domingo, 22 de março de 2015

O ANJO


Se acredito em anjos? Na verdade, não (se, por vezes, até tenho dificuldade em acreditar no que vejo, ía lá acreditar em anjos!).
E, todavia, gosto de anjos! Assim como gosto de duendes, por exemplo. E do Pai Natal, não convém esquecer o Pai Natal.
Os anjos representam o etéreo, a simbiose da presença e da ausência, uma eterna viagem. Acho que é por isso que gosto deles.
Está bem, não é de anjos que gosto, já admiti não acreditar na sua existência. Fascina-me  é a ideia de anjo, a ideia que construí para os anjos. O mesmo, por exemplo, com os duendes e o Pai Natal.
Afinal, talvez a maior parte do que nos atrai e fascina seja aquilo a que aspiramos, enquanto idealização, e não o visível e palpável.
Eventualmente, na altura própria, transformo-me em anjo, e ponho-me a circular por aí em passinhos de veludo!
Obviamente, o corolário do referido acima é que se pode dar aos anjos a forma desejada.
Daí o anjo que segue, em nove variações fotográficas, sobre uma estatueta que fiz a partir de modelo vivo (homem, não anjo), na SNBA, e que, posteriormente, me diverti a pintar e a enfeitar, em (intencional) jeito ultra kitsch, com umas asas compradas por aí.
Está, assim, apresentado o Anjo!    












terça-feira, 10 de março de 2015

DARKNESS


Imagens da inspirada performance gótica de Kina Karvel, no passado dia 2, em mais uma sessão de Desenho Cru, realizada no espaço Art Estúdio.
Desta vez, releguei o desenho para secundíssimo plano, enquanto me perdia na recolha destas imagens.
Mas houve quem produzisse belíssimos desenhos, que podem ser apreciados no blogue destes eventos: www.desenhocru1.blogspot.pt
Espero que a falta de qualidade técnica das imagens - note-se que, por exigências do espectáculo, as condições de iluminação eram deficientes - seja compensada pela emoção que  possam transmitir! :) 

























































sexta-feira, 6 de março de 2015

MEU NOME É ALICE BAVA COELHO SALGADO MOEDAS DE SÓCRATES E ETC.


Ignoro o que se passa, mas estou a ficar seriamente preocupada!
Então não é que me instalei aqui, frente ao computador, com a ideia de escrever sobre um assunto muito concreto e agora não me lembro qual?! Tanto quanto me recordo, ocorreu-me qualquer coisa, sei lá, talvez uma ideia ou uma não-ideia, que me tocou fundo, despertando-me a urgência de escrever, registar, martelar as teclas, massacrar o écran, tão importante era o assunto…
- Qual assunto?, pergunto-me agora, quer dizer, acabo de me perguntar, meio desnorteada, visto não me lembrar por que raio estou a aludir a um assunto, sem fazer a mínima ideia de que assunto se trata…
Aludir a um assunto, mas o que é mesmo isso, um assunto? Pois, um á, mais dois esses, mais um ú, mais um ene, mais… o quê? Por que razão estou a escrever letras desengonçadas, isto é, desirmanadas, incapazes de formar pa…, pa…, pa... olha, não me lembro!
Que raio estará a acontecer?
Bem, eu ouvi que anda por aí um vírus a afectar pessoas importantíssimas, verdadeiros modelos da política(?) e do empreendedorismo  - palavra que se enrola nos queixos do sr. Silva com efeito quase tão perverso como o do bolo-rei, disto lembro-me. Ora, os  sintomas desse vírus são, precisamente... ora, de que estava eu a falar que não me lembro?
Ah! um vírus, era isso, parece que já me lembro, deve ser gripe, mas a gripe ataca mais no inferno, quero dizer, ai, como é que se chama aquela estação ferroviária, não, do tempo, a das gripes?
Acho que vou parar por aqui, não me chame eu Alice Bava Coelho Salgado Moedas de Sócrates e Etc.. 
Bonito nome, não é? Não me lembro é a quem pertence! Também não há problema, alguém há de fazer o favor de me notificar, quero dizer, de me lembrar e, de resto, creio que é opcional saber o nome, excepto para efeitos fiscais, em sentido lato, mas isso também não deve ter grande interesse, algum tanso será penhorado e executado até ao tutano e, tanto quanto me recordo, não hei de ser eu. Mas, a bem dizer, ando um bocado esquecida… O que é isso, esquecida? Juro que não me lembro... 

