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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

CAPI E SIBELA


E agora interrogam-se, - mas que título é este?

Muito simples, o título dum livro, mais precisamente, "Capi e Sibela (Uma história de asaços)", da autoria de Salvina Ribeiro, com ilustrações de H. Mourato.


Trata-se dum conto sobre dois pássaros, ele, uma catatua de nome Capi, ela, uma papagaio chamado Sibela. Mas quem diz pássaros, pode dizer pessoas... 

Passado o nascimento, a infância e uma adolescência bem integrada no bando lá daqueles ares, Capi veste o papel de salvador de Sibela, que, por azares do destino, se encontra numa situação de risco, quase à mercê das garras dum qualquer predador. Tornam-se amigos, cúmplices, até que ela sente necessidade de procurar a família, da qual fora precocemente separada, por razões que aqui não convem revelar. Separam-se. Ele regressa ao bando. Ela entrega-se ao seu desígnio, passando por aventuras várias. Até que...  

E mais não posso contar, pois creio que estarão interessados em ler o livro e não perdoariam a antecipação do desfecho. Eu, no vosso lugar, não perdoaria!

Posso é acrescentar que se trata duma narrativa aliciante, onde se surpreende uma cadência serena, salpicada de bom humor e duma enorme sensibilidade. Por outro lado, serve de veículo à reflexão sobre um conjunto de valores humanos, quer no plano da realização individual - v.g., a compreensão das raízes, a independência, a coragem e a perseverança, enquanto factores de equilíbrio emocional e capacidade de decisão -, quer no plano relacional - v.g., a amizade, a cumplicidade e a compreensão do outro, a aceitação da diferença e o sentido da entreajuda. 

Merecem, ainda, realce os belos desenhos que ilustram o livro. 


E agora só me falta esclarecer - para quem não saiba, como era o meu caso - que "asaços" são abraços com asas, quer dizer, abraços entre pássaros ou - digo eu - abraços muito carinhosos.


Pronto, já podem ir ler!







segunda-feira, 21 de novembro de 2016

BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA


Balzac e a Costureirinha Chinesa, da autoria de Dai Sijie, é um livro simplesmente delicioso! Conta-nos a história de dois adolescentes oriundos da burguesia intelectual chinesa, que, em plena Revolução Cultural, ao mando do Grande Timoneiro Mao Tsé-Tung, são desterrados para uma aldeia suspensa no tempo e na montanha da Fénix Celestial, junto ao Tibete, a fim de serem reeducados às mãos de camponeses praticamente analfabetos e tacanhamente incultos (à chegada, o chefe da aldeia quase destruiu o violino dum dos rapazes, que confundiu com um simples brinquedo burguês, logo, objecto proibido pelos rigores da revolução...). 

O percurso de (re)aprendizagem passa pelo cumprimento de duras obrigações, incluindo, nomeadamente, o trabalho nos campos e nas minas. Todavia, os talentos narrativos, sobretudo dum dos jovens, acabam por lhes render inesperada vantagem, ao transformá-los em veículos orais dos filmes que passam numa aldeia vizinha, introduzindo na aldeia a única modalidade de cinema aí conhecida, o, por assim dizer, cinema falado...

No percurso, surgem mais dois personagens-chave, uma jovem costureira, a costureirinha, filha do alfaiate da região, e um outro rapaz, também em reeducação. Com aquela surgem os mistérios do amor, com este revela-se um objecto proibido, altamente desejado pelos dois protagonistas, uma mala de livros de autores (ocidentais) clássicos, entre os quais, Balzac (sendo que, em matéria de livros, os comandos revolucionária apenas permitiam o Livro Vermelho...).

São, justamente, estes dois elementos que vêm a estabelecer o fio condutor da acção e a determinar o seu desfecho, pondo, nuclearmente, em evidência a magia e o poder da literatura. Isto, sem deixar de fazer sobressair um conjunto de (outros) valores, como a amizade, a entreajuda, o entusiasmo e o destemor da juventude, o poder de adaptação e de superação (só para mencionar  alguns).

Mas, o que torna este livro verdadeiramente delicioso é, a par da fluidez e limpidez da escrita, a perspectiva adoptada na narrativa, duma pureza da ordem da quase inocência, duma leveza de pássaro distante, que, sem pretender branquear a rudeza da situação de partida -  está lá, em toda a sua nudez -, coloca a tónica nos valores - da ordem dos acima mencionados -, que acabam por sobressair mesmo em situações limite e, logo, em contraponto aos seus opostos. Não esquecendo um fio de humor ou de brincadeira, que perpassa todo o romance.    

Note-se que o Autor, nascido em Chengdu, Sichuan, China, em 1954,  foi, ele próprio, colocado em reeducação entre 1971 e 1974. Mais tarde, veio a estabelecer-se em França, tendo publicado este livro em 2000. Em 2002, adaptou-o e levou-o, sob sua direcção, ao cinema.





    

