domingo, 14 de julho de 2013
sábado, 13 de julho de 2013
EU, ELES E A CONDUÇÃO
(Eles, aqui, são os portugueses, declarando-me eu, a maior parte das
vezes, apátrida.)
Conduzir sempre foi uma das
minhas paixões. Comecei com o triciclo, passei à bicicleta – onde experimentei
as variantes sem mãos e sem pés, mas nunca sem dentes, embora sem
joelhos, algumas vezes- e, finalmente, alcancei o carro. Pelo caminho foram
ficando outras rodas do desejo,
designadamente, uma ou outra trotinete e, mesmo, certos carrinhos de
rolamentos.
Um dos meus primeiros actos de
gestão financeira autónoma consistiu na contratação de aulas de condução
automóvel. Obter a respectiva carta foi o máximo, muito melhor do que alcançar
um qualquer título académico.
As perspectivas de compra de
carro não eram imediatas. Faltava começar a trabalhar e ganhar para o luxo. Mas
eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por conseguir.
Entretanto, um ou outro amigo mais
condescendente deixou-me, ocasionalmente, praticar.
Foi assim que o pobre Maurício
deve ter estado à beira dum ataque cardíaco (não que se tivesse queixado, mas
eu bem vi o ar aterrado), quando eu ia enfiando o seu Dyane por uma porta dentro.
Ainda pensei comprar uma mota ou
uma lambreta, mas isso ia restringir o leque de vestuário e, sobretudo,
interferir, via capacete, com a compostura e, sobretudo, liberdade do cabelo.
Ou então eram meras desculpas, o que verdadeiramente queria era um carro.
E lá chegou o dia de ir ao Stand da Citroen buscar o meu Dyane
bege, novinho em folha. Grande coup de
foudre!
Agora já só faltava conduzi-lo.
Acontece que tinham decorrido uns
2 anos desde o número mínimo de aulas de condução requeridas para o respectivo
exame e os treinos entretanto efectuados não foram assim tantos.
Nada disso me impediu de meter
mãos à obra, quer dizer, ao volante, e enfrentar, com enorme descontracção, as
horas de maior movimento (justamente as de ida e regresso do trabalho).
Nos primeiros dias, não atinando
muito bem com o ponto de embraiagem, deixava ir o carro abaixo com alguma
frequência, o que, sobretudo àquelas horas, era motivo de forte indignação de
condutores irritados e mal dormidos, que não se poupavam a orquestrar
monumentais coros de buzinadelas. Nada que me incomodasse particularmente, pois
tinha a certeza de que, em pouco tempo, o domínio da máquina seria absoluto.
E foi. Modéstia à parte,
tornei-me uma exímia e segura condutora. E habitual.
Talvez por isso, não consigo
compreender certos fenómenos que se observam na prática dos condutores
portugueses, em alguns casos, sobretudo os homens (este destaque é mera decorrência estatística, não me movendo qualquer
má vontade, antes pelo contrário).
Em primeiro lugar e em termos gerais, creio que o
imaginário masculino ainda é dominado pelo mito de que o mundo da condução
automóvel pertence ao respectivo domínio de exclusividade.
Basta pensar nas muitas anedotas
e histórias que por aí pululam, em matéria de mulheres ao volante (aliás, algumas bem engraçadas...).
Para já não falar na
interpretação por eles atribuída ao
facto de os seguros do ramo automóvel preverem um desconto especial para
condutoras. Confesso que, apesar de beneficiária, não fiquei particularmente
agradada com a ideia; em resposta à minha interrogação, logo o Sr. Tavares, meu
mediador de seguros, me acalmou, alegando que a benesse se devia ao facto das
mulheres causarem menos acidentes (eu sabia que as Seguradoras não brincam em
serviço, nem têm motivos para gozar connosco). Comentado o facto, a interpretação
masculina não se fez esperar: - pois é, vocês conduzem tão devagar que é
impossível causarem acidentes … (que, por mera hipótese, conduzíssemos melhor
e/ou fossemos mais cautelosas, não entrava naquelas cabecinhas).
Mas isto é a espuma da questão.
