Num mundo e, particularmente, num País em que as pessoas cada vez menos se dão ao trabalho de pensar - ou assim parece - é muito bem vindo o filme HANNAH ARENDT, um filme sobre o PENSAMENTO.
Quando da 2ª Guerra Mundial, H.A., Judia alemã, conseguiu evadir-se dum campo de detenção - eufemismo para campo de concentração, utilizado pelos colaboracionistas franceses - situado em Gurs, França, tendo-se estabelecido nos EUA, onde publicou, entre outras obras de filosofia política, As Origens do Totalitarismo, e onde leccionou em diversas Universidades.
Fez a cobertura do julgamento, em Jerusalém, do nazi Adolf Eichmann, para o The New Yorker, através de cinco artigos - reunidos no livro Eichmann em Jerusalém.
O filme trata, justamente, do pensamento então desenvolvido por H.A. sobre Eichmann e sobre a alegada colaboração de alguns líderes judeus com os nazis, bem como da forte polémica a propósito gerada no seio da Comunidade intelectual e, em particular, Judaica.
Em oposição ao pensamento dominante, H.A. não considera Eichmann como a personificação do demónio, antes o remetendo à condição da mais banal das normalidades, a do homem comum, zeloso e acrítico cumpridor de ordens, (logo) alheio à compreensão ou à consideração da fronteira entre o bem e o mal. Portanto, um homem destituído de pensamento. E pertencente à categoria de homens que maiores males causam ao mundo.
Simultaneamente, quando, em sua defesa, explica as suas ideias, não deixa de reconhecer que o extermínio dos Judeus foi um crime contra a Humanidade (visto os Judeus serem humanos), do qual, mesmo sem o alegado colaboracionismo de alguns, não poderiam ter-se defendido.
Somos, pois, convocados a reflectir sobre o pensamento da Filósofa e daí eu ter começado por dizer tratar-se dum filme sobre o pensamento, desafiando, consequentemente, o exercício do pensamento.
A tese de H.A., eventualmente atraente na pureza da sua abstracção - enquanto produto puramente intelectual -, comporta, em meu entender, algumas lacunas e contradições.
Em primeiro lugar, a aceitação de que o cego cumprimento do dever, erigido em critério de referência do comportamento do homem normal, o verdadeiro burocrata, é de molde a obnubilar a capacidade de discernimento entre o bem e o mal, carece, em absoluto, de demonstração; aliás, se não num plano mais elevado - que nos levaria, por exemplo, às questões da ponderação do livre arbítrio e a outras mais -, ao menos no plano factual é, mesmo, desmentida, como o comprova, v.g., o facto de, dum modo geral, os nazis julgados em Nuremberga usarem como estratégia de defesa a distorção da realidade - extermínio dos Judeus -, com o objectivo de se demarcarem da mesma que, todavia, sem a sua acção conhecedora e esclarecida, não poderia ter ocorrido. Tal estratégia não será, por si só, o reconhecimento de que bem sabiam ter agido do lado errado da possibilidade de escolha, o do mal? Abro aqui um parêntesis para referir que um esclarecedor testemunho desta realidade pode encontrar-se em NUREMBERG DIARY, de Gustave Gilbert, psicólogo militar junto da prisão em que aguardavam julgamento os criminosos nazis julgados em Nuremberga. Aí são recolhidas as entrevistas e conversas informais que com os mesmos manteve, a par das suas notas pessoais.
Por outro lado, a tese de H.A., levada às suas extremas consequências, não deveria conduzir à total desresponsabilização social - mesmo esquecendo a pessoal - do tal homem normal - por cujas mãos, todavia e como acentua, se produzem os piores males do mundo? Seria isso justo ou sequer admissível?
Não me parece, nem parece tratar-se de consequência aceite pela própria, já que, por um lado, afirmou ter ficado satisfeita com a condenação de Eichmann e, por outro lado, reconheceu ter-se tratado dum crime contra a Humanidade. Caso para perguntar, um crime sem autores, um crime sem responsáveis?
Por outro lado, independentemente da sua bondade intrínseca, afigura-se-me que certos exercícios puramente intelectuais - plano em que a mente, na sua plasticidade e habilidade, parece vocacionada para aceitar um infinito de teses e o seu contrário... - deverão, talvez, manter-se no resguardo dos seus pensadores, quanto mais não seja, por oferecerem a susceptibilidade de branqueamento de horrores, que, nunca devendo ter assombrado a Humanidade, ao menos não convém que se repitam. E de horrores destes ou doutros já a Humanidade está farta ou deveria estar, caso pensasse ... com conhecimento e sentido da consequência.
Mas isto sou eu a falar. E não sou filósofa. Nem judia (tanto quanto sei).
Nota: Não conheço a obra da H.A., baseando a minha análise naquilo que captei do filme.