terça-feira, 22 de julho de 2014

ICELAND: THIS AND MUCH MORE!

 
Por vezes é uma simples palavra e lá estou eu a cavalgar no sonho. Normalmente sucede com palavras que sugerem lonjura, mistério, contraste, isolamento, espiritualidade... E não, não me refiro às palavras dos livros, embora também estes me levem por mundos paralelos (exteriores, interiores?) e me pareça que não posso passar sem eles - afirmação esta, aliás,  não verídica, pois, sendo necessário ou imposto, acabamos por nos render a toda a espécie de ausências, é a genética da sobrevivência, tão marcada nos humanos e, de resto, em todos os seres. Mas não, não me refiro a livros, antes a viagens.
Assim se me têm imposto muitas delas, por via do apelo duma palavra, dum nome, não um qualquer nome, mas, repito, um que sugira lonjura, mistério, contraste, isolamento, espiritualidade... ou qualquer outro dos motivos que me despertam a necessidade (urgência, desespero?) da partida.
A partida, a viagem, corresponde a um estado ideal, próprio da latência do sonho, ao qual chamo em trânsito. Trata-se duma espécie de suspensão, em que é possível libertar o espírito e o pensamento, sobrevoar as nuvens, cintilar para além das estrelas, confundir-se com as árvores, aproximar-se da estranheza e da profundidade, flutuar sem linha de partida ou de regresso, como se, apenas como se...
Ah! impõe-se esclarecer, tais palavras têm a ver com natureza e com diferença, não são as que me puxam para as metrópoles, embora também ame pendurar-me nas metrópoles, mas aí é diferente, aí o apelo é o movimento, a agitação, as realizações humanas, feitas arte ou outra coisa qualquer, enfim, não se trata do sonho, trata-se dum propósito, não se trata de fusão mística, mas de  devorar a realidade.
Essas palavras são, por exemplo, Escandinávia, Alaska, Japão...
A palavra concreta de que agora falo é Islândia, I-C-E-L-A-N-D!
Na verdade, a palavra fala por si, soletra um conjunto de paisagens e visões susceptíveis de me levantar em voo, poisar em modo de flutuação, e constatar a veracidade do apelo, enfim, da sedução.
É espantosa a riqueza, variedade e força cénica das paisagens islandesas. Sonhei com elas durante uns tempos, desta vez, talvez cerca de um a dois anos. Depois parti, entretanto voltei, e, enquanto não reduzo as maravilhosas memórias da viagem à condição de testemunho escrito - que, talvez, vá partilhando por aqui -, deixo algumas das muitíssimas imagens que por lá captei, naquela espécie de ilusão de materializar o estado de sonho, prévio e determinante do estado de em trânsito e, mediatamente, do estado de regresso à realidade. Apesar de prosaico, talvez banal, este estado também possui a sua valia, porque a realidade já nunca será a mesma, enriqueceu, pelo caminho, quer dizer, não propriamente a realidade, o viajante, neste caso, eu...
 
 





















 
 

 



 
 




























 










































































































































 
 

 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

SÍNDROME DO REEMBOLSO!


