quinta-feira, 20 de março de 2014

SE AO MENOS UMA PAUSA


e se não há nada a dizer, experimente-se
rasgue-se o silêncio e diga-se, nada
logo alguém se lançará em queda livre na próxima piscina
talvez, mesmo, sem saber nadar
há sempre alguém pronto a seguir o comando das palavras
sobretudo das palavras ocas e desnecessárias
por isso os jornais, as rádios, as tvs
por isso os demagogos e os tolos palradores

mas traduza-se um pensamento por palavras
sobretudo, um daqueles pensamentos de pensar profundo
e nada, ninguém quer saber

quantos salvamentos
se, ao menos, uma pausa, um pensamento!









HARLEY DAVIDSON


"O rápido afastamento de Rita - que, em segundos, se perdera na linha do horizonte, reduzida ao tamanho dum lápis - deveu-se à urgência em encontrar os outros desertores, visto se aproximar a hora da partida.
Todos eles tinham ouvido falar dum país de misteriosos contornos e, embora ignorassem exactamente quais ou, talvez, por isso, ansiavam conhecê-lo.
A chegada de Rita ditou a antecipação da viagem.
As mochilas, reduzidas à mínima expressão do essencial, não atrapalharam a subida para as Harley Davidson e as posteriores acelerações, que, passado o impulso inicial, se revelaram desnecessárias, porquanto uma inusitada e poderosa força os sugou para o local de destino, privando-os da deliciosa sensação de velocidade em crescimento.
Tudo sucedera como se um ténue véu se tivesse rasgado para os deixar passar, ou melhor, para os reclamar à presença dum qualquer interior desconhecido.
Perplexos, mas excitados pela curiosidade, estacionaram as motos, dispostos a iniciar o percurso da descoberta."
Isto é um extracto do Moleskine de Janete (II), aqui publicado em 10 de Julho de 2013. A novidade, agora, é que encontrei a maravilhosa Harley Davidson em que pensei, quando o escrevi (ao menos, no reino do faz-de-conta; talvez um dia destes também encontre a Rita, o Miguel, a Janete, o Francisco e os outros...).   
 
Aí vai, em vários ângulos, qual sofisticado modelo:



 

 

  

 
 




 

segunda-feira, 17 de março de 2014

SENTIDO DE HUMOR, PROCURA-SE!


Não sei que mal te fiz, sinceramente, não sei. Dum momento para o outro desapareceste-me da vista, nem sequer aquela cena clássica, vou ali comprar tabaco e já venho..., clássica e desactualizada, já não se usa fumar, não é cool. Só percebi quando dei pela tua falta, nem isso, foi através do advogado que foi lá a casa entregar-me os papéis, que papéis, perguntei. E ele, tipo rufia empedernido, profissional de vão de escada, está-se mesmo a ver, dar-se ao trabalho de se deslocar lá a casa, feito estafeta, os papéis do divórcio, aqui tem, é só assinar. E eu, de abrir os olhos, a sentir-me inutilmente incomodada, é engano, só pode, mas não, saltaram as identificações, os selos de conformidade, e era mesmo comigo, sua excelência o S.deH. tinha-me enviado um mandarete foleiro com aquela notícia de divórcio súbito e unilateral, toma lá, ficas a saber, assina e o assunto acaba aqui. Ora - continuo a dizer - ignoro que mal lhe tinha feito, e, de resto, ainda estou para saber. Não é que o tipo invocou diferenças irreconciliáveis, armado em estrela de Hollywood! Vai-se à procura de concretização e nada, não percebi rigorosamente nada do que seriam as tais diferenças, aliás, já estávamos juntos há bastante tempo e creio poder dizer que nos dávamos bem.
 
Desatei a pensar, dei voltas à cabeça, mas o facto é que ele me fazia imensa falta para colocar as ideias em ordem, senti-me tipo de luto, sofria-lhe tanto a falta! Ainda assim, continuei a pensar - aleluia, resta-me a determinação e meia dúzia de neurónios! - e cheguei às seguintes conclusões, a) a nossa relação até era muito íntima, tão íntima que, as mais das vezes, ninguém conseguia entender, era preciso explicar, mas na explicação perdia-se a graça, b) abusei um bocado dele, quer dizer, servi-me dele como duma arma de defesa, dava-me imenso jeito e ele parecia não se incomodar, até se mostrava contente pelo uso ou abuso, questão de se saber reconhecido e bem empregue. Não me pareceu que qualquer destas consubstanciasse diferença irreconciliável. Concluí, então, c) fartou-se de me aturar. Aí fiquei magoada, confesso, mas assinei os papéis do divórcio, por deferência para com o S.deH., o meu.
 