O pertinente aprofundamento tem-me
levado a admitir que alguns homens se comportam, em estrada, como se estivessem em verdadeiros campeonatos de demonstração/exibição
de virilidade (mesmo entre eles…).
Já não vou falar nos critérios de
escolha das viaturas, circunscrevo-me ao acto de condução.
Assim, entre as piores coisas que
uma mulher pode fazer a certos homens, figuram, a) buzinar, porque eles vão a caracolar à nossa frente e nós estamos
com pressa ou, pura e simplesmente, nos apetece acelerar; b) ultrapassá-los, por
mais ordeira, sinalizada e regulamentar que seja a ultrapassagem.
Em qualquer destas circunstâncias
(sobretudo, se cumulativas), a reacção mais esperável consiste numa forte
aceleração, seguida de vertiginosa ultrapassagem reactiva, normalmente acompanhada
de banda sonora, quando não gestual.
Por vezes, a fúria é tanta que
completam as manobras com uma súbita e intensa redução de velocidade mesmo à
nossa frente, numa demonstração inequívoca (julgam eles!) de que o poder e o
domínio lhes pertencem e, como tal, podem fazer o que muito bem lhes apetece.
Se isto resulta em chapas amolgadas, mortes ou ferimentos, não
parece preocupá-los, o que se compreende, pois, nesse momento, a única coisa
que os (des)orienta é a demonstração de poder (o poder do macho primitivo, entenda-se).
Nestes casos, vale-me
ser boa condutora, conduzir com (quase) mais atenção à condução alheia do que
à própria e, principalmente, possuir bons reflexos. Só assim tenho conseguido
fazer umas (consequentes) travagens súbitas, mas controladas, de forma a não
colidir com o energúmeno, mas também a evitar que o de trás colida comigo.
Todavia, confesso já ter ficado
inúmeras vezes com o coração aos saltos, perante a antevisão da tragédia e,
sobretudo, da estupidez.
Deixá-los distanciar é o meu
lema, mas, mesmo assim, alguns não ficam satisfeitos, aparentando
procurar despique, mas nessa nunca me vão apanhar.
Outro fenómeno muito interessante
e racional, este comum a homens e mulheres, novos e velhos, consiste na utilização
sistemática da faixa da esquerda, em andamento lento ou moderado.
Não creio tratar-se de mero desconhecimento
duma elementar regra da condução, deverá haver uma razão mais profunda, com a
qual, porém, não atino (talvez uma aplicação do princípio daqui não saio,
daqui ninguém me tira).
Buzinar, fazer sinal de luzes,
aproximações perigosas, etc. etc. não resulta. Continuam impassíveis,
dando, as mais das vezes, a impressão dum total alheamento bovino.
Como segui-los, placidamente, ou
chocar com eles (como nos carrinhos de feira, que apetece!) está completamente
fora de questão, só há uma maneira de dar a volta: contorná-los e
ultrapassá-los pela direita, obviamente em contravenção (sempre preferível a um
ataque cardíaco ou de nervos), com imenso cuidado (pois pode acontecer guinarem
subitamente contra nós) e ganhar distância, sem dar atenção às eventuais
buzinadelas que, quando calha acordarem do sono bovino, disparam, em
protesto contra a nossa falta.
Não desmerecendo a correcção e
civismo das situações anteriores, outra de idêntico nível ocorre em alturas
de grande e lenta fila de trânsito, em que, cansados do pára-arranca, certos
condutores, compreensivelmente, demoram um pouco a retomar o andamento, após
cada paragem. Compreensível e parvamente, diga-se, pois há sempre um
chico-esperto (homem ou mulher) que, avançando lestamente na
fila livre, apenas aguarda essa oportunidade para aproveitar a folga, sobretudo
quando esta já se posiciona perto do ponto de desobstrução. Há quem não se importe,
mas eu fico verde de indignação com tais demonstrações de oportunismo. Para
oportunistas já nos bastam alguns políticos (e, sobretudo, ex-políticos). E
certos amigos, claro.
Fenómeno oposto, mas igualmente
agradável, verifica-se quando o trânsito entope
e ficamos confinados a uma posição em que só a boa vontade dos camaradas de
circulação nos pode salvar, v.g., quando, chegados a um cruzamento ou
entroncamento apinhado, se nos depara uma barreira semi-andante, cada qual convencido de que o avanço lhe pertence em regime
de exclusividade e, desgraçadamente, esperamos, esperamos e desesperamos, à
espera da nossa hipotética oportunidade.
