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domingo, 2 de agosto de 2015

OS ANIMAIS NÃO RIEM, ELES LÁ SABEM PORQUÊ


Lá ia ela, completamente imersa em pensamentos descabidos e outros nem tanto, desviada da atenção às coisas ali ao lado e, mesmo, às coisas em frente. Desta vez, dera em congeminar na razão por que os animais não riem, nunca tinha visto um animal, real ou em imagem fotográfica ou outra, que mostrasse os dentes num sorriso ou arregalasse os olhos numa boa gargalhada. Isto, porque acabara de ver um vídeo idiota, com um qualquer mantra - chamavam-lhe assim, fosse lá o que fosse - onde escorregavam, ao som duma melodia açucarada, bonitas imagens da natureza, animais incluídos e também um casal de humanos (o tal mantra whatever era sobre o amor, esse tema do tamanho do universo!). Enquanto o casal se derretia num sorriso amarelo torrado, os animais permaneciam imutáveis, naquela sua ausência de sorrisos, muito menos de risos. Pensou na cadeia alimentar que engrena e regula os fenómenos vitais e mortais, para não dizer concorrenciais, das espécies deste formoso planeta, a Terra (local dos factos), e não lhe custou perceber o comportamento dos animais, os outros, que não os humanos.
Foi assim, desenvolvendo este tema ao nível do interior da caveira, a sua, que entrou no quarto, batendo com a porta distraidamente. Nem ouviu o estalido do fecho ou então pensou que era alguém a rebentar um balão de pastilha elástica (como se houvesse alguém por perto!).
Fez o não sei quê que a levara ali e, ao deixar cair os olhos sobre certa foto em cima da cómoda, avivaram-se-lhe aqueles três homens. Todos tinham partido, um, o marido, para não mais voltar - vou ali comprar um frango assado, não me apetecem os rissões, volto já, foi o que disse, sem se deter sequer num beijo ou num olhar ou num gesto de mão, talvez uma festa. - E agora o que faço aos rissões, pensei que gostavas de rissões?, foi a resposta dela, esbanjada para o vazio, ele já desaparecido para lá da porta, como quem quer ir morar longe. Quando as páginas do calendário foram passando e ele sem aparecer ou dar notícias, ultrapassada a fase da preocupação e as outras, tipo, angústia, fúria, desgosto e etc., ela acabou por aterrar numa espécie de resignação sarcástica e pensou, como quem põe um ponto final num assunto ultrapassado, ao menos, o sacana do cabrão podia ter dito que ia comprar tabaco, sempre era um clássico!
Os outros dois, os filhos, na fúria da emigração tinham ficado por lá, fosse onde fosse, raramente apareciam ou davam notícias, e, quando vinham era para reverem os amigos e assim.
Voltou a fotografia de costas, já que, bem lá no fundo do poço de si, não conseguia voltar as costas à fotografia, e pensou, nada de mais, apenas acontece que estou só, aliás, ao fim de todo este tempo, já é mais caso para dizer, sou só. Que se lixe, antes só do que a fazer rissões para porcos (nesta parte sorriu, divertida, com a fusão de dois vulgares aforismos).   
Rodou o puxador da porta, como quem pretende dar a volta à vida, já a pensar em coisas banais, como, tenho de ir arejar a mioleira, e nada, a porta não abriu. Insistiu, insistiu, já a panicar dum ameaço de claustrofobia, e nada. Sentou-se na cama, respirou fundo, sossegou um pouco o coração desabrido, pensou, o telemóvel!, mas o telemóvel não estava consigo, aliás, começou a guinchar naquele preciso momento, lá longe, nos confins da sala (era um dos filhos, ao fim de quatro anos de ausência, a avisar - caso a chamada tivesse sido atendida - que ia aparecer daí a uma semana, para levar o Rolex do pai, sempre era uma recordação). Vociferou desesperos em forma de asneiras pensadas, sobretudo a começada por f, em todas as suas variações - que se f, estou f, vida f, f-se, sem esquecer a versão inglesa, sempre tão expressiva, nos filmes... -, passou à acção, arremessando coisas e, mesmo, arremessando-se contra a maldita porta, até que, ingloriosa nas suas tentativas, desabou no chão de madeira corrida, brilhante como a via láctea, sossegou e fez o ponto da situação, ora bem, estamos em Agosto, ninguém no prédio, sempre poupo a berraria, comida e bebida também não, resta-me dormir - e, depois disto, ainda aditou, bem que o puxador andava um bocado lasso, agora que penso nisso, se não tivesse por hábito a distracção, não me acontecia nada disto.
Vários telefonemas não atendidos depois, o filho do telefonema começou a realizar que algo não batia certo, afinal ela sempre estivera disponível para atender chamadas longínquas. Não encontrou ninguém a quem ligar, pois desconhecia contactos de eventuais amigos ou pessoas próximas dela, nunca se preocupara com isso. A Polícia estava fora de questão, não pretendia criar alarido sem razão certa. Na data programada apresentou-se à porta. Pressionou insistentemente a campainha, mas ninguém atendeu. Só depois duma  meia hora, em que a campainha rasgou as paredes do prédio como navalha a atravessar carne tenra, resolveu pedir a intervenção dos bombeiros. 
Eles lá sabem porquê - foi o pensamento que, embalado num sorriso irónico, a acompanhou para além da porta do quarto, pouco antes da entrada do filho, seguido dos bombeiros.  







