smoking feminino e outros clássicos mais, talvez ainda não tivesse ouvido falar nas telas da inspiração, dum tal Piet Mondrian. Não, seguramente. Nada disso importava, tinha o vestido chique, para exibir os seus recatados catorze ou quinze anos, para fantasiar deslumbramentos, com aquele fundo de inspiração que eram as únicas viagens da sua vida-até-aí de menina crescida - afinal, tinha brincado com bonecas até aos treze anos, embora já embalada num pensamento adulto. Enfim, contradições. As viagens à cidade que parecia Londres - Londres, o que era Londres? Não, ainda não lhe ocorrera Londres... - e às praias dos seus arredores, o lado chique - na altura esta palavra usava-se - dos meninos bem da Foz, nos seus impecáveis blazers azuis escuros e calças cinzentas, cabelos alourados, calculadamente espavoridos pelo vento, sobrevoando os descapotáveis de corrida, ou quase. Onde a levaria aquele vestido-tela

(Imagem obtida em pesquisa Google)






domingo, 12 de abril de 2015

THE DAY AFTER

Hoje é outro dia, aliás, os dias seguintes são sempre outros dias ou assim parece. Todavia, não raras vezes, quando nos debruçamos na varanda do passado, os dias idos reduzem-se à uniformidade do mesmo.
Mas hoje é outro dia, quero dizer, um dia marcado pela diferença, embora esta se resuma ao pequeno rectângulo de papel preso entre os meus dedos cansados e ainda vacilantes, não recuperados deste súbito.
Ignoro completamente o que fazer com isto, este recorte geométrico de papel escrito em números e por extenso, mesmo assim, uma abstracção.
Não tinha antecipado isto, embora deva dizer que, inúmeras vezes, ousara imaginá-lo, mas perdia-me na esquina da primeira hipótese e, entretanto, adormecia. Sonos - e sonhos - agitados, de resto.
Estarei a dormir? Não, desde que regressei a casa, há cerca de duas horas, afundei-me na cadeira de costas inclinadas, semicerrei os olhos e estou nisto, nesta estupefacção imobilizadora. Bem, talvez tenha dormitado um pouco.
É meio dia, preciso de ir ao Banco, afinal algum destino imediato tenho de dar a este papel, que agora me escorrega das mãos, não como quem quer fugir, mas como quem é empurrado. Também já começo a sentir uma certa fome e comida é coisa que não cresce por aqui, exceptuado o pão duro, de dias, um pacote de bolacha Maria, já fora de prazo e amolecido, e uma raspa de queijo bolorento. Não era assim no tempo dela, mas esse tempo já foi, despenhou-se da tal varanda do passado.
Pelo caminho vou congeminando para com as casas dos meus botões - sim, não percebo por que haveriam de ser os botões - deixo lá o rectângulo de papel, a troco dum certificado de depósito e depois... Ora, não consigo descortinar o caminho do depois.
Fico-me pelo Peixinho da Horta, o restaurante, mas a fome perdeu-se lá atrás, de mãos dadas com a indecisão, cerrada no impasse do rectângulo de papel, agora transformado em círculo.
Sobressalto-me com o toque do telemóvel, as mais das vezes remetido a um silêncio ostensivo. Nunca me habituei a esta voz, a da máquina, quero dizer.
- Sr. Antunes?
- Não, daqui é Fernandes.
- Desculpe, foi engano.
Aproveito para ver as horas, uma das principais vantagens do telemóvel, ao menos para mim, sempre escuso de carregar com o relógio. Já são quatro horas, o Banco fechou.
Mais um tempo morto consumido no regresso a casa, a pé, arrastando-me pelo bairro, as pernas pesadas, trôpegas, ameaçando ruir à primeira irregularidade da calçada.
Não sei porquê, vem-me à ideia, por onde andarão eles, que nunca dizem nada? Bem, não que isto interesse, estou cansado de saber como é, têm as suas vidas, não lhes sobra tempo. A lengalenga do óbvio prossegue contra minha vontade, é sempre assim, nunca consigo rematar este assunto, insisto, pela enésima vez, no contraponto: - e a mim sobra-me tempo e já não tenho vida
Fizeram-se quase nove horas, não sei por onde me perdi, para só chegar agora, já tudo escuro, não fosse a iluminação pública...
Estatelo-me na cadeira de há bocado - e de sempre, dos outros dias e dela, era onde se sentava, depois passou para mim, apropriei-me, como se assim pudesse reter uma sombra (ou uma sobra?) da sua presença, incorporar um aconchego. É curioso, comecei o dia a pensar que hoje era outro dia, mas não, é apenas o dia eterno dos meus dias, os que foram e os que sobram, se é que sobram alguns.
O sol invade as janelas, passando a custo pela cortina cerrada da sujidade - desde então, desde ela, nunca mais conheceram um gesto de limpeza -, procuro o rectângulo de papel por entre o emaranhado que me enche o bolso. Não o encontro. Despejo o bolso, este bolso e o outro e os outros, mas nada. Uma tremura, para além da tremura habitual, a que o meu corpo já se habituou e acolheu como sua, irrompe num repente, mas desaparece no repente seguinte, e dou comigo a desabafar, aliviado:- deve ter caído quando atendi o telemóvel, ora, que se lixe, eram só cento e trinta e sete milhões de euros e, bem vistas as coisas, nem sabia o que fazer com eles.
Será novo engano? Deixa-me cá atender.
- Pai, pai, parabéns, pai! Somos nós, vimos a notícia no jornal e vamos a caminho.
Só então acordo daquela espécie de pesadelo - ou será sonho ou realidade? Volto a procurar nos bolsos, definitivamente não está lá. Que se lixe, penso, nas asas do divertimento, enquanto a gargalhada estoira, abanando-me o corpo como se um terramoto, e ouço a apreensão do lado de lá, dos que já vêm a caminho,
- Pai, está bem? 
- Pai, pai, responda, está bem?  
    




