sábado, 3 de outubro de 2015

ONDE O SOL NASCE (III)



(continuação)

Cheguei, pois, a Tóquio, envolvida num manto de primeiras boas impressões, embalada numa maravilhosa sensação de positivismo e relax, e agitada por viva expectativa em relação ao resto da viagem, que, daqui em diante, verdadeiramente começava.

A chegada ao hotel - New OTANI - apenas contribuiu para sublinhar aquelas impressões, dada a sua elevada qualidade e localização, garante de magníficas vistas. Foi-me atribuído um bonito e espaçoso quarto, no 28º andar, com uma vista deslumbrante sobre um conjunto de edifícios de vários tamanhos e feitios, desenhando um típico skyline de grande metrópole.






Pouco depois da chegada, dirigi-me ao 40º andar, sede do restaurante BELLA VISTA, um dos vários do hotel, onde prossegui a reportagem fotográfica iniciada no meu 28º.







Aproximava-se o meio da tarde e a ânsia de partir à descoberta dos lugares previamente seleccionados era enorme, mas maior foi o peso do cansaço.

Rendi-me a ficar pelo hotel, onde, após a quase maníaca organização da bagagem, desfrutei duma refeição buffet, num elegante restaurante, dum lado, aberto para o longuíssimo e larguíssimo corredor central (ligando a main tower à garden tower, aquela onde se situava o meu quarto) e, do outro lado, comunicando, através de enormes painéis de vidro, com um harmonioso jardim, para o qual segui, uma vez terminada a refeição e atentamente observado o ambiente, onde pontuavam elegantes senhoras (na maior parte), lanchando sossegada e alegremente (ou assim me pareceu). Pelo que vim a ouvir mais tarde, é habitual as mulheres deixarem de trabalhar, quando se casam, entretendo-se neste tipo de reuniões e em actividades de shoping… 

O tempo pesava, escuro, desabando, ocasionalmente, numa bátega de chuva tão generosa quanto fugidia. Mas, quando saí para o jardim - também pertença do hotel - mal caíam uns pingos esparsos, insuficientes para me afugentarem ou afugentarem o gato que por lá se passeava, plácida e astutamente, como é costume de gato.


O jardim maravilhou-me, com a sua ponte de madeira vermelha sobre o lago, onde rodopiavam peixes cinzentos ou cor de salmão (que vim a saber serem carpas e estarem associados à sorte), a queda de água, a estátua pétrea dum ser (divindade?) de cara zangada (esperei que não fosse comigo!), rodeada dum laguinho de oferenda de moedas (seria um altar?) e, claro, a vegetação, onde pontuavam os primeiros bambus.































Grossas pingarolas de chuva restituíram—me ao interior. Por essa altura, seriam cerca das cinco horas da tarde e começava a instalar-se a noite oriental.

Passeei-me pelos longos corredores, especialmente pelo principal e mais extenso, ladeado de lojas de artigos diversos, incluindo uma galeria de arte, todas elas caras ou caríssimas, e de atendimento irrepreensível. Porém, a que me despertou mais atenção, foi uma que congregava livros - uma das minhas paixões - artigos de papel - outra das minhas paixões -, em particular, ligados à cultura nipónica, e artigos de utilidade, como as máscaras sanitárias, com que viria a ver tantas pessoas cobrirem o nariz e a boca, assim se protegendo contra eventuais contaminações ou evitando contaminar terceiros.

Tomavam conta da loja duas idosas baixinhas, de aspecto frágil, com os rostos engessados em pó de arroz, parecendo saídas de imagens fílmicas (ou outras) reportadas a antes da II Guerra Mundial. Também o seu comportamento ostentava algo de desusado. Especialmente uma delas pareceu-me bastante desconfiada, quando me demorei a folhear os mais variados e apelativos livros, mantendo-me sob  permanente observação, em regime de proximidade (não fosse eu fugir com um livro na mão?!). A situação era tanto mais inquietante (para a senhora, presumi, não para mim, que me via, divertidamente,  dentro dum filme antigo) quanto ela insistia em responder em japonês às questões que eu, desconhecedora da língua, lhe apresentava em inglês. Menos mal que a outra balbuciava algum inglês, tendo, talvez, percebido que eu voltaria mais tarde, para comprar um livro. Assim fiz, tendo adquirido dois, maravilhosos, um do género documentário fotográfico do País, o outro de contos japoneses, com ilustrações (ambos em versão inglesa, of course). O primeiro destinou-se a oferecer, o segundo cumpriu (mais) uma das minhas idiossincrasias, despertada pela compra, em Copenhague, duma belíssima versão dos Contos de Andersen - em memória do deleite que os mesmos me causaram na infância. A partir daí e vá-se lá saber porquê, sempre que viajo a um novo país, compro um livro deste tipo, de preferência com tradução numa língua entendível. Mas, se não encontro, vem mesmo na língua local, como aconteceu com o croata Patka Zlatka (O Pato Zlatka). 