quinta-feira, 23 de julho de 2015

A MENINA QUE VIVIA A SONHAR


lá longe, num planeta extremo, havia uma ilha, de pés dados ao mar
albergava uma casa pequena, refulgente de branco, qual campo de neve sob o luar do sol
mas não era neve, era simples cal
bem, escondia um segredo, não era apenas cal, pois - e só aqui entre nós - pó de diamante se lhe misturara
era mesmo isso que tanto brilhava!
tinha uma varanda, enrolada à volta, qual écharpe flutuante
uma varanda redonda, um círculo fechado, quero dizer, um círculo
só podia, pois a casa circunferenciava
dispensava telhado, escancarava-se para cima, com intenção
assim, os seus moradores podiam colher directamente farrapos de nuvens, aves vagabundas e estrelas cadentes
e até as outras, quiçá
tinha uma só porta, de caras para o mar
quando não alterava a localização, espantando-se para os lados ou para a parte de trás
quando, não cansada do mar - nunca se cansava do mar -, lhe apetecia ver o arvoredo, mudava de posto e quando, não cansada do arvoredo - nunca se cansava do arvoredo -, lhe apetecia o mar, voltava a mudar
e o mesmo quando queria ver ambos...
era apenas isso
mas, ao contrário do telhado, a porta permanecia sempre fechada
porquê?
porque não havia ninguém para lá entrar, a não ser quem, vindo da parte de cima, lá quisesse aterrar, embora depois fosse livre de voltar a voar
ah! já me esquecia de dizer, a ilha era deserta, sem sombra de alminha para a habitar
bem, não era exactamente assim, alguém lá haveria, mas era segredo, bem guardado da porta para dentro - e só aqui entre nós deixa de o ser, que falo baixinho, num murmúrio brando e estou bem ciente que não ireis contar
e quem era esse alguém?
isso já não sei, toca a adivinhar!
seria um duende, um troll, um dragão, um cãozinho agitado, uma fada madrinha, uma bruxa má, uma pessoa bonita, uma rã coxa, sempre a coaxar, a princesa da ervilha, o joão ratão, o burro do schreck, um qualquer minion ou então quem?
toca a adivinhar!
nada disso, estou já a avisar
quando descobrirem, venham-me contar!
... ora, ninguém sabe, vou confidenciar: era uma menina que vivia a sonhar!
   








segunda-feira, 11 de maio de 2015

NÃO RESISTO. REGISTO!


Revisito Lisboa, agora, de lá par cá. Constato, sem surpresa: Lisboa é linda! O Tejo e os barcos fazem o resto (mas estes barcos e este Tejo também são Lisboa). 




























domingo, 29 de março de 2015

AJA


Bem que não queria, afinal estava tão comodamente  instalada no criticismo participativo! Quer dizer, vinha exercendo a intervenção cidadã, através da análise da realidade circundante.

Todavia, a capacidade foi-se-me esgotando, não por falta de objecto de incidência, mas porque este passou a situar-se em planos que exorbitam, manifestamente, a lógica de qualquer crítica: porque quebram todos os padrões de julgamento ético, dada a torpe violação das fronteiras mínimas do aceitável; porque quebram todos os padrões de julgamento racional, dada a grosseira irracionalidade de que padecem. E por aí fora...

Simultaneamente expressão e corolário mor desta realidade, logo, paradigma dos paradigmas, foi, por certo, o comportamento do mais alto magistrado da nação, quando, na tentativa de desvalorizar o impossível de desvalorizar - toda a polémica das dívidas do primeiro-ministro à segurança social, aliás, não consideradas, (também) pelo próprio, como motivo de pedido de demissão! - assobiou para o lado, aliás, cheirou para o lado. Vocês sabem, anunciou que já sentia um cheirinho a campanha eleitoral, insinuando tratar-se de lutas partidárias... 

Que comentário pode isto merecer de qualquer cidadão minimamente esclarecido, inteligente e preocupado com a dignidade própria e institucional? Nenhum! Nenhum, porque, como digo acima, está muito para além das razoáveis fronteiras da transgressão/aceitação, no plano lógico e deontológico.

Talvez tenha sido aí que, olhando para o copo do meu descontentamento e estupefacção  me deparei com a última gota, a que fez transbordar o conteúdo. Ou seja, concluí que estava na hora de mudar de registo! 

Eis por que, alguma reflexão depois, decidi criar um anti-partido, o Acção Já!, abreviadamente, AJA.

Como anti-partido que é, o AJA não arregimenta militantes ou dirigentes, não faz promessas, não pede nem aceita subvenções estatais ou qualquer outra espécie de donativos, não participa em arcos governativos nem etc. Limita-se a ter uma ideologia, uma missão e uma visão: 

(como uma fotografia ao acaso inspira a criação dum anti-partido e se transforma no respectivo cartaz :)


      


sábado, 18 de outubro de 2014

CONHECI HARUKI MURAKAMI, À BEIRA-MAR, ATRAVÉS DE KAFKA!

 
Poderia dizer que travei conhecimento com Haruki Murakami à beira-mar, através de Kafka!
Na realidade, não foi esse o caso, aconteceu apenas que  Kafka à Beira Mar foi o primeiro dos seus livros que tive o privilégio de ler e que logo me deixou rendida à estranheza daquele universo que o Autor tão bem sabe construir e onde tão bem situa e faz evoluir os seus singulares personagens, levando-os a viver hipóteses de histórias tão desafiadoras da imaginação, quanto da coerência lógica, sempre embalados na reflexão sobre o enigma da mente e da natureza humanas.
Após outros seus livros, em que o meu nível de encantamento em nada ficou defraudado, surgiu o célebre e icónico 1Q84, que, por comparação com aqueles, me pareceu configurar uma nova abordagem de estilo -  desde logo na estrutura do fio condutor, mais linear - e de solução de encerramento - a escolha dum desfecho concreto, assumido enquanto tal. Isto, sem nada perder da fascinante estranheza do mundo, aliás, dos dois mundos paralelos, em que a acção se desenrola, o mesmo se aplicando à singularidade dos personagens e ao permanente desafio à linha duma certa coerência, a do estabelecido, ou, dito doutro modo, da normatividade do real. Embora se me afigure que os personagens, maxime, os principais - meus saudosos Tengo e Aomame, sem esquecer Fukaeri - possuem uma definição mais estruturada e, sobretudo, que a história acaba por evoluir, a par e passo, para um destino que, (só) a final, se descobre marcado por uma lógica eventualmente susceptível de ser considerada alheia à irrealidade do percurso a ela conducente.
Passaram uns dois anos e eis-me, novamente, a explorar o universo murakamiano. Aconteceu que ia comprar A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol (1992), e comprei, também, Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo.  
Comecei por este, no qual, como o título indica, Murakami nos dá testemunho da sua prática desportiva, enquanto corredor de fundo, ou, talvez melhor, nos dá testemunho de si próprio, através do seu percurso desportivo. Na verdade, é curioso notar que, a par de alguns factos da sua vida - como o início profissional, enquanto dono/gestor de dois bares de Jazz, e o momento, tão inesperado quanto luminoso, em que, sem mais, decidiu ser escritor, escrevendo, de seguida, o seu o 1º livro, Hear the Wind Sing , com o qual, fulgurantemente, arrecadou um prémio para novo escritor revelação -, ele acaba por nos oferecer uma imagem da sua personalidade, que é, também, uma imagem da modelação japonesa, na qual se destacam, como pontos fortes, a cultura do trabalho, da perseverança e do sacrifício, do desejo de excelência e de superação, do rigor e da humildade, e uma interioridade marcada pela solidão, enquanto reduto último (e íntimo) da criatividade e do pensamento. O estilo é simples, directo e, no essencial, espartano, a condizer com a (suposta) personalidade. Compreensivelmente, os mundos fictícios da literatura de Murakami  não têm aqui lugar, mas, em contrapartida, o muito da interioridade que aqui nos é revelada, encontra-se, dum modo ou doutro, reflectido no desenho daqueles mundos. Em suma, embora num género - e, consequentemente, num estilo e com um registo - diferente, também gostei muito deste livro.
Abro um parêntesis para referir que nem sempre assim sucede. Por exemplo, alguns dos registos autobiográficos de Paul Auster - outro dos meus Escritores de eleição -, v.g., Diário de Inverno causaram-me alguma decepção, por comparação com os seus romances, que, dum modo geral, muito aprecio, com especial destaque para os maravilhosos Mr. Vertigo e Timbuktu.
Passei, depois, à leitura de  A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, um dos livros mais antigos de Murakami, que, após ter lido o precedente, me deixou a impressão de possuir uma acentuada vertente autobiográfica - também o personagem principal tem e gere dois bares de Jazz, para além de revelar uma interioridade que não parece ser alheia à que julgo ser a do Autor. Aí se conta a vida solitária e introvertida dum homem, através do percurso dos seus relacionamentos amorosos, desde a pre-adolescência até à idade adulta, quando, tendo já constituído família, de acordo com o molde social vigente, reencontra o seu primeiro (aliás e como se vem a ver, único, amor)... Mas será que reencontra, mesmo? Deixo aqui a interrogação. Uma aura de nostalgia e de romantismo envolve a narrativa, a par com a (aliás, tão sua habitual) reflexão sobre os estados de alma e o sentido da vida, e o ponto enigmático que viria a constituir a marca dos primeiros romances que referi. Conclusão, mais um livro de grande profundidade e beleza!
Por tudo isto, confesso-me Murakamiaholic, com muito gosto, e assim, no último dia de Setembro passado, corri a uma Bertrand perto de mim, a comprar o seu mais recente livro, saído nesse mesmo dia, A Peregrinação do Rapaz Sem Cor, que aguarda, impacientemente, a sua vez de ser lido. Na realidade, não é este o caso, a impaciência é toda minha!