Posso gabar-me de ter encontrado
a solução para tal caos, quer dizer, caso. Faço o meu ar de atrasadinha mental
n.º 1 ou um sorriso glamoroso (consoante as circunstâncias), meto o braço de
fora como quem pede esmola ou uma festa (consoante as circunstâncias) e pronto,
já está. Posso orgulhar-me de conseguir êxito em cerca de 99,9% dos
casos. Tiro e queda! E retribuo sempre com enormes sorrisos – parvos ou glamorosos
– de agradecimento. Cai bem, revela educação e, na verdade, fico mesmo grata.
Normalmente, em casos idênticos,
estando eu do outro lado, cedo passagem, mesmo sem me pedirem. Muitas vezes,
aproveitam a gentileza como se fosse o estrito cumprimento dum dever.
Nada de sorrisos ou agradecimentos. Não é bonito. Cai mal e revela rudeza.
Depois há o célebre fenómeno das
buzinadelas, umas de agradecer, por serem de carácter preventivo, outras de
aceitar humildemente, por serem de desespero ou censura por alguma distracção
ou aselhice e, finalmente, outras de repudiar, por serem despropositadas e
agressivas.
Já fui destinatária e já
pratiquei de todos estes tipos, sendo por isso que, na matéria em causa, não
posso declarar-me 100% apátrida, sendo, também, um bocadinho portuguesa.
Agradeço as do primeiro tipo,
desculpo-me perante as segundas e irrito-me perante as terceiras (a menos que
esteja muito bem disposta).
Já quando sou eu a autora,
costumo receber, respectivamente, irritação, irritação e irritação.
Acrescem, ainda, muitos outros
fenómenos estranhos, mas, por hoje, chega.
Só adito que, apesar de todas
estas interferências, o meu prazer de
conduzir permanece intocado.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
JAPAN FOREVER!
Hoje foi dia de confluência de propostas, desde a inauguração duma exposição póstuma individual de pintura (de Vasco Costa, Paisagens Interiores, Galeria António Prates) até um espectáculo de música (Júlio Resende, pianista, e Gisela João, fadista), integrado no festival Largos da Mouraria.
Todavia, o anúncio de Emperor entrou, inesperadamente, no meu campo de visão e o apelo sobrepôs-se a qualquer outro.
É que Emperor, do realizador Peter Webber, é (mais) um filme que traz o Japão até nós e, dado o meu fascínio por este País, ir vê-lo revelou-se uma questão inadiável.
Passa-se no Japão, pouco depois do fim da 2ª Guerra Mundial, tendo por tema a tomada de decisão, pelos ocupantes americanos, sobre se o Imperador Hirohito deveria ou não ser levado a julgamento, como criminoso de guerra. Entrelaçada, surge, em flashback, uma história de amor entre o general encarregado da investigação (destinada a fundamentar aquela decisão) e uma rapariga japonesa.
Não me parecendo excepcional (por momentos, o género em que se insere, dramático, resvala um pouco para o melodramático), ainda assim, considero-o um bom filme. Pelo testemunho cru da terrível destruição provocada pela guerra (é bom nunca esquecer...), pelo retrato das profundas diferenças culturais entre o Japão e o Ocidente, no caso representado pelos EUA, e pelas questões políticas suscitadas, nomeadamente, em termos de (pertença/distribuição de) responsabilidade pelos nefastos acontecimentos em causa (pese embora a superficialidade da abordagem).
Mas, para mim, existe uma outra razão particular, pela qual não poderia deixar de ver o filme, a rememoração, embora em pequenas doses, de paisagens que nunca me abandonam, tais como, os bosques de bambus, o inacessibilidade do Palácio Imperial, a sobriedade dos interiores japoneses e o fabuloso e enigmático Monte Fuji.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
O MOLESKINE DE JANETE (II)
(continuação)
O rápido afastamento de Rita - que, em segundos, se
perdera na linha do horizonte, reduzida ao tamanho dum lápis - deveu-se à
urgência em encontrar os outros desertores, visto se aproximar a hora da
partida.