sexta-feira, 17 de julho de 2015

MORREM MAIS DE MÁGOA


Quando li este título dum livro do Saul Bellow - Morrem Mais de Mágoa -, podia ter pensado numa frase que, ouvida repetidas vezes, por alturas da adolescência, me suscitava uma certa sobranceria. Morreu de desgosto, era a frase, que, acompanhada dum empático coitadinha, se referia a uma senhora - creio que a D. Guilhermina, da sapataria... -, que expirara do coração, depois de inúmeras traições maritais. Para mim, era do domínio do inconcebível que alguém pudesse morrer de desgosto e, para mais, por um tal motivo. Enfim, pouca vida, quero dizer, vivência. Hoje, muito tempo depois, já percebo que alguém possa morrer de desgosto, pelo motivo mais improvável, sobretudo se se entender como morte a recusa ou impossibilidade de viver (mesmo continuando vivo)...  
Não é que tenha pensado nisso, na tal frase e no mais, mas fiquei curiosa sobre que causas de mágoa/morte versaria o livro e criei a ideia de que talvez pudesse tratar-se duma narrativa pungente, de tom magoado. 
Puro engano, felizmente! O tom deste romance nada tem do (tipo de) dramatismo que o título possa sugerir. Não que a história não contenha elementos dramáticos, mas é abordada com uma notável dose de  distanciamento crítico, tecido, com mestria, numa base de racionalismo e objectividade. No entanto, versa sobre questões tão subjectivas como sejam as relações de amizade, aliás, elevadas ao grau duma invulgar cumplicidade, entre um tio e um sobrinho - o narrador -, como pano de fundo para o discurso sobre as dificuldades de ambos - por razões bem diversas, apesar de, eventualmente, remetidas a uma matriz comum (de individualismo e solidão) - em estabelecerem relações amorosas gratificantes - face aos seus padrões de expectativa e, já agora, aos padrões socialmente dominantes. Assim, o narrador vai-nos contando o percurso amoroso do tio, enquanto nos desvenda o seu, embora aparentando conferir-lhe o nível dum segundo plano e dissertando em termos que, por vezes, se revelam quase ensaísticos, sobre vários assuntos, pessoais, sociais e políticos, o que faz num tom surpreendente, pela argúcia de observação psicológica, pelo humor, de marca irónica, e, sobretudo, por uma cativante actualidade, que me deixou francamente rendida. Abro um parêntesis para salientar que este último aspecto pode considerar-se indicado no próprio texto (de forma mais ou menos subliminar), quando o Autor coloca na voz do narrador as seguintes observações: "Embora ela fosse apreciadora de Balzac, os seus interesses mais profundos estavam tão longe do mundo contemporâneo como os do marido. Quando nos metemos na vida quotidiana, podemos ser apanhados pelo pescoço, mas se, por outro lado, nos recusarmos a entrar nela nunca se perceberá nada." (p. 356) e, mais adiante: "Contudo, o certo é que, sem tais dons, não havia forma de compreender a América, e de que servia batalhar por compreendê-la se falta a aptidão? E possuo uma forte tendência para ser contemporâneo, se assim não fosse estaria, se calhar, a discorrer sobre a Grande Muralha da China. " (p. 365). 
A acção é conduzida com doses precisas de teasing, que nos ajudam a manter o foco no fio condutor - a história do tio - pelo meio dos interessantes (aparentes e abrangentes) desvios com que nos vai presenteando.
Também a merecer destaque, a exitosa fuga aos lugares comuns, com frases deliciosas, que dizem tanto em tão pouco e dum modo tão original, como quando refere: "Eu observava atentamente o tio Benn. Conhecia o seu rosto do direito e do avesso. Quando estava bem, era como a Lua antes de termos lá poisado;"  e "Matilda precisava de tirar medidas ao apartamento de Roanoke, que herdara da tia, e levou Benn com ela para a ajudar a segurar na fita métrica." (respectivamente, pp. 154 e 188, sendo os sublinhados meus). 
Acresce uma particular evidência do fenómeno da intertextualidade, traduzido nas constantes referências a outros escritores (sobretudo, os clássicos franceses e russos, em linha, aliás, com a própria biografia do personagem-narrador, de formação francesa e professor de literatura russa).
E a razão do título? A este propósito e não querendo adiantar mais, limito-me a deixar, de resto, sem qualquer compromisso, umas frases em que fui reparando pelo caminho da tão grata leitura deste óptimo romance: "Bom... concordei que era mau, mas por fim disse: "É terrivelmente grave, claro, mas acho que morre mais gente de mágoa do que de radiação."" (p. 109); "E pode seguramente calcular-se que morre mais gente de mágoa do que de radiações atómicas, mas não existem movimentos de massas nem manifestações de rua contra ela." (p. 251); "- Não a afastou, Treckie, o seu comentário foi que morre mais gente de mágoa do que de envenenamento por radiação." (p. 404).
Quanto ao cerne da questão, esse, para mim, está sintetizado numa certa (e magistral) passagem, situada na página 395...
Alguém quer ler o livro, encontrá-la e deixá-la aqui em comentário? Gostava que alguém o fizesse ... e fico à espera!







  

sábado, 6 de junho de 2015

PATRICK QUÊ?



Há factos que nada abonam em favor da nossa cultura, já não digo geral, mas literária. Um deles é, seguramente, só saber da existência dum escritor francês - digo francês, porque a França é mesmo ali à esquina e, até há relativamente poucos anos, pode dizer-se que a vida cultural portuguesa foi tributária da congénere francesa... -, através da notícia de que lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura!
Aconteceu-me isso com Patrick Modiano, beneficiário, em 2014, deste prémio (ia escrever galardão, para não repetir prémio, mas detesto a palavra, demasiado barroca...).
Para além de curiosa, senti-me quase obrigada - perante mim própria, entenda-se! - a correr à Bertrand mais próxima, com o objectivo de suprir tão incómoda lacuna. Acabei, assim, por adquirir O HORIZONTE (Porto Editora), para o qual só avancei há duas semanas, após ter vencido uma inexplicável resistência, desaconselhadora de grandes expectativas, e duas tentativas falhadas (em que não passara das primeiras páginas).
Devo confessar que me custou vencer o horizonte dessas páginas e de muitas mais, aí até metade do romance, onde, finalmente, comecei a surpreender alguma história, numa narrativa errante, tão errante quanto o assunto sobre que versa, a memória, aliás, uma particular categoria de memória, se assim se pode dizer. Nesse aspecto, devo reconhecer uma assinalável consistência - ignoro se intencional ou acidental, embora me incline para a primeira - entre a forma e o ritmo da narrativa e as vagas difusas mas impressivas daquela memória, que parece erigir-se em personagem-líder, ao comandar a vida (vazia) do protagonista, enchendo-a de fragmentos dum passado incumprido (aquém do horizonte, portanto), e impondo-lhe a necessidade (ou será obsessão?) de os reconstituir e, mais, de os redimir, na ideia do cumprimento dum futuro susceptível de ajustar contas com aquele passado, reeditando-o no presente. O que, aliás, é deixado em aberto. Como convém.
Mas será essa consistência suficiente para fazer de O HORIZONTE um romance maior, ao nível dum Autor nobelizado? Não creio. A utilização daquela particular ideia de memória, se bem que interessante, não me parece, propriamente, original. Por outro lado - e mais relevante - as personagens e a sua história carecem, a meu ver, de espessura e profundidade, não suscitam empatia (positiva ou negativa) suficiente para despertar no leitor aquele interesse que o conduz a uma reescrita, para si, da obra alheia, para assumi-la como património seu, ainda que no plano abstracto duma (eventual) partilha de identificações. Também o estilo - cuja qualidade, aliás, não questiono - e o pensamento - longe de atingir profundidade assinalável - não me conduzem ao reconhecimento duma característica maior neste romance.
Obviamente, não sendo um livro que faz um Autor - nem, de resto, um leitor -, reservo-me opinião mais fundamentada sobre Patrick Modiano para quando tiver lido mais uns livros seus (não que, de momento, me apeteça muito...).     