 
 
 
 


domingo, 12 de outubro de 2014

E TU, QUAIS SERIAM AS TUAS PALAVRAS?

Já sei, vais perguntar-me o que escolheria fazer, perante o anúncio de que apenas dispunha de mais um dia de vida.
Nada disso, isso não passa dum cliché e, como sabes, se há coisa que detesto são clichés. Aliás, nem sei onde foste buscar essa ideia, a que propósito te faria uma tal pergunta?
Sei lá, lembrei-me! Fizeste um anúncio tão solene e sombrio, vou perguntar-te uma coisa e quero que penses bem antes de responder, pois procuro uma resposta definitiva… Aliás, costumas fazer perguntas tão estrambólicas!
Ok., a pergunta é, quais seriam as tuas últimas palavras ditas, se soubesses que ias emudecer?
Eu não digo, perguntas estrambólicas, que horror! E por que raio havia eu de emudecer?
Sabes que a vida é assim, tão depressa podes ter voz como deixar de ter…
Claro, o que há mais são casos de mudos súbitos, as notícias estão cheias disso, está visto! Olha, e se deixasses de inventar?
Não se trata de invenção, mas de equacionar uma possibilidade, não digo uma probabilidade, mas, insisto, em tal hipótese, que palavras dirias? Refiro-me apenas a palavras, palavras soltas, não frases.
Pois claro, só podia, numa tal hipótese, uma pessoa, em vez de dizer qualquer coisa óbvia, tipo, Agora é que estou lixada, É chato, mas, a bem dizer, não fará assim grande diferença, já não falava muito, M., nem sequer vou poder comunicar por telefone, Lá vou ter de aprender linguagem gestual, Nas viagens é que vai ser f., Não é caso para dizer que o mundo perdeu um prodígio da comunicação verbal, Nunca mais precisarei dum megafone
Ei, para lá com isso e poisa no tema!
Então retomo, numa tal hipótese, em vez de dizer qualquer coisa óbvia, embrulhada numa frase, desatava a proferir palavras soltas, desligadas, até que a voz falhasse de vez, era isso?
Siimmm!
E ainda por cima palavras suficientemente pensadas... Sei lá! Deves estar meio maluco! Mas vou tentar…
Pensa bem, não te precipites.
...
Não consigo, não consigo reduzir a simples palavras de última hora, ainda por cima desgarradas, todos os ditos e não-ditos, todas as memórias e esperanças, todas as frustrações e receios, toda a plenitude e todo o vazio, tudo o que perpassa tudo isso e muito mais. Bem, talvez fizesse uma coisa, mas não sei se a consideras uma palavra solta, pensava nos que amo e dizia, adoro-vos. Sem mais. A seguir ia beber um sumo de limão adoçado com mel, na esperança de que a voz permanecesse.
Ora, pensei que dirias outras coisas, tipo, mãe, pai, vento, chuva, lua, mar, montanha, lobo, esquilo, neve, glaciar, noite, luz, galochas, lápis, livro, papel, árvore, helicóptero, carro, bicicleta, triciclo, cinema, magia, divagação, leveza, ascensão, belo, serenidade, viagem, azul, gato, cavalo…
Muito bonito, mas não vale a pena continuares, acabei de perder a audição, ahahah.
Não levas nada a sério, não é?
Desculpa, não ouço.

Nota: imagem obtida em pesquisa  Google
 
 
 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

MELHOR É MESMO IMPOSSÍVEL!

