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segunda-feira, 11 de julho de 2016

HÁ PESSOAS ASSIM


Ontem, a Praia Grande estava assim, parecia uma praia do mar do norte. Enigmática, sombria, nostálgica. Belíssima, como sempre. 


Captei umas imagens que, vistas em sequência, me sugeriram um filme. Deixo-as a seguir, precedidas dum argumento possível:

Assim acontece com certas pessoas. A princípio quase não se deixam ver. Insinuam-se, apenas, semi-encobertas (semi-descobertas?) por uma esquina do mundo. 
Imagine-se uma folha de papel, dobrada em guardanapo.

Depois avançam, porque a vida é isso. A vida é comando. não se compadece com paragens. Ainda que os passos sejam lentos, possam ser lentos, reflectidos.
Imaginem-se umas mãos elegantes a desdobrar um guardanapo sobre os joelhos. Movimentos suaves, pensados, quase calculados.

Praticamente indiferente, se há ou não testemunhas do percurso. Há pessoas assim. Desdobram-se das esquinas do mundo porque tem de ser. A vida é isso, um ter de ser. Portanto não podem deter-se. A não ser para pensar. A vida também é pensamento, não é apenas caminhar à toa, caminhar por ter de ser.
Imagine-se um guardanapo displicentemente pousado nuns joelhos. Os vincos distenderam-se. Aguarda, apenas. Sabe o que o espera. Está preparado para o que o espera. Não serão os seus vincos as esquinas do mundo?

Depois há o momento da paragem. Contemplar, esbater as esquinas do mundo. Deixar-se contemplar ou não. Tanto faz. A vida cumpriu-se. A vida também é paragem, detenção.
Imagine-se um guardanapo, de esquinas já desfeitas, tranquilamente abandonado sobre a mesa.


















quinta-feira, 24 de março de 2016

DESCIDA A CAMINHO DO CÉU!


Há quem diga que, a partir de certo ponto, é sempre a descer. Não deixa de ser verdade, aliás, nenhuma generalização deixa de o ser, ou melhor, de conter em si uma margem de verdade (e o seu contrário...). Mas sempre restará saber o que é a verdade!

Atrevo-me a ignorar o que se diz. Porque há descidas que seguem a ascendência do voo. Mesmo sem asas. Basta-lhes o vento e o ímpeto. O ímpeto gera o vento que transporta o ser, mesmo desprovido de asas. Até porque as asas não servem apenas para voar, também transportam o peso das penas. Peso pesado, muitas vezes.

Concluindo, há descidas gloriosas. Descidas com voo anunciado. A caminho das alturas.

E sempre existirá a liberdade de ver o filme ao contrário...













(Fiz estas fotos, há dias, na gloriosa Praia Grande, Sintra, Portugal)







sábado, 16 de janeiro de 2016

O RIO DO TEMPO


Já te passou o tempo. Já foste. Não sei se inabalável e determinado, certo da tua superioridade - como dizem as palavras, abaixo. Ignoro a quem pertencem as palavras. Ignoro, inclusivamente, se são verdadeiras ou falsas. Apenas uma parede de passado, esventrada, pedras a ruir, que o tempo já lhes limpou a lisura e o esplendor da cor, da cal. É isso que vejo e posso tocar. Passaste pelo tempo, passou-te o tempo, a ilusão e o préstimo original. Passou-te o que costuma passar quando o tempo passa ou passas pelo tempo. Gosto de te ver, apesar de já não estares. De já teres ido. Porque é inquestionável, já foste, embora farrapos soltos de memória ainda pairem por aí. Fantasmas. É a obra do tempo. É assim, não doutra maneira. Algo renascerá das tuas pedras soltas, cinzas. Mas não serás tu. Nem, de resto, conviria que fosses. Como não há percursos repetidos, como a água dum rio nunca é a mesma. Nem o ar que se respira. Nem o timbre do pensamento ou a marca da emoção. Nem nada, embora por vezes pareça. Pura ilusão. Eterno é apenas o rio do tempo.    

















sexta-feira, 14 de agosto de 2015

88 DEGRAUS



Há sonhos simples de realizar. E nem por isso deixam de ser sonhos.

Tinha o sonho de visitar um farol. Talvez por ser acessível, demorei e demorei até o cumprir. Talvez fosse para manter a ilusão em lume brando,  sei lá! 

Finalmente, há dias, entrei no Farol do Cabo da Roca. Subi os seus oitenta e oito degraus, a maior parte em caracol, depois, mesmo ao chegar ao espaço que aloja o farol propriamente dito (o emissor de luz), erguidos a pique, muito estreitos, talvez passíveis de suscitar vertigens a quem a elas for atreito ou perigosas escorregadelas, a quem não pouse os pés com a devida cautela e não se agarre convictamente ao duplo corrimão.

Estive, assim, no ponto mais alto do ponto mais ocidental de Portugal (e da Europa) continental, o que, não sendo nada de especial, achei engraçado, dois recordes num só e um sonho cumprido. Um contentamento sem ressaca, porque vou continuar a sonhar com faróis e a visitar tantos quantos puder.

Foi bonita a subida, interrompida pela vista proporcionada por pequenas janelas inesperadas, parecendo recortar aguarelas.

Lá em cima, o farol foi posto a funcionar, emitindo o seu banho de luz circulante, como quem dialoga com barcos à distância. Evidentemente, senti-me barco!

Só não me foi permitido o acesso ao varandim. Fica para uma próxima, não posso prescindir, disso tenho a certeza.

Deixo o registo sequencial desta viagem, sem esgotar o tema...