sexta-feira, 6 de março de 2015

MEU NOME É ALICE BAVA COELHO SALGADO MOEDAS DE SÓCRATES E ETC.


Ignoro o que se passa, mas estou a ficar seriamente preocupada!
Então não é que me instalei aqui, frente ao computador, com a ideia de escrever sobre um assunto muito concreto e agora não me lembro qual?! Tanto quanto me recordo, ocorreu-me qualquer coisa, sei lá, talvez uma ideia ou uma não-ideia, que me tocou fundo, despertando-me a urgência de escrever, registar, martelar as teclas, massacrar o écran, tão importante era o assunto…
- Qual assunto?, pergunto-me agora, quer dizer, acabo de me perguntar, meio desnorteada, visto não me lembrar por que raio estou a aludir a um assunto, sem fazer a mínima ideia de que assunto se trata…
Aludir a um assunto, mas o que é mesmo isso, um assunto? Pois, um á, mais dois esses, mais um ú, mais um ene, mais… o quê? Por que razão estou a escrever letras desengonçadas, isto é, desirmanadas, incapazes de formar pa…, pa…, pa... olha, não me lembro!
Que raio estará a acontecer?
Bem, eu ouvi que anda por aí um vírus a afectar pessoas importantíssimas, verdadeiros modelos da política(?) e do empreendedorismo  - palavra que se enrola nos queixos do sr. Silva com efeito quase tão perverso como o do bolo-rei, disto lembro-me. Ora, os  sintomas desse vírus são, precisamente... ora, de que estava eu a falar que não me lembro?
Ah! um vírus, era isso, parece que já me lembro, deve ser gripe, mas a gripe ataca mais no inferno, quero dizer, ai, como é que se chama aquela estação ferroviária, não, do tempo, a das gripes?
Acho que vou parar por aqui, não me chame eu Alice Bava Coelho Salgado Moedas de Sócrates e Etc.. 
Bonito nome, não é? Não me lembro é a quem pertence! Também não há problema, alguém há de fazer o favor de me notificar, quero dizer, de me lembrar e, de resto, creio que é opcional saber o nome, excepto para efeitos fiscais, em sentido lato, mas isso também não deve ter grande interesse, algum tanso será penhorado e executado até ao tutano e, tanto quanto me recordo, não hei de ser eu. Mas, a bem dizer, ando um bocado esquecida… O que é isso, esquecida? Juro que não me lembro... 

imagem obtida em pesquisa Google



quinta-feira, 5 de março de 2015

GATO PRETO, SEXTA-FEIRA TREZE


I

Sempre detestei a superstição! Assim, no meu modo de ver, o sucedido e, em particular, o desfecho, nada teve a ver com superstição.
Aconteceu simplesmente que, naquela sexta-feira treze, dia enevoado e morno, galguei as escadas marmóreas dum prédio em construção, até ao terraço do 13º andar, à procura do meu gato preto, de nome Sortudo, que, uma vez mais, na sua característica atitude de desafio, se escapulira da minha pessoa e, cúmulo do descaramento, dos meus insistentes chamamentos.
Cheguei lá acima sem sombra de fôlego ou vestígios de gato, sob um coro ascendente de protestos dos operários, que, estarrecidos pela ousadia de tamanha irresponsabilidade, me instavam a retroceder. Bem, também ouvi um ou outro assobio admirativo, assim tipo piropo, não sei se pela agilidade demonstrada, se por outra coisa, quero crer que por outra coisa. Todavia, nada me demoveu da urgência maternal de recuperar o desobediente felino.
Mais desesperada do que estafada, olhei à volta, rodando-me 360º, qual dervixe, sem vislumbrar sequer um pelo negro, quanto mais o Sortudo. Antecipando o pior, abeirei-me do limite extremo do terraço, ainda desguarnecido de protecção e, esquecendo-me de que já ouvira referir um fenómeno chamado vertigens, olhei para baixo, concentrando-me noutra coisa que também já ouvira, a saber, que os gatos têm sete vidas e, para além disso, caem sempre de pé. Ainda tive tempo de pensar que devia ser essa a razão por que escolhera um gato, também eu tinha por hábito cair de pé…
Contudo, o momento não era para reflexões, até porque, boquiabertos e de capacetes enterrados na cabeça, já meia dúzia de operários - bem, não é que os tenha contado… - formavam uma espécie de guarda suspensa à minha disparatada pessoa, agora com o cabelo num desalinho de vento, as faces acesas numa labareda, os olhos num espanto esbugalhado e, pior, os braços agitados num equilíbrio instável, pois acabara de aterrar na consciência de que, a) o gato voava sem asas, b) eu nem com asas conseguiria voar e, vista daquela perspectiva, uma altura de treze andares equivalia mais ou menos à distância da lua à terra.