Começas a pensar e as coisas prendem-se umas nas outras, ligadas por fios invisíveis, desenhados em formato de teia de aranha ou labirinto, vai dar ao mesmo. Andas por ali às voltas, a tua cabeça anda por ali às voltas, sem ter a noção do que está antes e do que está depois, porque isso não interessa, a ordem cronológica é apenas uma mania de organizar o passado, mania própria duma qualquer obsessão-compulsão com a linearidade, o exatismo (sei que esta palavra não existe, mas acontece que quero usá-la, esta e não outra), uma qualquer febre de perfeição. Como se a vida fosse uma linha recta, desenhada em capítulos e títulos e parágrafos e períodos e frases e palavras e letras, tudo perfeitamente definido, arrumado em quadradinhos estanques e limpinhos, sacudidos do pó e das moscas e de tudo o mais que costuma incomodar a ordem. Acontece que não é assim. Tudo se liga, creio mesmo que não só do passado para o futuro, mas deste para aquele, passando pelo cristal do presente, aquele em que julgas que estás e te queres explicar, à custa duma história muito bem contada, sem lacunas, buracos negros, explosões, tsunamis e outras coisas mais, que, as mais das vezes, nem sequer chegas a (a)perceber. Fazes a ronda do passado como quem procura situar-se em relação ao futuro, melhor, precaver-se do futuro. Verdadeiramente, pretendes organizar-te, acho que é esse o teu desígnio, embora só tu possas saber qual é o teu desígnio. Sabe-se lá se pretendes uma qualquer vingança ou ajuste de contas, uma descoberta exuberante, uma omissão distraída! Só tu podes saber. Talvez não seja nada disso, talvez se trate apenas duma forma diferente de passar o tempo, em vez de outras formas. Uma coisa é certa, estás para a teia de aranha como mosca desprevenida está para a teia de aranha, estás para o labirinto como o cego está para o labirinto. Resta-te encarar essa necessidade de revisão como um hobby barato, um filme aleatório de que és o realizador e o actor principal e - julgas tu! - o argumentista, um filme povoado de actores secundários e improvisos, cujo início julgas conhecer, cuja sequência baralhas sistematicamente e de que nunca conhecerás o fim. Nem a tua febre de linearidade e perfeição to vão permitir. Sobretudo estas. Assim, se fosse a ti, esquecia. 
E fazia o quê? 
Olha, podias lavar as mãos cinquenta vezes, voltar atrás a ver se deixaste o fogão apagado ou a porta fechada umas cinquenta vezes, assim tipo o magnífico Jack Nicholson no filme Melhor é Impossível, sei lá (!), qualquer coisa assim. 
E qual seria o fim de semelhantes atitudes, tão extraordinárias quanto destituídas de sentido? 
O mesmo da tentativa de te ordenares no tempo! 
Não tens nada melhor para me propor ou melhor explicação para me dar? 
Olha, melhor do que isto é mesmo impossível!
(imagem obtida em pesquisa no google)
 
Nota: Esta ideia subjaz, de algum modo, à narrativa de que tenho deixado por aí alguns extractos, sob o título, A Não História De Vladimir Blue 
 
 


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

AS CRIANÇAS ESTÃO À SUA ESPERA, RUI CÉSAR PEIXOTO!


Não o conheci pessoalmente, nem sequer imaginava que (também) fosse surfista, desse aulas numa universidade ou tivesse 45 anos.
 
Apenas me cruzei com ele umas poucas vezes, talvez tivéssemos trocado um sorriso de simpatia, a título de cumprimento, isso creio que sim.
 
Era o Professor de Judo do Joãozinho e de tantos outros meninos e meninas, e essas vezes em que me cruzei com ele foram aquelas em que assisti às exibições dos seus pequenos e entusiastas judocas, talvez uma vez por ano, desde há uns três ou quatro anos, a última, em 31 de Maio passado.
 
Foram, todavia, as suficientes para ficar a admirá-lo, pela maneira muito especial como se relacionava com os seus pequenos alunos, deixando transparecer valores tão estruturantes como, por exemplo, a serenidade e a segurança, a  compreensão e a protecção, o entusiasmo e o incentivo, a amizade e a camaradagem e, acima de tudo, uma grande (e forte) ternura.
 
Não era sem razão que o Joãozinho - e, estou certa, os outros meninos e meninas - tanto gostava do Professor Rui César Peixoto. Melhor dizer, gosta, pois, para ele, essa grande amizade ainda não é passado, visto ainda não saber que o Professor partiu, nas asas do surf, num paraíso chamado Bali. Aliás, continuará a gostar, pois as verdadeiras e sólidas amizades não se desfazem com este tipo de partidas, impostas pela mão caprichosa dessa fria divindade do definitivo. Estou certa de que, muito mais longe no tempo, o Professor de Judo ainda vai ser recordado como o grande Professor e o grande Amigo que foi.
 
Nada percebo do enigma dessa única certeza que todos nós partilhamos, mas gostava de imaginar que o Professor de Judo atravessou as nuvens num surf radical, ao som da espuma das ondas, e foi acolhido pela alegre gritaria dum magote de anjinhos judocas. Ele ia gostar. Tenho a certeza. E este desejo imaginado é a sentida homenagem que aqui lhe deixo.
 
 
Fotos de 03-06-2012
 
 
 
 
 
Vídeo de 02-06-2013
 
 

 
 
  
 
 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

PERGUNTAS-ME?

 
Se me lembro? Como poderia não lembrar?
Era de Primavera, vestias o teu pulôver azul escuro sobre a camisa de quadrados miúdos, azuis e brancos, e tiveste de o tirar, pois o calor invadiu. As calças eram as de sempre, jeans coçados, e uns sapatos que não me lembro, sobre umas meias que também não.
Abri a porta, porque antecipei os teus passos, conhecia os teus passos de cor, esperava o som dos teus passos como se a música mais dançável - e eu adorava dançar! Quase te assustaste, embora não fosses dado a sustos, no repente de mim à tua frente, quando te preparavas para tocar à campainha, coisa desnecessária, porque a minha espera ansiosa, alegre e atenta a tornou desnecessária.
E eu, como é que eu estava, no meu exterior, lembras-te?
Também me lembro de mim, do meu exterior, o cabelo escorrido da água do duche e não sei mais. É pouco, para uma descrição, melhor, uma lembrança, mas é preciso não esquecer que estávamos na Primavera, um sol descarado, afastando as últimas chuvas sem cerimónia, flores amarelas a rebentar por tudo quanto era palmo de terra, corações aos saltos, pura sintonia com a exacerbação da natureza desadormecida e galopante.
Dizes-me que não foi por causa do calor que tiraste o pulôver? Dizes-me que todo o meu corpo escorria da água do duche?
Talvez tenhas razão, afinal era de Primavera e a natureza explodia assim, feita arco prometido e caminho conquistado, e o mundo era nosso, inteiramente nosso, e havíamos de o queimar, com gosto e sede, até aos píncaros do Verão.
Ainda nem sonhávamos das cinzas do Outono, quanto mais dos mantos frios do Inverno.
Todavia, hoje é de Primavera, outra, e perguntas-me...
Perguntas-me?
 
 
 
 
 

quarta-feira, 26 de março de 2014

FEZ-SE TARDE, TÃO TARDE!


