domingo, 20 de abril de 2014

AMAROMAR


eu amo o mar como quem ama
não importa se azul
se água salgada
se distância infinda
amo os seus vários instantes
quando verde ou cinzento
quando subido em nuvem
quando mesmo aqui, perdendo-se na areia
amo a inconstância dos seus ritmos
planuras de afago
colinas de arrogância
tanto faz
amo o seu ritmo
pertença mútua
divagação
em trânsito
como poderia não o amar, se o amo tanto
como quem ama!



 
 
 
 
 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O COELHO E A TITÁ

Para a Inês
 
Era primavera e floriu mais um, igual a tantos outros e, por isso, diferente, pois tantos outros eram cada um, cada qual. Como os outros, tinha as orelhas arrebitadas, elevando-se da macieza do pêlo, uns olhos vivos, avermelhados, e uns dentinhos da frente salientes, prontos a trincar o que se lhes deparasse pela frente, aspecto em que já era diferente dos outros, que se limitavam a comer cenouras e pouco mais. Ah! e tinha um feitio algo especial, introvertido, fugidio.
Aquele dia estava exuberante de luz e de flores acabadinhas de brotar, harmonizadas numa arquitectura de diversidade, nos formatos, nas cores, nos cheiros, etc. Lá alegres estavam elas, tagarelando em babélica euforia.
Saído da sua toca, ele, o coelhinho ensimesmado, sentiu-se incomodado com tanto bulício. Virou os olhos, procurando um canto com menos desassossego, mas foi em vão, a algazarra rebentou mais forte, quando os outros coelhos da colónia - e eram muitos - se misturaram em estridente e divertida algazarra, estendendo uma toalha de quadrados vermelhos e brancos sobre a cheirosa relva, e dispondo sobre ela um lauto piquenique, com abundância de cenourinhas frescas e outros manjares do género. As actividades eram animadas por um pequeno grupo de coelhos cantores, que faziam deslizar alegremente a melodia:
é Primavera, o primeiro dia
felizes estamos, por isso cantamos
vivam as flores e as cenouras
vivam os insectos e demais animais
viva o sol, a luz e o calorzinho
viva a vida e viva a alegria
O coelhinho ensimesmado, já muito aborrecido, reparou numa rapariga gorducha e bem disposta, que, sentada no chão de terra, descansava as costas no tronco da árvore grande, observando, curiosa e divertida, toda a maravilha da cena envolvente.
Ele, o nosso coelhinho, sentindo uma súbita fome de pequeno almoço, aproximou-se, sorrateiramente, dela - que, já agora, se chamava Titá - e, com um ar maroto, preparava-se para lhe morder uma perna, mas ela, sentindo a ameaça daqueles dentinhos afiados, afastou-o com uma festinha e, com igual dose de meiguice e convicção, explicou-lhe que as suas pernas não eram comida de coelho, ao que ele, na atrapalhação do flagrante, se desculpou, eu só estava a brincar! Então, ela, fingindo acreditar, pegou-lhe numa das patinhas transpiradas, encaminhou-o para o grande grupo dos outros coelhos, apresentou-o e disse, meus caros, este vosso amigo andava perdido na floresta e, cá para mim, está esfomeado e a precisar de companhia. Sem a deixarem continuar, eles fizeram uma grande roda à volta dos dois e responderam, em coro, Oh! junta-te a nós e os nossos manjares partilha, não faltam cenouras nem alegria, para te alimentar e fazer companhia! Ainda a medo, ele juntou-se-lhes, aceitou a primeira de muitas cenouras, começou a relaxar e, passado pouco tempo, já cantava e dançava. A Titá retirou-se devagarinho, com um sorriso a florir-lhe os lábios, e foi ao encontro dos seus amigos, que, já um pouco inquietos, a esperavam para o primeiro piquenique da Primavera.  
 
Nota: Inventei esta história há uns anos, para a Inês, que nunca parava de me pedir histórias inventadas. Hoje já tem 10 anos, quase 11, e pede-me opinião sobre actores de cinema, cantores, etc. Foi muito gratificante inventar histórias para a Inês, mas não o é menos vê-la crescer e passar para um registo diferente, de pré-adolescente. 
Abaixo: 2 aspectos da ilustração que fiz para a história.
 