Todos eles tinham ouvido falar dum país de misteriosos
contornos e, embora ignorassem exactamente quais ou, talvez, por isso, ansiavam
conhecê-lo.
A chegada de Rita ditou a antecipação da viagem.
As mochilas, reduzidas à mínima expressão do
essencial, não atrapalharam a subida para as Harley Davidson e as posteriores acelerações, que, passado o
impulso inicial, se revelaram desnecessárias, porquanto uma inusitada e poderosa força
os sugou para o local de destino, privando-os da deliciosa sensação de velocidade
em crescimento.
Tudo sucedera como se um ténue véu se tivesse rasgado
para os deixar passar, ou melhor, para os reclamar à presença dum qualquer
interior desconhecido.
Perplexos, mas excitados pela curiosidade, estacionaram
as motos, dispostos a iniciar o percurso da descoberta.
Só então procederam às apresentações, distribuindo
entre si os cumprimentos próprios da ocasião e as informações básicas. Miguel, 45
anos, informático de profissão, e pintor, nas horas vagas; Janete, 25 anos,
estudante universitária de Engenharia Informática; Rita, 28 anos, jornalista frelance.
Rita afastou-se um pouco, para enviar o prometido SMS
a Francisco, mas reparou que o telemóvel se apagara
por completo, resistindo herculeamente a todas as tentativas de reanimação, o
que lhe gerou angústia, pois, bem sabendo o estado em que deixara o namorado,
desejava o mais possível começar a levantar o véu da sua tão repentina quanto absurda
despedida.
Solícitos, os companheiros apressaram-se a ajudá-la,
mas os seus telemóveis, também atingidos por morte súbita, recusaram-se a
cooperar.
Uma coisa parecia já certa, aquele não era um local
propício à existência ou, pelo menos, ao funcionamento de telemóveis.
Encontravam-se, agora, num campo aberto, dominado por
esguias plantas filiformes, que, por qualquer razão incompreensível, pareciam observá-los.
Não vislumbravam qualquer pessoa nem conseguiam
desvendar o que o horizonte longínquo escondia.
Apenas sentiam uma fresca aragem e o toque duma luz pálida,
indefinida, insusceptível de revelar se iria tombar noite ou emergir dia.
Dominados por estranha apreensão, entreolharam-se, em
mudas interrogações, que não ousaram verbalizar e, como se fruto dum acordo
tácito, puseram-se em marcha, todos na mesma direcção.
Não havendo sinalização alguma, o seu caminho era
cego, mas, de algum modo, já todos eles tinham experimentado essa ausência nas vidas de que provinham. Tal
como os passos, também os pensamentos se articularam em perfeita sintonia, levando-os
a comunicar telepaticamente.
Deste modo, sem necessidade de formular perguntas, Rita
ficou a saber que Miguel e Janete estavam perdidamente apaixonados e estes
entenderam o motivo da partida de Rita, compreendendo, assim, que a verdadeira razão
das suas deserções, não sendo idêntica, também não era, necessariamente, antagónica.
Afinal, Miguel e Janete apenas queriam perder-se, enquanto Rita almejava
encontrar-se.
Quanto mais caminhavam, mais longínquo parecia o
horizonte e mais indefinida a linha que o separava do céu. Estranhamente, isso
não os preocupava, visto não sentirem cansaço, fome, frio, falta de abrigo ou
qualquer outra dependência inerente ao primarismo da sua natureza originária.
Nova coisa parecia já certa, aquele não era um local em
que a sobrevivência fosse um fardo, evoluía-se e era tudo.
Subitamente escureceu e, tal como os seus lábios haviam
sido dispensados de comunicar, assim os seus olhos foram dispensados de ver,
com a naturalidade da imersão duma alma lisa num sono profundo, em cujas asas se deixaram
transportar para a terra de todos e de ninguém, que é o enigmático mundo dos
sonhos.
(Nota: Prevê-se continuar; de momento ignora-se como)
terça-feira, 9 de julho de 2013
ESTADO DA NAÇÃO!
