segunda-feira, 13 de abril de 2015

ENTÃO E O EMPLASTRO?

Qual o português que não anda de cabeça à roda, com isto das candidaturas galopantes às eleições para a presidência da República?

Por um lado, tais eleições nem sequer são as próximas e, por outro lado, o lugar é apenas um, mas, segundo os meus cálculos, o número de candidatos a candidatos já deve ultrapassar o das sombras de Grey (cinquenta, para quem ignore).

Não que saiba, ao certo, quantos são e, sobretudo, quem são, excepto os óbvios, ou seja, os que, por terem falhado em tudo o resto, nunca poderiam deixar de se oferecer (ou serem oferecidos) para candidatos a candidatos a presidente da República! Isto, a avaliar pelas exigências do cargo, considerado o paradigma criado pelo ainda actual titular, se é que, entretanto, não morreu sem que me tenha  apercebido. 

Senão vejamos, o Dr. Santana Lopes teve o privilégio de ser despedido de primeiro-ministro, por manifesta e insustentável incompetência; o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, perito em generalidades e publicidade gratuita, nem sequer conseguiu ser primeiro-ministro, apesar do desespero da tentativa; o Dr. Durão Barroso, após ter encontrado o País de tanga - segundo alegou - deixou-o sem tanga, após um streaptise que envolveu servir cafés nas Lajes e adquirir, em troca, voo de longa duração para Bruxelas. 

Os outros não conheço, a menos que se trate do Dr. Fernando Nobre - caso, entretanto, não tenha dado o tal tiro na cabeça -, do Dr. Marinho (não sei se e ou não e) Pinto - caso não considere o cargo excessivamente bem remunerado - ou do Eng.º Guterres - que legou o País de tanga, segundo alegação do seu sucessor, a meio dum qualquer campeonato, para ir acudir a outras freguesias, de cariz mais cosmopolita; está bem, este garantiu não ser candidato a candidato, mas isso não impede que venha a ser candidato a presidente da república, não é? O mesmo se diga desse tão ilustre, quanto honesto e coerente político, Dr. Paulo Portas, apesar de ter dito não estar nem aí. Pois não, mas nada impede que possa vir a estar, não é? Aliás, não acrescentou tratar-se duma declaração irrevogável, não é?

Os restantes não conheço mesmo ou não estou lembrada ou não me apetece falar neles. Vejamos só um exemplo: Dr. Sampaio da Nóvoa!? Para mim, bem podia ser da Névoa ou da Nódoa - passe o óbvio do trocadilho - que ficava na mesma. 

Ora bem, o facto é que, se não há fome que não dê em fartura, a inversa também pode ser verdadeira.

Assim sendo, por simples questão de participação cívica, dei comigo a querer colaborar. Passei a sociedade a pente fino (mais um lugar comum), por assim dizer, e surgiu-me, não mais um candidato, mas o candidato, com os requisitos ideias para o cargo: é conhecido de todos os portugueses e não engana ninguém! A saber,  o Emplastro! Agora já só falta encontrar uma primeira dama à altura. 

Saudações republicanas!

(Imagem obtida em pesquisa Google)




