quarta-feira, 20 de julho de 2011

DIÁLOGO DE MARIA CARÊNCIA

Aquele pensamento impunha-se, recorrente. Afinal, tinha ou não tinha um plano para a vida, um projecto de vida?
- Não, nunca tive, por mais que procure, não encontro.
E sentiu-se embaraçada. Era suposto as pessoas, pelo menos as pessoas conseguidas, terem um plano para a vida, aquele que as conduzia ao pleno da realização, whatever that was.
Então, não querendo ficar atrás dessas pessoas, respondeu à entidade paralela/sobreposta, que inquiria, sem dar espaço a uma não-resposta: - Tenho, sim, o meu plano para a vida é a morte.
A entidade perguntadora pareceu serenar, havia uma resposta, nem tudo era vazio, como vazio é o lençol branco estendido numa corda, cujas lágrimas o sol não consegue secar, no qual nem a chuva consegue deixar lágrimas.
Paradoxos!
Paradoxal era, igualmente, o facto de ter deixado de fumar, por sofrer de problemas respiratórios, praticamente não beber, a não ser em ocasiões sociais (como é costume dizer-se), que eram raras, e, finalmente, ter-se decidido a fazer dieta, ou seja, a deixar de comer as coisas apetitosas, pois as toneladas em que as mesmas se transformavam eram bem mais pesadas do que o peso do fumo, cuja ausência a levara a metamorfosear-se naquilo. E o arcaboiço já não consentia, sob pena de uma acumulação de maleitas, que lhe sobre carregariam a vida, enquanto o plano não se concretizasse ou deixasse concretizar. E não queria isso, seria carga a mais, a acrescentar a outras cargas.
A entidade perguntadora, nunca cansada de perguntar, que era essa a sua tarefa, exigiu outra resposta: - Mas, afinal, não tiveste, nunca, um plano para a vida? É que, esse que dizes ter não é, propriamente, um plano, é uma espera, é passivo, enquanto qualquer plano que se preze pressupõe acção. A menos que …
A resposta veio bem do fundo de si, deixou-se responder, quase sem necessidade de palavras: - Para se ter um plano é preciso acreditar, seja no que for. Eu acredito, sim, acredito numa única coisa, o amor; amor, no sentido de dedicação, partilha, afecto, demonstração, um amor global, que, podendo ter várias faces, não pode prescindir daqueles requisitos. Sim, que há outros tipos de amor, há raivas e controvérsias e outras coisas tais, que encapotam amores, sobre as quais até poderás dizer-me que não são amor ... Para o caso não interessa, pois o amor, o amor daqueles requisitos, não mora na minha vida. Já existiu, é verdade, mas, no seu quando, quem toma consciência de tais coisas, se se dão por adquiridas, como lavar as mãos antes das refeições e comer pão com marmelada, ao lanche, ou com queijo, quando havia? E quem, por essa altura, pensa em planos de vida, pelo menos com a consciência disso? Embora, agora ao falar, me lembre que sim, tinha plano para a vida, mas já foi há tanto tempo e, de qualquer maneira ou de alguma maneira, já pressupunha o amor …
- E não faças mais perguntas, que já chega, ouviste?

Curiosamente, viveu até aos 501 anos, contrariada, é certo, esteve sempre disposta a dar amor, mesmo que, aparentemente, ninguém tenha registado tal facto, e foi fazendo coisas, apesar de, pelo menos aparentemente, não abarcadas por um qualquer plano. Depois fez-se muito tarde e o plano da sua vida cumpriu-se, naturalmente (ou talvez não).

Chamava-se Maria Carência, que os sábios Padrinhos adivinharam tudo, como compete a padrinhos que se prezem.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

MORAL DA HISTÓRIA

FACTO 1 (sensacional): o tablóide britânico News of the World terá, alegadamente, recorrido a escutas telefónicas ilegais (os jornais podem fazer escutas telefónicas legais?!) sobre as mais variadas pessoas (personagens públicas ou não, pelos vistos, era tudo a eito);

FACTO 2 (inelutável?): perante o facto 1, o proprietário do NotW (sigla inventada, que também serve, v.g., para not well), Rupert Murdoch, anuncia o fim da publicação;

FACTO 3 (indesejável): A última edição do jornal/espia evapora-se, rapidamente, das bancas (segundo uns, cerca de 4,5 milhões de exemplares), não porque tenha sido apreendida por qualquer autoridade, mas porque se vende melhor do que pãezinhos quentes; 

FACTO 4 (provocador): Na capa dessa edição destaca-se: THANK YOU (AND GOOD BYE)! (É bem verdade que se tivessem escrito SORRY, ninguém iria acreditar, nem comprar …) 

Aqui está um bom exemplo da assombrosa crise de valores que o mundo vive!