sábado, 23 de maio de 2015

SOUMISSION


Há largos meses, passeando por uma revista francesa, não me lembro qual, fiquei a saber que se aguardava a publicação dum novo romance de Michel Houellebecq, versando sobre o domínio da França pelo Islão. Obviamente, fiquei curiosa.
O livro, intitulado Soumission viria a ser publicado em 7 de Janeiro deste ano (Flammarion), curiosamente no dia em que ocorreu o atentado terrorista ao Charlie Hebdo, motivo da atinente especulação e - atrevo-me a dizer - efeito publicitário.  A edição portuguesa,  sob o título Submissão, chegou em Março (Alfaguara). Li-o há dias. Com interesse e gosto.
Diversamente da expectativa criada, constatei que o romance não se esgota na identificada questão política, ou melhor, politico-civilizacional, antes nos apresentando, a par e passo e, pelo menos, com idêntico peso, a persona do narrador, assim se debruçando sobre a alma humana (tema, para mim, tão caro).
A questão da submissão da França ao domínio do Islão, pela via democrática (entenda-se, eleitoral) e pela mão dum hábil e ambicioso político muçulmano, é tratada sob um tão arguto quanto interessante ponto de vista histórico-político, tendo como traves mestras o estertor da civilização ocidental, a instrumentalização do sistema educativo, com relevo para os seus agentes, pela religião (muçulmana), e, é claro, o conformismo do povo (afastamento cidadãos/políticos/jornalistas, quer na gestação quer na aceitação do fenómeno).
Todavia, a outra vertente identificada - a da persona do narrador - está longe de ocupar lugar secundário na trama. Quer dizer, merece análise e consideração (como) autónoma, tal a riqueza psicológica que se surpreende, quer no que transmite quer na forma como (o) transmite, aliás, sempre em termos lúcidos e crus, despojados de (indesejável) sentimentalismo.
Na verdade, à medida que, mesmo apresentando-se como não particularmente informado sobre questões políticas, nos vai oferecendo um relato magistral dos acontecimentos conducentes ao referido domínio da França (também simbolicamente referencial da civilização ocidental), o narrador vai discorrendo sobre si próprio, pondo a nu todas as suas fragilidades, seja no tocante às relações familiares e sociais - inexistentes, aquelas, ocasionais, estas -, seja no tocante às relações amorosas - se assim se podem chamar, reduzidas que acabam ao plano sexual, como a crueza das descrições ilustra -, seja na tentativa de superação ou amparo no idealizado e obsessivo plano da identificação com o seu, por assim dizer, mentor, Huysmans, motivo da sua tese de doutoramento (certamente não por acaso designada Joris-Karl Huysmans ou a saída do túnel). Não resisto, aqui, a citar a frase inicial do romance, que, por si só, nos aponta a dimensão de solidão do narrador: Durante todos os anos da minha triste juventude, Huysmans permaneceu um companheiro para mim, um amigo fiel; nunca tive dúvidas, nunca me senti tentado a abandoná-lo ou a dedicar-me a outro tema;...
Esta minha opinião serve apenas para salientar o outro tema - os extremos da solidão humana - que importa não esquecer, enquanto valor deste interessantíssimo romance, de resto, muito bem escrito, quer sob o ponto de vista estilístico, quer sob o ponto de vista da construção e articulação temática. E, parece-me, esclarecidamente realista.
Enfim, o título sempre poderia ser Submissões... 
Pela minha parte, declaro-me submetida a este Submissão.  








segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A FESTA DA INSIGNIFICÂNCIA


A Festa da Insignificância, último romance de Milan Kundera, deixou-me o travo da decepção.
Diferentemente do sucedido com outras suas obras, em que o pensamento sobre a vida e a natureza humana se expande a par e passo com a narrativa das histórias, como se lhes servisse de interpretação ou explicação e os regatasse dum carácter algo datado ou preconceituoso - tema este, que poderia explorar-se, desde logo, a partir da visão ou do lugar reservado às mulheres... -, nada encontrei nesta Festa que me despertasse admiração ou sequer interesse, nem a escrita, nem as personagens, nem a história, nem o ponto de vista, bastante óbvio - não será novidade para ninguém que, neste mundo de aparências, tudo, especialmente o supérfluo que o alimenta e que, infelizmente, pode ser quase tudo, passa de insignificância...
De resto, mesmo para o Autor, não se pode considerar que esta ideia não surja já, aliás com uma expressividade e aprofundamento bem mais interessantes, em anteriores obras, como é o caso de A Imortalidade, estado que só através da ultrapassagem da insignificância alguns (poucos) atingem (v. O AMOR, ESSE IMORTAL, aqui publicado, em 26 de Setembro de 2013).
Também o recurso à intervenção de personagens históricos - neste caso, Estaline e sua corte, - é recurso já anteriormente usado, precisamente no livro citado - com protagonismo para o diálogo entre Goethe e Heminguay -, agora ao serviço da demonstração da morte do humor, tema ligado à insignificância, porque, justamente, é necessário estar acima desta para se ascender a uma visão irónica da vida…
Também a ideia da velhice como estado de ridículo, merecedor de vergonha, é recorrente de A Imortalidade, embora, neste último caso, transposta para o mundo masculino; os 4 personagens que compõem a história, são homens sexagenários, carregados do ruído da insignificância das suas vidas, (já) despidas de interesse, a que uns procuram fugir através da criação duma linguagem que os desidentifique dos demais, assim se isolando e passando ao patamar de observadores, outro, através da invenção duma morte anunciada, assim se erigindo à categoria de herói, e todos, através da aspiração ao encontro físico com mulheres que não lhes prestam qualquer atenção, único aspecto em que o paradigma Kundera parece modificar-se...
Enfim, dito isto, creio que o livro pode ser resgatado, se se entender que a insignificância de que é feito simboliza a insignificância que pretende ilustrar, o que, convenhamos, representaria o cúmulo da mimetização do sentido entre o pensamento e a escrita. Esta última asserção não é dotada de impertinência ou de cinismo, talvez seja antes e apenas uma tentativa de redimir um livro menos feliz dum autor que tão bem nos presenteou com obras que marcaram um tempo e continuam a merecer um lugar destacado nas estantes dos amantes da literatura europeia.

Resta esperar o próximo romance de Milan Kundera!
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 18 de outubro de 2014

CONHECI HARUKI MURAKAMI, À BEIRA-MAR, ATRAVÉS DE KAFKA!