domingo, 12 de abril de 2015

THE DAY AFTER

Hoje é outro dia, aliás, os dias seguintes são sempre outros dias ou assim parece. Todavia, não raras vezes, quando nos debruçamos na varanda do passado, os dias idos reduzem-se à uniformidade do mesmo.
Mas hoje é outro dia, quero dizer, um dia marcado pela diferença, embora esta se resuma ao pequeno rectângulo de papel preso entre os meus dedos cansados e ainda vacilantes, não recuperados deste súbito.
Ignoro completamente o que fazer com isto, este recorte geométrico de papel escrito em números e por extenso, mesmo assim, uma abstracção.
Não tinha antecipado isto, embora deva dizer que, inúmeras vezes, ousara imaginá-lo, mas perdia-me na esquina da primeira hipótese e, entretanto, adormecia. Sonos - e sonhos - agitados, de resto.
Estarei a dormir? Não, desde que regressei a casa, há cerca de duas horas, afundei-me na cadeira de costas inclinadas, semicerrei os olhos e estou nisto, nesta estupefacção imobilizadora. Bem, talvez tenha dormitado um pouco.
É meio dia, preciso de ir ao Banco, afinal algum destino imediato tenho de dar a este papel, que agora me escorrega das mãos, não como quem quer fugir, mas como quem é empurrado. Também já começo a sentir uma certa fome e comida é coisa que não cresce por aqui, exceptuado o pão duro, de dias, um pacote de bolacha Maria, já fora de prazo e amolecido, e uma raspa de queijo bolorento. Não era assim no tempo dela, mas esse tempo já foi, despenhou-se da tal varanda do passado.
Pelo caminho vou congeminando para com as casas dos meus botões - sim, não percebo por que haveriam de ser os botões - deixo lá o rectângulo de papel, a troco dum certificado de depósito e depois... Ora, não consigo descortinar o caminho do depois.
Fico-me pelo Peixinho da Horta, o restaurante, mas a fome perdeu-se lá atrás, de mãos dadas com a indecisão, cerrada no impasse do rectângulo de papel, agora transformado em círculo.
Sobressalto-me com o toque do telemóvel, as mais das vezes remetido a um silêncio ostensivo. Nunca me habituei a esta voz, a da máquina, quero dizer.
- Sr. Antunes?
- Não, daqui é Fernandes.
- Desculpe, foi engano.
Aproveito para ver as horas, uma das principais vantagens do telemóvel, ao menos para mim, sempre escuso de carregar com o relógio. Já são quatro horas, o Banco fechou.
Mais um tempo morto consumido no regresso a casa, a pé, arrastando-me pelo bairro, as pernas pesadas, trôpegas, ameaçando ruir à primeira irregularidade da calçada.
Não sei porquê, vem-me à ideia, por onde andarão eles, que nunca dizem nada? Bem, não que isto interesse, estou cansado de saber como é, têm as suas vidas, não lhes sobra tempo. A lengalenga do óbvio prossegue contra minha vontade, é sempre assim, nunca consigo rematar este assunto, insisto, pela enésima vez, no contraponto: - e a mim sobra-me tempo e já não tenho vida
Fizeram-se quase nove horas, não sei por onde me perdi, para só chegar agora, já tudo escuro, não fosse a iluminação pública...
Estatelo-me na cadeira de há bocado - e de sempre, dos outros dias e dela, era onde se sentava, depois passou para mim, apropriei-me, como se assim pudesse reter uma sombra (ou uma sobra?) da sua presença, incorporar um aconchego. É curioso, comecei o dia a pensar que hoje era outro dia, mas não, é apenas o dia eterno dos meus dias, os que foram e os que sobram, se é que sobram alguns.
O sol invade as janelas, passando a custo pela cortina cerrada da sujidade - desde então, desde ela, nunca mais conheceram um gesto de limpeza -, procuro o rectângulo de papel por entre o emaranhado que me enche o bolso. Não o encontro. Despejo o bolso, este bolso e o outro e os outros, mas nada. Uma tremura, para além da tremura habitual, a que o meu corpo já se habituou e acolheu como sua, irrompe num repente, mas desaparece no repente seguinte, e dou comigo a desabafar, aliviado:- deve ter caído quando atendi o telemóvel, ora, que se lixe, eram só cento e trinta e sete milhões de euros e, bem vistas as coisas, nem sabia o que fazer com eles.
Será novo engano? Deixa-me cá atender.
- Pai, pai, parabéns, pai! Somos nós, vimos a notícia no jornal e vamos a caminho.
Só então acordo daquela espécie de pesadelo - ou será sonho ou realidade? Volto a procurar nos bolsos, definitivamente não está lá. Que se lixe, penso, nas asas do divertimento, enquanto a gargalhada estoira, abanando-me o corpo como se um terramoto, e ouço a apreensão do lado de lá, dos que já vêm a caminho,
- Pai, está bem? 
- Pai, pai, responda, está bem?  
    