Como eu adoro os senhores das Finanças (mas os envelopes picotados, não)!
Em última análise e para o caso de haver dúvidas, são a prova de que existimos e o lembrete intermitente, tipo pisca-pisca, de que o desassossego é o estado natural da vida na terra, pelo menos da vida dos humanos fiscalmente identificados, quer dizer, todos, logo à nascença, não vá dar-se o caso de extravio.
Ciclicamente, lembram-nos da existência de contas para pagar, como é o caso do terror anual do IRS, sempre gerador daquela angustiada dúvida a que chamarei síndrome do reembolso, quer dizer, a ânsia da simulação, para antever se, para além do que nos levaram ao longo do ano, deixando-nos num elevado patamar de esmifranço, ainda teremos de desembolsar mais um bocado ou se - esperança redentora!- nos calha em sorte um reembolso de sentido inverso - o que, aliás, a suceder, não é bem sorte, mas antes resultado da tendência dos ditos Srs. para sacarem em excesso. Todavia, nem por isso nós, contribuintes impedidos de fugir ao fisco, seja por que porta for - v.g., a dum qualquer paraíso fiscal - ficamos menos felizes, em caso de, chegado o princípio do Verão, termos um reembolso a haver.
Este ano, quando da dita simulação, recebi a grata notícia de que iria ter de volta uns euros, o que, só demonstrando os excessos das retenções praticadas ao longo do ano, nem por isso me estragou o sabor da notícia. Contudo, a minha alma elevou-se, quase atingida de êxtase, quando vim a receber quase o dobro do montante esperado! Que bom, que bom, vale bem a pena ser sobre roubada ao longo do ano, para entrar na época estival com uma disponibilidade orçamental extra para gelados e assim - creio ter sido mais ou menos isto a passar-me pela cabeça.
Devo, todavia, referir que, tal é o hábito de pagar sempre mais, que a súbita revelação do inesperado incremento do crédito me deixou um tanto ou quanto insegura, não fossem eles, ferozes contabilistas do fisco, ter-se enganado...a meu favor (imagine-se!!!). 
E foi neste estado de espírito que ia tendo um ataque cardíaco quando, hoje, aberta a caixa do correio, deparei com um envelope da Autoridade Tributária (ui, que medo!, só o nome...), do qual não estava à espera, visto pensar ter as contas regularizadas ou lá como é que eles dizem - e não ser de esperar que se tratasse, por exemplo, do convite para o casamento um director-geral ou dum chefe de repartição. Assim, se não posso inventar que as minhas mãos tremeram, ao menos posso jurar que se atrapalharam vivamente, na pressa de abrir o raio do envelope. Pode ser defeito (mais um!), mas tenho sempre grande dificuldade em atinar com a abertura daquele picotado; começo, aquilo desliza bem, aí até um centímetro, e depois vai de encalhar e eu de desesperar, rasgar ao lado, talvez em vias de assassinar a relevante informação veiculada no interior; tento retomar o fio do picotado, depois é a cola a desobedecer e, no fim, estão três bocados de papel desarticulados, meio fanados, e eu a tentar encontrar a sentença. Vá lá, era apenas a liquidação, comprovativa de que o reembolso efectuado estava correcto. O alívio foi de tal ordem que nem me dei ao trabalho de ver se uma parte das contas se referia a juros devidos pelo excesso de retenção praticada ao longo do ano. Who cares!
Portanto, esta conversa toda é apenas para pedir aos ditos Srs. que pensem num modelo de envelope cuja abertura gere menos ansiedade, s.f.f.
Já agora, gostaria muito de ficar a saber se esta dificuldade na abertura dos envelopes XPTO é só minha e se sou a única a sofrer da síndrome do reembolso. Se alguém tiver algo a dizer sobre o assunto, é favor deixar em comentário, ok? :)
 

 
 
 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A NÃO HISTÓRIA DE VLADIMIR BLUE (V)