Enfim, mais uma mania inofensiva e, como tal, tolerável. Quando da compra, surgiu uma terceira idosa, advertindo-me, com um aspecto a que não era alheio um quase desespero, que devia efectuar o pagamento em cash (não fosse lembrar-me de sacar um cartão de plástico ou qualquer outra modernice - pensei). A conversa sobre a forma como pretendia os embrulhos foi amavelmente intermediada por um senhor asiático, risonho e divertido, que, entretanto, entrara na loja. Terminadas as operações, saí entre sorrisos, convencidas, finalmente, as senhoras, de que as minhas intenções sempre tinham sido benignas (ou assim imaginei!).

(Bonito, o papel de embrulho!)
Aproveito para adiantar que a questão da língua constitui, efectivamente, um problema de comunicação com os japoneses. Excepção feita ao staff dos hotéis, e aos guias e demais pessoal dos operadores turísticos, foi-me deveras difícil encontrar pessoas habilitadas a falar inglês (obviamente nem tentei outras línguas), mesmo entre os jovens e em lojas, incluídas as de dimensão significativa, como os department stores. Sucede, todavia, que, tratando-se dum Povo tão educado, cerimonioso e acolhedor, não resistem a dizer que falam a little bit (de inglês), vindo a revelar-se que é muito mais little do que bit, por assim dizer; noutros casos - muitos -, confessam, de imediato, não falar inglês, mas com um polido, sorridente e quase envergonhado sorry. Também ao nível da comunicação gestual, não consegui grande sucesso (quem sabe se por inépcia minha!). É, pois, recomendável andar sempre com um mapa legendado em japonês, o mesmo se aplicando às direcções dos hotéis e demais sítios que nos interesse alcançar. 

(Claro que não resisti a captar o magnífico skyline nocturno!)

Natureza, Tradição e Modernidade





domingo, 27 de setembro de 2015

ONDE O SOL NASCE (II)

(continuação)

A noite de vinte e um para vinte e dois de Outubro de 2012 não foi para dormir. Chamava-me o voo n.º 2325 da Air France, com destino a Paris, escala para o voo n.º 276, também da AF, rumo a Narita. Impunha-se comparecer no aeroporto por volta das cinco da manhã (hora a que, habitualmente, ainda só tenho duas ou menos horas de sono). E não era tudo, falta referir o factor agitação: como iria conviver com cerca de onze horas de voo, sem contar com as do voo de escala? Como funcionariam as coisas por lá? Estariam à minha espera, como combinado (e pago) para me transportarem ao hotel? A horas? Falariam minimamente inglês e perceberiam o meu inglês de viagem? Os hotéis seriam bons? Os tours de que se compunha a viagem, cada um independente dos restantes, funcionariam bem? Pelo menos, tinha conseguido aniquilar a ansiedade devida à síndrome da perda da mala de viagem. Reduzira tudo, milimetricamente calculado, a uma mala de cabine, acção em que me tornei perita desde que, a caminho duma volta pela Escandinávia, me perderam a bagagem, logo no voo de ida, sendo que a mesma continha um guarda-roupa extensivo a todas as estações do ano (de difícil substituição), dadas as (previsíveis e imprevisíveis) condições climáticas a atravessar. Vá lá, apareceu de madrugada, precisamente antes do início do tour. E, sendo a primeira, não foi a última vez que me extraviaram os pertences, motivo de considerável trauma, embora circunscrito aos percursos de ida (nos de regresso, são livres de desviar seja o que for, quero lá saber).

Recolhi à cama pelo fim da tarde da véspera, para me levantar às duas e meia da manhã, a fim de cumprir, a tempo e à vontade, a primeira parte do percurso, chegar ao aeroporto (que, para mim, já é porto seguro, e, sim, demoro imenso tempo a arranjar-me). 