quinta-feira, 2 de abril de 2015

DE CABEÇA PERDIDA



Após a conversa com Frederic, Mary, balançando entre a perplexidade e a raiva, precipitou-se para o exterior, numa pressa desaustinada de engolir um poço de ar fresco, não fosse cair para o lado, asfixiada por aquela insana agitação.
O empregado do café olhou-a com a estupefacção residual de quem se habitua a estar habituado.
Desceu as escadas quase aos tombos, atravessou a rua pregando fintas a condutores apanhados no espanto, e caminhou longo tempo, com passada tão decidida quanto destrambelhada, até atingir as imediações do seu apartamento, já encerrado nas sombras da noite e da tempestade que teimara todo o dia em se aproximar. Os roncos surdos à distância tornavam-se cada vez mais fortes e sistemáticos, enquanto pingas grossas de chuva esparsa mal podiam esperar para tecer uma cortina opaca.
Contra todas as recomendações prudenciais da meteorologia - para só falar na meteorologia! - ela decidiu adiar a entrada em casa, adentrando-se no parque próximo, cuja folhagem rugia segredos soprados por um vento morno e incessante.
Dirigiu-se ao banco verde, de madeira envelhecida por uma vida de servidão, e, finalmente, dignou-se parar e inspirar e expirar várias vezes seguidas, ao ritmo dum suposto autodomínio, desencantado sabe-se lá onde. Só depois, num movimento de rendição assumida, começou a deixar descair o corpo exausto no banco, não sem previamente lhe passar a mão pelo assento, varrendo o monte de folhas por lá espalhadas. O gesto foi interrompido pelo toque pegajoso que lhe sacudiu os dedos numa agonia, os olhos num espanto de terror e a boca num grito de angústia, assim, por esta ordem, primeiro os dedos, depois os olhos e, por fim a boca, embora numa sucessão quase síncrona. O corpo já não descaiu para o banco, seria impossível, depois daquilo, visão terrível que mais parecia saída dum pesadelo alucinado, daqueles que, aliás, ela costumava padecer. Mas não, não era pesadelo. Nem sequer era castanho escuro - cor habitual dos seus pesadelos -, ao menos a avaliar pelo nojo que se lhe colara às mãos, tal como lhe aparecia, rubro, embora escuro, à luz difusa do candeeiro público que enchapelava o banco. 
Deixou-se escorregar para o chão, procurando com toda a força da sua determinação fugir do desmaio que ameaçava prendê-la nos braços do abandono e do esquecimento, olhou aflitivamente à volta, sem saber se com medo se com esperança de vislumbrar alguém, apertou os joelhos com as mãos ainda pegajosas, na tentativa de proibir a tremura que lhe sacudia o corpo, repercutindo um barulho metálico por entre os dentes, e procurou pensar, pensar no que seria aquilo. Podia tratar-se dum engano, podia não ser exactamente o que lhe parecera, valia mais acalmar-se e olhar de novo. Após uma pausa que lhe pareceu de séculos, lá conseguiu enfrentar aquilo. E confirmou. Então, tudo o que não tinha comido durante o dia saltou-lhe à boca e da boca para fora, num espasmo de entranhas arrancadas. Contrariou, com todas as forças de que foi capaz, a sensação de desmaio, levantou-se numa finta de coragem e correu sem parar até quase embater na parede do prédio. Enrolou as mãos no emaranhado mundo da carteira traçada  a tiracolo, até conseguir desenvencilhar o molho de chaves, e, depois, seleccionar a da porta da entrada, que, com a dificuldade duma tremura persistente, lá conseguiu, ao fim de vários desacertos, introduzir na fechadura, precipitando-se, de seguida, para o elevador, que, parado no 11º andar, teimava em não descer. Maldisse os vizinhos, lançou-se às escadas num trote de cortar o fôlego a qualquer atleta, desenterrou a segunda chave da molhada, enfiou-a na fechadura, ainda trémula, cada vez mais trémula, e precipitou-se para dentro, batendo a porta com estrondo, do qual ninguém se apercebeu, tal a violência do trovão que se lhe sobrepôs, ao mesmo tempo que a chuvada mais monumental de que podia haver memória viva se despenhava contra os vidros das janelas.
Lançou o fato roxo para o caixote do lixo - não, não haveria lavagem capaz de retirar aquela viscosidade e, muito menos, de apagar a respectiva memória -, enfiou-se debaixo do chuveiro, chamando a si uma chuva escaldante, ensaboou-se até à exaustão, esfregou as mãos com a escova das unhas até arrancar pedaços de pele, enrolou-se na toalha felpuda, secou o cabelo até não restar pingo de humidade, olhou-se ao espelho e soltou um grito tão forte e tão agudo, que até as cerdas da escova de dentes se eriçaram de medo e angústia - bem, não exactamente, mas até poderia ter sucedido, caso se tratasse dum pesadelo. Todavia, continuava a não se tratar dum pesadelo. Era real, bem real. Lá estava ela, toda reflectida no espelho de alto a baixo, excepto a cabeça. A cabeça, por mais que o grito testemunhasse a sua existência, não estava lá. Apalpou os olhos, o nariz, os lábios, o cabelo e todos responderam afirmativamente. Mas continuava ausente do espelho. Um aperto no coração fê-la cair desamparada. Finalmente o desmaio tomava conta dela.
Quando acordou, demorou menos dum segundo a recordar-se do sucedido, pegou no telemóvel e ligou para ele, precisamente ele, Thomas, para quem mais haveria de ser?
Ele começou a rir, quando ela lhe relatou que não conseguia encontrar a cabeça, invocando o espelho como testemunha.
- Ora, Mary, mas isso não é novidade nenhuma, afinal não seria a primeira vez que perdes a cabeça!
O choro que lhe chegou do outro lado fê-lo refrear a vontade de brincar, embora admitisse tratar-se dum pretexto dela, mais um, para novo reencontro. Procurou acalmá-la e foi rapidamente ter com ela. Encontrou-a para lá de perturbada, tentou perceber o motivo, insistiu em levá-la ao hospital, tudo em vão. 
- Não volto a sair, como posso fazê-lo, neste estado?
- Qual estado, Mary?
- Sem cabeça, sem cabeça, não vês?! - desesperou-se ela.
Thomas só aí percebeu que o caso transcendia as suas capacidades de ajuda. 
Mais tarde, após a ter deixado entregue aos cuidados dum familiar e do INEM, caminhando, preocupado, de regresso a casa, deparou-se com um enorme aparato policial, junto à entrada do parque. Aproximou-se cautelosamente e um dos muitos mirones já ali reunidos esclareceu-o:
- Parece que encontraram uma cabeça humana ensanguentada num banco do parque…
- Como assim?