Já se fez tarde, muito tarde, sem que tivesse dado por isso, num repente, isto é, num súbito, apercebi-me de que era muito, muito tarde, como quando olhas para o espelho e reparas naquela expressão ou vinco que, ainda ontem, não estavam do lado de cá, ou então, numa qualquer ausência, agora presente.
Já se fez tarde, muito tarde, sem que tivesses dado por isso, viste como a revelação se me tornava evidente, não que a percepção partisse de ti, andavas distraído, mas, num repente, isto é, num súbito, apercebeste-te do reflexo que eu projectava, como se eu fosse um espelho e tu, eu.
Ficámos sintonizados, mas apenas porque se fez tarde, muito tarde, e ocorreu o nano segundo da revelação, os espelhos, cumprida a sua tarefa, estilhaçaram-se, agudos de vidro frio rompendo paredes à volta.
Deixei que se fizesse tarde, muito tarde, andavas naquela ideia de que ainda era tempo, tempo vivo, apetecido, negaste a importância dos reflexos que não mentem, porque são superfícies lisas, cristalinas, e, o mais importante, não vivem para outro fim nem se alimentam doutra matéria que não a mais pura neutralidade.
Não que me tivesse deixado aconchegar na ilusão, mas distraí-me um pouco, até ao limite daquele nano segundo, até ao limite de me ter visto reflectida em ti, não, até ao momento de ter percebido que o meu reflexo se te fez visível, finalmente.
Foi, então, que me interroguei sobre a razão de não podermos olhar-nos com os nossos próprios olhos, sim, olhos meus em olhos meus, bem no fundo, sem necessidade da intermediação de olhos outros, olhos vítreos e indiferentes de espelhos, olhos luminosos e talvez cúmplices, de terceiros, os teus olhos ou os olhos dalgum outro.
Mas agora não importam interrogações, fez-se tarde, muito tarde, tão tarde.
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 20 de março de 2014

SE AO MENOS UMA PAUSA


e se não há nada a dizer, experimente-se
rasgue-se o silêncio e diga-se, nada
logo alguém se lançará em queda livre na próxima piscina
talvez, mesmo, sem saber nadar
há sempre alguém pronto a seguir o comando das palavras
sobretudo das palavras ocas e desnecessárias
por isso os jornais, as rádios, as tvs
por isso os demagogos e os tolos palradores

mas traduza-se um pensamento por palavras
sobretudo, um daqueles pensamentos de pensar profundo
e nada, ninguém quer saber

quantos salvamentos
se, ao menos, uma pausa, um pensamento!









domingo, 23 de fevereiro de 2014

POR UM CHOCOLATE!