 
Poderia dizer que travei conhecimento com Haruki Murakami à beira-mar, através de Kafka!
Na realidade, não foi esse o caso, aconteceu apenas que  Kafka à Beira Mar foi o primeiro dos seus livros que tive o privilégio de ler e que logo me deixou rendida à estranheza daquele universo que o Autor tão bem sabe construir e onde tão bem situa e faz evoluir os seus singulares personagens, levando-os a viver hipóteses de histórias tão desafiadoras da imaginação, quanto da coerência lógica, sempre embalados na reflexão sobre o enigma da mente e da natureza humanas.
Após outros seus livros, em que o meu nível de encantamento em nada ficou defraudado, surgiu o célebre e icónico 1Q84, que, por comparação com aqueles, me pareceu configurar uma nova abordagem de estilo -  desde logo na estrutura do fio condutor, mais linear - e de solução de encerramento - a escolha dum desfecho concreto, assumido enquanto tal. Isto, sem nada perder da fascinante estranheza do mundo, aliás, dos dois mundos paralelos, em que a acção se desenrola, o mesmo se aplicando à singularidade dos personagens e ao permanente desafio à linha duma certa coerência, a do estabelecido, ou, dito doutro modo, da normatividade do real. Embora se me afigure que os personagens, maxime, os principais - meus saudosos Tengo e Aomame, sem esquecer Fukaeri - possuem uma definição mais estruturada e, sobretudo, que a história acaba por evoluir, a par e passo, para um destino que, (só) a final, se descobre marcado por uma lógica eventualmente susceptível de ser considerada alheia à irrealidade do percurso a ela conducente.
Passaram uns dois anos e eis-me, novamente, a explorar o universo murakamiano. Aconteceu que ia comprar A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol (1992), e comprei, também, Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo.  
Comecei por este, no qual, como o título indica, Murakami nos dá testemunho da sua prática desportiva, enquanto corredor de fundo, ou, talvez melhor, nos dá testemunho de si próprio, através do seu percurso desportivo. Na verdade, é curioso notar que, a par de alguns factos da sua vida - como o início profissional, enquanto dono/gestor de dois bares de Jazz, e o momento, tão inesperado quanto luminoso, em que, sem mais, decidiu ser escritor, escrevendo, de seguida, o seu o 1º livro, Hear the Wind Sing , com o qual, fulgurantemente, arrecadou um prémio para novo escritor revelação -, ele acaba por nos oferecer uma imagem da sua personalidade, que é, também, uma imagem da modelação japonesa, na qual se destacam, como pontos fortes, a cultura do trabalho, da perseverança e do sacrifício, do desejo de excelência e de superação, do rigor e da humildade, e uma interioridade marcada pela solidão, enquanto reduto último (e íntimo) da criatividade e do pensamento. O estilo é simples, directo e, no essencial, espartano, a condizer com a (suposta) personalidade. Compreensivelmente, os mundos fictícios da literatura de Murakami  não têm aqui lugar, mas, em contrapartida, o muito da interioridade que aqui nos é revelada, encontra-se, dum modo ou doutro, reflectido no desenho daqueles mundos. Em suma, embora num género - e, consequentemente, num estilo e com um registo - diferente, também gostei muito deste livro.
Abro um parêntesis para referir que nem sempre assim sucede. Por exemplo, alguns dos registos autobiográficos de Paul Auster - outro dos meus Escritores de eleição -, v.g., Diário de Inverno causaram-me alguma decepção, por comparação com os seus romances, que, dum modo geral, muito aprecio, com especial destaque para os maravilhosos Mr. Vertigo e Timbuktu.
Passei, depois, à leitura de  A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, um dos livros mais antigos de Murakami, que, após ter lido o precedente, me deixou a impressão de possuir uma acentuada vertente autobiográfica - também o personagem principal tem e gere dois bares de Jazz, para além de revelar uma interioridade que não parece ser alheia à que julgo ser a do Autor. Aí se conta a vida solitária e introvertida dum homem, através do percurso dos seus relacionamentos amorosos, desde a pre-adolescência até à idade adulta, quando, tendo já constituído família, de acordo com o molde social vigente, reencontra o seu primeiro (aliás e como se vem a ver, único, amor)... Mas será que reencontra, mesmo? Deixo aqui a interrogação. Uma aura de nostalgia e de romantismo envolve a narrativa, a par com a (aliás, tão sua habitual) reflexão sobre os estados de alma e o sentido da vida, e o ponto enigmático que viria a constituir a marca dos primeiros romances que referi. Conclusão, mais um livro de grande profundidade e beleza!
Por tudo isto, confesso-me Murakamiaholic, com muito gosto, e assim, no último dia de Setembro passado, corri a uma Bertrand perto de mim, a comprar o seu mais recente livro, saído nesse mesmo dia, A Peregrinação do Rapaz Sem Cor, que aguarda, impacientemente, a sua vez de ser lido. Na realidade, não é este o caso, a impaciência é toda minha!



 
 
 
 


quinta-feira, 5 de junho de 2014

LUZ ANTIGA


Confesso que "Luz Antiga" não me prendeu de imediato, antes requereu uma certa persistência, para ultrapassar o ponto de fronteira em que já não é possível voltar atrás.
A partir daí rendi-me àquela escrita inteligente, quase geométrica, na pureza do estilismo, mas, sobretudo, no distanciamento que adopta em relação ao miolo emocional da narrativa, embora, curiosamente, sem impedir que o leitor a este aceda de pleno, assim a sua sensibilidade lho permita. Trata-se, porventura, duma certa crueza, talvez não apenas reflexo de estilo, mas consequência da própria consciencialização de que o terreno das memórias é palco de enganos e invenções (involuntários), aspecto bastamente presente no livro e que - imagino - justifica a criação duma distância prudencial, enquanto filtro da possível verdade enredada na teia de não verdades fabricada nos meandros da memória.
Memórias fortes, aliás, do irromper da paixão dum adolescente por uma mulher 20 anos mais velha, mãe dum colega de escola, matéria que, servindo de pano de fundo ao romance, não esgota o seu objecto, pois há, também, a deriva - ou será demanda ou ambas? - do personagem pela sua filha desaparecida...
Um bom livro, que li há meses e de que falo hoje, a propósito do facto de o Prémio Princípe das Astúrias para as Letras ter acabado de ser atribuído ao seu Autor, John Banville.         
 

 

 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

"AS PRIMEIRAS COISAS"


No início é a angústia, o desamparo e, sobretudo, a derrota do regresso ao Bairro Amélia, bairro social da Margem Sul, à casa materna, recém-despedido (pela Ana Mendes, grande cabra) e recém-separado, isto é, desapossado da evasão (a vida para além dali) que conseguira ou julgara ter conseguido construir. Depois, é o sombrio aterrar neste novo mundo, novo apenas porque dele se sentira evadido, pois, como se verá, não passa do seu velho mundo, ou melhor, do seu mundo interior, porque há origens que, queira-se ou não, não se esquecem (nem nós delas nem elas de nós). Segue-se a escuridão, a tentativa de organização do caos e um mergulho profundo na impossibilidade. É o prólogo.
 
O regresso à superfície passa pela revisitação das origens - dir-se-ia mesmo que a impõe - e aí desfila a fabulosa galeria de personagens do Bairro Amélia, expostos se não até aos ossos, pelo menos até ao âmago da alma (ou seja lá do que for que nos faz gente). Trata-se, aqui, dum retrato cru, intenso e, sob o ponto de vista psicológico, duma notável profundidade. Feito a partir da (tocante e angustiada) interioridade dum conhecimento  testemunhado e, ao mesmo tempo, da (lúcida e, por vezes, sarcástica) exterioridade  dum distanciamento perspicaz.
 
A escrita é fluida, vívida e duma grande riqueza imagética. E contem uma originalidade, apresenta os personagens um a um, mas fá-lo com uma tal mestria que se apercebe como um todo indissociável, como se fios invisíveis e insuspeitos unissem aquelas vidas. Como, seguramente, uniram. Poderia até dizer-se que o personagem, enquanto representação simbólica dessas vidas e seu criador, é o Bairro. 
 
Chegou a altura de dizer que me refiro ao  romance de Bruno Veira Amaral, intitulado AS PRIMEIRAS COISAS, que,  como se depreenderá das palavras precedentes, espero seja o 1º de muitos.
 
Cheguei a ele através duma publicação no Facebook, em que se dava nota da respectiva apresentação pelo (outro grande) escritor José Rentes de Carvalho. Com um apresentador destes, só pode ser bom - pensei. Partilhei na minha cronologia para não esquecer - eis uma das vantagens do FB, a de bloco-notas e/ou agenda, em que vou anotando referências de carácter cultural, para mais (cedo que) tarde recordar e usar - e, quase de seguida, comprei. Depois foi o que se imagina: li, quer dizer, "devorei" e não resisti a escrever sobre.
 