II

Foi aí que um dos operários, como se tivesse poderes de representação dos restantes, que, aliás, sublinhavam as suas palavras com acenos afirmativos de cabeça, disse, por entre uma lividez que procurava disfarçar, tentando mostrar-se o mais calmo possível, quer dizer, nada calmo: 
- A senhora tenha calma, aguente-se, que nós vamos buscá-la, não olhe para baixo… 
Nos seus olhos, quero dizer, nos olhos de todos eles, transparecia a antecipação do meu corpo esfarrapado no maldito asfalto, que sabiam tão perto e queriam acreditar tão longe, apesar da conjugação sexta-feira treze, 13º andar e gato preto não augurar, à luz das suas trevas, nada de bom.
O representante, talvez de nome José, adiantou-se cauteloso, com um braço quilometricamente estendido, enquanto eu balançava, agoniada pela visão longínqua duma espécie de formigas com duas pernas e dois braços, acumuladas lá em baixo, no longe, de cabeças esticadas para trás e para cima, num ameaço de pescoços partidos. Repetiu, por palavras semelhantes, a mensagem anterior, enquanto deixava escapar um fumo de pensamento, que repetia, incessantemente, pobre mulher, o que a terá levado a isto?, quem sabe se o marido lhe bate, se é que tem marido, se lhe morreu algum filho, talvez tenha perdido um amante ou o emprego, que isto da crise toca a todos, mas não, não se justifica uma atitude tão estranha…. Pois não - concordava o pensamento doutro, talvez de nome António -, especialmente porque vai sobrar para nós; se a tivéssemos impedido, não estávamos agora neste apuro, ainda vão dizer que a culpa foi nossa, é o que eu digo, sobra sempre para os mesmos, ela a ficar na paz dos anjinhos e nós a levar uma valente descompostura do patrão, isto se não lhe der para nos despedir… E logo a outro, talvez de nome Boris, lhe ocorreu lembrar-se do tio da mulher do primo que, tendo sido deportado por razões políticas, não aguentou a tortura do afastamento, para não falar doutras, e acabou com a vida, mordendo os pulsos até o sangue espirrar que nem água de torneira avariada…
É espantosa a quantidade de pensamentos deslocados que se expandem na imensidão dum micro-segundo, consegui ainda - e estranhamente - pensar, no instante em que os dedos do operário avançado não conseguiram segurar-me e, no derradeiro instante de tentativa e esforço, cedi ao desequilíbrio anunciado, escorreguei para a brisa morna e cinzenta daquela atmosfera em que vogavam dois ou três pelos negros do Sortudo, que habitava, meio atordoado, os braços do Francisco, após ter aterrado num fofo monte de areia, despojo da construção, assim confirmando o acerto do nome.
Mesmo sem espreitarem o abismo, os operários precipitaram-se escadas abaixo, entre a frustração e a zanga por não me terem conseguido salvar, a tristeza pela minha sorte e, sobretudo, a curiosidade pela maldita incógnita que a tinha ditado, sem excluir a ansiedade pela antevisão da fúria do patrão e sabe-se lá que mais emoções e pensamentos.  

III   

E lá estavas tu, Francisco, meu melhor amigo, dando colo ao atordoado Sortudo, enquanto olhavas para cima com uma calma contrastante com a agitação histérica das pessoas que cresciam como formigas à volta de açúcar, que a desgraça alheia é assim mesmo, tem o condão de provocar concentrações alvoroçadas e gulosas. 
Tinhas-me visto entrar no prédio, seguindo o resto voador do felino, chamaste-me sem obter resposta, ouviste a algazarra dos operários, somaste uma coisa à outra e logo concluíste não haver nada a fazer, a não ser esperar, pacientemente, que descesse. Só não contavas ver-me chegar tão depressa àquele despenhadeiro do terraço e debruçar-me da borda em equilíbrio instável. Por mera cautela, ligaste ao 112, tentando prevenir a hipótese que se perfilava. Enquanto me sentias arrebatada para o vazio nublado daquele dia, soubeste que consegui ouvir, lá ao longe, o guincho desesperado e desesperante do carro dos bombeiros, numa pressa despropositada, porque impossível de cumprir com a velocidade do acontecimento.
De resto, nunca te rendeste, limitaste-te a afagar o gato e a fixar os olhos no meu deslizamento, como se a força do teu olhar conseguisse anular a força da gravidade. E acreditavas mesmo nisso.
Por isso não te admiraste quando, num repente, soprou um vento tão forte e ascendente que me transportou, num ápice, restituindo-me à beira do terraço, para logo amainar, numa calmaria só igual à tua.
A força que os teus olhos tinham emitido transfigurou-se num sorriso alegre, ao mesmo tempo que levantavas os braços, acenando-me um adeus que era também um chamamento e deixando cair o gato, agora totalmente recuperado.





segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A PRIMEIRA LIÇÃO DE LEITURA DO ESQUIZOFRÉNICO ESPACIAL


Mesmo nos idos de 3055, já poucos se lembravam do que era o prazer da leitura, há muito que o conhecimento, para não falar da simples informação, chegava directamente ao cérebro das criaturas, através de sofisticados interfaces virtuais, parcialmente alimentados pelo manancial do que sobrara - e era considerável - de civilizações extintas, sobretudo, pela ganância e estupidez de antigos habitantes. Tornada obsoleta, por desnecessária, a leitura entrara, todavia, na categoria do luxo, sendo ensinada a peso de ouro lunar, pelos poucos que detinham o conhecimento da arte, sim, porque ler era considerado uma arte.
Fora, precisamente, a obsessão por aprender a ler que o levara a introduzir-se, furtivamente, no último atelier de restauro de livros, bravo resistente à sanha destruidora do Ministério da Homogeneização.
É verdade que a maior parte das criaturas ignorava, sequer, o que fosse um livro, quanto mais a existência duma arte de ler, e, por isso, sufragados pela opinião do médico oficial, tinham-no rotulado de esquizofrénico - apesar do salto genético verificado no último século, este distúrbio mental persistira -, levando à conta de delírio a sua entusiasmada conversa sobre livros, à conta de alucinação, a sua jura de que já segurara um livro e da beleza que encerrava, e à conta de estado depressivo, o seu abatimento por não saber ler. Enfim, diagnóstico incompetente de criaturas formatadas para absorverem passivamente o que os poderes instituídos permitiam que os interfaces virtuais filtrassem para os seus geométricos neurónios.
De resto, esta sua esquizofrenia e respectivos custos já vinham de longe, como a memória da infância se encarregava de lhe lembrar, com persistência e rigor pendular, contando-lhe da valente sessão de reguadas que um dia apanhara do seu cuidador, aquele estúpido robot de lata - como lhe chamava, embora sem rigor, que ele não era de lata -, pelo simples facto de ter feito uma birra monumental porque, em vez da mais recente actualização de software neuronal, entendeu por bem reclamar um livro, um só que fosse, com a particular especificação de falar do mar e conter fotografias deste. Coisa estranha, delírio, verdadeiro alvoroço, onde teria ele ido buscar semelhante ideia?, nunca o cuidador lhe falara em tais coisas, livros, mar… Foi aí que o médico oficial, ainda na Escola de Actualização de Versões, lhe diagnosticou o marcante mal.
Não que ele se tenha importado ou, pelo menos, demovido, da imensa vontade de aprender a ler, de segurar um livro entre as pinças que lhe serviam de dedos, de o cheirar, como sabia que, outrora, as criaturas ditas humanas tinham feito. Essa vontade só tinha uma medida par, a enorme frustração por não saber ler!
E foi assim que entrou furtivamente no atelier de restauro de livros sobrante, escapulindo a sua magreza espalmada pela pequena abertura da porta deixada entreaberta, num descuido desconcentrado de quem já vai precisando de descansar, mas não tem tempo nem para pensar nisso.
Escondeu-se atrás duma estante repleta de livros, e, na proporção em que evitava mover-se ou fazer barulho, abriu muito os berlindes verdes que lhe serviam a visão, e pôs-se a observar com desmedida atenção, como quem não quer perder nem uma vírgula, todos e cada um dos volumes que percorriam as estantes casadas com as paredes da enorme divisão, apreciando-lhes as lombadas, na variedade de cores, tamanhos, estado de conservação, tipo de caracteres inscritos, brilhos e tudo o mais, ao mesmo tempo que imaginava os segredos que aí se encerrariam, os cheiros que se desprenderiam, a aspereza ou o cetim do toque, enfim, todo um mundo que, apesar de lhe ser desconhecido na realidade, lhe era tão familiar numa zona outra que nem ele sabia onde se alojava ou donde poderia provir. Não que isso importasse.
O seu estado de empolgamento atingiu o auge, impelindo-o contra uma das estantes, na pressa de abraçar um daqueles preciosos objectos de intenso desejo, esquecimento momentâneo da sua necessidade de anonimato. A animação foi tal que se estatelou contra o vidro da estante, provocando desabrido susto e espanto no guardador e restaurador de livros, que, afincadamente, reavivava umas belíssimas iluminuras dum exemplar medieval.
Esparramado no chão, balbuciou um apressado e insistente pedido de desculpas, justificado com a sua obsessão por aprender a ler. O outro, reconhecendo a genuinidade da justificação e do desejo expressos, sossegou-o, e prontificou-se a ensiná-lo a ler, afinal, era preciso começar por algum lado, espalhar as palavras para além da zona de luxo a que tinham sido confinadas. Espantado, o esquizofrénico acalmou, enquanto o livreiro, com bonomia, lhe disse,  - não estranhes, por vezes "cair é esperar que nos levantem", como li num desses livros.
O esquizofrénico ousou, então, expressar mais um pedido, uma especificação do anterior, um livro relativo ao mar, - onde aprendeste sobre o mar?, perguntou-lhe o livreiro, - no mesmo sítio onde aprendi sobre livros, - e onde foi isso?, - num sítio que não sei, mas que é fora deste onde habito e donde quero desaparecer, - para quê?, - para fugir deste frio em que habito.
E assim começou a primeira lição de leitura do esquizofrénico espacial.