quinta-feira, 5 de março de 2015

GATO PRETO, SEXTA-FEIRA TREZE


I

Sempre detestei a superstição! Assim, no meu modo de ver, o sucedido e, em particular, o desfecho, nada teve a ver com superstição.
Aconteceu simplesmente que, naquela sexta-feira treze, dia enevoado e morno, galguei as escadas marmóreas dum prédio em construção, até ao terraço do 13º andar, à procura do meu gato preto, de nome Sortudo, que, uma vez mais, na sua característica atitude de desafio, se escapulira da minha pessoa e, cúmulo do descaramento, dos meus insistentes chamamentos.
Cheguei lá acima sem sombra de fôlego ou vestígios de gato, sob um coro ascendente de protestos dos operários, que, estarrecidos pela ousadia de tamanha irresponsabilidade, me instavam a retroceder. Bem, também ouvi um ou outro assobio admirativo, assim tipo piropo, não sei se pela agilidade demonstrada, se por outra coisa, quero crer que por outra coisa. Todavia, nada me demoveu da urgência maternal de recuperar o desobediente felino.
Mais desesperada do que estafada, olhei à volta, rodando-me 360º, qual dervixe, sem vislumbrar sequer um pelo negro, quanto mais o Sortudo. Antecipando o pior, abeirei-me do limite extremo do terraço, ainda desguarnecido de protecção e, esquecendo-me de que já ouvira referir um fenómeno chamado vertigens, olhei para baixo, concentrando-me noutra coisa que também já ouvira, a saber, que os gatos têm sete vidas e, para além disso, caem sempre de pé. Ainda tive tempo de pensar que devia ser essa a razão por que escolhera um gato, também eu tinha por hábito cair de pé…
Contudo, o momento não era para reflexões, até porque, boquiabertos e de capacetes enterrados na cabeça, já meia dúzia de operários - bem, não é que os tenha contado… - formavam uma espécie de guarda suspensa à minha disparatada pessoa, agora com o cabelo num desalinho de vento, as faces acesas numa labareda, os olhos num espanto esbugalhado e, pior, os braços agitados num equilíbrio instável, pois acabara de aterrar na consciência de que, a) o gato voava sem asas, b) eu nem com asas conseguiria voar e, vista daquela perspectiva, uma altura de treze andares equivalia mais ou menos à distância da lua à terra.