- Sei lá, não sei mais do que isto, foi o que ouvi.


(Imagem obtida em pesquisa Google)





domingo, 29 de março de 2015

AJA


Bem que não queria, afinal estava tão comodamente  instalada no criticismo participativo! Quer dizer, vinha exercendo a intervenção cidadã, através da análise da realidade circundante.

Todavia, a capacidade foi-se-me esgotando, não por falta de objecto de incidência, mas porque este passou a situar-se em planos que exorbitam, manifestamente, a lógica de qualquer crítica: porque quebram todos os padrões de julgamento ético, dada a torpe violação das fronteiras mínimas do aceitável; porque quebram todos os padrões de julgamento racional, dada a grosseira irracionalidade de que padecem. E por aí fora...

Simultaneamente expressão e corolário mor desta realidade, logo, paradigma dos paradigmas, foi, por certo, o comportamento do mais alto magistrado da nação, quando, na tentativa de desvalorizar o impossível de desvalorizar - toda a polémica das dívidas do primeiro-ministro à segurança social, aliás, não consideradas, (também) pelo próprio, como motivo de pedido de demissão! - assobiou para o lado, aliás, cheirou para o lado. Vocês sabem, anunciou que já sentia um cheirinho a campanha eleitoral, insinuando tratar-se de lutas partidárias... 

Que comentário pode isto merecer de qualquer cidadão minimamente esclarecido, inteligente e preocupado com a dignidade própria e institucional? Nenhum! Nenhum, porque, como digo acima, está muito para além das razoáveis fronteiras da transgressão/aceitação, no plano lógico e deontológico.

Talvez tenha sido aí que, olhando para o copo do meu descontentamento e estupefacção  me deparei com a última gota, a que fez transbordar o conteúdo. Ou seja, concluí que estava na hora de mudar de registo! 

Eis por que, alguma reflexão depois, decidi criar um anti-partido, o Acção Já!, abreviadamente, AJA.

