sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

TALENTO



Seja lá isso o que for, pior do que não tê-lo é tê-lo e não o exercer! E, por agora, é tudo, esgotou-se-me o talento.
 
 
aqui a seguir é, apenas, uma tela em branco
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

NATUREZA MORTA


Pareço uma natureza morta, aqui desabada sobre a pele camel do sofá - não haverá outra palavra para sofá, pergunto-me, mas não me detenho na pesquisa, quero continuar, afinal, ontem ou talvez já hoje, na hora da transição, o texto brotou tão nítido, tão corrido, melhor seria impossível -, embora pele camel fosse o outro, o que precedeu, mas irreleva, o tom de pele irreleva, desnecessário dar vida a uma natureza morta, procurar ambiente para ressaltar a falta de brilho, a desistência. Detesto naturezas mortas, aliás, bem vistas as coisas, nem consigo entender o que são naturezas mortas, porque se chama natureza morta a um possível molho de bróculos e cenouras e uma galinha esganada, amanhados sobre a tábua duma mesa de cozinha, por exemplo, desde que devidamente aprisionados numa tela ou embrulhados numa folha de papel Canson, aguarela, acrílico, óleo ou o que calhar. Por isso detesto parecer uma natureza morta, mas, tantas primaveras abandonadas, outras tantas assassinadas, outras prometidas por cumprir, horizontes de inverno, outonos intermédios e verões desassossegados, como poderia parecer outra coisa, hoje, sim, refiro-me a hoje, amanhã posso parecer outra coisa qualquer, sobretudo uma natureza viva, o oposto duma natureza morta, por definição, embora não perceba o conceito, também não, se a prisão na tela ou no papel Canson e o material de rotulagem, aguarela, acrílico, óleo ou o que calhar, são os mesmos, e se não há garras para rasgar, a tela ou o papel Canson, e dar um salto monumental, daí para longe do camel ou do branco, agora é branco, e qualquer coisa que não seja isto, uma natureza esta.
   
Achas que pareço o quê, uma natureza morta? Cheguei a casa meio cansado, quer dizer, completamente exausto, e esbarrei ao pé de ti, no sofá de todos-os-dias, quer dizer de todas-as-noites, e imaginei-me assim, um pato assassinado, rodeado de maçãs, uvas e ameixas, carpideiras fingidas, tudo muito bem atado numa tela presa por barras de carvão e pastéis vários à mistura. Vá, responde-me, sai da tua tela e responde-me.
 
Que não, não estou presa numa tela, nem sequer numa folha de papel Canson, adianto já, quando chegaste e esbarraste ao pé de mim, percebi que não parecia isso, uma natureza morta, aliás, nem sei o que é uma natureza morta, não percebo, e digo-te mais, se algum dia estive presa num daqueles meios ou noutro qualquer, não cheguei a criar as rotinas da prisão, puxei das minhas garras, rasguei paredes de linho ou de papel ou do que fosse e. Aliás, detesto naturezas mortas, tudo muito sério e arrumadinho, sobre madeiras de cozinha ou bandejas metálicas, com brilhos de mordomo ou dona-de-casa, uma toalha de renda ou um pano aos quadrados, maçãs parvas, rosadas, envergonhadas, peras maduras, picadas de ferrugem, coelhos de orelhas espetadas numa agonia post-mortem, tentativas de reprodução de vidas colhidas, decepadas, assassinadas. Quero lá saber de naturezas mortas! Hoje é manhã e, embora prefira a noite, vou já começar a antecipar. Se quiseres, não venhas, se não deixa-te estar. Assim, como acabas de ouvir, não foi engano, a nuance. Estou no ir.
 
Então vai, estou no ficar.
 
 
 
 
 
      

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A EVIDÊNCIA DO ÓBVIO


a evidência do óbvio nega que um triângulo possa ser quadrado
 
e isso não me convém
 
a evidência do óbvio nega que um rio possa ser pedra brilho
 
e isso não me convém
 
a evidência do óbvio nega a possibilidade de eu me ultrapassar para lá do arco esticado dos 180º
 
e isso, sobretudo isso, não me convém
 
e nega muito do muito pouco em que acredito
 
e também não me convém
 
e nega a possibilidade da asa do pássaro de fogo

e da tangência do seu sonho
 
e isso não me convém
 
a mim convém-me que:
 
o branco seja a soma de todas as cores
 
o preto, a absoluta ausência de cor
 
e a inexistência do cinzento
 
assim, qualquer destas é do domínio da minha conveniência
 
 
 

 


 
 
 
 
 
 


domingo, 23 de fevereiro de 2014

POR UM CHOCOLATE!