 
Já Vladimir Blue ia longe - embora nada de concreto se saiba sobre isso -, quando a Sombra, embalada nestes pensamentos, se encaminhou novamente para a entrada norte do parque, sempre atenta, mas sem lhe retomar o rasto, dirigindo-se, de seguida, ao seu 3º andar alto, onde não resistiu a empunhar o binóculo, para, de imediato, o pousar, já a tarde partia longe, o princípio da escuridão esfumava o céu e talvez fosse melhor ir dormir.
Despiu, então, o seu disfarce de Sombra, comeu qualquer coisa que restava no frigorífico, escovou os dentes e enfiou-se na cama, aconchegando-se na rememoração dos longos momentos que passara com Vladimir Blue, se é que se pode dizer, com, afinal ela estivera, incógnita, junto de e não com ele. Eventualmente.
Nessa noite, a Sombra foi visitada, aliás, invadida, por um sonho estranho. Visualizou Natasha a mover-se, dobrada para a frente, numa batalha desigual contra a força desmedida dum vento áspero e dominador, que lhe espalmava o corpo magro e reduzido e lhe empinava para trás os longos cabelos dourados, remetendo-a à imagem desnorteada dum desenho animado batido pela determinação ou duma desfiguração humana de filme surrealista. Tudo se passava num imenso campo de relva negra, em que os passos dela se fincavam quase num traço contínuo, sem mal levantar os pés, num arrastamento de resistência e força, que pareciam tudo menos naturais, em figura tão frágil quanto a sua, a pele branca do rosto fustigada pelo chicote do vento, expondo-se em traços vermelhos, os olhos alternando entre fecharem-se, numa poupança à fúria rasgadora do vento, e abrirem-se para descortinarem o caminho, um caminho que podia não ser apenas para si ou talvez nem fosse para si, mas para o holograma pardo que se lhe agarrava ao pescoço, apertando-o num grito de dor, de força e de raiva, de raiva, de força e de dor, alternadamente. O caminho que faltava percorrer parecia cada vez maior e os gritos de Natasha cada vez mais intensos.
A Sombra agitava-se violentamente na cama, como se sofresse directamente aquele penoso e desesperado caminhar de Natasha, passando do papel de observadora ao de actriz principal, e, assustada com os gritos dela – ou os seus próprios gritos? Já não dava para discernir, tal o clima de osmose gerado pelo pesadelo -, quase resvalou para o acordar, mas foi interrompida por um outro grito, menos forte mas mais dilacerante e, então, o vento acalmou, Natasha já não era Natasha, mas uma observadora de Natasha, fora do seu corpo caído sobre o campo, onde desenhava uma mancha vermelha escura, agora de olhos fechados e em paz, o cabelo colado ao rosto, e a boca donde saía aquele grito era a boca dum boneco de ventríloquo, manejado pelas mãos gretadas de Vladimir Blue. O boneco era terrivelmente feio e assustador, tinha a pele roxa, uns membros ressequidos, quase só pele e osso, caso fosse humano, e um desvario de pânico no olhar pardo, encoberto por pálpebras descaídas. Dois fios de cabelo dourado, estes bonitos e brilhantes, colavam-se-lhe à cabeça de papier maché, sim, agora parecia ser feito deste material, talvez porque aquele terror pressupusesse uma fragilidade original, talvez. Depois, sombras começaram a circular no cenário escurecido, o grito atingiu um ponto impossível de suportar, a Sombra acordou encharcada em suor e angústia, soergueu-se e apertou o peito, que batia como o latido seco dum cão desaustinado. Levantou o resto de si, saiu da cama e dirigiu-se à casa de banho, para se refrescar, mas o espelho devolveu-lhe uma imagem distinta, não a sua, mas a de Vladimir Blue, tomado dum riso descontrolado e surdo. Esfregou os olhos com força e acordou dum salto. Dirigiu-se rapidamente à casa de banho e o espelho devolveu-lhe o seu rosto, agitado e pintado de absurdas olheiras, as suas. Sim, desta vez tinha mesmo acordado e murmurou, mais valia não ter adormecido. Eram já cinco da manhã e resolveu não voltar para a cama. O estore permanecia corrido, o binóculo, no estojo camel, e ela desceu as escadas do seu 3º andar, dirigindo-se à entrada norte do parque, embora não muito segura da vontade de se encontrar com Vladimir Blue, aquele estranho Vladimir Blue, que, agora, lhe colonizava os sonhos ou assim parecia. Mas tinha-se proposto aquela missão, não era à primeira dificuldade que iria desistir.
 
 
 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A NÃO HISTÓRIA DE VLADIMIR BLUE (IV)