Verdadeiro paradigma do estado da Nação, esta
De áurea já só tem o nome (e as instituições bancárias que por lá proliferam), como testemunha esta fotorreportagem, feita em 8 de Fevereiro passado (nada indica que agora esteja melhor).
sexta-feira, 5 de julho de 2013
O MOLESKINE DE JANETE
ESCLARECIMENTO
PRÉVIO
A narrativa que segue parte dum facto real, o
achamento dum caderno de desenho de capa preta, com a inscrição do nome Janete,
desenhos de uma tal Rita e uma citação que, via Google, o achador concluiu
tratar-se, nada mais, nada menos, que do Conde Drácula.
A quem pertencerá o caderno? À Janete? A alguém que
gosta muito da Janete? Como devolvê-lo? Eis, basicamente, as perguntas que
aquele se colocou, na página de Facebook
dum grupo fechado (de arte), ao qual
pertenço.
Um outro elemento do grupo comentou, e bem, que a
história daria um excelente ponto de partida para um argumento
cinematográfico.
Eu adiantei-me, anunciando que pegaria na ideia.
Um outro – único que conheço – instigou-nos a avançar.
Foi o que empreendi, não na modalidade de argumento
cinematográfico, que nem imagino como se faça, mas através da narrativa que
segue, totalmente ficcionada, à excepção do facto de que parte.
Assim, para além deste, qualquer semelhança com a
realidade é mera coincidência, ao que acresce não ter pontos de contacto com um registo
auto biográfico.
O MOLESKINE
DE JANETE (I)
Sucedeu em 23 de Junho de 2013. Calor abrasador, 35º à
sombra. O asfalto derretia sob os ténis de Francisco, não havia memória duma
coisa assim. Talvez em New York, mas não se tratava de New York.
A cidade era outra, imersa num sono de despovoamento,
muitos tinham emigrado, não propriamente por causa do calor, pois já em anos
anteriores se acumulavam no aeroporto, debandada sem precedentes, como se
fugissem duma ameaça de peste ou do vírus H7N9, vulgarmente conhecido por gripe
das aves. Mas também não era isso.
Francisco era dos poucos que sobravam. A cidade
pertencia-lhe quase exclusivamente. Que seria feito dos seus amigos? Já só
restavam dois, João e Diogo.
Naquele dia, seguia só, enfiado numas velhas jeans e numa t-shirt cinzenta, que lhe pesavam como cobertores de lã. O modo
como se movia nem parecia humano, quase poderia dizer-se que rastejava, vergado
pelo absurdo peso do calor. Era alto e magro, de rosto quadrado, bem esculpido,
cabelo escuro, desordenado, e uns olhos azuis que agora tinham perdido o brilho,
não porque fosse velho, apenas 32 anos, mas porque dava mostras de sucumbir à
lassidão da cidade, que parecia ferver em lume brando.
Havia cerca de três meses, a namorada, Rita, tinha
partido com um grupo de desertores e limitara-se a dizer-lhe, poucas horas
antes, em jeito telegráfico:
- Francisco, vou-me embora, não te convido porque sei
que não queres vir.
Estupefacto, Francisco metralhou:
- O quê? Com quem? Como? Para onde?
- Só sei que vou, parto amanhã e, quando chegar ao
destino, mando-te um SMS. Aí, talvez já saiba mais pormenores, respondeu Rita,
com um sorriso sonso.
- Não pode ser. Deves estar a gozar comigo, só podes
mesmo estar a gozar comigo. Então e os dois anos juntos, os projectos em comum?
Estás definitivamente a gozar comigo ou então arranjaste outro. De certeza que
arranjaste outro. Confessa!
- Lamento, mas é assim como te acabei de dizer, não
vale a pena inventares outro. Talvez volte um dia. Estás disposto a esperar por
mim?
Francisco não podia acreditar no que ouvia, tinha os
miolos a ferver, os olhos raiados de fúria, os lábios trémulos e não conseguia
articular mais nenhum som.
Ela aproximou-se, fez-lhe uma festa no cabelo, olhou-o
com dissimulada ternura, e disse-lhe:
- Olha, querido, tem calma, um dia destes voltamos a
cruzar-nos e aí vais perceber, okey?