Era fanática por chocolates, o seu cérebro esperava, ansiosamente, aquele momento em que, iniciada a degustação,  bracinhos castanhos e mornos o percorriam, cálidos afagos de serotonina e multiplicados  brilhos de sinapses redentoras. Obviamente, as ancas (e não só) protestavam, até porque os bracinhos, cumpridos os afagos, desciam para descansar, instalavam-se e já não queriam sair de lá, das ancas (e não só), entenda-se.
Mas a vida mudou-lhe, até as ancas se esvaíram, na penúria a que, por razões aqui alheias, se viu diminuída, ao ponto de ter ido viver para debaixo dum viaduto, também podia ser uma ponte, mas isso seria demasiado vulgar, muito lugar comum.
Por vezes sonhava com o sabor do chocolate perdido, aquela textura a derreter-se-lhe na boca, o cérebro entusiasmado e agradecido, e, como era um sonho bom, as ancas (e não só) ficavam do lado de fora. Se calhasse pesadelo, que os tinha, e muitos, lá apareciam elas (e não só) a fazer descer abruptamente os níveis de serotonina e o fulgor das sinapses.
Naquele dia ou noite - aquilo de viver sob o viaduto já não lhe permitia distinguir - sonhou o sonho bom, mas, quando a luz invadiu, forte, atravessando as cortinas de betão, podendo ser do sol ou dos faróis dum carro a acelerar, acordou, os olhos ainda levitavam na doçura, mas a boca soube-lhe a falta de chocolate e as mãos crispavam-se sobre o estômago, como quem tenta separar as paredes unidas pela fome.
De regresso às órbitas vazias, os olhos avivaram-se numa decisão, a que o cérebro esteve longe de ser alheio, é hoje, é hoje que temos de comer um chocolate, um grande chocolate, um chocolate até à distância do impossível!
Com gesto rápido, afastou o edredom de pedra miúda,  ergueu-se determinada, lavou-se num charco das últimas chuvas e pôs-se a caminho, sobre os sapatos meio corroídos, obra de ratazanas vizinhas, talvez para elas solas velhas tivessem o sabor do chocolate ou talvez não. O vestido descosia-se num dos lados da cintura e o cabelo erguia-se em reboliço, ignorante da data da última lavagem. Caminhou com a desenvoltura de quem vai sempre em frente, porque sabe bem onde se dirigir. Ao fim de três horas, chegou. Recordava-se bem daquela loja, só chocolates, prateleiras e prateleiras cobertas de deliciosos chocolates, meninas aperaltadas atrás dos três balcões, derretendo-se em sorrisos para os clientes. Até que a viram, fecharam os dentes e deixaram cair olhos estupefactos sobre a sua magra e improvável figura. Não se importou, também não com os olhos e as bocas assarapantadas dos clientes, iguais aos das meninas atrás dos balcões. Percorreu as prateleiras com a antecipação da delícia e foi apanhando um aqui, outro ali, como quem se dá ao luxo de poder escolher, deixando a suspensão reinar em seu redor, sem sequer se aperceber de que uma das vendedoras tinha accionado um botão secreto. Encheu o saco meio esboroado e, qual troféu, ergueu na mão o maior dos chocolates, dirigindo-se à porta, tão calma e determinada quanto entrara.
Então, tudo sucedeu num repente, justamente no limiar da saída, cruzou-se na pressa desaustinada dum polícia armado, e tudo ficou claro, era o chocolate contra a arma, hesitação impossível, depois restava-lhe correr, o chocolate voou de encontro à testa do polícia, um desequilíbrio foi causado, para trás, de encontro à ombreira da porta, o homem escorregou, bateu com o cotovelo armado em qualquer coisa e a arma disparou, furando-lhe o queixo, que se expandiu num fogo de artifício de lascas de  dentes, chispas vermelhas e bolinhas de mioleira, numa cena que o próprio Quentin Tarantino  não teria ousado desprezar. Ah! só um parêntesis para dizer que não sei se é tecnicamente possível, o disparo naquelas circunstâncias, quer dizer, com aquele percurso.
Ora, uma coisa é roubar chocolates outra, bem diferente, é  provocar, mesmo acidentalmente, o desnascimento dum semelhante, sabe-se lá se também amante de chocolates, doçura cúmplice. Em vez de fugir, apiedou-se, ela, a Ana Rosa, isso, vamos dar-lhe um nome bem foleiro, a condizer com o não abrigo do viaduto, antes disso, chamava-se Francisca, apenas. Ajoelhou-se, desprendeu-lhe a arma dos dedos já flácidos, não fosse disparar outra vez e ampliar a mortandade, e amparou-lhe a papa da cabeça, como se assim lhe pudesse restituir o nascimento, enquanto uma lágrima caía sobre o estardalhaço à volta, após deslizar, triste e compassiva, pelo seu rosto frágil, como a do menino da pintura de qualquer casa de velharias que se preze.
