quarta-feira, 25 de setembro de 2013

É ISSO, O OUTONO!


(MINHA ESTAÇÃO PREFERIDA)

Peço aos meus olhos que não escutem ruídos externos, perturbadores, não se deixem distrair.
Desligo o rádio, apago o CD. Conduzo de janelas abertas.
Peço aos meus olhos que escutem os segredos do vento, cantados às árvores, lá no alto. E a voz dos pássaros, que se preparam para a despedida. E o tombo macio dos primeiros pingos de chuva.
Peço aos meus ouvidos que não se deixem distrair por imagens fúteis, tipo, cartazes de campanha eleitoral, matrículas doutros carros, coisas assim, inúteis.
Peço-lhes que fiquem atentos, que dêem atenção à poça de água, fruto da primeira chuva, à primeira castanha a alcançar o chão, ainda envolta no seu manto de espinhos, à promessa de mudança de cor nas folhas tombadas à beira dos caminhos, envoltas, já, em seus quentes dourados, castanhos, avermelhados, amarelos, tons quentes, aconchegantes, aos frutos pendurados na espera da apanha (sentirão medo, os frutos, quando são colhidos? Que, quando são trincados, melhor nem pensar!).
Peço aos meus lábios que sustenham a respiração, aos meus pulmões, que parem de bater, ao meu coração, que se expanda em larga distensão, colocando à justa distância o diafragma.
Peço aos meus pensamentos que deixem de sentir e aos meus sentimentos que deixem de se preocupar com o conhecimento e a razão.
Peço ao meu corpo que se descontraia, que se desprenda das raízes da sua natureza próxima.
Peço-lhe que se pacifique, que se recolha à plenitude da natureza originária.
À Natureza. Não é isso a Natureza?
Ah! E não peço nada às minhas mãos, porque já vão a conduzir e a tirar fotografias.
Enfim, peço-lhes isso.
 






















 
 
 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O TALENTOSO MR. ALLEN


Mais uma vez, Woody Allen conseguiu transcender-se, tal como sucedera com Match Point. E, mais uma vez, fê-lo duma forma magnífica.
 
Não que W.A. precise de se transcender para ser magnífico. Ele é-o, naturalmente. Assim, quando apelo ao conceito de transcendência, não me refiro a uma qualquer espécie de superação, mas a uma completa mudança de registo, dom com o qual nem todos os Artistas, por melhores que sejam, merecem a graça de ser contemplados.
 
Blue Jasmine é, indubitavelmente, uma boa história, mas, em minha opinião, não reside aí a sua principal qualidade, aquilo que o diferencia de qualquer outro filme com semelhante objecto de narração (afinal, financeiros burlões, mulheres e homens traídos ..., who cares?).
 
A diferença - qualitativa - está, desde logo, na maneira como a história é contada, reveladora, nomeadamente, dum absoluto domínio dos tempos da acção, tal a mestria com que os flashbacks são introduzidos, de modo a deixarem-nos a sensação duma sequência perfeitamente síncrona (símbolo da linearidade do percurso para o desastre?).
 
A diferença reside, também, no ritmo e, sobretudo, na (profunda e constante) tensão, transmissora (e geradora?) dum permanente estado de alerta, de inquietação e de angústia - tal como em Match Point.
 
A diferença encontra-se, máximo dos máximos, na densidade conferida à análise psicológica da personagem principal, aliás, em mais uma brilhantíssima interpretação da Cate Blanchett - que se sente nos mais mínimos gestos da sua expressão corporal, de que destacaria, obviamente para além do rosto, as mãos.
 
Com mais este filme, a par do anterior Match Point, creio poder dizer-se que W.A., um dos mais preciosos ícones do humor inteligente, em clima de auto análise, se constrõe um  outro ícone, o da tensão das profundezas da mente humana (qual novo Ingmar Bergman, salvaguardadas as diferenças de estilo e de conteúdos narrativos). Com um fundo negro, pelo peso explícito (e implícito), mas que não é humor. Nem era necessário que fosse. Antes pelo contrário. A matéria poderá, ainda, ser a mesma, a abordagem e a dimensão, manifestamente diferentes. Mas sempre magníficas.
 
E, todavia, há uma marca constante, denunciadora da autoria: a óptima banda sonora jazzística, também ela introduzida com um acerto notável, cumprindo (apenas) o papel dum oportuno sublinhado.
 
E há, ainda, as referências ao Xanax , ao Prozac, à ansiedade, claustrofobia e medo da morte. Mas estas, creio eu, nunca poderão desaparecer dos filmes do talentoso Mr. Allen, seja qual for o seu registo (e ainda bem, pois as imagens de marca, quando boas, devem manter-se).
 
Enfim, se Blue Jasmine não ganhar, pelo menos, os Óscares para melhor filme, melhor realizador e melhor actriz principal, vou ficar muito decepcionada. E só não prometo fazer greve ao cinema, visto não gostar de prometer o que não posso cumprir.