- Uma ova é que vou perceber, eu quero perceber é já,
IMEDIATAMENTE! Senão sou eu que te abandono, entendes? E nem se apercebeu do
ridículo do que acabara de dizer...
Mas ela já tinha virado costas, com um encolher de ombros, tão rapidamente que, em segundos, se perdia na linha do horizonte, reduzida ao tamanho dum lápis.
Não é que Francisco estivesse verdadeiramente
apaixonado por Rita, a rotina de dois anos conduzira as coisas ao estado a que
costuma conduzir, mas, que diabo, tinha a vida organizada, partilhava casa com
ela, dividiam as despesas e nem sequer estava em fase de atracção, muito menos
fatal, por qualquer outra.
Por isso e, sobretudo, por ter sido abandonado, para
cúmulo, sem saber porquê, ficou completamente de rastos. Sentiu-se traído,
humilhado, feito parvo e, o pior, gozado. Sim, ela só podia ter andado a gozar
com ele. Aquele tempo todo. Grande cabra, tinha-se era pirado com outro.
Naquele dia 23 de Junho de 2013, Francisco ainda
pensava em Rita - de quem não tinha chegado a receber nenhum SMS -, não tanto por
sentir a sua falta, mas por se sentir sufocado pelo enigma que ela criara.
Afinal, com quem teria ela partido, para onde, porquê, interrogava-se. E não
diminuíra nele a ânsia de retaliação, que, aliás, o fazia lançar um olhar
desconfiado, agressivo, até, sobre as mulheres, particularmente, as que lhe
agradavam.
Todavia, aquele ensurdecedor calor era, de momento, a
prioridade do seu desconforto.
Arrastava-se, assim, em direcção a casa, onde pensava
mergulhar numa banheira de água fria durante tanto tempo quanto o necessário
para refrescar o corpo e esfriar a mente.
Ao passar por um estação do comboio suburbano, cabisbaixo
como seguia, fixou a atenção no chão, atraído por um objecto negro, de formato
rectangular, que, uma vez nas suas mãos, se revelou ser um caderno Moleskine, formato A5, papel liso, que
se apressou a folhear, deparando com uns interessantes desenhos duma tal Rita e
a inscrição do nome Janete, tendo concluído que se tratava de pertença desta, quem
quer que ela fosse, ou de alguém que dela gostava muito.
Todavia, o que mais o intrigou foi a seguinte citação:
O
desespero tem suas formas próprias de trazer a calma.
Quem seria Janete, Rita e o(a) dono(a) do caderno? E o
autor da inscrição?
Como que fustigado por uma onda de adrenalina,
Francisco endireitou-se, estugou o passo e dirigiu-se a casa, numa urgência
súbita de desvendar o enigma do Moleskine.
Adiando o mergulho na banheira, dirigiu-se ao PC,
ligou-se à rede e, rapidamente, descobriu, via Google, que a citação era, nada mais, nada menos, que do Conde Drácula(de Bram Stoker).
De posse deste novo e intrigante elemento, publicou o
anúncio do achamento na página de Facebook
dum grupo fechado, de arte, a que pertencia, com o intuito de encontrar o(a)
dono(a) do Moleskine.
Só de seguida se enfiou na banheira, após ter deixado
a roupa espalhada pelo chão da casa de banho.
Tinha, agora, coisas novas em que pensar e mais um
enigma a deslindar, por sinal, bem mais apelativo do que o do desaparecimento
de Rita.
(Nota: Prevê-se continuar; de momento, ignora-se como)
terça-feira, 2 de julho de 2013
BEM VISTO!
Há dias, ao passar pela Marginal, descobri, via cartaz, que um dos candidatos às próximas eleições autárquicas tem por alcunha ou subnome ISALTINO OEIRAS (apelido, MAIS À FRENTE) e, por lema, CONTINUAR A FAZER.
O nome, propriamente dito, não fixei, mas bem VISTAS as coisas, NÃO FARÁ GRANDE DIFERENÇA, pois suspeito haver ali um qualquer distúrbio de identidade (ou, inclusive, o seu oposto) e, para além do mais, não voto em Oeiras.
(Está bem, isto parece mais um tweet, mas estou com pressa de chegar aos 100 posts, para festejar!)
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