II

Foi aí que um dos operários, como se tivesse poderes de representação dos restantes, que, aliás, sublinhavam as suas palavras com acenos afirmativos de cabeça, disse, por entre uma lividez que procurava disfarçar, tentando mostrar-se o mais calmo possível, quer dizer, nada calmo: 
- A senhora tenha calma, aguente-se, que nós vamos buscá-la, não olhe para baixo… 
Nos seus olhos, quero dizer, nos olhos de todos eles, transparecia a antecipação do meu corpo esfarrapado no maldito asfalto, que sabiam tão perto e queriam acreditar tão longe, apesar da conjugação sexta-feira treze, 13º andar e gato preto não augurar, à luz das suas trevas, nada de bom.
O representante, talvez de nome José, adiantou-se cauteloso, com um braço quilometricamente estendido, enquanto eu balançava, agoniada pela visão longínqua duma espécie de formigas com duas pernas e dois braços, acumuladas lá em baixo, no longe, de cabeças esticadas para trás e para cima, num ameaço de pescoços partidos. Repetiu, por palavras semelhantes, a mensagem anterior, enquanto deixava escapar um fumo de pensamento, que repetia, incessantemente, pobre mulher, o que a terá levado a isto?, quem sabe se o marido lhe bate, se é que tem marido, se lhe morreu algum filho, talvez tenha perdido um amante ou o emprego, que isto da crise toca a todos, mas não, não se justifica uma atitude tão estranha…. Pois não - concordava o pensamento doutro, talvez de nome António -, especialmente porque vai sobrar para nós; se a tivéssemos impedido, não estávamos agora neste apuro, ainda vão dizer que a culpa foi nossa, é o que eu digo, sobra sempre para os mesmos, ela a ficar na paz dos anjinhos e nós a levar uma valente descompostura do patrão, isto se não lhe der para nos despedir… E logo a outro, talvez de nome Boris, lhe ocorreu lembrar-se do tio da mulher do primo que, tendo sido deportado por razões políticas, não aguentou a tortura do afastamento, para não falar doutras, e acabou com a vida, mordendo os pulsos até o sangue espirrar que nem água de torneira avariada…
É espantosa a quantidade de pensamentos deslocados que se expandem na imensidão dum micro-segundo, consegui ainda - e estranhamente - pensar, no instante em que os dedos do operário avançado não conseguiram segurar-me e, no derradeiro instante de tentativa e esforço, cedi ao desequilíbrio anunciado, escorreguei para a brisa morna e cinzenta daquela atmosfera em que vogavam dois ou três pelos negros do Sortudo, que habitava, meio atordoado, os braços do Francisco, após ter aterrado num fofo monte de areia, despojo da construção, assim confirmando o acerto do nome.
Mesmo sem espreitarem o abismo, os operários precipitaram-se escadas abaixo, entre a frustração e a zanga por não me terem conseguido salvar, a tristeza pela minha sorte e, sobretudo, a curiosidade pela maldita incógnita que a tinha ditado, sem excluir a ansiedade pela antevisão da fúria do patrão e sabe-se lá que mais emoções e pensamentos.  

III   

E lá estavas tu, Francisco, meu melhor amigo, dando colo ao atordoado Sortudo, enquanto olhavas para cima com uma calma contrastante com a agitação histérica das pessoas que cresciam como formigas à volta de açúcar, que a desgraça alheia é assim mesmo, tem o condão de provocar concentrações alvoroçadas e gulosas. 
Tinhas-me visto entrar no prédio, seguindo o resto voador do felino, chamaste-me sem obter resposta, ouviste a algazarra dos operários, somaste uma coisa à outra e logo concluíste não haver nada a fazer, a não ser esperar, pacientemente, que descesse. Só não contavas ver-me chegar tão depressa àquele despenhadeiro do terraço e debruçar-me da borda em equilíbrio instável. Por mera cautela, ligaste ao 112, tentando prevenir a hipótese que se perfilava. Enquanto me sentias arrebatada para o vazio nublado daquele dia, soubeste que consegui ouvir, lá ao longe, o guincho desesperado e desesperante do carro dos bombeiros, numa pressa despropositada, porque impossível de cumprir com a velocidade do acontecimento.
De resto, nunca te rendeste, limitaste-te a afagar o gato e a fixar os olhos no meu deslizamento, como se a força do teu olhar conseguisse anular a força da gravidade. E acreditavas mesmo nisso.
Por isso não te admiraste quando, num repente, soprou um vento tão forte e ascendente que me transportou, num ápice, restituindo-me à beira do terraço, para logo amainar, numa calmaria só igual à tua.
A força que os teus olhos tinham emitido transfigurou-se num sorriso alegre, ao mesmo tempo que levantavas os braços, acenando-me um adeus que era também um chamamento e deixando cair o gato, agora totalmente recuperado.





segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A PRIMEIRA LIÇÃO DE LEITURA DO ESQUIZOFRÉNICO ESPACIAL