Agora não se pense que vou ficar de braços cruzados à espera que volte, não, não. Publico este anúncio, com a promessa dum prémio para quem o encontrar e mo devolver, embora creia que, mesmo antes disso, ele voltará, afoito, pelo seu pé, e, só por ser quem é, recebo-o de volta, de braços abertos e sorriso largo.
 
Faz-me tanta falta, o meu Sentido de Humor! Só por ser quem é!
 
 
 

domingo, 16 de março de 2014

ESTÁS ASSIM!


Sei que estás assim, de bicho, porque te vi, há dias, não ontem, nem anteontem, nem mesmo antes, lá para antes de quarta-feira, e não eras tu, quer dizer, hoje não és a de quarta-feira, na quinta-feira já não eras a de quarta-feira. Sei, porque vi no espelho, vi fundo no espelho, naquele que se estatela até à raiz mesma do abismo-eu, donde se projectam as sombras mais sombrias que qualquer poço conhece como dedos contados, 1, 2, 3, por aí fora, somas e subtracções. O pior são as subtracções e as suas ameaças. Então é como se um dragão a cuspir monstros, dragões-fogo, queimando almas plácidas, confiantes, titubeantes, desconfiadas, desastradas, de tanto..., enfim, toda a espécie de almas, que almas há de muitas, mas dificilmente resistem, sejam lá como forem, às raivas afiadas de certos dragões. Não falo de dragões de brincadeira, por assim dizer, de Carnaval, dragões de fingir, de alimentar e animar festas chinesas, em Macau. Falo das sombras que viajam das viagens do abismo mais longínquo de que há memória, pior, muito pior, de que não há memória. Hoje, desde quarta-feira, essas sombras tomaram conta de ti, já rondavam, pequeninas, como se pouco sol e menos obstáculos, só inventados, que nem eram, apenas atenuados,  por comparação a posteriori, digo, andavam de mansinho, persistentes, tal qual o princípio de escuridão e electricidade aérea que anuncia forte trovoada. Então, desabou. Assim. E eu grito por que passe, se dissipe rápida, sem estragos, negue os anúncios e os medos e os recados, vá-se embora, como quem reza, Santa Bárbara, São Jerónimo e Santa Bárbara, como me ensinaram quando ainda não tinha idade para ter medo, conhecer sombras ou dragões malditos, a cuspirem sabe-se lá o quê que me deixa assim, com cara de bicho. Sim, sou eu, nem preciso de espelho para me reflectir o abismo-eu, sou mesmo. Por isso, é a mim que me dirijo, quando digo, estás de bicho. Assim me chamei uma vez, auto-reproduzida num pedaço de papel ou numa tela, numa altura em que já tinha travado conhecimento com sombras e dragões malvados. Ainda se as sombras e os dragões fossem ameaça apenas de mim! Quanto eu daria por uma troca de papéis!
 
 
 
 
 

sábado, 15 de março de 2014

MY HEART!



O meu coração tem asas. As asas que o trouxeram e o hão de levar. O meu coração tem asas. As asas que transportam até ele seus vários ocupantes. As asas que nunca levarão dele certos ocupantes, embora outras asas os possam levar. O meu coração tem asas. As asas que o fazem voar, sobrevoar e voltar, mais rico ou mais pobre. Mais pobre – está bom de ver - se alguém que ele queira não quiser entrar. O meu coração distende-se com o bater das asas. Por isso, quando, há uns anos, a pequena I. me perguntava se gostava mais dela ou do pequeno J., sempre lhe respondia que gostava dos dois (e não só dos dois), por igual. Para ela perceber, explicava que o meu coração tem várias gavetas do mesmo tamanho, uma para ela, outra para o J. e por aí fora. Ela percebeu e já não pergunta, porque já não precisa de perguntar. Assim, o meu coração tem várias gavetas preenchidas de infinito. Nenhum ocupante deve recear, porque o amor é assim, não conhece medida nem comparação. Mas o meu coração é tecido e debruado a renda. Ao mínimo abanão pode rasgar. As asas do meu coração sabem disso. Voam, por vezes muito alto, mas sabem sempre quando voltar. Por vezes o meu coração não gosta, mas é assim que funciona, acaba por ter de aceitar. Mas o melhor, mesmo, para todos os efeitos, é voar. Ah! e a renda que tece e debrua o meu coração também pode ser outra coisa qualquer, por exemplo, ramagem de árvore, desde que livre para voar.
 