Era fanática por chocolates, o seu cérebro esperava, ansiosamente, aquele momento em que, iniciada a degustação,  bracinhos castanhos e mornos o percorriam, cálidos afagos de serotonina e multiplicados  brilhos de sinapses redentoras. Obviamente, as ancas (e não só) protestavam, até porque os bracinhos, cumpridos os afagos, desciam para descansar, instalavam-se e já não queriam sair de lá, das ancas (e não só), entenda-se.
Mas a vida mudou-lhe, até as ancas se esvaíram, na penúria a que, por razões aqui alheias, se viu diminuída, ao ponto de ter ido viver para debaixo dum viaduto, também podia ser uma ponte, mas isso seria demasiado vulgar, muito lugar comum.
Por vezes sonhava com o sabor do chocolate perdido, aquela textura a derreter-se-lhe na boca, o cérebro entusiasmado e agradecido, e, como era um sonho bom, as ancas (e não só) ficavam do lado de fora. Se calhasse pesadelo, que os tinha, e muitos, lá apareciam elas (e não só) a fazer descer abruptamente os níveis de serotonina e o fulgor das sinapses.
Naquele dia ou noite - aquilo de viver sob o viaduto já não lhe permitia distinguir - sonhou o sonho bom, mas, quando a luz invadiu, forte, atravessando as cortinas de betão, podendo ser do sol ou dos faróis dum carro a acelerar, acordou, os olhos ainda levitavam na doçura, mas a boca soube-lhe a falta de chocolate e as mãos crispavam-se sobre o estômago, como quem tenta separar as paredes unidas pela fome.
De regresso às órbitas vazias, os olhos avivaram-se numa decisão, a que o cérebro esteve longe de ser alheio, é hoje, é hoje que temos de comer um chocolate, um grande chocolate, um chocolate até à distância do impossível!
Com gesto rápido, afastou o edredom de pedra miúda,  ergueu-se determinada, lavou-se num charco das últimas chuvas e pôs-se a caminho, sobre os sapatos meio corroídos, obra de ratazanas vizinhas, talvez para elas solas velhas tivessem o sabor do chocolate ou talvez não. O vestido descosia-se num dos lados da cintura e o cabelo erguia-se em reboliço, ignorante da data da última lavagem. Caminhou com a desenvoltura de quem vai sempre em frente, porque sabe bem onde se dirigir. Ao fim de três horas, chegou. Recordava-se bem daquela loja, só chocolates, prateleiras e prateleiras cobertas de deliciosos chocolates, meninas aperaltadas atrás dos três balcões, derretendo-se em sorrisos para os clientes. Até que a viram, fecharam os dentes e deixaram cair olhos estupefactos sobre a sua magra e improvável figura. Não se importou, também não com os olhos e as bocas assarapantadas dos clientes, iguais aos das meninas atrás dos balcões. Percorreu as prateleiras com a antecipação da delícia e foi apanhando um aqui, outro ali, como quem se dá ao luxo de poder escolher, deixando a suspensão reinar em seu redor, sem sequer se aperceber de que uma das vendedoras tinha accionado um botão secreto. Encheu o saco meio esboroado e, qual troféu, ergueu na mão o maior dos chocolates, dirigindo-se à porta, tão calma e determinada quanto entrara.
Então, tudo sucedeu num repente, justamente no limiar da saída, cruzou-se na pressa desaustinada dum polícia armado, e tudo ficou claro, era o chocolate contra a arma, hesitação impossível, depois restava-lhe correr, o chocolate voou de encontro à testa do polícia, um desequilíbrio foi causado, para trás, de encontro à ombreira da porta, o homem escorregou, bateu com o cotovelo armado em qualquer coisa e a arma disparou, furando-lhe o queixo, que se expandiu num fogo de artifício de lascas de  dentes, chispas vermelhas e bolinhas de mioleira, numa cena que o próprio Quentin Tarantino  não teria ousado desprezar. Ah! só um parêntesis para dizer que não sei se é tecnicamente possível, o disparo naquelas circunstâncias, quer dizer, com aquele percurso.
Ora, uma coisa é roubar chocolates outra, bem diferente, é  provocar, mesmo acidentalmente, o desnascimento dum semelhante, sabe-se lá se também amante de chocolates, doçura cúmplice. Em vez de fugir, apiedou-se, ela, a Ana Rosa, isso, vamos dar-lhe um nome bem foleiro, a condizer com o não abrigo do viaduto, antes disso, chamava-se Francisca, apenas. Ajoelhou-se, desprendeu-lhe a arma dos dedos já flácidos, não fosse disparar outra vez e ampliar a mortandade, e amparou-lhe a papa da cabeça, como se assim lhe pudesse restituir o nascimento, enquanto uma lágrima caía sobre o estardalhaço à volta, após deslizar, triste e compassiva, pelo seu rosto frágil, como a do menino da pintura de qualquer casa de velharias que se preze.
Mais dois polícias encorparam na proximidade das suas costas derreadas e, com a indubitabilidade dos dedos de todos os outros, vendedoras e clientes, estendidos na sua direcção, foi ela, levantaram-na rudemente e deram-lhe voz de prisão. 
De nada lhe valeu protestar inocência, as suas impressões digitais ficaram impregnadas na arma acidental, apesar do ranho variado que se lhe tinha colado, proveniente daquela cabeça esventrada - aproveita, Tarantino, se te apraz! E, é claro, os dedos acusadores nunca se rebaixaram à verdade ou sequer à dúvida, pelo menos até ao termo do julgamento, rápido, por sinal, e definitivo, na sua douta conclusão: culpada, homicídio voluntário no mais elevado grau, agravado por isto e por aquilo, já para não falar no roubo dos chocolates e, pior, na desfaçatez com que foi perpetrado. Sentença: pena de morte! Ah!, isto passou-se nos Estados Unidos da América, tinha-me esquecido de dizer.
Recolhida à cela, após o conhecimento da sentença, estava muito zangada com a vida e, em manifesta reacção contra a injustiça, que sempre lhe custara aguentar, resolveu fingir que as coisas tinham sucedido como descrito e concluído nos autos, riscou na parede vazia, até mato por um chocolate!
Os dias dilataram-se com a serotonina em baixa e as sinapses retardadas, até que chegou o dia, o da execução, carcereiros entraram-lhe pela cela e, com saracoteios de simpatia tardia, anunciaram-lhe a iminência da última refeição - ia dizer ceia, mas não caía lá muito bem, já está tomada - disponibilizando-lhe um naipe de escolhas a que nunca tivera acesso, nem na sua longínqua vida de simplesmente Francisca. Mas ela sempre achara estúpida aquela ideia, facilitar um banquete a um morto antecipado, como se barriga aconchegada fosse capaz de exorcizar o medo daquela proximidade desconhecida e definitiva, se calhar a ideia é apenas juntarem um castigo colateral, pensou. Fechou-se num mutismo de costas voltadas e não se dignou responder, não ia ceder à estupidez, nem por um chocolate. E eles, vá lá, Ana Rosa, diz o que queres, podes escolher o que quiseres, talvez uma degustação de chocolates, e riram à socapa, para as costas dela, já tinham cumprido a sua parte de saracoteios. 
Impotentes no cumprimento da sua missão e receosos da correspondente descida na classificação de serviço ou negação duma muito eventual promoção, retiraram-se e foram falar com o padre, o encarregado das absolvições finais.
Então, filha, faz um esforço, reconcilia-te com o mundo antes da partida, não sejas orgulhosa, e ela a pensar, grande parvalhão, só me faltava cá este, enquanto concentrava o pensamento na idealização dum lado-de-lá povoado de rechonchudos anjinhos de chocolate, transportando-a por mornas nuvens de açúcar glacé - não sei se é isto, não percebo nada de culinária -, deixando-se comer sem reservas.
Foi aí que o padre tirou qualquer coisa de sob a batina - será que ainda se usa? - e, estendendo-lha numa iluminação radiosa, lhe disse, filha, aqui tens um tablet de chocolate, come! E era mesmo, um tablet, não uma tablette, de chocolate. Bem, era quadrado e tinha os vários símbolos dos verdadeiros tablets, Google, gmail, facebook e por aí fora. O orgulho era muito, mas a tentação foi maior, Ana Rosa agarrou-se à oferta e começou a clicar que nem uma louca e, a cada novo clique, saía um quadradinho de chocolate, que se apressava a devorar.
Quando do tablet já só restava nada, escorregou as omoplatas na parede, enquanto os olhos deambulavam num sorriso longínquo, como só um reforço de serotonina e uma aceleração de sinapses pode provocar. Gentilmente, o padre cerrou-lhe as pálpebras e aconchegou-lhe os braços no regaço, já não estavam hirtos como naquela manhã, nunca viria a saber que o último quadradinho do tablet tinha sido recheado de cianeto e que o padre estava muito contente por ter cumprido a boa acção do dia.
Alergia a chocolate, só pode, foi a sua resposta à estupefacta interrogação dos carcereiros, regressados para cumprirem o resto das formalidades. Aceitaram a explicação, afinal um padre não tem necessidade de inventar nem está autorizado a mentir! Lembraram-se, então, do colega assassinado - por um chocolate, mas isso ignoravam - e um deles, por entre uma risada histérica, escreveu ao lado da frase de Ana Rosa, morta por um chocolate!  
 
Nota: Dar o devido desconto, s.f.f.. Isto foi escrito sob o efeito de privação de chocolate e dum pico de febre!
 
(Pormenor duma mesa deliciosa, uma vez, no Centro Cultural de Cascais, pena eu não estar incluída na lista de convidados)
 
 
 
 
 
 
      

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

NEURÓNIOS GRÁTIS

E agora como é, perguntas-me. Bem gostaria de te poder responder, mas não sei o quê, ignoro a substância da tua pergunta, massacrada que estou pela sua forma, sempre a mesma, abrupta, saliente, barulhenta, garra nos meus ouvidos, como quem quer extrair, à força, uns quantos neurónios. Se calhar é isso, desesperas-te por que te entregue uma parte dos meus neurónios, espero que não todos, seria de mais, como poderia depois responder-te (?). Verdadeiramente não sei o que perguntas, menos ainda o que pretendes por resposta, está bom de ver, corolário, simples corolário, embora de lógica o nosso diálogo nada tenha, nem sequer diálogo, se não entendo o que... já disse. Queres ser mais explícito, ao menos queres deixar de te arrevesar na tautologia das palavras com ponto de interrogação? Podias mudar, uma vez, só uma vez, trocar por um ponto de exclamação, um que me reflectisse, espelho glorioso, um espanto genuíno e comovedor, uma admiração sem limites, qualquer coisa a ver com esses estados magistrais em que apetece oferecer neurónios grátis. Mas não, insistes. E eu sem saber. Nem sei porquê, a razão de continuar a ouvir-te. Hesito, desligo as orelhas, desligo-me, desligo-nos, como se pudesse falar por ti, mas não, tu só perguntas, insistes, sempre em círculo, e eu sem saber nada, como te responder, o que te responder, sequer a resposta que procuras, muito menos a que teria para te dar, na hipótese de. E, então, perguntas-me, é isso que tens para me responder?  
 