Como anti-partido que é, o AJA não arregimenta militantes ou dirigentes, não faz promessas, não pede nem aceita subvenções estatais ou qualquer outra espécie de donativos, não participa em arcos governativos nem etc. Limita-se a ter uma ideologia, uma missão e uma visão: 

(como uma fotografia ao acaso inspira a criação dum anti-partido e se transforma no respectivo cartaz :)


      


quinta-feira, 26 de março de 2015

NÉON NIGHTS


códigos de barras
desenhados a néon

multiplicam-se na noite das cidades relevantes
povoam, assimétricos e distantes
beiras de auto-estradas, extensas e desertas

subtraem o brilho à escuridão das noites
que é disso o néon
da luz roubada aos poços de negrume

iluminam transumâncias
agitações
e outras transfigurações

dão vida aos mortos dos dias extintos
ressurreição em fôlegos tardios e desarticulados

acompanham músicas incandescentes
ao som de vazios profundos
rasos como linhas rectas, horizontais
sumidas nas distâncias perdidas

ocultam-se de dia, quais vampiros
passando incólumes, despercebidos

seduzem pela noite
fingimento de dias espampanantes
inocente engano
de tão tolo, consentido

são códigos de barras
multiplicados pelo dentro das noites
roubando ao negrume o brilho

desinquietando os mortos do dia
cadáveres sobrantes 
convertidos em passos de dança

tudo se agita ao som ondulante dos néons faiscantes
códigos de barras das cidades relevantes
esparsos pelas beiras das auto-estradas do silêncio
longas e desertas

códigos de barras
consumindo-se em néons brilhantes
convertendo sobras de vivos em mutantes




  


A INTRIGA


Mary irrompeu na sala como só um amarelo electrizante consegue irromper num qualquer olhar desprevenido, levando Frederic a movimentar agilmente a cabeça na sua direcção. Nem um íman seria capaz de provocar movimento tão urgente e tão precisamente direccionado. 
Vinha de roxo, cor detestável, ao menos para ele. Sem grande originalidade, associava-a à Semana Santa, época de celebração de martírios, feridas abertas em carne exposta,  lágrimas contidas em dor resignada, lenitivos amargos, enfim, voluntariado do sofrimento, tão prenhe de significado e, todavia, tão vão. Haverá algo mais contraditório e desperdiçado? Portanto olhou-a com ar acusador.
Ela acalmou a estridência da sua entrada intempestiva numa cadeira em frente à dele, com o tampo liso da mesa de permeio, vestido na toalha verde, qual campo de jogo. Expirou ruidosamente, abanou o cabelo de lado a lado, sustentou o olhar dele como quem pronuncia um ponto de interrogação, e disse, assim sem mais, tão repentina e violenta quanto fora a sua entrada na sala:
- Olha lá, achas normal aquilo do Thomas Firth?
- Bom dia também para ti - retorquiu Frederic, forçando uma calma que não lhe assistia, mas que fazia questão de exibir, como quem pretende sublinhar o agitado despropósito alheio.  
- Ok, ok, bom dia! Mas diz-me lá o que pensas…
- …Daquilo do Thomas Firth - rematou ele, incomodado, sentindo-se invadido. E calou-se, recolhendo os olhos ao jornal cuja leitura ela travara naquela tão característica pose de furacão assanhado.
Sabendo que ela não iria desistir, interrogou:
- Afinal o que se passou com o Thomas para estares nesse alvoroço? Pensei que já não andavas com ele.
- E pensaste muito bem, já não ando com ele, como bem dizes. O problema é que  ele continua a existir e a comportar-se duma forma muito estranha. Não me digas que não sabes o que ele fez?   
Como não obtivesse resposta, continuou:
- Aquilo não é normal, já ultrapassa todos os limites! Dirigir-se ao presidente do Instituto com aquela conversa. Ainda por cima cheio de bons modos, todo bem vestido, fato Boss azul escuro, gravata Hermés, sapatinho inglês, o Rolex herdado do avô... Parece um lorde dos tempos modernos, mas não se sabe comportar.
- Vais mesmo contar o que aconteceu ou não aconteceu mesmo nada e estás só a desabafar a velha raiva de mulher abandonada?
Como se um vento súbito, os cabelos dela voltaram a abanar furiosamente, enquanto um  aceso rubor quebrava a fina camada de maquilhagem que lhe amenizava os ângulos demasiado expostos do rosto alongado, levando Frederic a murmurar, sem som, num recolhimento (agora) divertido, é curioso, quando se põe neste desvario parece mesmo um cavalo afogueado, galopando com as crinas ao vento. Eu é que não queria ser o seu cavaleiro, ao menos nesses momentos…
- Devo dizer-te que, apesar do que consta por aí, o Thomas não me abandonou. Fui eu que me cansei de o aturar, sempre naquele mutismo, sempre a querer fechar-se em casa, sempre a exigir que tudo estivesse perfeito, sempre, sempre... Isto para não falar nos tiques que foi coleccionando, o último era entrelaçar as mãos e rodar incessantemente um polegar à volta do outro, como se o movimento da terra dependesse desse gesto. Nem calculas como aquilo me irritava! Um dia, a minha irmã disse-lhe que aquela rotação sem descanso significava que a vida dele estava presa, fechada num círculo e que tinha de parar com aquilo se queria evoluir. Ficou tão furioso que os olhos lhe iam saltando para o prato - estávamos a jantar - e respondeu-lhe, agressivamente, que da vida dele sabia ele e não tinha de receber lições de ninguém, muito menos dela.
- Acho isso muito estranho, Mary, o Thomas poderá ter muitos defeitos, como todos nós, aliás, mas é um tipo bem educado e reservado.
- Pois, pois, isso é o que toda a gente pensa, mas não passa dum sonso, sempre a manter as aparências e a disfarçar as obsessões. Depois, está claro, a má da fita sou  eu. 
- Ora, não exageres, muito gostas tu de armar em vítima! Já o conheço há bastantes anos e nada tenho a apontar-lhe. É verdade que não gosta muito de conviver, de socializar, mas isso é lá com ele. Ao menos não chateia.
- Já cá faltava a solidariedade masculina. Sempre prontos a falar de gajas e a protegerem-se uns aos outros, mas olha que ele nem isso. Não penses que tem algum apreço por ti…
- E isso vem a que propósito, podes esclarecer-me, Mary?
- Ah!, agora já te interessa, não é? 
- Parece-te?
- Tenho a certeza.
- Bem, tenho de ir andando, foi um enorme prazer falar contigo, quer dizer, ouvir-te falar.
- Grande lata! És mesmo malcriado. E incompetente. Nisso ele tem razão.
- O que queres dizer com isso?
- Ora, o que toda a gente sabe, que o Thomas foi dizer, aliás, sugerir ao presidente do Instituto que tu não tens perfil para o cargo de direcção a que concorreste.
Frederic, a quem o Presidente tinha acabado de comunicar ser o escolhido para dirigir o novo departamento, salientando o contributo das excelentes referências feitas por Thomas, levantou-se com uma lentidão de preguiça de gato, adiantou a cabeça na direcção de Mary e segredou-lhe que a cerimónia da sua tomada de posse iria ocorrer no dia seguinte, pelas três, que teria muito gosto em que ela aparecesse e que seria do seu interesse aceitar o convite, pois Thomas também estaria presente. Depois deixou uma reticência no ar, enquanto ela quase virava a mesa, na fúria de se desenvencilhar da cadeira onde, pouco antes, o tempo duma conversa parva, tinha procurado acalmar a estridência da sua entrada intempestiva. Só então percebeu a cilada que Rose lhe tinha armado, sempre a inventar histórias para a manter longe do Thomas. 