Adoro o ambiente dos aeroportos! Aí começa o estado de graça, que qualifico de em trânsito e representa, para mim, o quid que traz tanto interesse às viagens, ao acto de viajar. Viajar é uma espécie de vida dentro da vida, só com as coisas boas da vida - em princípio. O andamento, a quebra das rotinas, o desconhecido, a agitação, o anonimato, a não pertença, enfim, a liberdade no seu esplendor máximo, um campo aberto de possibilidades, talvez mesmo de possibilidades de impossível… 

O táxi entregou-me ao Aeroporto (de Lisboa) pouco antes das cinco da manhã, pronta para dar início à AVENTURA!

Momento para cumprir o que já se me tornou um ritual, poisar no pequeno Café do Harrods, para um café e talvez um croissant, enquanto observo à volta. Ali comecei a escrever a tal espécie-de-diário-de-bordo, de que agora me socorro, para alinhavar esta partilha.


O instrumento de registo era um belíssimo caderno reversível (dois em um, uma parte pautada, a outra lisa, papel reciclado, cor e textura daquele pardo delicioso, e, sim, adoro cadernos!), adquirido na loja da Tate Modern, quando duma curta visita a Londres, em Dezembro do ano anterior. Nele registei o único - e, aliás, péssimo - desenho da viagem. 






Pelas nove e meia (hora local), após um voo pontual e descontraído, aterrei no Aeroporto Charles de Gaulle (Paris), tendo-me dirigido ao Terminal da partida para Tóquio (mais precisamente, Narita), onde, mais tarde, enquanto aguardava a hora do embarque, comi uma salada e bebi uma coca-cola 0, tendo resistido triunfalmente ao apelo dum magnífico bolo (que a magia negra corporal de transformar doçuras em calorias e estas em quilos não favorece ninguém). 



Não isenta dum cansaço inicial (madrugar não é comigo!), surpreendi-me com a calma clean do local, movimento reduzido, bulício em estado de adormecimento. Nem parecia o ponto de passagem que é! Certamente fruto duma qualquer coincidência de aterragens, ou melhor, da sua falta. Espaço e calma, pois.

Passeei-me, para constatar que as lojas deste Terminal são carérrimas, tudo de marcas XPTO, ainda bem, também não tencionava fazer compras. Já foi tempo em que o apelo ao consumo exercia em mim alguma influência, apesar de nunca ao ponto de me conduzir a excessos, bem, a excessos irracionais, quando muito, um relógio, uma carteira, um perfume, para lá da conta. Agora, nada. Invocando Luís de Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…   

Avistei uns japoneses, que, certamente, seriam meus companheiros de voo. Pensei, estou aqui, estou a meter conversa com um deles, para obter melhor orientação lá para Tóquio. Se não for aqui será no avião, sou menina para isso

Entrei numa (talvez a única) loja mais acessível, L´Air de Paris, vi qualquer coisa que me interessava, eventualmente uma carteira, mas não, não comprei nada.

Não tardou, embarquei, a horas, numa viagem que correu bem, embora muito cansativa. Isto de passar cerca de onze horas e meia num avião, em classe económica e, para cúmulo, lugar próximo da zona de preparação das refeições e duma casa de banho, não era propriamente o que o corpo reclamava. Não me consegui concentrar no écran à frente, nem tão pouco dormir, excepto dois curtos períodos de cerca de uma hora cada. Mas, que importava? Importava mesmo era o destino!

E assim cheguei ao Aeroporto de Narita, a cerca de 60 Km de Tóquio, por volta das oito da manhã do dia vinte e três.

Logo no Controlo de Passaportes/Alfândega fiquei agradavelmente surpreendida com a educação, organização e eficácia dos funcionários, impressão que viria a manter ao longo de toda a viagem, mediante os diversos contactos estabelecidos com japoneses, desde funcionários dos hotéis a taxistas, passando pelos empregados das lojas e transeuntes - como foi o caso daquele senhor que, não só me indicou o itinerário e estação de metro pretendida, como me acompanhou à bilheteira, efectuando a operação de compra do bilhete.

