Qual será o resultado duma equação abstracta? Será 0 + 0 = 0?
quarta-feira, 26 de junho de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
PERFEITA SUSPENSÃO
Contemplo as brumas do mistério
Silêncio
Perfeita suspensão
Não contempla o Criador a Criação?
Estabeleço a distância
Criando o abandono
Crio ausência
Deixo-a consigo
Entregue à perda
Criação
A Criação contempla-me
Do longe
Da distância
Do silêncio
Afogada nas brumas do mistério
(Estas fotografias, que fiz na Praia Grande, Sintra, em 1 de Dezembro de 2012, serviram de inspiração ao texto, que aguardava sair das brumas do esquecimento há não sei quanto tempo)
DIZ-ME!
O que diz o Mar?
O que dizes, Mar?
Soberbo, grave, poderoso
Espraias-te em margens próprias
Desenhadas por ti
Ultrapassas-te, permanentemente
Impossível conter-te no que és
Nem mais longe para onde voar
O que diz o Mar?
O que dizes, Mar?
Outro Mar, brilhando
Longínqua testemunha
Vais, voltas,
Eterno retorno
Chegar, partir
Partir, chegar
Repetição omitida
Não entendo o que diz o Mar
O que dizes, Mar?
O que diz o Mar?
O que dizes?
O que?
(Nota: Escrevi este texto na noite de 20 de Agosto de 2012, na Praia Grande, Sintra, com o mar em fundo; Fiz as fotografias em 07 de Outubro do mesmo ano, também na Praia Grande)
sexta-feira, 21 de junho de 2013
EU, ELES E O CINEMA
(Eles, aqui, são os portugueses, declarando-me eu apátrida.)
Quando vou ao cinema, faço-o com o
estranho objectivo de ver um filme, num espaço simultaneamente
anónimo e intimista, marcado pelo silêncio e a escuridão, assim uma espécie de templo de percepção, emoção e evasão.
(Não sei se me faço entender, mas
agrada-me pensar que o Woody Allen entenderia, não fosse ele o magnífico
criador de The Purple Rose of Cairo –
1985)
A qualificação, como estranho, desse meu objectivo, decorre duma
análise de comportamento, a qual me leva a crer que, nas suas idas ao cinema,
os portugueses não visam, própria ou necessariamente, ver um filme.
Pelo que tenho observado (e
sofrido), sou forçada a concluir que eles
vão ao cinema, acima de tudo, para:
a)
Comer pipocas e/ou
b)
Falar ao telemóvel e/ou
c)
Iluminar o visor do telemóvel (ou gadget equivalente).
Bem vistas as coisas, os
portugueses não se limitam a comer pipocas, eles usam-nas como acompanhamento (quando
não abafamento) da banda sonora dos filmes, com duas espécies de ruídos, em
sequência cumulativa.
Então é assim: começam por revolver o conteúdo do balde, com ansiosa manápula (por vezes,
várias manápulas ao ataque do mesmo),
provocando o ruído anunciador, que se faz seguir de estrondosas notas de mastigação
cavalar, susceptíveis de perfurar os tímpanos e estoirar com a paciência do
mais pacífico dos espectadores, especialmente, em se tratando de mim, que, como
já disse, vou ao cinema para ver um filme
e, adito agora, nunca suportei bem esse tipo de rudes agressões auditivas.
Que o digam os meus sobrinhos, se
ainda se lembrarem! Quando eram pequenos, se se dava o caso de mascarem
pastilha elástica em estéreo, lá entrava
eu, - então, meninos, está por aí algum cavalinho? Claro que o dizia com ternura,
por serem quem eram e eu gostar muito deles. E o modo passava, de imediato, ao silencioso, por entre sorrisos
divertidos (deles e meu).
Ora, os consumidores de pipocas
de que falo não são meus sobrinhos, aliás, não me são nada, nem concidadãos,
pois, como comecei por referir, para efeito de situações como esta, não sou,
definitivamente, portuguesa! Sou apátrida (nem sequer arrisco outra
nacionalidade, não se vá dar o caso de lá também serem portugueses).
Por isso, nas salas de cinema,
procuro o lugar em função da localização dos pipoqueiros.
O princípio é, obviamente, quanto mais longe, melhor.
O pior é quando, estando já
devidamente instalada e, quiçá, no decurso do filme, aparece alguém que, sabe-se
lá porquê, talvez irresistível atracção, vem sentar-se perto de mim. E lá
tenho eu de desempenhar o papel da malvada, levanto-me ostensivamente, dirijo o
meu ar de desprezo n.º 1 ao inocente culpado (passe a contradição aparente), e
procuro outro lugar.
Já alguns devem ter ficado complexados
ou, sei lá, perplexos, a pensar que não regulo bem.
Agora os telemóveis. Apesar de (e
contra os) pertinentes avisos, muitos portugueses recusam-se a desligar os TM,
dos quais, suponho, se sentem mais próximos do que dos amores das suas vidas,
ou têm os amores das suas vidas do lado de lá dos TM ou, então, não têm amores
nas suas vidas, talvez seja mais isto.