 
Todavia, estacou, inflectiu resolutamente a direcção, e retomou o seu lugar no banco das tirinhas de madeira. Tinha de continuar com aquele exercício, organizar o passado, por forma a conseguir a paz. Não digo a paz perfeita, mas a minha ideia de um pouco de sossego, não quero evadir-me sem ter compreendido tudo, chegar a um novo inferno sem ter esgotado as possibilidades de compreensão e afastamento deste, murmurou, através dos seus lábios frios, cobertos da geada da desolação. Os olhos abriram-se-lhe num alento determinado, deixando a surpresa estampada na invisibilidade da Sombra, que se ajeitou, cuidadosamente, ao seu lado, e, em tom mais elevado, afirmou, então vamos lá a isto!
Natasha, agora mais lesta, desviou-se da violência do golpe de punho de Piotr, que aterrou, em cheio, na parede, acompanhado dum ruído rachado de ossos espatifados, enquanto ele se dobrava de dor, numa expressão primeira de primazia duma emoção alternativa à habitual, a da violência do ódio. Então, pela primeira vez, como por efeito dum súbito relâmpago, ela percebeu tudo com a clareza das revelações inesperadas e com a determinação das decisões imprescindíveis. E com mais alguma coisa, que a levou a estourar numa monumental gargalhada, uma espécie de gozo há muito reprimido, mas era gozo de si própria, pois se apercebeu da estupidez com que se deixara dominar por aquele anormal, que, afinal, talvez não passasse dum humano frágil, ou seja, sujeito ao sofrimento da dor, não é nisto que consiste a fragilidade humana? Enquanto isso, ele desdobrava o corpo em violentos espasmos de dor, esquecido até da fúria que o riso dela poderia ter-lhe causado, em circunstâncias normais, e emitia guinchos encharcados em lágrimas de desespero. Pediu-lhe que o ajudasse, mas ela tinha percebido a sua liberdade e a do filho que transportava na barriga e no coração e, continuando a rir, dirigiu-se ao exíguo quarto, amarfanhou o essencial dos seus pertences gastos numa velha mala, que já tinha servido para a fuga anterior, aquela que a trouxera da casa materna para a deste triste fenómeno, por quem até há momentos se julgara completamente manietada, e, passando-lhe, ostensivamente, à frente, agora iluminada por um sorriso neutro, declamou, adeus Piotr, talvez fosse boa ideia ires ao hospital. Distraído das dores por aquela visão impensável, logo impossível, admitiu estar a delirar, desmaiou de boca aberta, para ali deitado no chão frio, e ela partiu, animada pela ideia de nunca mais o ver. Só não sabia para onde ia, nem o que fazer, apenas tinha um plano, salvar-se para salvar o filho e também por si, se não fosse também por si, como poderia salvar o filho? Naquele mesmo dia, após voltas e voltas pelas ruas, dirigiu-se a uma esquadra e pediu que lhe indicassem o Centro de Apoio a Jovens Mães Solteiras (CAJMS), tinha 18 anos, os suficientes para saber da existência de tal instituição. O Polícia que a atendeu pretendeu saber antecedentes, mas ela não quis entrar por aí, afinal era maior de idade e nada nem ninguém a poderia obrigar a prestar satisfações, nem um qualquer polícia curioso e, acima de tudo, na sua obsessão de não mais se cruzar com Piotr, achou por bem não mencionar a sua existência, causa do seu estado e da sua determinação. Após uma insistência secante e um tanto ou quanto ameaçadora, o polícia desistiu e conduziu-a ao CAJMS, onde foi recebida por uma voluntária, que a informou sobre as regras de acolhimento e a admitiu, levando-a a uma camarata, onde se encontravam cinco jovens mulheres, que a olharam com animosidade, como se onde cabem cinco não devessem caber seis e como se as suas histórias merecessem uma atenção que a dela não deveria merecer. Quero lá saber, se pude aguentar o monstro também me hei-de aguentar com estas, pensou ela, ainda cheia da determinação inicial e concentrando as suas forças na previsualização da construção do futuro. Então centrou-se no nome a dar ao menino, sim, havia de ser um menino.
A Sombra notou uma quase imperceptível elevação da cabeça de Vladimir Blue, suspeitando-lhe um brilho inusitado nos olhos, que percebeu serem dum cinzento intenso, rodeados de finas rugas de expressão, próprias de quem se interroga constantemente, com uma angústia costurada. Depois percebeu que esse brilho era afinal um princípio de sorriso e notou que a tensão dos bolsos da gabardine se tinha distendido um pouco, só um pouco, mas significativo, se comparado com o estado habitual. Afinal talvez tenha tido uma infância, pensou a Sombra.
Distraída nesta congeminação, nem se apercebeu de que Vladimir Blue já não estava ao seu lado, perdendo-se o seu rasto atrás dum aglomerado de árvores frondosas, onde já o não conseguiu recuperar, talvez estivesse cansado de recordar, talvez quisesse ficar por um tempo com o fumo daquela recordação boa, a da mãe entusiasmada, concentrada no amanhã de ambos, como se fossem um só, e tivesse retomado o seu passo apressado para interromper pensamentos outros. Isto era o que a Sombra pensava, enquanto, distraída da sua inépcia, se confortava na promessa de que, no dia seguinte, haveria de prosseguir, com êxito, a sua tarefa indagatória. As Sombras, como as pessoas, têm sempre tendência a encontrar desculpas para os seus próprios falhanços, mesmo quando parecem querer responsabilizar-se pelos mesmos, no que parece ser uma forma de autopunição desculpabilizante.
 