Aguardava-me o funcionário do operador de viagens local, já acompanhado dum casal espanhol - a Zuleima e o Elias - e duma mãe e filho venezuelanos - a Miriam e o Andrés -, destinados ao meu tour, todos muito simpáticos. Era um senhor magro e macilento, já de idade avançada (talvez setenta anos), que não parava de sorrir e de limpar a transpiração que lhe encharcava a testa, tal a humidade suspensa no local.

De Narita a Tóquio foi uma viagem de autocarro, de cerca de hora e meia, que aproveitei para me familiarizar com o cenário. Nem sempre o caminho dos aeroportos às cidades nos oferece panorâmicas interessantes, o que pode causar uma má impressão inicial, fonte de desânimo ou de má vontade. Não foi o caso. Nos primeiros momentos, vi desenrolarem-se à beira da estrada árvores frondosas, proporcionando uma agradável sensação de frescura e limpeza; seguiu-se um cenário de casas esparsas, não muito interessantes, quase todas marcadas pelo acinzentado da cor e pela escuridão dos telhados, deslizando numa inclinação por vezes semelhante à dos telhados dos pagodes, nunca ultrapassando os dois andares. Vim depois a saber que este tipo de casas - que aparecem ao lado de outras vias, em aglomerados maiores ou menores - é pré-fabricado. Mais adiante, entrou em cena uma longa sucessão de enormes edifícios industriais, ostentando, sobretudo, marcas internacionais, escritas em caracteres ocidentais. Já à chegada a Tóquio começaram a aparecer prédios de habitação, de vários andares, quase todos de tom sombrio - a marca acinzentada, já registada nas casas -, parecendo aglutinados de forma mais ou menos anárquica.

Viriam a explicar-me que, dada a escassez de espaço e a consequente carestia dos espaços destinados a habitação, estes são de medidas reduzidas, numa média de cerca de 60 metros quadrados. Curiosamente, a área mede-se por tatamis - os típicos tapetes feitos de palha de arroz e junco, com dimensões fixas,  de 90 cm por 1,80 m. Assim, a área dos apartamentos é ilustrada por número de tatamis que comporta: casa de 2, 3 ou 4 tatamis…

Para além das vistas, pude constatar a tranquilidade e civismo no trânsito.

Natureza, Tradição e Modernidade






sexta-feira, 18 de setembro de 2015

ONDE O SOL NASCE (I)


Há sempre uma ideia que fervilha, embora, por vezes, se situe a um nível tão subterrâneo ou andemos tão distraídos, que só lhe damos atenção quando já tomou conta de nós. O mesmo acontece com os sonhos, as obsessões e tantos outros mecanismos desta engrenagem a que, vulgarmente, chamamos mente. Acontece com quase tudo e nem sempre é questão de mente, a menos que a esta se atribua um sentido muito amplo e elástico. Mas isso...

Bem, não sei por que me deu para começar assim. Talvez para inquietar leitores, o que não faz sombra de sentido. Afinal proponho-me falar duma coisa tão simples e maravilhosa como é uma das viagens da minha vida (para usar uma estafadíssima expressão feita). Pronto, não é nada disso, é tão só uma das viagens mais desejadas e gratificantes que passaram por mim ou melhor, a que deitei mão.

A ideia do Oriente atraíra-me desde muito cedo, embora virada para outros horizontes, talvez mais exóticos e alternativos. Depois, a partir de certa altura, deu-me para ler autores de lá - destaco Kenzaburo Oe e Aruki Murakami - e fiquei fascinada. Aquilo prometia ser completamente diferente do mundo ocidental e, simultaneamente, da tal ideia do exotismo alternativo, que, em tempos mais remotos, me voltara para outros países de geografias próximas. Depois, havia o contraste, o contraste não, uma suspeitada e improvável harmonia de contrastes, a ligar, em convívio perfeito, tradição - uma tradição milenar, entenda-se - e modernidade - não uma modernidade qualquer, uma modernidade de ponta, tecnologicamente marcada e marcada pela exuberância do êxito económico (o chamado milagre económico, sequente à II Guerra Mundial). Outro foco de atracção era a Natureza, a amada Natureza, bosques de bambu inclinados ao vento, a majestade da montanha mítica, encimada de branco, e o que mais… Depois, qual laço de veludo a cingir o embrulho de papel de seda, surgiu o nome, cinco letras e um til, carregados de mistério, de promessas de lonjura e de deslumbramento. Sim, o nome dum destino pode esconder/prometer muito e, como tal, ser critério de opção de visita.