 
 
 

 
 

terça-feira, 15 de abril de 2014

QUE SERÁ FEITO DE MISTER LONELY?

 
Como poderia o silêncio prender duma maneira tão surda e eficaz? Mas foi isso mesmo que aconteceu, aquele silêncio tomou-lhe  o sangue e, quando desaguou no coração, explodiu na mais profunda das ausências, comeu-lhe o tutano dos ossos, manietou-lhe os músculos e deixou-lhe a boca seca de ansiedade e angústia. Se deixou algum espaço? Pois deixou, o espaço para a percepção duns mínimos sons, por definição, só podiam ser mínimos, os sons ampliados na esplanada vazia do silêncio maior. Uma espécie de campainhas longínquas, de proveniência indecifrável, impossíveis de desligar, justamente por isso, por não se lhes conhecer a origem e, sobretudo, pela inegabilidade do silêncio. Assim, aquele assombroso  e espesso silêncio tornou-se símbolo da solidão maior, a que se impõe, impondo a percepção ininterrupta de vultos outros, difusos, sem os quais não seria, obviamente, solidão.
Ele não confessava aquele silêncio a ninguém, nem admitia que se lhe notasse. Não suportava algazarras sem sentido, sobretudo as exclusivamente destinadas a silenciar silêncios, ainda menos as, porventura, destinadas a silenciar o seu silêncio. Puro fingimento, umas e as outras, assim pensava. E aquele silêncio era dele, talvez a sua única verdadeira criação, infeliz criação, aqui para nós. Mas não, ele reivindicava aquele silêncio, não porque se sentisse bem no ninho da ansiedade e da angústia, amarrado naquela prisão, sangue envenenado, exaustão, mas porque sabia, de certeza absoluta, que só ele podia espatifar as grades daquele silêncio. Não estava ao alcance de ninguém retirá-lo do universo das campainhas longínquas, indecifráveis e ininterruptas. Talvez, só de alguém que, sem necessidade  de ele se revelar, lhe trouxesse uma bela música ou até palavra, suave, encantatória, que o fizesse vir à superfície do poço de águas negras, despertar os sentidos, de maneira a esquecer, naturalmente,  a latência das campainhas , recuperar o bater calmo do coração, desinundado do veneno do silêncio, daquele silêncio, poder, enfim, desfrutar do silêncio da quietude e não do ground zero da ausência.
Conheci-o, era engraçado, chamava-se a si próprio, Mister Lonely - embora não por palavras, mas pela camurça macia do olhar, e apenas perante quem conseguisse perceber a sua espécie de silêncio, porque, como ficou dito acima, tinha horror a expor-se.
Que será feito de Mister Lonely?   





 


segunda-feira, 14 de abril de 2014

DE ONDE VIESTE

Amanhã estava a ser exactamente igual ao que viria a ser ontem, mas não ouses perguntar-me porquê, tu sabes. Um ataque de jet lag enrolava-te na intemporalidade dos fusos secundários, definidos a cada micro unidade como se moedas trocadas, cascalho miúdo e saltitante, assim o disseste, calculo que te lembres. Fiquei espantada, pois tinha pensado em saltitante para definir uma das espécies de humor, assim, o sentido de humor é uma tristeza saltitante. Achaste graça, foste o primeiro – aliás, o único – a achar interessante esta definição duma variável do sentido de humor, e, então, aventurei-me a perguntar, de onde vieste? E tu, espantado, como se fosse uma pergunta impossível, melhor, proibida, respondeste, ???. Eu não sabia, nunca saberia responder a três pontos de interrogação seguidos, e entristeci, aqui acaba mais uma hipótese de conversa e fico sem saber de onde vieste. Já me preparava para me levantar, ir fazer o tour das lojas do free shop, tomar um café, observar o movimento em trânsito – sim, também existe movimento parado, como quando um grito se detém a meio da garganta, apenas um exemplo – rever a hora do meu voo atrasado, quando me detiveste, para perguntar, sorrindo, e tu, de onde vieste?
 
 
 
 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

OXALÁ!