Resta lembrar que o Autor tem um blog, onde postou o texto lido quando da apresentação do livro: http://circodalama.blogs.sapo.pt/.  Aí encontrei resposta para algumas questões suscitadas pela leitura.
   
E só mais isto: No Prólogo não pude deixar de me lembrar do magnífico Per Petterson (já aqui referido nos posts intitulados BLESSED BE PER PETTERSON, de 20/08/2013, e "CAVALOS ROUBADOS", de 5/10/2013) e, já quase no final, veio-me à ideia António Lobo Antunes.
 


sábado, 5 de outubro de 2013

"CAVALOS ROUBADOS"

 
Um sexagenário avançado (67 anos), após 3 anos à deriva, na sequência da perda dos seus referenciais humanos mais próximos, a mulher e a irmã, decide passar o tempo que o separa da morte (assim vê, realisticamente, a situação) no isolamento duma casa perdida num remoto bosque norueguês, frente a um lago.
 
A realização das obras de restauro requeridas pela casa é a tarefa que elege para si próprio, como quem precisa de aproveitar e, simultaneamente, de demonstrar as últimas forças. Ao mesmo tempo, vai reflectindo, com pungente lucidez, sobre a velhice. 
 
A sua ideia é a autonomia, a sua escolha, o retiro da solidão.
 
Enfrenta, pois, com desagrado a descoberta dum vizinho, um pouco mais novo, que lhe parece conhecer doutro tempo, como conhece.
 
Esse outro tempo remonta à adolescência, ao Verão dos seus 15 anos, passado na companhia do Pai - amado, admirado e emulado -, numa cabana perdida em remoto bosque norueguês, atravessado por um rio.
 
Circunstâncias de ordem vária, sobretudo de entreajuda, levam à aproximação com o vizinho, pretexto para uma tão nostálgica quanto vibrante revisão daquele período da sua vida e dos estranhos e intensos acontecimentos então ocorridos, em que ambos, cada um à sua maneira, são protagonistas relacionados.
 
E assim se vai construindo uma trama entre o passado e o presente, cuja malha é a das mais profundas emoções e da mais obstinada dificuldade na sua demonstração, como se, por exemplo, expor os afectos carregasse em si uma funesta consequência.
 
Nisto ele é mestre, ele, PER PETERSSON, de cujo livro CAVALOS ROUBADOS estou a falar. Já o tinha constatado ao ler MALDITO SEJA O RIO DO TEMPO  (como aqui testemunhei, em post de 20 de Agosto de 2013, intitulado, BLESSED BE PER PETTERSON).
 
O estilo é, também, idêntico, primando por uma escrita descritiva, tão viva quanto poética, que nos leva a desejar voar pelas páginas como quem rouba cavalos.
 
Enfim, mais um livro magnífico, profundo, envolvente e confirmativo de que a sensibilidade (no sentido do entendimento da emoção) não é um domínio exclusivamente feminino.
 



 
 
 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O AMOR, ESSE IMORTAL!

 
Tudo começa com o gesto duma idosa (A senhora teria talvez sessenta, sessenta e cinco anos), sozinha numa piscina, seguindo as aulas do jovem professor de natação. A pungente comicidade dela cativou-o e essa comicidade era notada também pelo professor, como deixou transparecer na sua máscara de contenção do riso (in p. 11).
A aula terminou, a senhora saiu da piscina, afastou-se e quando se encontrava a quatro ou cinco metros do professor de natação, virou a cabeça na direcção dele, sorriu-lhe, e fez-lhe um sinal com a mão… Aquele sorriso, aquele gesto eram de uma mulher de vinte anos! A mão como que voara com uma ligeireza encantadora. Como se, por brincadeira, ela atirasse ao amante um balão de muitas cores. O sorriso e o gesto eram cheios de sedução, ao passo que o rosto e o corpo já nada de sedutor tinham. Era a sedução de um gesto afogado na não-sedução do corpo (in pp. 11 e 12).
Esse foi o gesto! O jovem professor de natação, incapaz de se conter por mais tempo, rebentou a rir (in p. 12). Ele, o escritor dentro da escrita, inspirou-se para dar vida à personagem dum romance, talvez na esperança de ganhar a sua quota de imortalidade - digo eu.
Ele, Milan Kundera, o romance, A IMORTALIDADE.
O gesto, transplantado para a personagem Agnès e usurpado, na típica mímica de imitação de irmã mais nova, mas não só,  pela personagem Laura – agora ajustado a adequados rostos e corpos – vai acompanhando o desenrolar da narrativa, marcando a ideia de sedução como quem sublinha o tema do amor – tão grato a Kundera, tão grato a tantos de nós! - ou dos amores, que são vários nas suas manifestações: o amor de Agnès ao seu mundo interior (que prevalece sobre o amor a Paul, o marido, a Brigitte, a filha e, até, o amor à evasão dos esporádicos encontros com o seu amante ocasional, levando-a a erigir em prioridade o afastamento de todos eles); os vários e combativos amores de Laura (a coleccionadora de amores, a mulher mais velha do que o homem - in p. 106 -, relação condenada ao anonimato imposto pela normatividade vigente, a eterna apaixonada pelo cunhado, Paul, que vai seduzindo através da exibição duma pretensa fragilidade, até que…); o amor das filhas pelos pais (de Agnés e de Brigitte, com nuances de expressão dúbia, no caso desta última); os diversos amores de Paul (dos tranquilos e convencionais, à mulher, à filha, à nova mulher, ao menos convencional e tão recordado, à sua ametista - in p. 108 - mulher mais velha, permissiva mecenas); o amor de Bernard por Laura , mulher mais velha (tão excitante quanto protegido, na negação da sua assunção social); os diversos amores dos diversos amantes, etc..
Sem esquecer o amor de Bettina a Goethe (acima de todos os seus outros amores), qual pano de fundo ensaístico para este inesgotável tema, mas também, para o tema que dá título ao livro, a imortalidade, pois não pode ignorar-se a sugestão de que Bettina não procura (apenas?) o amor, mas (sobretudo?) a colagem à imortalidade.
E aqui reside a ponte – aliás, não (necessariamente) estabelecida – entre o amor e a imortalidade (se é que o Autor pensou sequer em sugerir tal ponte).
A ideia da imortalidade é-nos apresentada – e não vejo que pudesse ser doutra maneira -, como o que fica de quem passa, ou seja, aquilo que, após a morte - embora se conquiste em vida - permanece numa  qualquer memória colectiva, aquilo que fomos capazes de deixar; com uma particularidade, aquilo que fomos capazes de deixar não somos nós, mas tão só a imagem que de nós foi apercebida. Sublinhem-se, a este propósito, os curiosos diálogos post mortem – só podiam! – entre Goethe e Hemingway (que bem escolhido, este!).
Ainda a propósito, é introduzida a problemática da supremacia (ou soberania absoluta?) da imagem – outra ponte para a senhora idosa? Não creio, mas podia explorar-se esta hipótese –, do que parece sobre o que é (o eu) ou, em termos mais sociológicos (do que psicológicos), da imagologia sobre a ideologia. Aqui, novamente, em jeito ensaístico, longe do estilo romanceado da catalogação do livro.
Em resumo, um livro em que os estilos (ensaio, romance) e os temas (imortalidade, imagem, fim das ideologias, amor, sobretudo este) se somam (não necessariamente articulados, parece-me, mas abrindo espaço à descoberta ou invenção de inúmeras conexões escondidas).
Enfim, um livro com pensamento e um livro para pensar, portanto, um bom livro.
Mas eu talvez lhe tivesse chamado, O AMOR,  ESSE IMORTAL. Não é este o seu leitmotiv?
 