 
 
 
 
 


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

MORRER É NORMAL, ENVELHECER, NÃO...

 
...NÃO É NORMAL, É EMBIRRAÇÃO DAS ALTAS PATENTES DA CRIAÇÃO (SE É QUE EXISTE ALGO DO TIPO). SÓ PODE!
 
Há pessoas que deviam ser proibidas de envelhecer, quer dizer, devia ser proibido o envelhecimento de certas pessoas (ou de todas, ninguém envelhece por gosto). Estou a pensar em Michael Caine (para além de mim, obviamente...). Estou a pensar apenas na degradação da aparência física que, inexoravelmente, marca a recta final deste intrigante passeio para a morte que é a passagem pela vida. Deixo, pois, de parte a eventual degradação física e mental, não estão agora em causa. A morte  em si é irrelevante, apenas o cumprimento do ciclo anunciado (embora talvez não iniciado) com o nascimento. Mas envelhecer, não seria dispensável o envelhecimento?
 
Michael Caine sempre foi um dos meus actores favoritos, não só pela enorme qualidade artística, mas também pela beleza e elegância que emanam da sua pessoa (por interposta câmara, nunca tive o privilégio de o ver ao vivo). Elegância, essa, tanto mais admirável quanto é certo ser oriundo dum meio social humilde, o que só comprova a tese segundo a qual a elegância é uma imanência não dependente das origens.
 
A ÚLTIMA PAIXÃO DO SR. MORGAN, em exibição por aí, é um belo filme em que Michael Caine, com a realidade dos seus 80 anos feita estampa, interpreta um velho, social e familiarmente desenraizado, isto é, mergulhado em solidão, que, tendo perdido a mulher, calhando ser a mulher da sua vida (passe o lugar comum), reencontra, ao fim de cerca de três anos de desistência, numa jovem mulher, um novo élan, condição para o esboço dum novo parêntesis (ou simulacro) de vida e, a final, para se situar, consciente e lucidamente, perante a evidência da impossibilidade.
 
A esta altura já se deverá vislumbrar o motivo de ter começado por me referir à questão do envelhecimento. Todavia, o filme não se esgota nesta temática, também nos fala do amor/afeição (será amizade?), da atenção ao próximo, sintonizada na partilha empática (sim, tenho para mim que a empatia é uma forma de partilha, na sua fonte e no seu exercício), no luto (da morte ou do amor) e, já agora, nas barreiras surdas e nos  constrangedores não-ditos das relações familiares. 
 
E agora apetece-me rever ALFIE, ANA E AS SUAS IRMÃS, A EDUCAÇÃO DE RITA, VESTIDA PARA MATAR, AS REGRAS DA CASA, etc., etc., etc.   
 
 
 
Poster Michael Cainefoto Michael CaineO Sol de Cada Manhã : Foto Michael Caine
 
             
 
Nota: Contrariamente à regra deste blog, as fotografias não são de minha autoria, tendo sido copiadas do site ADOROCINEMA
 
 
 
 
 
 

domingo, 15 de dezembro de 2013

O MENINO, OS DUENDES, O PAI NATAL E ETC. E TAL.