Movia-se tal um corpo descaído, o pescoço dobrado em semiarco, olhos arrastados pelo chão, lavando desperdícios alheios. Não era um cão, era um homem, pelo menos, tinha sido, quem diz homem diz mulher. Não precisa ter idade definida, não pode é ser criança, adolescente ou muito jovem, não seria justo. Não seria justo?, coisa mais idiota, mas alguma vez poderá reclamar-se de justiça o que não passa do puro domínio do agravo, da ofensa gratuita, do riso desalmado dum qualquer pesadelo sem nome nem matéria nem alma?
O espírito vagueou-lhe, foi o que foi. Partiu para o destino sem regresso dos vencidos, não necessariamente os que se deixam vencer, mas aqueles que a vida vence, apesar de tudo, sobretudo apesar deles próprios, é bem possível, que isso do livre arbítrio e da força do pensamento positivo ainda está a anos luz de cabal demonstração.
Será que tinha um cão para tomar conta dele e escrever os farrapos da sua biografia, como no Timbuktu, do Paul Auster? Será que, em criança, tinha conseguido planar, como Mr. Vertigo, do mesmo Paul Auster?
Não sei, só sei que lhe chamavam sem-abrigo, ignoro se era nome ou condição. Ou, mesmo, se era, tecnicamente, sem-abrigo ou um qualquer sem-abrigo de luxo. Ou, até, se foi apenas um dia ruim e se, no dia seguinte ou umas semanas depois, se movia qual passo destemido, com os olhos erguidos para lá do pensamento. Oxalá!
 
 
 
 
 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

OS BRILHOS DO DIA


Por hoje, já estou abastecida de ideias brilhantes, não minhas, infelizmente, que eu nem sequer tenho ideias, quanto mais brilhantes!
 
Primeira, do governador do Banco de Portugal: passar de 8 para 10 (dez, sim!) anos, o prazo de prescrição dos processos contra-ordenacionais no âmbito do sistema financeiro.
Cá por mim, apenas aditaria uma coisita: mudar a designação de prescrição para esquecimento.
 
Segunda, do governo de Portugal: permitir que as IPSS realizem funerais.
Não entendo como ainda ninguém se tinha lembrado duma medida tão acertada!
Todavia, parece-me que deveria, a) ser dada preferência aos lares da 3ª idade; b) estender a medida às instituições do Serviço Nacional de Saúde, mediante a criação dum novo serviço - de preferência grátis e, se pago, nunca de preço superior a 50% do preço das colonoscopias com sedação - designado, v.g., entrada por saída; c) associar a medida a uma outra, a eutanásia por decreto.
 
Fico, então, a aguardar mais ideias brilhantes, caso em que prometo transformar o título deste post em rubrica assídua. 
 
PS: Lembrei-me, entretanto, que os Tribunais poderiam ser encarregados da cremação dos processos esquecidos, e que as agências funerárias poderiam acumular, por exemplo, com a prestação de serviços estéticos e a organização de banquetes. Está bem, talvez não...
 
 
 
 
  
 
 


segunda-feira, 7 de abril de 2014

ALMALFAZEMA

 
Mas a paisagem era tão bela e longínqua como as alturas para onde a tua alma se evadia, a tua alma desprendida, sem horizontes por limite, sem destinos marcados por fronteira. Tudo era dum azul difuso, esfumado em nuvens leves e transparentes, podendo uma cor ser transparente, como nessas distâncias podia. Aliás, tudo era possível, para essa tua alma vadia, vagabunda, subtil, etérea, desvinculada, livre. Uma alma que não prestava contas, não necessitava prestar contas, qual mar em seus alvoroços ou calmarias, qual vento em seus segredos ou gritos, que ninguém domina nem é da natureza das coisas dominar. Essa tua alma era tão alta, tão luz, tão leve, e, todavia, tu.
 
Tu eras outra coisa, aliás, na interposição do espírito, da emoção e da mente, realidades outras, descolavas da lonjura da tua alma, planavas baixo, um rumo certo, é bem verdade, mas não isento de colisões, sobretudo contigo, poor thing, amarguravas-te e espalhavas amargura à volta.

No entanto, não se podem negar as alturas e a pureza da tua alma de alfazema.

Lembrei-me disto, desta parte de ti, tão comovente, ao ouvir uma canção, mas não me lembro qual, só que, enquanto a ouvia, não parava de pensar em ti. É quanto basta, para um encontro de almas - pensei.