Mais dois polícias encorparam na proximidade das suas costas derreadas e, com a indubitabilidade dos dedos de todos os outros, vendedoras e clientes, estendidos na sua direcção, foi ela, levantaram-na rudemente e deram-lhe voz de prisão. 
De nada lhe valeu protestar inocência, as suas impressões digitais ficaram impregnadas na arma acidental, apesar do ranho variado que se lhe tinha colado, proveniente daquela cabeça esventrada - aproveita, Tarantino, se te apraz! E, é claro, os dedos acusadores nunca se rebaixaram à verdade ou sequer à dúvida, pelo menos até ao termo do julgamento, rápido, por sinal, e definitivo, na sua douta conclusão: culpada, homicídio voluntário no mais elevado grau, agravado por isto e por aquilo, já para não falar no roubo dos chocolates e, pior, na desfaçatez com que foi perpetrado. Sentença: pena de morte! Ah!, isto passou-se nos Estados Unidos da América, tinha-me esquecido de dizer.
Recolhida à cela, após o conhecimento da sentença, estava muito zangada com a vida e, em manifesta reacção contra a injustiça, que sempre lhe custara aguentar, resolveu fingir que as coisas tinham sucedido como descrito e concluído nos autos, riscou na parede vazia, até mato por um chocolate!
Os dias dilataram-se com a serotonina em baixa e as sinapses retardadas, até que chegou o dia, o da execução, carcereiros entraram-lhe pela cela e, com saracoteios de simpatia tardia, anunciaram-lhe a iminência da última refeição - ia dizer ceia, mas não caía lá muito bem, já está tomada - disponibilizando-lhe um naipe de escolhas a que nunca tivera acesso, nem na sua longínqua vida de simplesmente Francisca. Mas ela sempre achara estúpida aquela ideia, facilitar um banquete a um morto antecipado, como se barriga aconchegada fosse capaz de exorcizar o medo daquela proximidade desconhecida e definitiva, se calhar a ideia é apenas juntarem um castigo colateral, pensou. Fechou-se num mutismo de costas voltadas e não se dignou responder, não ia ceder à estupidez, nem por um chocolate. E eles, vá lá, Ana Rosa, diz o que queres, podes escolher o que quiseres, talvez uma degustação de chocolates, e riram à socapa, para as costas dela, já tinham cumprido a sua parte de saracoteios. 
Impotentes no cumprimento da sua missão e receosos da correspondente descida na classificação de serviço ou negação duma muito eventual promoção, retiraram-se e foram falar com o padre, o encarregado das absolvições finais.
Então, filha, faz um esforço, reconcilia-te com o mundo antes da partida, não sejas orgulhosa, e ela a pensar, grande parvalhão, só me faltava cá este, enquanto concentrava o pensamento na idealização dum lado-de-lá povoado de rechonchudos anjinhos de chocolate, transportando-a por mornas nuvens de açúcar glacé - não sei se é isto, não percebo nada de culinária -, deixando-se comer sem reservas.
Foi aí que o padre tirou qualquer coisa de sob a batina - será que ainda se usa? - e, estendendo-lha numa iluminação radiosa, lhe disse, filha, aqui tens um tablet de chocolate, come! E era mesmo, um tablet, não uma tablette, de chocolate. Bem, era quadrado e tinha os vários símbolos dos verdadeiros tablets, Google, gmail, facebook e por aí fora. O orgulho era muito, mas a tentação foi maior, Ana Rosa agarrou-se à oferta e começou a clicar que nem uma louca e, a cada novo clique, saía um quadradinho de chocolate, que se apressava a devorar.
Quando do tablet já só restava nada, escorregou as omoplatas na parede, enquanto os olhos deambulavam num sorriso longínquo, como só um reforço de serotonina e uma aceleração de sinapses pode provocar. Gentilmente, o padre cerrou-lhe as pálpebras e aconchegou-lhe os braços no regaço, já não estavam hirtos como naquela manhã, nunca viria a saber que o último quadradinho do tablet tinha sido recheado de cianeto e que o padre estava muito contente por ter cumprido a boa acção do dia.
Alergia a chocolate, só pode, foi a sua resposta à estupefacta interrogação dos carcereiros, regressados para cumprirem o resto das formalidades. Aceitaram a explicação, afinal um padre não tem necessidade de inventar nem está autorizado a mentir! Lembraram-se, então, do colega assassinado - por um chocolate, mas isso ignoravam - e um deles, por entre uma risada histérica, escreveu ao lado da frase de Ana Rosa, morta por um chocolate!  
 