 

Nota: a inspiração deste texto foi o meu desenho do coração com asas, permanecendo, desde então, no recato do seu esconderijo informático; hoje fiz esta fotografia, que me sugere um coração. Então, nada mais natural, acrescentei um parágrafo (o último, obviamente) e trouxe-o à luz (não sem algumas dúvidas, por ser, talvez, demasiado íntimo...).



 

sexta-feira, 14 de março de 2014

ÀS VEZES, A VIDA!


um simples vidro de permeio e temos

reflexo de sol feito pássaro de papel
aprisionado em gaiola de luz
grade-escama aberta, escancarada

estátua da liberdade
por corpo, um poste, por cabelo, espinhos
da liberdade artífices e testemunhos
que a liberdade é dura, na conquista e no exercício
que a liberdade é cara, no preço e na valia

cabines aéreas, amestradas em fios de navalha
cegas à hipótese da iminência do voo interrompido
aquilo do imediato súbito
contudo, lâminas à vista
por perto, prontas a rasgar e deixar traço

cenários normais
árvores, pessoas
dar sombra, respirar
existências dos símbolos do real
simulacros do esquecimento apetecido

ah! e os pássaros
mas os pássaros são reais
escoltam a luz crua do azul, como se nuvens
existências outras
distâncias do intermédio do além

às vezes, a vida, simples vidro de permeio



 




 
 






segunda-feira, 10 de março de 2014

DRESS CODE: CASUAL CHIC WHITE


Uma amiga minha vai festejar mais uma década, quer dizer, mais um ano que completa uma década - havia de ser lindo, se fizéssemos 10 anos de cada vez, mesmo só um, às vezes, já custa, ou talvez não, depende da perspectiva e dos voláteis estados de alma, mas isto é outra conversa... - e estipulou para o evento o seguinte dress code: casual chic white.
 
Ora bem, isto - não o casual chic, mas o white - coloca-me um problema, não que não goste de branco, até tenho muitas e variadas camisas, t-shirts, camisolas e casacos de malha brancos, mas não me imagino em total white, quando penso nisso só me vem à cabeça um ovo cozido!
 
Assim, a festa está quase aí, e eu de puxar pela cabeça, a ver como hei de resolver o problema. Compro uma saia ou umas calças brancas e conjugo com uma das peças de cima em stock lá pelos armários? Compro um vestido branco? Não creio, não está tempo para comprar roupa dum um só uso! Por falar em roupa dum só uso, já me passou pela cabeça pedir um vestido de noiva emprestado, mas também não me parece, primeiro, porque, usualmente, não são casual chic, segundo, porque, tanto quanto sei, costumam ser religiosamente guardados, após passagem numa qualquer 5 a sec, quando não jogados fora em raivas post matrimoniais ou, sei lá, postos no prego ou vendidos em segunda mão, para saldar dívidas da crise - ou então não é nada disto e estou só a imaginar cenários ruins.
 
Até que, de tanto pensar, julgo ter encontrado a solução, qual ovo de Colombo: finjo-me de daltónica! Chego à festa com uma roupinha casual chic blue, a minha cor preferida, dirijo-me alegremente à anfitriã, começo a dizer parabéns, e a meio, quando ela e todos os outros me olharem num espanto de censura, por andar a violar códigos de vestuário, interrompo, abro muito os olhos, pestanejo como a Marilyn Monroe, quando fazia de ingénua, e exclamo, então o dress code não era total white?! Aí, dão-me todos o devido desconto, passam-me um bendito cocktail para a mão e que a festa comece...  
 
Agora - e não se vá dar o caso de a minha amiga aniversariante passar por aqui e desconvidar-me - devo esclarecer que era tudo brincadeira, vou, mesmo, cumprir o dress code e dançar até de madrugada, como se estivesse em Ibiza. Com sorte, não vou parecer um ovo cozido... Talvez pareça um copo de leite ou um gelado de iogurte... Who cares?