Mesmo nos idos de 3055, já poucos se lembravam do que era o prazer da leitura, há muito que o conhecimento, para não falar da simples informação, chegava directamente ao cérebro das criaturas, através de sofisticados interfaces virtuais, parcialmente alimentados pelo manancial do que sobrara - e era considerável - de civilizações extintas, sobretudo, pela ganância e estupidez de antigos habitantes. Tornada obsoleta, por desnecessária, a leitura entrara, todavia, na categoria do luxo, sendo ensinada a peso de ouro lunar, pelos poucos que detinham o conhecimento da arte, sim, porque ler era considerado uma arte.
Fora, precisamente, a obsessão por aprender a ler que o levara a introduzir-se, furtivamente, no último atelier de restauro de livros, bravo resistente à sanha destruidora do Ministério da Homogeneização.
É verdade que a maior parte das criaturas ignorava, sequer, o que fosse um livro, quanto mais a existência duma arte de ler, e, por isso, sufragados pela opinião do médico oficial, tinham-no rotulado de esquizofrénico - apesar do salto genético verificado no último século, este distúrbio mental persistira -, levando à conta de delírio a sua entusiasmada conversa sobre livros, à conta de alucinação, a sua jura de que já segurara um livro e da beleza que encerrava, e à conta de estado depressivo, o seu abatimento por não saber ler. Enfim, diagnóstico incompetente de criaturas formatadas para absorverem passivamente o que os poderes instituídos permitiam que os interfaces virtuais filtrassem para os seus geométricos neurónios.
De resto, esta sua esquizofrenia e respectivos custos já vinham de longe, como a memória da infância se encarregava de lhe lembrar, com persistência e rigor pendular, contando-lhe da valente sessão de reguadas que um dia apanhara do seu cuidador, aquele estúpido robot de lata - como lhe chamava, embora sem rigor, que ele não era de lata -, pelo simples facto de ter feito uma birra monumental porque, em vez da mais recente actualização de software neuronal, entendeu por bem reclamar um livro, um só que fosse, com a particular especificação de falar do mar e conter fotografias deste. Coisa estranha, delírio, verdadeiro alvoroço, onde teria ele ido buscar semelhante ideia?, nunca o cuidador lhe falara em tais coisas, livros, mar… Foi aí que o médico oficial, ainda na Escola de Actualização de Versões, lhe diagnosticou o marcante mal.
Não que ele se tenha importado ou, pelo menos, demovido, da imensa vontade de aprender a ler, de segurar um livro entre as pinças que lhe serviam de dedos, de o cheirar, como sabia que, outrora, as criaturas ditas humanas tinham feito. Essa vontade só tinha uma medida par, a enorme frustração por não saber ler!
E foi assim que entrou furtivamente no atelier de restauro de livros sobrante, escapulindo a sua magreza espalmada pela pequena abertura da porta deixada entreaberta, num descuido desconcentrado de quem já vai precisando de descansar, mas não tem tempo nem para pensar nisso.
Escondeu-se atrás duma estante repleta de livros, e, na proporção em que evitava mover-se ou fazer barulho, abriu muito os berlindes verdes que lhe serviam a visão, e pôs-se a observar com desmedida atenção, como quem não quer perder nem uma vírgula, todos e cada um dos volumes que percorriam as estantes casadas com as paredes da enorme divisão, apreciando-lhes as lombadas, na variedade de cores, tamanhos, estado de conservação, tipo de caracteres inscritos, brilhos e tudo o mais, ao mesmo tempo que imaginava os segredos que aí se encerrariam, os cheiros que se desprenderiam, a aspereza ou o cetim do toque, enfim, todo um mundo que, apesar de lhe ser desconhecido na realidade, lhe era tão familiar numa zona outra que nem ele sabia onde se alojava ou donde poderia provir. Não que isso importasse.
O seu estado de empolgamento atingiu o auge, impelindo-o contra uma das estantes, na pressa de abraçar um daqueles preciosos objectos de intenso desejo, esquecimento momentâneo da sua necessidade de anonimato. A animação foi tal que se estatelou contra o vidro da estante, provocando desabrido susto e espanto no guardador e restaurador de livros, que, afincadamente, reavivava umas belíssimas iluminuras dum exemplar medieval.
Esparramado no chão, balbuciou um apressado e insistente pedido de desculpas, justificado com a sua obsessão por aprender a ler. O outro, reconhecendo a genuinidade da justificação e do desejo expressos, sossegou-o, e prontificou-se a ensiná-lo a ler, afinal, era preciso começar por algum lado, espalhar as palavras para além da zona de luxo a que tinham sido confinadas. Espantado, o esquizofrénico acalmou, enquanto o livreiro, com bonomia, lhe disse,  - não estranhes, por vezes "cair é esperar que nos levantem", como li num desses livros.
O esquizofrénico ousou, então, expressar mais um pedido, uma especificação do anterior, um livro relativo ao mar, - onde aprendeste sobre o mar?, perguntou-lhe o livreiro, - no mesmo sítio onde aprendi sobre livros, - e onde foi isso?, - num sítio que não sei, mas que é fora deste onde habito e donde quero desaparecer, - para quê?, - para fugir deste frio em que habito.
E assim começou a primeira lição de leitura do esquizofrénico espacial.