Nota: transcrições/citações, a partir da edição de Publicações Dom Quixote, Lda., 1ª edição, Junho de 1990
 
 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

AMAR PALAVRAS/ODIAR PALAVRAS/COMPREENDER AS PALAVRAS

 
 
Nem sequer imaginava quem era Markus Zusak, nem que havia um livro intitulado A Rapariga Que Roubava Livros.
 
Então, há cerca de 2 semanas, calhou entrar numa Bertrand, percorrer as prateleiras e demais expositores desses magníficos amigos que são os livros - sempre dispostos a dialogar connosco -, e deparar-me com uma capa, donde parecia saltar a Morte, de mãos dadas com uma Menina, saltitando  numa cumplicidade talvez inesperada.
 
Impossível resistir! Sentei-me com o livro ao colo e comecei a desvendar o seu mistério. Fui até não sei que página, pois queria tudo menos interromper o fascínio que as palavras estavam a produzir em mim.
 
Marquei a página interrompida, paguei, saí e, depois, foi questão de meia dúzia de noites, até chegar aqui, ou seja, ao ponto em que, tendo terminado a leitura, não posso deixar de partilhar.
 
A Rapariga Que Roubava Livros, da autoria de Markus Zusak  fala-nos da história duma criança, Liesel Meminger - não resisto a dizer o nome, tão poderosa é a personagem -, que, no meio dum profundo desgosto familiar - é entregue, em adopção, a um casal alemão, em Molching, subúrbio de Munique, em Janeiro de 1939. A partir daí, a sua história casa-se com a História da barbárie do Nazismo e da II Guerra Mundial.
 
Todavia, a história de Liesel assume os mais belos contornos do amor, o amor em várias manifestações, por exemplo, a filial, na cúmplice relação estabelecida com o pai adoptivo - o Papá, dos olhos de prata -, a que, ao menos durante a infância, poderíamos considerar de fraterna, com o seu amigo Rudy - o miúdo sempre esfomeado e de cabelos da cor das espigas de milho - a do abraço às causas justas, na amizade com Max, o Judeu. Mas, igualmente, o amor às palavras, aquelas que o Papá lhe ensina a decifrar e que ela tanto ama, quanto é levada a odiar, visto terem sido a dominadora arma do Fuhrer.  
 
Paralelamente, as atrocidades do nazismo e da guerra estão lá, marcando o andamento dos acontecimentos, marcando os acontecimentos, qual invencível batuta toda poderosa.
 
Tudo nos é contado através duma escrita maravilhosa, ritmada, rica de imagens, terna (sem ser ternurenta), emocionante (porque nos fala de tantas emoções e porque se revela construída a partir dum centro de emoção genuína), doce, empolgante, mas também, denunciadora, porque tais horrores não podem nunca ser esquecidos. E que mergulha fundo na análise da natureza e das relações humanas.
 
E a Morte? Pois, a Morte é a narradora, uma narradora simpática, destituída do peso da malignidade, desresponsabilizada das suas acções, porque tem um Chefe ao qual não pode deixar de obedecer. E, afinal, a salvadora da história de Liesel. Curiosa (e compreensível) imagem da morte.
 
Acresce que o livro tem dentro outros livros, ilustrados, livros-oferta, cartões de trânsito entre amantes de palavras e parceiros de dor e dádiva.
 
Portanto, um livro verdadeiramente surpreendente e extraordinário.
 
Se tivesse tempo, lê-lo-ia, de novo, mais devagar.
 
E começaria a anotá-lo logo de início.








terça-feira, 20 de agosto de 2013

BLESSED BE PER PETTERSON


O sofrimento dum divórcio não desejado, ainda não aceite,  porventura não compreendido, apenas porque, da parte da mulher, o amor se esgotou; o sofrimento duma morte para breve anunciada, a da mãe, acabada de ser diagnosticada de cancro letal; em qualquer dos casos, sofrimentos pungentes, viscerais, avivados por retrospectiva nostálgica, também ela vivida no domínio das profundezas dos mais subterrâneos sentimentos e emoções. Mudanças exteriores acompanhando, qual sublinhado a traço negro: a povoação dinamarquesa das férias, que já não é o que era, e, sobretudo, a queda do muro de Berlim, deixando a claro a falência do Comunismo, causa que, abraçada com tanta força e convicção, o levara, anos antes, a abandonar a Universidade e a tornar-se Operário. 
 
Tudo isto nos é contado em linguagem descritiva - praticamente sem diálogos -, vibrante, na sua assertividade - nada fica por esclarecer da pureza daquele amor inicial, tornando-se dispensável conhecer os meandros do divórcio; nada fica por revelar daquela relação filho/mãe, com traços edipianos, mas, sobretudo, com a evidência duma profunda e complexa cumplicidade -, simultaneamente tão poética e quase fotográfica - na descrição das paisagens, melhor, dos fragmentos das paisagens e dos próprios estados do tempo, as montanhas norueguesas, na sua beleza e peso, o lago gelado, sobre o qual conseguimos ver o deslizar do barco a remos, o cinzento dos nórdicos amanheceres outonais.   
 
Como se tudo isto não fosse suficiente, acrescem as múltiplas e inteligentes referências literárias e fílmicas, malha em que se tece boa parte da cumplicidade filho/mãe. Não esquecendo as referência ao Museu Munch, em Oslo.
 
Por outro lado, ao lê-lo, sempre me acompanhou a sensação de estar a ver um filme de Ingmar Bergman, tal é a natureza das emoções ali retratadas, emoções que fogem a revelar-se, contendo-se em interiores angustiados. Tal é, também, a natureza das paisagens.
 
Dumas e doutras eu entendo, ao ponto de ter começado a gostar dos filmes do IB - porventura o meu realizador favorito - ainda sem os perceber (ao nível da razão pura, entenda-se; mas comecei a vê-los ainda sem a idade requerida).
 
Acresce que amo as paisagens nórdicas, das planuras da Dinamarca às montanhas e fiordes da Noruega, passando pelos bosques da Suécia. E tudo o que é nórdico exerce sobre mim um extraordinário fascínio.
 