Agora que estamos quase no Natal de 2014, sim, o de 2014, pois o de 2013 está quase a expirar, dou comigo a pensar nisso, no Natal. Nem percebo muito bem porquê, este ano não me tenho sentido nada natalícia, posso até confessar que não fiz presépio nem árvore, nem sequer convoquei os diversos bonecos encantados (com e sem música) que povoam o baú dos Dezembros.  
Vai daí, noite adentro, céu pejado de estrelas rutilantes, passando eu por um caravançarai, ouvi uma vaca mugir e um burro zurrar, o inverso não seria normal, quando, não sem espanto, vi um minúsculo recém-nascido, lourinho e de olhos azuis, agitar-se num pranto desmedido, dominado pelo pânico de ser devorado pelo dito par de animais, ao menos foi o que pensei. 
A mãe estava ao lado, atenta e com olhar doce, nada do que pudesse dizer para o acalmar surtia efeito, mas ela também não disse nada, embasbacada na contemplação do barulhento menino. Do pai, nem falar, fixado, que estava, na espera das visitas, quem sabe se procurando alhear-se dalguma aflitiva incompreensão, talvez fosse isto. 
Juntaram-se umas ovelhas mansas e fofinhas, embrulhadas em algodão em rama, e o menino fixou-as com os pequenos grandes olhos muito abertos, de lágrimas suspensos, os seus mínimos braços pararam de esbracejar, as suas mínimas pernas acomodaram-se no colchão de palha e, não fora um arrepio causado pela gélida noite do deserto, carregada de neve, tudo estaria na perfeição, esquecida a receada fome da vaca e do burro, concentrada a atenção nos prometidos peluches. 
Caso fosse de dia, poderia ver-se a imensidão de areia seca, cor de barro amarelento, cercando o recinto, a rama duma ou outra palmeira adejando na breve aragem morna e um ou outro camelo ondeando, em trânsito. Mas as coisas são como são, era de noite, não vale a pena inventar, a verdade vem sempre ao de cima, diz-se. 
Como era noite estrelada, a magia foi permitida e, então, onde eram pedras nuas deitou-se a corrente  dum rio, que logo se povoou de peixes, onde o tecido se rasgava de secura, irrompeu um acetinado tapete de musgo, daí as ovelhas. O rio e os peixes chamaram dois ou três pescadores e várias lavadeiras, juntou-se-lhes um padeiro, um talhante, uma vendedora de frutas e outra de legumes, o que até se compreende, pois no caravançarai eram servidas refeições. Aliás, foram-se juntando representantes de quase todas as profissões conhecidas, excepto políticos e banqueiros, porque o sítio era demasiado humilde. Ah!, acorreram também muitos animais, para além dos citados, incluindo, galinhas, coelhos, patos e um único peru, mas este viria a arrepender-se amargamente de não ter ficado em casa ou lá onde morava, quer dizer, ter-se-ia arrependido, caso tivesse tido tempo para isso.
Com tamanho ajuntamento de pessoas e animais num remoto local do planeta, habitualmente tão calmo, as estrelas ficaram curiosas, debruçando-se perigosamente do seu majestoso púlpito, tão perigosamente que uma delas, mais afoita ou mais curiosa, se debruçou demasiado e caiu, zzzzzzzzzzzz, aí vou eu, deixando atrás de mim um rasto de brilho.
Três caminhantes do deserto, montados em resignados camelos, vendo a estrela em movimento alucinante, resolveram seguir-lhe o rasto, interessadíssimos em testemunhar o destino da sua audácia. E assim chegaram ao caravançarai, junto ao qual o movimento aumentara substancialmente, agora animado por um grupo de músicos de farda azul e bonés debruados a dourado.
O burburinho era tanto e, sobretudo, tão desacostumado para a região, que os três caminhantes rapidamente se esqueceram da estrela, misturando-se com a multidão - a estrela, satisfeita a curiosidade, tinha conseguido inverter a marcha, retomar altitude a golpe de asa e reinstalar-se no espaço sideral, mas isso eles nunca viriam a saber. Como ostentassem belíssimos e coloridos mantos de seda, bordados a ouro e prata, os outros afastaram-se respeitosa e timoratamente para os deixarem passar, eram outros tempos, pelo que rapidamente estavam frente a frente com o menino lourinho de olhos azuis, sua mãe e seu pai.
O menino, atraído pelo brilho das vestes, distraiu-se das mansas ovelhas e agitou as mãozinhas sapudas na direcção dos três homens, que, não sabendo bem o que haviam de fazer, acharam de bom tom dar os parabéns aos pais. Apresentaram-se, cumprimentaram e partiram um bocado à toa, sem perceberem muito bem o que faziam ali, e à pressa, visto terem desviado significativamente a rota da sua missão. O menino, vendo-os afastar-se, desatou em novo pranto desmedido, não que eles tivessem ouvido, já desapareciam, ao longe, por entre as palmeiras.
Como se do nada, surgiram, então, uns duendes marotos, muito bem vestidos nas suas fardas verdes, rematadas em pontiagudos barretes vermelhos, arrastando atrás de si um magnífico abeto, que, em menos de nada, elevaram diante da criança e decoraram com bolas, sinos, bonecos, caixinhas e muitos outros objectos brilhantes e coloridos. No fim, somaram velas de alto a baixo e acenderam-nas com sopros mágicos, não fossem eles duendes, visto o dono do caravançarai se ter recusado a emprestar-lhes fósforos. Obviamente, o menino ficou encantado com tudo isto, os soluços perderam-se na crescente dilatação dos espaços e as lágrimas transformaram-se em brilhos curiosos. A mãe suspirou, aliviada, e o pai voltou a abstrair-se no longe dos seus pensamentos, sabe-se lá quais.
A vaca e o burro entreolharam-se e, com uma terrível dúvida existencial espelhada na ruminante face, mugiu a vaca, em tom interrogativo, mas, afinal, o que fazemos aqui?, ao que o burro, apanhado de surpresa, se limitou a zurrar, o que é que achas?, assim torneando a sua ignorância e desmentindo a fama que o seu nome impunha. A vaca encolheu os ombros e suspirou para cima do menino, envolvendo-o num bafo quente. Ele estremeceu, assustado, e desatou aos gritos. Desta vez, a mãe procurou confortá-lo com uma chucha, mas, não sendo luxo de que dispusesse, socorreu-se de macia tâmara. Porém, o menino continuava a gritar, não tinha apreciado o sabor do fruto, que rejeitou, exasperado.
Então, impôs-se um alegre ruído de guizos, vindo lá do alto, antecedendo a aparição duns pares de renas, que puxavam uma carroça repleta de embrulhos cintilantes. Rapidamente alcançaram o telhado do caravançarai, onde estacionaram, deixando sair o pai natal, que se apressou a deslizar pela chaminé, apresentando-se, de seguida, junto do menino, empunhando um belo embrulho e sorrindo com bonomia. O menino, deslumbrado, puxou a fita dourada que prendia o papel do embrulho e perguntou ao pai natal, quem és tu e o que é isto? Todos os que ouviram, a começar pelos pais, espantaram-se perante o prodígio do recém-nascido falante. À excepção do pai natal, que, com grande naturalidade, respondeu, sou o pai natal e isto é o teu presente, um iPad. E já se preparava para explicar o que era um iPad e como funcionava, quando o menino, sentando-se muito direito, lho arrancou das mãos, respondendo, eu sei o que isso é e como funciona, lá por ser pequenino não quer dizer que seja info-excluído. Ok, respondeu o pai natal, e afastou-se, tão divertido quanto apressado.
O menino, absorvido no brinquedo novo, aliás, primeiro e único, desatou a consultar vários sites à velocidade da luz, desligou  o iPad e correu atrás do pai natal, espera aí, espera aí!, deixando a assistência, pais incluídos, boquiaberta. O pai natal virou-se, esperou e perguntou:
- O que queres agora, lindo menino?
- Leva-me contigo, por favor.
- Para onde?
- Ora, para a tua terra, a Lapónia.
- Porquê?
- Não te faças de parvo, pai natal, tu sabes, não foi para isso que me deste o iPad?
- Ah!, estou a ver, foste pesquisar em Natal, Presépio...
- Romanos, Pôncio Pilatos, Judas, 1º e 2º milénios e por aí adiante.
- E?
- E, antes que seja tarde, quer dizer, antes que eu complete 33 anos, tira-me daqui, please!
- Agora não posso, estou com pressa, ainda me falta ir visitar um outro menino, que acabou de nascer não longe daqui.
- Ele está à tua espera?
- Não, pode até dizer-se que eu e muitos outros é que estamos à espera dele. Chama-se Jesus, Menino Jesus.
O pai natal já sobrevoava o caravançarai, quando o menino, aliviado, regressou ao berço, enquanto a mãe se dirigia ao pai, desabafando, ai António, este miúdo ainda nos vai dar uma grande trabalheira, ao que ele encolheu os ombros, obcecado que estava sabe-se lá com quê. Como ela o olhasse à espera de resposta, disse, tens razão, Francisca. O menino fingiu que não ouviu, voltou a ligar o iPad e foi explorar os jogos disponíveis.
Não longe dali, os três caminhantes do deserto entregavam os seus maravilhosos presentes ao Menino. 

























 
 
 
 
 
  
 (As fotos são, escusado será dizê-lo, de Natais anteriores.)