Não me refiro, naturalmente, às escutas, que o óbvio fala por si e, quando é demasiado óbvio, GRITA. 

Refiro-me, sim, à corrida desaustinada à última edição, como se de um magnífico troféu se tratasse. 

MORAL DA HISTÓRIA: o LIXO, nos media ou em qualquer outro poiso, não existe porque sim, existe porque há quem esteja ávido do seu consumo. 

Demasiado óbvio, afinal, não?

Já as razões profundas, seriam matéria para um ensaio … pelo menos!



segunda-feira, 4 de julho de 2011

MENTIROLAS

Ah!, pois, faltava dizer que, contrariamente ao sugerido ou, mesmo, afirmado, os rendimentos bolsistas não ficam sujeitos ao imposto extraordinário.

Plano de "emergência social", diz o governo, "justa distribuição dos sacrifícios", diz o presidente da República ???

Ah!, pois é, também devo ter ouvido mal, mesmo muito mal.

O que vale é que, mesmo ouvindo mal, entendo muito bem estes políticos da treta, robins-dos-bosques-ao-contrário, que vão acontecendo a este desgraçado País.

Pelo menos, o meu intelecto fica a salvo. A carteira é que não, lamentavelmente.


"NOBRE" DERIVA

O homem não atina mesmo, parece um mecanismo de funcionamento enviesado e retardado.

Agora, que decidiu renunciar ao cargo de deputado, é só esperar pelas próximas eleições, para ver a que lugar vai candidatar-se, a que partido vai oferecer-se, que tiro vai inventar, que imprescindível disponibilidade para servir o País irá prometer, etc., etc., etc..

Isto, se entretanto não for presenteado com qualquer apetecível cargo público ... 
Não me admirava nada.

E lá pela AMI, será que está tudo bem? As finanças, a gestão?
Eis uma dúvida que me invade desde a 1ª candidatura do homem à (ida) presidência da República.

Mas lá que não faz falta nenhuma como deputado, lá  isso é verdade. O que, aliás, também é válido para a maior parte dos deputados.


sábado, 2 de julho de 2011

PROMESSAS FATAIS/SÓCRATES 2

Hoje fiquei na dúvida: será que o sr. Cavaco Silva sabe o significado do vocábulo fatalidade
É que, segundo noticiado pela TSF, ele terá referido que o novo imposto extraordinário (e é mesmo extraordinário, um tal imposto ...) não é uma fatalidade.
Ora, pergunto eu, se não é uma p. duma fatalidade é o quê, um presentinho de Natal?
Seja lá o que for, não deixa de consubstanciar a primeira grande mentirola do sr. Passos Coelho, que, há bem pouco tempo, afirmava, categoricamente, que:
  • não iria aumentar a carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, visto tal ser incomportável, dado o elevado peso fiscal que sobre os mesmos já impende; 
  • não iria mexer no 13º mês. 
É claro que isso foi antes das eleições e, como tal, não era para ser tomado a sério, mas o facto é que  deve ter havido quem acreditasse, a avaliar pelos resultados eleitorais ...
Cá para mim, e com muita pena minha, esta foi apenas a 1ª dum (anunciado) cortejo de mentiras, uma das quais deverá ser a de que o dito imposto  se destina  a vigorar este ano.
Pois, pois, para o ano deverá incidir sobre o subsídio de férias, se ainda houver subsídio de férias ...
Aliás, para o ano, deve mesmo continuar, a pretexto duns quaisquer números publicados pelo INE, quiçá extensivo à totalidade do 13º mês - eufemismo para disfarçar uma realidade bem mais vasta, que abrange não só outros rendimentos, v.g., os provenientes de rendas (vivam as medidas em prol do arrendamento!), como os rendimentos de trabalhadores que não auferem o dito subsídio ...
O que vale é que é um imposto que só atinge os ricaços deste País, quer dizer, os que ganham fortunas acima dos quatrocentos e tal euros.  
  

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A FELICIDADE DUMA KAISER

A Sr.ª Merkel manifestou-se, hoje, muito feliz - MUITO FELIZ, repito - com a aprovação do novo plano de austeridade grego! Tanta felicidade, explicou, deve-se ao facto de entender que o dito plano vai ser muito bom para as finanças gregas e para a zona euro.