Assim, talvez este livro não seja para todos, mas, pela minha parte, foi um mergulho espectacular e uma comunhão emocionante.
 
Ah! Estive a falar de MALDITO SEJA O RIO DO TEMPO, de PER PETTERSON (publicações D. Quixote; 1ª edição, Junho de 2013).
 
   
 
 


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

MENOS MAIAS! MAIS MAIAS!

 
 
Há dias, na sequência da iniciativa Eça Agora, promovida pelo semanário Expresso - www.ecaagora.com - abordei, nesta sede, em post intitulado MAIS MAIAS!, a continuação do José Luís Peixoto, Depois de tudo, antes de alguma coisa.
 
Lidos, entretanto, os três textos seguintes, achei interessante repetir o exercício, até por saber a inquietação com que os inúmeros leitores e comentadores deste sensacional e imperdível blog, aguardam a minha, seguramente, relevantíssima opinião, sem a qual, aliás, nem saberiam o que pensar! (É claro que estou a gozar, okey?! É apenas para autodeslumbramento e para exercitar os neurónios, não venha aí o Sr. Alzheimer fazer-me uma visita e eu nem dar por isso).
 
José Eduardo Agualusa, com Tudo o que é chama, não chamou em mim nada parecido com admiração ou aplauso. Não que o considere um mau escritor, mas por me parecer que, com este texto, se espalhou um bocadinho ao comprido.
 
Efectivamente, numa 1ª parte, remeteu-se aos domínios do seu imaginário habitual - que, como tal é interessante, mas, convenhamos, nada tem a ver com Os Maias. Seguidamente, tentou apanhar o comboio queirosiano, mas este já tinha ficado estacionado em África, naquela "Angola livre e independente", diante da qual, como fez alguém vaticinar, "Portugal se ajoelhará (...) para implorar um pedaço de pão" (in pp. 78/79). Está bem, nós sabemos do apelo à invasão espanhola (nos Maias) ...
 
Em acentuado contraste (relativamente ao anterior), José Rentes de Carvalhonosso óptimo escritor holandês, produziu O Rio somos nós,  um texto estupendo, de grande qualidade estilística e seriedade literária, em que o tom da análise sociopolítica e a abordagem psicológica dos personagens (Carlos da Maia e João da Ega, em plena decadência) se revelam de assinalável força e coerência. A isto se junta dado peso dramático que, segundo julgo, o distancia dos Maias, mas também não era suposto isto ser uma reprodução divinatória do que teria escrito Eça de Queirós em continuação de si próprio. De resto, nem tal seria desejável. Acho eu.
 
De notar, em contrapartida, um intencional afastamento do pensamento de Eça, no tocante ao respectivo estereotipo feminino (aspecto que, como mulher, não podia eximir-me a salientar e felicitar): "Olhando em frente, Ega corria os dedos pela face, involuntariamente forçado a seguir a memória que, agora cruamente fiel, lhe desenrolava cenas, rostos, a frivolidade das paixões que julgara sentir, a mesquinhez dos seus amores, o jeito cruel de ferir e abusar, pouco mais vendo na mulher que um ser inferior e instrumento de gozo." (in p. 44)
 
Interessantíssima chamada de atenção para o facto de, apesar de todo o seu modernismo e avanço, Eça de Queirós não ter vencido todos os preconceitos e, dentro deles, um dos mais ilógicos e infundados, o da inferioridade feminina.
 
Segue-se Mário Zambujal, com O imenso pulo de Carlos da Maia, texto simplesmente delicioso e divertidíssimo, em que encontrou um campo perfeito para articular a sua (evidente)  obsessão temática - infinita variação de amores malandros, por assim dizer - com uma fresca e fértil imaginação (como demonstra, v.g., o episódio da hipotética repetição do incesto), tudo muito bem ambientado ao ambiente queirosiano, todavia, sem confusão identitária. Caso para dizer que fiquei com vontade de voltar a ler MZ.
 
 
 
 
  

terça-feira, 6 de agosto de 2013

MAIS MAIAS!


Respondendo à criativa iniciativa Eça Agora, lançada pelo Semanário Expresso - www.ecaagora.com -, dei comigo a reler, à velocidade da luz, Os Maias, de Eça de Queirós, numa pressa alucinada de chegar aos novos Maias, a inaugurar, triunfalmente (só podia!), por um dos nossos melhores escritores contemporâneos, José Luís Peixoto, sob o sugestivo título, Depois de tudo, antes de alguma coisa.  
 
Devo admitir que a releitura acabou por ficar pelo caminho, não apenas devido àquela urgência, mas também (e sobretudo) porque, tornando-se o tempo cada vez mais escasso, importa direcionar as opções para o (muito) que falta (ler, ver, criar, descobrir, surpreender...), em detrimento do que, de alguma maneira, pode considerar-se déja vu. E não é que não gostasse de reler tantas obras, rever tantos filmes, revisitar tantos lugares! Trata-se, como disse, de mera questão de tempo, ou melhor, da sua falta. 
 
Em todo o caso, a parcial releitura permitiu-me constatar, com admiração, a contemporaneidade da escrita de Eça de Queirós, a irónica acutilância da sua crítica social e pertinente aplicação aos tempos que correm. Segundo julgo, bastaria mudar as datas e os nomes para, sem necessidade de alteração de estilo, termos o retrato perfeito do actual  Portugal no seu melhor, aliás, pior, que disso se trata.
         
Para mim, Depois de tudo, antes de alguma coisa vinha embrulhado em brilhantes celofanes de expectativa, atados com garridos laços de curiosidade e interesse. Como iria José Luís Peixoto, dotado duma interioridade tão profunda, duma inteligência tão sensível e dum estilo tão próprio, responder ao desafio, prolongando a saga de Carlos da Maia até aos idos de 1910?  
 
A expectativa adensou-se ainda, quando, através da página oficial (Facebook) e palavra do Escritor -  www.facebook.com/pages/José-Luís-Peixoto -, fiquei a saber que alguém o questionara pelo facto de ter incluído no texto a referência a uma mensagem de telemóvel! Não li, até ao momento, a explicação por ele adiantada; fá-lo-ei mal publique este texto, onde irei deixar a minha hipótese, por mais parva que possa vir a revelar-se. 
 
Para mim, Depois de tudo, antes de alguma coisa foi desembrulhado com sofreguidão, celofanes e laços rasgados à toa, até à revelação do presente, e que presente, mais um texto maravilhoso!
 
Sem perder a sua marca tão própria, JLP, à medida que evolui no enredo, consegue, de forma gradativa, com admirável mestria, elegância, fluidez e leveza, operar uma espécie de metamorfose (ou será osmose?) queirosiana, que, aliás, parece assumir, tão clara quanto subtilmente, na cumplicidade estabelecida com o escritor original, esse de Queirós, como, inspiradamente, refere - também numa piscadela de olhos ao trocadilho, Eça Agora (?).
 