imagem obtida em pesquisa Google



quinta-feira, 5 de março de 2015

GATO PRETO, SEXTA-FEIRA TREZE


I

Sempre detestei a superstição! Assim, no meu modo de ver, o sucedido e, em particular, o desfecho, nada teve a ver com superstição.
Aconteceu simplesmente que, naquela sexta-feira treze, dia enevoado e morno, galguei as escadas marmóreas dum prédio em construção, até ao terraço do 13º andar, à procura do meu gato preto, de nome Sortudo, que, uma vez mais, na sua característica atitude de desafio, se escapulira da minha pessoa e, cúmulo do descaramento, dos meus insistentes chamamentos.
Cheguei lá acima sem sombra de fôlego ou vestígios de gato, sob um coro ascendente de protestos dos operários, que, estarrecidos pela ousadia de tamanha irresponsabilidade, me instavam a retroceder. Bem, também ouvi um ou outro assobio admirativo, assim tipo piropo, não sei se pela agilidade demonstrada, se por outra coisa, quero crer que por outra coisa. Todavia, nada me demoveu da urgência maternal de recuperar o desobediente felino.
Mais desesperada do que estafada, olhei à volta, rodando-me 360º, qual dervixe, sem vislumbrar sequer um pelo negro, quanto mais o Sortudo. Antecipando o pior, abeirei-me do limite extremo do terraço, ainda desguarnecido de protecção e, esquecendo-me de que já ouvira referir um fenómeno chamado vertigens, olhei para baixo, concentrando-me noutra coisa que também já ouvira, a saber, que os gatos têm sete vidas e, para além disso, caem sempre de pé. Ainda tive tempo de pensar que devia ser essa a razão por que escolhera um gato, também eu tinha por hábito cair de pé…
Contudo, o momento não era para reflexões, até porque, boquiabertos e de capacetes enterrados na cabeça, já meia dúzia de operários - bem, não é que os tenha contado… - formavam uma espécie de guarda suspensa à minha disparatada pessoa, agora com o cabelo num desalinho de vento, as faces acesas numa labareda, os olhos num espanto esbugalhado e, pior, os braços agitados num equilíbrio instável, pois acabara de aterrar na consciência de que, a) o gato voava sem asas, b) eu nem com asas conseguiria voar e, vista daquela perspectiva, uma altura de treze andares equivalia mais ou menos à distância da lua à terra.