E há-os de vários tipos.
Em primeiro lugar, aqueles que,
se o TM toca, atendem para dizer que não podem atender, porque estão no cinema,
mas, não vá ser o seu dia de azar e perderem a chamada da sua vida, ainda
assim, não desligam o aparelho, deixando os circundantes numa inquietação
permanente sobre quando explodirá o próximo toque. Esses, normalmente, falam
baixo, mas não tão baixo que não sejamos obrigados a ouvi-los, pois, caso
contrário, o interlocutor não iria perceber que estão no cinema …
Depois há os que atendem
descontraidamente e sem moderação de tom, como se estivessem na sala lá de casa
ou no café da esquina (por exemplo, - Eh! pá, tou aqui no cinema, a ver aquele filme ... e por aí adiante).
A uns e a outros, não me inibo de
sibilar uns valentes chius, que, em
regra, surtem efeito.
Existe, finalmente, uma terceira
e não menos irritante variedade, a dos que passam a sessão obcecados com o ecran do TM, iluminando-o, pelo menos,
de quarto em quarto de hora, espalhando aquela irritante claridadezinha pelos
arredores, não sei se para verem e/ou enviarem mensagens ou, inclusive, para observarem
as últimas fotos, se não para jogarem um joguinho qualquer.
A esses, definitivamente, tenho
vontade de os esganar, até porque ainda não descobri como lidar com eles!
Já me ia esquecendo de mencionar
um último fenómeno, também muito agradável, o dos portugueses que vão ao cinema
com o objectivo determinado de pôr a
escrita em dia (normalmente, grupos de três ou mais mulheres) e os que vão
explicando ou comentando o filme entre si (normalmente, casais).
E, pronto, com estes portugueses,
lá se vai a concentração e, com esta, vai-se a envolvência cinematográfica e, pior, as
asas da evasão.
Enfim, vai-se tudo o que era
suposto uma ida ao cinema representar. Ao menos, para mim e para o Woody Allen!
quarta-feira, 19 de junho de 2013
VIVA A PLACA TECTÓNICA!
Sinto-me radiante com a notícia que ouvi há pouco na TSF: a da placa tectónica em formação (ou evolução ou desintegração ou lá o que é, não prestei grande atenção), que ameaça fazer explodir Portugal (ou qualquer coisa do género).
EIS, POIS, A SOLUÇÃO PARA A CRISE!
As reacções não se fizeram esperar:
- O sinistro da volta ao mundo, Paulo Portas, prepara-se para anunciar, por intermédio dum betinho sombra, que tal fenómeno é fruto da sua laboriosa agenda internacional;
- O 1º sinistro Gaspar insiste em que, mesmo assim, aumentar a austeridade dará melhores resultados;
- O seu adjunto, Passos Coelho, concorda e aplaude;
- O chefe, perdão, o paquete da oposição, António Inseguro, convoca uma conferência de imprensa para comunicar que irá pronunciar-se na devida oportunidade, pois o assunto requer adequada ponderação, acrescentando que não responde a perguntas;
- O Dr. Mário Soares reúne, de urgência (e antes que o Tó Zé possa pensar qualquer coisa para comunicar), um grupo de admiradores, no Pavilhão dos Oceanos, porque pode tudo acabar num gigantesco tsunami;
- Os troikos estão perplexos e interrogam-se, seiláseé ?
Eis senão quando, um grupo de aplicados estudantes universitários, proclama, alto e bom som (com acompanhamento da tuna), que tudo não passa de um monumental erro de excel, assim desmentindo a prometida explosão e colisão com a Terra Nova.
OHHHHHHHHHH!
Lá se foi a salvação da Pátria amada (e nós com ela)!!!
OHHHHHHHHHH!
Lá se foi a salvação da Pátria amada (e nós com ela)!!!
domingo, 16 de junho de 2013
ABOUT QUARTET
Sendo este "Quarteto" o primeiro filme realizado pelo Dustin Hoffman, é caso para dizer que instala em nós uma curiosa expectativa sobre o(s) próximo(s).
Trata-se duma abordagem elegante, leve (não ligeira), terna (não ternurenta) e divertida (nos limites da contenção que o melindre do tema impõe, ao menos numa sociedade como a nossa, ocidental).
O tema é, precisamente, a velhice, ou melhor (pior?), o envelhecimento, circunstância que, devendo, à primeira vista, ser encarado de forma tão natural como os restantes fenómenos da vida (o seu início - nascimento e infância -, desenvolvimento - adolescência e juventude -, estabilização - idade adulta - e fim - morte), acaba por o não ser, quer queiramos quer não.
E com alguma razão, atrevo-me a dizer, pois não será o envelhecimento, com a degradação física e, por vezes, psíquica, que envolve, a pior das traições que a vida, na sua proverbial generosidade e gentileza, faz questão de nos providenciar amavelmente (caso não nos force a uma retirada antecipada)?!