Veja-se: "- Esse de Queirós - murmurou Carlos para si próprio. - Quem diria, esse de Queirós...
Não se lembrava do prénom do sujeito. O artigo, incompleto, cometia a proeza de nunca o referir. Nomeava apenas um livro mas Carlos tinha a certeza que era assinado por esse de que não se lembrava do nome, mas apenas o sobrenome: de Queirós, qualquer-coisa de Queirós." (in p. 40)
 
E, mais adiante, na reacção de Carlos à morte desse de Queirós: "Esse escritor de Queirós, português que tinha conhecido num cocktail dinatoire, causara-lhe uma impressão forte. Apesar de todas as diferenças, vira nele um paralelo, uma possibilidade de vida que, só por acaso, não seguiu." (in p. 58)
 
É assim que profundas observações convivem com a vívida e irónica análise da mais superficial espuma das andanças sociais e amorosas dum Carlos já em processo de decadência. E que melhor pode ilustrar esta espuma do que a confissão da suposta Claudine: nem francesa nem Claudine, apenas portuguesa e Claudina? 
 
Claudine ou Claudina que, a dado passo da sua insistente imposição perante Carlos, lhe envia a tal mensagem de telemóvel, nos alvores do século passado...
 
Ora bem, cá para mim, trata-se duma metáfora alusiva ao avanço de Eça de Queirós em relação ao seu tempo (e aos do seu tempo, já agora). E, se não for nada disto, vou ficar muito triste.
 
 
 


domingo, 28 de julho de 2013

SÁNDOR MÁRAI

Estranhamente (parece quase um sinal de iliteracia...), só há pouco tempo soube da existência do escritor Sándor Márai, tendo, de imediato,  nascido em mim o desejo de ir ao seu encontro.
Alguns dias volvidos, em digressão pela Bertrand do CCB, vi-me, acidentalmente, perante a sua obra As velas ardem até ao fim, que, de imediato, comprei e cuja leitura acabei ontem à noite, aliás, hoje de madrugada.
Apesar do (óbvio) reconhecimento de estar perante uma magnífica escrita e um pensamento profundo, não aderi de imediato, sobretudo pelo carácter datado e pelo figurino tipo peça de teatro, aspectos que não aprecio particularmente.  
Todavia, à medida que a história progredia, adensando-se e deixando-se adivinhar, o meu interesse e envolvimento (quase comunhão) venceram qualquer espécie de reserva e a adesão revelou-se total.
Não pela história em si (de amizades desiguais e de traições está o mundo cheio!), mas pelo pretexto que ela constitui para uma tão magistral quão profunda análise da natureza humana, em vários dos relacionamentos interpessoais em que se manifesta - da amizade ao amor - e na diversidade de sentimentos, emoções e, mesmo, racionalizações, que comporta.
O diálogo entre os amigos, no indispensável reencontro, decorridos cerca de 40 anos do facto fulcral - embora, porventura, não o essencial - é qualquer coisa de arrebatador.
Aliás, tratar-se-á, verdadeiramente, dum diálogo? Note-se que as interacções de Kónrad são, praticamente, gestuais, monossilábicas e contadíssimas, por contraste com o  longuíssimo (e tão apaixonado quanto racional) discurso do General, mais parecendo um monólogo. Todavia, a intervenção daquele não resulta de menor peso do que a deste, quanto mais não seja, porque sublinha o respectivo discurso, conferindo-lhe veracidade e consistência. Como se se tratasse dum eco, qual testemunha, tornando desnecessária a explicitação de respostas. Por outro lado, apesar de morta, Krisztina não deixa de estar presente, tão presente e tão eloquente, na presença da sua ausência, que dispensa resposta à última pergunta, a pergunta definitiva. E assim pode descansar em paz, como as cinzas do seu diário e a cera consumida das velas ardidas até ao fim (mas isto já sou eu a imaginar).
Finalmente, quem vier a beneficiar do empréstimo deste meu livro (entendo que os livros se fizeram para circular), irá deparar-se com uma intrusão, porventura, desagradável, a dos imensos sublinhados que por lá deixei, testemunhos de identificação com os pensamentos que o Autor tão eloquentemente soube exprimir (no encontro deste tipo de fusão reside, justamente, um dos motivos da minha paixão pela leitura).
A capa e alguns dos meus sublinhados:
  
       


domingo, 16 de junho de 2013

KENZABURO OE, UMA QUESTÃO PESSOAL


A sua leitura atingiu-me com tal intensidade que me vi compelida a escrever, na primeira página em branco do próprio livro:
 
“É a isto que chamo um livro PODEROSO e PERTURBADOR.

Trata-se de um profundo mergulho no cerne da mente humana, sem quaisquer desculpas ou contemplações.

Transcendendo o facto trágico sobre que incide – nascimento de um filho deficiente – aborda, de forma magistral, a amálgama de sentimentos/emoções, pensamentos/racionalizações, ambivalências e conflitos, de um percurso que se anuncia – e se vive - como de fuga, partindo da rejeição quase física, visceral, da realidade imposta, mas que, na vertigem do destino final, se quebra na resignação ou, pelo menos, na aceitação dessa realidade.

Tudo isto, com a força e o impacto de um murro continuado, que, na voragem da leitura, nos faz – me fez – sofrer a náusea permanentemente sentida pelo protagonista, Bird.”
 
À distância desse ímpeto de desabafo, cuja essência reafirmo, acrescentaria, agora e ainda, a riqueza advinda do facto de o palco dos acontecimentos se situar no Japão e de os protagonistas serem japoneses, o que oferece toda uma realidade cultural bem diversa e, por vezes, antagónica da nossa.

Esta diferença/antagonismo não deixa de marcar a perspectiva de abordagem, sobretudo ao nível (da forma, mas não só) dos relacionamentos estabelecidos – seja entre Bird e a sua amiga (companheira/impulsionadora de fuga ), seja entre aquele e a sua própria família ou os médicos que cuidam do seu filho.

Todavia, o núcleo essencial da mente humana, das emoções mais primárias às racionalizações mais elaboradas, é retratado sob um foco universal, que desconhece pátrias ou geografias.

Talvez porque, no hipotético desígnio dum hipotético Criador, o cerne da mente humana seja isso mesmo, universal.

Seguramente, porque o Autor, Kenzaburo Oe, sofreu, na própria carne, o nascimento de um filho deficiente, aliás, seu primeiro filho.

Ter traduzido essa vivência duma forma tão avassaladora é que já não era exigível!

Mas também não é qualquer escritor que recebe o Prémio Nobel de Literatura, como sucedeu com este, em 1994.

Já agora, o romance em causa intitula-se “Uma Questão Pessoal” e foi escrito em 1964 (embora, na minha opinião, pudesse tê-lo sido em qualquer época, pois a matéria que, tão humana quão brilhantemente, trabalha, para além de universal é intemporal).

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NOTA: Escrevi este texto em Abril de 2011, sob o título, "A propósito de um certo romance", no âmbito dum breve curso de Escrita Criativa; o objectivo do exercício era fazer uma crítica literária que suscitasse a leitura duma obra. Continuo a recomendar, vivamente, o livro em causa.