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A VISITA


A indecisão feria, no atrito da sua intermitência, tique-taque, tique-taque, vou, não vou, aquilo magoava, dum lado a ilusão, sabida ilusão, mas nem por isso menos cativante, de capturar momentos perdidos, como se a reinvenção do presente, doutro lado, a certeza, feita pedra fria, de que o passado é isso mesmo, um futuro enterrado, sem promessa de redenção. Esta ideia levou-me a partir, afinal o realismo acabava sempre por se impor, acrescendo o facto de adorar o reencontro com as montanhas. Precisava de revê-las, talvez para me rever, quem sabe!
Após umas horas de viagem, a iminência da aproximação deixou-se marcar pelo recorte majestoso da primeira montanha, parcialmente arborizada, parcialmente nua, qual cabeça em início ou recuperação de processo de calvície, agora refulgindo, manto incerto, no brilho da alvura restante do nevão de há dias, como o boletim meteorológico se tinha encarregado de anunciar, por uma vez sem lapso. Daí até à casa foi um mínimo, acompanhado pelo desdobramento das sucessivas montanhas, mas agitado, diga-se em abono da verdade, que o tique-taque ressurgiu, um alvoroço de ansiedade, como se fosse possível reencontrá-los, a eles, à minha espera, sem saber se…, bem agora esse se já não interessava, já não podia interessar. 
Estacionei o carro na velha rua - que já fora a primeira daquela zona -, junto ao passeio, no único  espaço deixado em claro pela carrinha da padaria - essa, a do prédio de esquina, ainda presente -, acabada de sair, qual pungente sinal de boas-vindas. 
Empurrei o portão verde, de ferro trabalhado, caminhei por entre os maciços de hortênsias, agora desaparecidos, como se se tivessem esvaído no pastel das suas cores desbotadas, ignorei o cacto alto, aquele que subiu, subiu, quase ultrapassando as janelas do andar de cima ou o próprio  telhado, para depois cair, quando já não…, bem, subi as escadas, ainda as mesmas, de pedra, que conduziam à porta das traseiras, e vi, juro que vi, desenhada nos poros da pedra, a marca dos nossos assentos, de quando, já nos tempos últimos, ao fim de tardes primaveris e estivais, nos instalávamos, em amenas conversas, actualizando estados banais, que a distância geográfica transformava em objectos de premente curiosidade e interesse, enquanto contemplávamos os intermináveis e animados voos dos pardais,  das andorinhas e das pombas, estas nas suas idas e vindas descontraídas, na certeza de que a generosidade do pombal e do milho espalhado pelo chão as aguardava. Também à noite, com o cenário alternativo, o do manto de estrelas vivas, espalhadas ao acaso das suas constelações, sobre o azul-negro do infinito tecto do mundo, de vez em quando, uma estrela cadente, de vez em quando um pontinho de brilho deslizando milimetricamente, como se empurrado por um caracol, que eu assegurava ser um OVNI, hipótese bem mais interessante do que a verdadeira (imagine-se, simples avião!).    
Atravessei a cor viva, mas ressequida, aqui e ali, do vermelho da porta de madeira, após ter accionado o seu batente metálico, mas, vá-se lá saber porquê, não me pareceu que ainda fosse de madeira vermelha e a estridência foi a duma vulgar campainha. Não me detive na prova das diferenças - afinal, não devia passar duma moderna porta blindada, talvez em tom castanho, dotada duma campainha qualquer, tudo demasiado previsível, a condizer com o amarelo das paredes exteriores, que amarfanhara o branco original -, ultrapassei o pequeno corredor e entrei naquela que, de todas as divisões, mais me ressoava nas profundezas da reminiscência, o que fica do que sobra ou o que sobra do que parte, vai dar ao mesmo.