II

Foi aí que um dos operários, como se tivesse poderes de representação dos restantes, que, aliás, sublinhavam as suas palavras com acenos afirmativos de cabeça, disse, por entre uma lividez que procurava disfarçar, tentando mostrar-se o mais calmo possível, quer dizer, nada calmo: 
- A senhora tenha calma, aguente-se, que nós vamos buscá-la, não olhe para baixo… 
Nos seus olhos, quero dizer, nos olhos de todos eles, transparecia a antecipação do meu corpo esfarrapado no maldito asfalto, que sabiam tão perto e queriam acreditar tão longe, apesar da conjugação sexta-feira treze, 13º andar e gato preto não augurar, à luz das suas trevas, nada de bom.
O representante, talvez de nome José, adiantou-se cauteloso, com um braço quilometricamente estendido, enquanto eu balançava, agoniada pela visão longínqua duma espécie de formigas com duas pernas e dois braços, acumuladas lá em baixo, no longe, de cabeças esticadas para trás e para cima, num ameaço de pescoços partidos. Repetiu, por palavras semelhantes, a mensagem anterior, enquanto deixava escapar um fumo de pensamento, que repetia, incessantemente, pobre mulher, o que a terá levado a isto?, quem sabe se o marido lhe bate, se é que tem marido, se lhe morreu algum filho, talvez tenha perdido um amante ou o emprego, que isto da crise toca a todos, mas não, não se justifica uma atitude tão estranha…. Pois não - concordava o pensamento doutro, talvez de nome António -, especialmente porque vai sobrar para nós; se a tivéssemos impedido, não estávamos agora neste apuro, ainda vão dizer que a culpa foi nossa, é o que eu digo, sobra sempre para os mesmos, ela a ficar na paz dos anjinhos e nós a levar uma valente descompostura do patrão, isto se não lhe der para nos despedir… E logo a outro, talvez de nome Boris, lhe ocorreu lembrar-se do tio da mulher do primo que, tendo sido deportado por razões políticas, não aguentou a tortura do afastamento, para não falar doutras, e acabou com a vida, mordendo os pulsos até o sangue espirrar que nem água de torneira avariada…
É espantosa a quantidade de pensamentos deslocados que se expandem na imensidão dum micro-segundo, consegui ainda - e estranhamente - pensar, no instante em que os dedos do operário avançado não conseguiram segurar-me e, no derradeiro instante de tentativa e esforço, cedi ao desequilíbrio anunciado, escorreguei para a brisa morna e cinzenta daquela atmosfera em que vogavam dois ou três pelos negros do Sortudo, que habitava, meio atordoado, os braços do Francisco, após ter aterrado num fofo monte de areia, despojo da construção, assim confirmando o acerto do nome.
Mesmo sem espreitarem o abismo, os operários precipitaram-se escadas abaixo, entre a frustração e a zanga por não me terem conseguido salvar, a tristeza pela minha sorte e, sobretudo, a curiosidade pela maldita incógnita que a tinha ditado, sem excluir a ansiedade pela antevisão da fúria do patrão e sabe-se lá que mais emoções e pensamentos.  

III   

E lá estavas tu, Francisco, meu melhor amigo, dando colo ao atordoado Sortudo, enquanto olhavas para cima com uma calma contrastante com a agitação histérica das pessoas que cresciam como formigas à volta de açúcar, que a desgraça alheia é assim mesmo, tem o condão de provocar concentrações alvoroçadas e gulosas. 
Tinhas-me visto entrar no prédio, seguindo o resto voador do felino, chamaste-me sem obter resposta, ouviste a algazarra dos operários, somaste uma coisa à outra e logo concluíste não haver nada a fazer, a não ser esperar, pacientemente, que descesse. Só não contavas ver-me chegar tão depressa àquele despenhadeiro do terraço e debruçar-me da borda em equilíbrio instável. Por mera cautela, ligaste ao 112, tentando prevenir a hipótese que se perfilava. Enquanto me sentias arrebatada para o vazio nublado daquele dia, soubeste que consegui ouvir, lá ao longe, o guincho desesperado e desesperante do carro dos bombeiros, numa pressa despropositada, porque impossível de cumprir com a velocidade do acontecimento.
De resto, nunca te rendeste, limitaste-te a afagar o gato e a fixar os olhos no meu deslizamento, como se a força do teu olhar conseguisse anular a força da gravidade. E acreditavas mesmo nisso.
Por isso não te admiraste quando, num repente, soprou um vento tão forte e ascendente que me transportou, num ápice, restituindo-me à beira do terraço, para logo amainar, numa calmaria só igual à tua.
A força que os teus olhos tinham emitido transfigurou-se num sorriso alegre, ao mesmo tempo que levantavas os braços, acenando-me um adeus que era também um chamamento e deixando cair o gato, agora totalmente recuperado.