Nota: Dar o devido desconto, s.f.f.. Isto foi escrito sob o efeito de privação de chocolate e dum pico de febre!
 
(Pormenor duma mesa deliciosa, uma vez, no Centro Cultural de Cascais, pena eu não estar incluída na lista de convidados)
 
 
 
 
 
 
      

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

NEURÓNIOS GRÁTIS

E agora como é, perguntas-me. Bem gostaria de te poder responder, mas não sei o quê, ignoro a substância da tua pergunta, massacrada que estou pela sua forma, sempre a mesma, abrupta, saliente, barulhenta, garra nos meus ouvidos, como quem quer extrair, à força, uns quantos neurónios. Se calhar é isso, desesperas-te por que te entregue uma parte dos meus neurónios, espero que não todos, seria de mais, como poderia depois responder-te (?). Verdadeiramente não sei o que perguntas, menos ainda o que pretendes por resposta, está bom de ver, corolário, simples corolário, embora de lógica o nosso diálogo nada tenha, nem sequer diálogo, se não entendo o que... já disse. Queres ser mais explícito, ao menos queres deixar de te arrevesar na tautologia das palavras com ponto de interrogação? Podias mudar, uma vez, só uma vez, trocar por um ponto de exclamação, um que me reflectisse, espelho glorioso, um espanto genuíno e comovedor, uma admiração sem limites, qualquer coisa a ver com esses estados magistrais em que apetece oferecer neurónios grátis. Mas não, insistes. E eu sem saber. Nem sei porquê, a razão de continuar a ouvir-te. Hesito, desligo as orelhas, desligo-me, desligo-nos, como se pudesse falar por ti, mas não, tu só perguntas, insistes, sempre em círculo, e eu sem saber nada, como te responder, o que te responder, sequer a resposta que procuras, muito menos a que teria para te dar, na hipótese de. E, então, perguntas-me, é isso que tens para me responder?  
 
 
 
 
 
 


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A QUESTÃO DO TEMPO

 
Fragmento do meu mais recente projecto de escrita: 

"Entretanto, dei comigo a repensar a questão do tempo, se existe verdadeiramente distinção entre o passado (que já passou), o futuro (que a Deus pertence) e o presente. Penso na concepção dos filósofos gregos do estoicismo, nos pensamentos alternativos ou não sei como lhes chamar, que pululam por aí, em prol do serenamento das almas demolidas pela crueza de vidas tristes, deprimentes e desesperançosas, procurando ocupar o lugar das religiões falidas, senão fazer-se passar por outras religiões, de anunciadas novas eras.
Afinal, talvez não seja bem assim, talvez seja o presente, essa promessa de âncora redentora, porque instantânea –ainda não é passado, mas ainda não é futuro –, que não existe, afogado que está na iminência de, simultaneamente, se transformar em passado e ser engolido pelo futuro, caso em que o tempo não tem dimensão fragmentada, mas una e nula, não do tipo daquela lógica de divisão certinha, passado-presente-futuro, que os explicadores de tudo pretendem atribuir-lhe, para sossego ou desassossego dos mortais, conforme a intenção e o objectivo, ou seja, o lucro.
Há momentos ou milimétricas fracções do passado que nos atingem com o carácter das impressões mais nítidas, vívidas e profundas, ainda que, na linguagem da memória, aquela por que nos surgem, se nos apresentem, ao menos em termos objectivos, como meramente acidentais e insignificantes, uma conversa banal, a luminosidade dum certo ponto dum certo dia, um cheiro, uma sensação dada, sobretudo isto, uma sensação, a força duma alegria, angústia, tanto faz. Como podemos negá-las, na sua actualidade lúcida, nítida e pungente, fotográfica? Em contrapartida, muitas vezes, talvez as mais das vezes, o presente não é mais do que um saco sem boca e sem fundo, tal a desatenção e a pressa com que se esvai no passado e se abre ao futuro. Quanto a este, o futuro, será que existe o futuro, se se não converte em passado, derrapando por um muito eventual presente?
Do passado vêm marcas tão sólidas e que, simultaneamente, se vem a concluir terem sido presságios, senão mesmo fragmentos, do futuro, que é impossível ignorá-las, nessa obsessão redutora e artificial que é pretender isolar o tempo, fechá-lo numa hipotética caixinha de presente, qual caixinha quadriculada para medicamentos a horas certas."
 
 
Nota: fotografia duma obra em exposição no Centro Cultural de Cascais.