Lá estava ela, a saleta-de-todos-os-dias, quadrado perfeito, bordado com os vidros quadriculados das quatro janelas, duas para trás, duas para o lado da casa, caixilharia de madeira, cor bege, mix de osso de marfim e casaco de canário, portadas interiores, também de madeira, esta castanha escura, que se fechavam à noite, resguardo de perigos invisíveis e sustos inopinados, a mesa redonda de camilha, bem ao centro, rodeada das seis cadeiras de madeira, costas trabalhadas, o maple roubado ao conjunto da sala de visitas, situado entre as duas janelas debruçadas sobre a lateral da casa, equilibrando o divã, encostado a uma das paredes, e o móvel da máquina de tricotar, do outro lado, e, na parede frontal, logo à direita da entrada da porta, a pequena estante, a meia altura, com duas ou três prateleiras, e um recanto mais elevado, onde repousava a Sagrada Família que, periodicamente, circulava pelas casas de família, motivo de tantas benzeduras, pelo menos até ao despertar da dúvida, que a vida não condizia com o canto da religião.
De repente, assim sem mais, estávamos todos sentados à volta da mesa, de roda da sobremesa, castanhas assadas barradas de manteiga - uma hipótese -, os pés apoiados no estrado de madeira, aproveitando-se do calor da braseira, eficaz desmentido da dureza invernal, e ouvíamos, eu deliciada - e ele, estou certa, também -, as histórias maravilhosas que ambos contavam, (o outro, adulto) ele, com o rigor do método, ela com o humor do saudável distanciamento, histórias de família, de estudos, de profissão, elos apertados como raízes, afinal. Era o quê, essa quentura? Aconchego, parece-me que era isso, pertença, também, e, seguramente, protecção. Ao mesmo tempo, estou do lado de fora, a brincar com a enorme boneca de trapos, com quem falo, e descubro, num embaraço tolo, que, de trás dos vidros das janelas, eles, os três, me observam, com um divertimento terno. Então, a chuva interpõe-se, vejo-a cair em grossas fitas, furando a terra com um ploc-ploc contínuo e metódico, libertando um cheiro que a cidade de depois viria a matar, na sua armadilha de cimento armado, o inconfundível cheiro da terra molhada, haverá cheiro mais cálido e aconchegante?  
Um movimento à volta empurra-me de regresso, todas as madeiras desapareceram, as dos caixilhos e das portadas de madeira das janelas, agora alumínio, as da mesa e das cadeiras, da estante e do móvel da máquina de tricotar, que, aliás, já não existe. Quem ainda quer fazer camisolas e cachecóis, com as Zaras ou Mangos, para não falar nos chineses, da nossa globalização?! Agora é uma mesa quadrada, quatro cadeiras, tudo em acrílico, uma chaise-longue, e uma estante Ikea. Tudo muito clínico, atrevo-me a sentir, enquanto um choque de realidade me agita o corpo, convulsão de pressa de sair dali.
Despeço-me da senhora que provocara o movimento, agradeço-lhe a gentileza, afinal a casa já não é nossa, e ela, a nova dona, que aí habita com o marido, sem crianças - quanto desperdício! -, acedeu a que eu a visitasse. Declino o convite para o chá, só quero sair dali, correr de volta, penso, é bem certo - e passe o lugar comum - nunca se deve voltar a um sítio onde se foi feliz!
Desço as escadas de há pouco - afinal, reparo, já não são de pedra, mas de cimento - fixo-me no vazio deixado pela generosa figueira, pela alegre laranjeira, pelas macieiras rosadas, e as ameixoeiras e os canteiros de flores e… e tudo foi impiedosamente banido, para dar lugar a uma prosaica garagem, um prosaico barbecue, um prosaico chão de cimento ou lá como se chama aquela superfície cinzenta onde a chuva já não comunga com a terra, onde o cheiro de terra molhada foi assassinado tão impiedosamente quanto as árvores e as flores.
Sinto uma zanga tão amarga quanto irracional, que tem por destinatários primeiros os novos donos da casa, o alvoroço ansioso da chegada deu lugar a uma pressa ansiosa de evasão, meto-me no carro sem olhar para trás, acelero irritadamente, e subo à serra. Afinal as montanhas continuam lá, na certeza da sua identidade  telúrica e, com sorte, desaba uma chuva boa, ploc-ploc, sobre a terra, e aquele cheiro inunda-me as narinas e bem mais cá dentro, o recôndito onde mora a casa, a outra, onde não posso mais voltar, aquela em que a infância e adolescência me teceram as raízes, ao som daquelas histórias.
Depois é o regresso, chego a casa, algo me incomoda, atrevo-me a chamar-lhe vazio, talvez a desnecessidade de lhes telefonar a anunciar que cheguei bem. Felizmente, há outros telefonemas a fazer. 





sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

ESTILO YANIS VAROUFAKIS


Isto é, apenas, uma fotorreportagem legendada  da vigília de apoio à Grécia, ocorrida anteontem, no Largo Jean Monnet, em Lisboa, enquanto o Eurogrupo reunia em Bruxelas (para, como se sabe, não ter chegado a qualquer acordo sobre a questão grega, adiando esta agonia europeia até segunda-feira próxima).


(Qualquer coisa como: Europa, não mates as esperanças da Grécia!)


(A perplexidade de Jean Monnet, a propósito do estado da Europa? )










(Por falar nele, dá para crer que um pseudojornalismo da treta se dedicasse a comentar o estilo de Varoufakis, salientando a camisa por fora das calças, o casaco de cabedal e a falta de gravata,  e aditando o êxito junto das mulheres?! Só se esqueceram de referir o cachecol Burberry... )



(Obviamente...)





















segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

DAVID E GOLIAS?


E eu, que nem leio o semanário Sol, vi-me convidada a ler a opinião do respectivo director, José António Saraiva (JAS), de 2 deste mês, acerca da problemática grega (isto, em comentário ao penúltimo post deste blog - O Cachorro da Sr.ª Merkel -, em sede de partilha no Facebook).
Prometi, então, uma resposta, que agora me proponho apresentar, começando por sintetizar a dita opinião.
De início, JAS classifica de chantagem as pretensões do novo governo grego, desdobrando-a em dois aspectos, um político (ameaça de se aproximar da Rússia e de sair da NATO), o outro económico (previsão de cenário terrível para a Europa, em caso de saída do País da UE, pois a dívida ficará por pagar e o euro sofrerá um tremendo abalo).
Isto para referir que a chantagem da Grécia tem hoje menos condições de sucesso do que há dois  ou três anos atrás, porquanto,  nessa altura, Portugal e a Irlanda estavam sob resgate, encontrando-se a Itália e a Espanha em piores condições do que as actuais, situação que, no tocante aos dois primeiros, já se não verifica, sendo que os dois últimos estão com uma situação bem melhor; assim, a saída da Grécia, nessa altura, desencadearia um efeito dominó, com os mercados ao ataque de outros países mais frágeis do sul, coisa que hoje já não sucede, visto  aqueles dois terem terminado os programas de assistência com sucesso.

Para concluir que a Grécia, agora, está sozinha e a Europa em muito melhores condições para não ceder à sua chantagem, pois, se o fizesse, faria implodir o Euro, visto perder a legitimidade para fazer respeitar os limites impostos aos outros países em matéria de tratado orçamental; acrescendo que as  opiniões públicas dos outros países se recusariam a pagar para outros gastarem. Devem, pois, os gregos sair da zona euro e, eventualmente, da UE.
Adita que, ao votarem no Syriza, bem sabendo quais eram as opções deste, os gregos operaram uma revolução que, caso não resulte, com todas as consequências – incluindo a saída dos grandes e pequenos capitais do país, ou seja, a respectiva venezuelização –, desencadeará uma guerra civil – latente, aliás –, acabando numa ditadura militar.
Ora bem, devo confessar que fiz um enorme esforço para ler esta opinião de serviço; aliás, vai para dois anos que deixei de ver televisão, justamente para salvaguardar a minha sanidade mental, face aos opinadores desta espécie, que acabam sempre por dar a versão oficial e formatada dos factos, quais papagaios amestrados. Já sei o que vão dizer antes de abrirem a boca e falta-me tempo e, sobretudo, paciência para torrar com tal passatempo.