Mas isto sou eu a divagar, não que o DH se perca em aprofundamentos filosóficos ou em tónicas negativas, antes pelo contrário. Felizmente!
O tema surge, antes, enquadrado numa trama descomplicada e fluida, que termina ... (Ah!, não posso dizer, detesto ouvir o enredo de livros e filmes que ainda não li ou vi, aliás, nem leio críticas, ao menos previamente).
Vão ver, divirtam-se subtilmente e, depois, digam-me se gostaram, ok.?
Só mais uma coisa: um outro filme muito bom, verdadeiro exercício de imparável ironia, sobre a mesma temática, andou por aí em Julho de 2011, devendo agora habitar num vídeo club junto de si (não tenho qualquer comissão, apenas postei um comentário sobre o mesmo, em 31 daquele mês, com o título, "ABOUT GIANNI"). Chama-se "Gianni e as Mulheres".
Mas isto sou eu a divagar, não que o DH se perca em aprofundamentos filosóficos ou em tónicas negativas, antes pelo contrário. Felizmente!
O tema surge, antes, enquadrado numa trama descomplicada e fluida, que termina ... (Ah!, não posso dizer, detesto ouvir o enredo de livros e filmes que ainda não li ou vi, aliás, nem leio críticas, ao menos previamente).
Vão ver, divirtam-se subtilmente e, depois, digam-me se gostaram, ok.?
Só mais uma coisa: um outro filme muito bom, verdadeiro exercício de imparável ironia, sobre a mesma temática, andou por aí em Julho de 2011, devendo agora habitar num vídeo club junto de si (não tenho qualquer comissão, apenas postei um comentário sobre o mesmo, em 31 daquele mês, com o título, "ABOUT GIANNI"). Chama-se "Gianni e as Mulheres".
KENZABURO OE, UMA QUESTÃO PESSOAL
A sua leitura atingiu-me com tal intensidade que me vi compelida a escrever, na primeira página em branco do próprio
livro:
“É a isto que chamo um livro PODEROSO e
PERTURBADOR.
Trata-se de um profundo mergulho no cerne
da mente humana, sem quaisquer desculpas
ou contemplações.
Transcendendo o facto trágico
sobre que incide – nascimento de um filho deficiente – aborda, de forma magistral, a
amálgama de sentimentos/emoções, pensamentos/racionalizações, ambivalências e
conflitos, de um percurso que se anuncia – e se vive - como de fuga, partindo da rejeição quase física, visceral,
da realidade imposta, mas que, na
vertigem do destino final, se quebra na
resignação ou, pelo menos, na aceitação dessa realidade.
Tudo isto, com a força e o impacto de um murro continuado, que, na voragem da
leitura, nos faz – me fez – sofrer a náusea permanentemente sentida pelo protagonista, Bird.”
À distância desse ímpeto de desabafo, cuja
essência reafirmo, acrescentaria, agora e ainda, a riqueza advinda do facto de o palco dos acontecimentos se situar no
Japão e de os protagonistas serem japoneses, o que oferece toda uma realidade cultural bem diversa e, por vezes,
antagónica da nossa.
Esta diferença/antagonismo não deixa de marcar a perspectiva de abordagem,
sobretudo ao nível (da forma, mas não
só) dos relacionamentos estabelecidos – seja entre Bird e a sua amiga (companheira/impulsionadora de fuga ), seja entre aquele e a sua
própria família ou os médicos que cuidam do seu filho.
Todavia, o núcleo essencial da mente humana, das emoções mais primárias
às racionalizações mais elaboradas, é retratado sob um foco universal, que desconhece pátrias ou
geografias.
Talvez porque, no hipotético desígnio dum hipotético Criador, o cerne da mente
humana seja isso mesmo, universal.
Seguramente, porque o Autor, Kenzaburo Oe, sofreu, na própria carne, o nascimento de um
filho deficiente, aliás, seu primeiro filho.
Ter traduzido essa vivência duma forma tão
avassaladora é que já não era exigível!
Mas também não é qualquer escritor que
recebe o Prémio Nobel de Literatura,
como sucedeu com este, em 1994.
Já agora, o romance em causa intitula-se “Uma Questão Pessoal” e foi escrito em
1964 (embora, na minha opinião, pudesse tê-lo sido em qualquer época, pois a matéria que, tão humana quão
brilhantemente, trabalha, para além
de universal é intemporal).
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NOTA: Escrevi este texto em Abril de 2011, sob o título, "A propósito de um certo romance", no âmbito dum breve curso de Escrita Criativa; o objectivo do exercício era fazer uma crítica literária que suscitasse a leitura duma obra. Continuo a recomendar, vivamente, o livro em causa.
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NOTA: Escrevi este texto em Abril de 2011, sob o título, "A propósito de um certo romance", no âmbito dum breve curso de Escrita Criativa; o objectivo do exercício era fazer uma crítica literária que suscitasse a leitura duma obra. Continuo a recomendar, vivamente, o livro em causa.
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