domingo, 22 de março de 2015

O ANJO


Se acredito em anjos? Na verdade, não (se, por vezes, até tenho dificuldade em acreditar no que vejo, ía lá acreditar em anjos!).
E, todavia, gosto de anjos! Assim como gosto de duendes, por exemplo. E do Pai Natal, não convém esquecer o Pai Natal.
Os anjos representam o etéreo, a simbiose da presença e da ausência, uma eterna viagem. Acho que é por isso que gosto deles.
Está bem, não é de anjos que gosto, já admiti não acreditar na sua existência. Fascina-me  é a ideia de anjo, a ideia que construí para os anjos. O mesmo, por exemplo, com os duendes e o Pai Natal.
Afinal, talvez a maior parte do que nos atrai e fascina seja aquilo a que aspiramos, enquanto idealização, e não o visível e palpável.
Eventualmente, na altura própria, transformo-me em anjo, e ponho-me a circular por aí em passinhos de veludo!
Obviamente, o corolário do referido acima é que se pode dar aos anjos a forma desejada.
Daí o anjo que segue, em nove variações fotográficas, sobre uma estatueta que fiz a partir de modelo vivo (homem, não anjo), na SNBA, e que, posteriormente, me diverti a pintar e a enfeitar, em (intencional) jeito ultra kitsch, com umas asas compradas por aí.
Está, assim, apresentado o Anjo!