Passando à resposta: 

Em primeiro lugar, ao assumir/qualificar como chantagem a postura do governo grego, (porque) diferente da posição dominante da UE, comandada pela Alemanha e seguida pelos seus mais fervorosos adeptos, com o governo português (tristemente) à cabeça, JAS revela limitação de vistas e atitude antidemocrática, porquanto, implicitamente, está a recusar o direito  de outros – por acaso, um País (até ver) independente – pensarem e agirem de forma diferente da ditada por aquela posição dominante.

Por outro lado, se for consequente com esse seu julgamento, JAS não poderá deixar de considerar chantagista a preconizada reacção da Europa àquelas pretensões, aliás, por maioria de razão, visto a força do poder (incluídos os meios de solução do diferendo) pender, manifestamente, para o lado daquela  e não do governo grego.
Em segundo lugar, talvez fosse mais inteligente tentar perceber as razões da alegada chantagem grega, embora se reconheça que possa não convir a JAS, visto ser de molde a retirar o fundamento de tão simpático qualificativo. É que, na base das pretensões  do governo grego está a agonia do povo grego, aliás, provocada pelos sucessivos programas de resgate, comandados pela sede dos mercados e pela sanha dos que representam os respectivos interesses, ou seja os donos da Europa, com a  Alemanha da Sr.ª Merkel à cabeça (sem esquecer os seus mais subservientes seguidores, como é o caso do governo português, na ignorância e contra o interesse dos seus povos, que, todavia, têm o encargo – e a legitimidade formal – de governar).
Leva-me isto - e em terceiro lugar -,  a concordar numa coisa com JAS, em que o voto grego constituiu uma verdadeira revolução (nesta Europa submissa, rendida à tirania dos mercados, acrescento eu)! Todavia, para mim, a marca revolucionária reside no facto de, pela 1ª vez, o governo dum País da zona euro ousar confrontar o arco governativo da submissão aos interesses do grande capital e finança, para procurar defender os interesses mais elementares do seu Povo, ameaçados que estão pela violência do império dos mercados.
Em quarto lugar, quanto à afirmação de que Portugal – por economia, vou deixar a Irlanda de parte – terminou o resgate com sucesso, permito-me discordar, pela seguinte ordem de perguntas, de resposta negativa, baseada na realidade que me circunda e que todos os dias, duma forma ou doutra, me entra pelos olhos e pelos ouvidos dentro: o tecido sócio-económico do meu País está melhor? Os direitos fundamentais dos cidadãos portugueses estão salvaguardados? Note-se, a propósito, que os credores ainda não se mostram satisfeitos, empenhados em prosseguir na sanha de baixar salários e pensões, de aumentar despedimentos, enfim, de precarizar vidas, ou seja, de acabar de transformar os países da Europa do Sul – e principalmente aqueles que se lhes põem mais a jeito, orgulhosos da sua situação de bons alunos, caso (por infelicidade) de Portugal – na condição de reservas de asiáticos da Europa, enquanto os do norte veem (e bem) os seus direitos intocados e se arrogam (e mal) uma imoral superioridade sobre nós, os do sul, em particular, Portugal, como, por exemplo, uma conversa com portugueses imigrados na Alemanha, ainda que qualificados, permitirá revelar. Sim, o racismo não se circunscreve à raça, e a ideia de cidadão europeu, com identidade de direitos e tratamento, independentemente do País de origem, pura e simplesmente não existe.
Felizmente que os Países do Sul não se circunscrevem a Portugal, de tão brandas e mansas almas; temos os espanhóis aqui ao lado, a avançar em força com o Podemos.
Assim - e em quinto lugar - pergunto-me: terá JAS pensado nisto quando vaticinou a guerra civil grega?  Já pensou que outros povos oprimidos, ao menos os mais valentes, podem começar a lembrar-se de estar fartos e dispostos a experimentar novos caminhos ?
Pois talvez devesse pensar e retirar as devidas ilacções, ou seja, que a Grécia está menos sozinha do que estava há dois ou três anos atrás...
Já agora, dou-lhe um dado novo para pensar, o convite (que bem podia ter vaticinado, caso pensasse) que Putin se apressou a dirigir a Tsipras para visitar oficialmente a Rússia.
Está bem, na sua opinião, deverá tratar-se de novas chantagens, mas eu, se fosse ao JAS e, já agora, aos donos da europa e aos seus lacaios, esforçava-me um pouco mais para limar a arrogância e tratar os gregos como parceiros, em vez de continuar a humilhá-los.
Em  sexto lugar, também não me parece realista afirmar que a Europa nada tenha a temer com a saída da Grécia! Este processo, a ocorrer, seguir-se-á necessariamente doutros, até porque os mercados continuarão a apertar cada vez mais - veja-se, por exemplo, a recente exigência do FMI, de que, em Portugal, os salários e pensões sofram novos cortes... -, e os povos esmagados - e já sem grande coisa a perder - acabarão por não ter outra opção senão experimentar novos paradigmas que lhes restituam os mínimos de dignidade que civilizacionalmente era impensável que viessem a perder, como, infelizmente, tem vindo a verificar-se.