 
 

terça-feira, 1 de julho de 2014

O MORTO DO DIA


a bola incandescente, vinda sabe-se lá de que galáxia, riscou o céu a uma velocidade súbita e enfiou-se-lhe pelas costelas, sem estrondo, a não ser o das próprias costelas, partidas em lascas frias, espetando-se pela macieza dos pulmões adentro. apanhados naquela inesperada e incompreensível malha de garras afiadas, os pulmões chiaram uma aflição, expeliram-se num sopro definitivo, acompanhado de riscas vermelhas, que irradiaram em todas as direcções, qual chuveiro descontrolado. era o sangue, levantado e caído, deixando de cumprir a sua missão de incansável caminhante venoso, abandonando o corpo com o desnorte típico de quem não sabe porquê.
o fumo já ia longe, pelo céu acima, como se, por qualquer ironia do destino, seguisse o caminho inverso ao da bola de fogo. ascendia e ascendia, com a leveza que só o fumo pode conhecer e que ultrapassa largamente a dos corpos transportados em voos oníricos - mesmo adormecidos, os corpos não perdem inteiramente a consciência de si e, como tal, pesa-lhes o conhecimento de, a qualquer momento, poderem cair. furava por entre as nuvens, sem sombra de esforço ou resistência, como se com elas e com o resto do céu, aquela coisa azul, sem outra substância excepto a própria cor, formasse um único elemento, como formava.
numa cambalhota, debruçou-se sobre o infinito abaixo e viu-o, aquele corpo abandonado sobre a toalha de praia, com a cratera acastanhada no meio das costas, lascas de costelas e restos de pulmão à vista, sangue seco cobrindo a areia circundante. outros corpos, vivos, à volta, em grande azáfama, telemóveis alardeando pedidos, mãos afastando crianças, não era espectáculo para crianças, ela que se deixava amparar, ao lado, depois de lhe ter afogado o cabelo nas águas do pranto e do mar, sim, tinha-lhe calhado em sorte vir do banho salgado e apetecido e encontrá-lo assim, quer dizer, o que restava dele. uma mão sensata cobriu-o com uma toalha de praia, dizia coca-cola, era vermelha e branca, e ostentava um saudável e bonito rosto sorridente, preso a um copo borbulhante por uma palhinha. 
sentiu um frémito próprio da sua condição anterior, afinal era pouco o tempo passado desde a libertação, achou a visão degradante e miserável, inverteu o sentido e olhou ao alto, esquecendo, de imediato, aquela lamentável cena, em que se tinha reconhecido como o morto do dia e confirmava a sua asserção favorita de quando vivo, como é patética a condição humana!   
foi o seu último pensamento crítico, depois a apreciação crítica e, aliás, toda a réstia de pensamento, evolou-se dele como ele se tinha evolado do seu corpo-outrora, a sua cápsula-cela, passou de fumo à verdadeira ausência do azul do céu, mas já não precisou de saber se era azul ou ilusão, porque deixou de ser. já nem fumo, apenas nada.
afinal, não houve luzes brilhantes nem um bondoso ser de barbas nem um rancho de antepassados idos a recebê-lo, também já não era preciso, porque ele já não era. que alívio!
na praia, o circo tinha-se desmantelado, a ambulância acabara de lhe transportar o corpo para o sítio do costume, ela continuava a chorar e os mirones contavam às famílias e amigos aquele triste acontecer, com a excitação proporcionada pelas variações estrambólicas da vida.
estranhamente, ninguém se interrogou sobre as razões da causa, quer dizer, aquela coisa do voo da bola ardente.
bem, ele interrogou-se, mas só quando acordou. nunca mais haveria de se deixar dormir assim, ao sol castigador dum agosto tórrido, nunca mais se permitiria apanhar um tal escaldão, as costas quase em ferida.
ela regressou do seu longo passeio à beira-mar e torceu os cabelos molhados para cima das costas dele, já viste como tens as costas?
ele gostou de a ver. e de a ouvir. afinal era apenas humano. ou voltara a ser...