Ela lá saberá porquê, porque é que o ESTRANGULAMENTO ECONÓMICO E SOCIAL DE UM POVO pode ser bom para alguma coisa ou para alguém, sobretudo, para o Povo atingido. Excluídos S. Exs.ª os mercados e os beneficiários da venda a retalho e ao desbarato do património grego, of course. Esta parte eu consigo entender.

Ora, quanto mais não fosse por uma questão de RESPEITO pelo Povo grego, que, tão desesperada e agonicamente, se debate com a dramática situação do país, a dita Sr.ª deveria abster-se de manifestar felicidade. E, não sendo por respeito, haveria de ser por VERGONHA.

No caso, a expressão deste sentimento demonstra a mais absoluta falta de empatia e o mais elevado grau de inépcia emocional que alguma vez se viu.

Pior, consubstancia a mais cristalina demonstração dos (des)valores que estes líderes mundiais prosseguem, a saber, a absoluta e descarada primazia dos altos interesses económicos de meia dúzia de pessoas sobre os (para eles, irrelevantes) interesses atinentes à vida e à dignidade de milhões de outras pessoas, reduzidas à condição de verdadeiros escravos.

A NEGAÇÃO, PURA E DURA, DE QUALQUER RESQUÍCIO DE HUMANISMO, PORTANTO!

Nada a que, noutra variante, não se tivesse assistido no estado da sr.ª Merkel, há apenas uns sessesta e tal anos.

Aliás e de um modo geral, entendo que essa sr.ª deveria, pura e simplesmente, PARAR DE EXPENDER COMENTÁRIOS, de resto, quase sempre acompanhados de arrogantes juízos de valor, sobre o caso grego e, já agora, sobre o caso português, como tem vindo a fazer.

Não porque não tenha o direito de se pronunciar sobre esses casos, mas porque NÃO TEM O DIREITO DE SE PRONUNCIAR NOS TERMOS EM QUE O FAZ, ou seja, como detentora duma qualquer autoridade sobre estes Países, hipoteticamente legitimadora duma descarada ingerência nas suas vidas, quer dizer, NAS NOSSAS VIDAS.  

Quer ela queira quer não, quer ela saiba quer não, trata-se de PAÍSES INDEPENDENTES.

E se não sabe, alguém deveria fazê-la saber: AS AUTORIDADES DOS PAÍSES EM CAUSA, ATRAVÉS DOS CANAIS DIPLOMÁTICOS COMPETENTES!

Estas autoridades têm, igualmente, a obrigação de por em prática, ou apoiar os interessados a por em prática, mecanismos de RESPONSABILIZAÇÃO, EM SEDE PRÓPRIA, dos responsáveis ALEMÃES pelos ELEVADÍSSIMOS PREJUÍZOS CAUSADOS A AGENTES ECONÓMICOS NACIONAIS E À ECONOMIA NACIONAL, originados na falsa imputação da origem da bactéria causadora de algumas mortes.

Um Governo que CUMPRISSE ESTES DOIS DEVERES DE ESTADO mereceria, certamente, o meu apoio.

Uma Comunicação Social que abrisses espaço de questionamento a estes aspectos, em vez de se limitar a dar tempo de antena à sr.ª Merkel, mereceria, certamente, o meu apreço.

A sr.ª Merkel irá, certamente, manifestar a sua felicidade pelo (1º) plano de austeridade apresentado pelo nosso governo e pelo tempo de antena acrítico que a nossa comunicação social lhe atribui.



  

AMORES DE VERÃO

Aproximei-me devagar, cautelosamente
Lambeste-me os pés, a medo
A medo, eu, entenda-se
Não fosses estar frio ou, mesmo, muito frio
Mas não, continuaste a lamber-me os pés, as pernas, por aí acima
Até nos confundirmos num delicioso mergulho
Que estavas tudo menos frio
E eu já ia quente
Quando ao teu encontro
Desceste por mim até aos pés
Novamente os pés
Afastei-me
Satisfeita, disposta a repousar
Vieste tú, o outro
Acariciaste-me as pernas, os braços, até a barriga,
Pela primeira vez em muitos anos, esta, a barriga
Depois, as pernas, os braços, as costas,
Estas, pela primeira vez em muitos anos
Senti-te com prazer
Olhei-Vos, a ambos, deleitada
Passei a tarde nisto
Entre um e o outro
Olhando-Vos, desfrutando-Vos
Contente e agradecida
Não sei como conseguiria viver sem Vocês,
Não sei, mesmo, se conseguiria viver sem Vocês
Meus desejados
Mar, Sol!