Dita a experiência que há pontos de não  retorno, e situações imutáveis é coisa que a história desconhece. Já repetições, não é o mesmo. Houve uma 1ª guerra mundial, desencadeada (ao menos em termos imediatos) pela Alemanha; uma 2ª guerra mundial, desencadeada pela Alemanha nazi; será que a 3ª guerra mundial vai ter a mesma autoria?
Na verdade não é apenas a Grécia que tem a perder com a negação das pretensões do seu novo governo; em contrapartida outros terão a ganhar com a vitória das mesmas, se assim o quiserem e lutarem por isso. Um deles, à cabeça, é Portugal (mas não no quadro de qualquer solução governativa emergente dos partidos denominados do arco governativo)!
(As duas imagens que seguem, obtidas em pesquisa Google, sugerem-me o seguinte título:
As garras da Europa)







segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A FESTA DA INSIGNIFICÂNCIA


A Festa da Insignificância, último romance de Milan Kundera, deixou-me o travo da decepção.
Diferentemente do sucedido com outras suas obras, em que o pensamento sobre a vida e a natureza humana se expande a par e passo com a narrativa das histórias, como se lhes servisse de interpretação ou explicação e os regatasse dum carácter algo datado ou preconceituoso - tema este, que poderia explorar-se, desde logo, a partir da visão ou do lugar reservado às mulheres... -, nada encontrei nesta Festa que me despertasse admiração ou sequer interesse, nem a escrita, nem as personagens, nem a história, nem o ponto de vista, bastante óbvio - não será novidade para ninguém que, neste mundo de aparências, tudo, especialmente o supérfluo que o alimenta e que, infelizmente, pode ser quase tudo, passa de insignificância...
De resto, mesmo para o Autor, não se pode considerar que esta ideia não surja já, aliás com uma expressividade e aprofundamento bem mais interessantes, em anteriores obras, como é o caso de A Imortalidade, estado que só através da ultrapassagem da insignificância alguns (poucos) atingem (v. O AMOR, ESSE IMORTAL, aqui publicado, em 26 de Setembro de 2013).
Também o recurso à intervenção de personagens históricos - neste caso, Estaline e sua corte, - é recurso já anteriormente usado, precisamente no livro citado - com protagonismo para o diálogo entre Goethe e Heminguay -, agora ao serviço da demonstração da morte do humor, tema ligado à insignificância, porque, justamente, é necessário estar acima desta para se ascender a uma visão irónica da vida…
Também a ideia da velhice como estado de ridículo, merecedor de vergonha, é recorrente de A Imortalidade, embora, neste último caso, transposta para o mundo masculino; os 4 personagens que compõem a história, são homens sexagenários, carregados do ruído da insignificância das suas vidas, (já) despidas de interesse, a que uns procuram fugir através da criação duma linguagem que os desidentifique dos demais, assim se isolando e passando ao patamar de observadores, outro, através da invenção duma morte anunciada, assim se erigindo à categoria de herói, e todos, através da aspiração ao encontro físico com mulheres que não lhes prestam qualquer atenção, único aspecto em que o paradigma Kundera parece modificar-se...
Enfim, dito isto, creio que o livro pode ser resgatado, se se entender que a insignificância de que é feito simboliza a insignificância que pretende ilustrar, o que, convenhamos, representaria o cúmulo da mimetização do sentido entre o pensamento e a escrita. Esta última asserção não é dotada de impertinência ou de cinismo, talvez seja antes e apenas uma tentativa de redimir um livro menos feliz dum autor que tão bem nos presenteou com obras que marcaram um tempo e continuam a merecer um lugar destacado nas estantes dos amantes da literatura europeia.

Resta esperar o próximo romance de Milan Kundera!