E assim fui parar ao Japão! JAPÃO! JAPÃO!

JAPPON

Não sucedeu à primeira nem à segunda vez. Para não perturbar a regra, só à terceira, no Outono de 2012. Não por uma qualquer superstição, mas porque os acontecidos assim encaminharam.

Quando tentei passar do devaneio à prática, corria o ano de 2010 e dominavam-me hesitações várias. Era muito longe, demasiadas horas de avião, quer dizer, demasiadas horas presa, sem hipótese de deserção - coisa que me incomoda sempre…;  desconhecia a língua e sabe-se lá que mais! Enfim, um sentimento geral de insegurança, por vezes acontece. Nada que não se vença, quanto mais não seja pelo desafio. Mas aqui havia muito mais do que o desafio da vitória. Está bom de ver! 

Passou a época de férias, a viagem foi substituída por outra mais próxima - um qualquer já nem sei onde - e rapidamente chegou 2011. A hesitação ainda não se dissipara, mas a fase de consulta dos folhetos de viagem passou à da resolução. Quando os avanços estavam quase a atingir o momento do não recuo, eis que a vida, numa zanga inesperada(ou talvez não, vá-se lá saber!), decidiu atacar em Fukushima, por via do desastre da Central Nuclear. O adiamento óbvio. 2012 fez-se à vida e eu às necessárias marcações. Tudo devidamente confirmado com uma antecedência de meses, o Guia American Express (JAPÃO) estudado à exaustão, visitas à Embaixada, recolha de mais documentação, e ansiedade, um balão de ansiedade. Quando o desejo é grande a decepção pode ser maior, mas só há uma maneira de saber…

Fui saber e agora, com uns anos de atraso, atrevo-me a contar, com base na memória e, sobretudo, nos preciosos apontamentos, espécie de diário de bordo, que comecei a escrever em plena viagem, logo no aeroporto, e apenas terminei um tempo depois, já em Lisboa. A intensidade do ritmo - e, também, alguma da minha (muita) indisciplina, por que não confessá-lo?! - não permitiram que o projecto de registo escrito acompanhasse o timing da viagem. O cansaço também era grande. E o entusiasmo, preferencialmente focalizado na acção. E aquela mania que tenho de manter a mala sempre organizada, como se disso dependesse o êxito da correria ou a compostura do mundo. Enfim, manias! O que sempre impõe alguma perda de tempo e consumo de energia, mas um sentimento de paz, certamente apanágio de (hipotética) envergonhada síndrome de obsessão-compulsão. Se for para nos fazer bem e não prejudicar ninguém, aceite-se, caso contrário, vença-se!, eis o meu lema e a razão duma condescendência razoável e racional para com certas manias inofensivas. Sim, só para estas (até ver, não me apercebi doutras e espero continuar assim).

Parti em Outubro, porque ou se vai no Outono ou na Primavera, tempo, respectivamente, das tonalidades amareladas e avermelhados das árvores em mudança, e das cerejeiras em flor. Em qualquer dos casos, tempo de trânsito, tão do meu agrado... 

Natureza, Tradição e Modernidade






 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

NOCTURNO


porque a noite era longa, encurtou o sono
(parece contra senso, eu sei)
porque o dia era perto, fechou-se nas trevas
(talvez pareça contra senso, eu sei)

pendurou-se em voos de morcego
suspendeu-se no olhar das corujas
(já pensaram como o olhar das corujas é tão diferente do olhar dos gatos ou talvez não?
por acaso alguém parou para pensar?)

porque o tempo se estendia, espreguiçou-se no requinte do nada
porque o tempo escasseou…
(sim, de repente, o tempo escasseou)
… atarantou-se na maré dos fragmentos

são o quê, todas as perguntas sem resposta?
servem para quê, as respostas a todas as perguntas?
(já pararam para se interrogar? para que servem as perguntas, as respostas e o abismo de ignorância que as une e separa?)

não é insónia, se quiser fecha os olhos e dorme
apenas gosta de aproveitar a noite, auto estradas de desertos lisos
néons perdidos no acaso, ao acaso
bombas de gasolina bêbadas, a cair sobre depósitos sedentos de carros estremunhados

promessas de amanhãs diurnos, sabidas incumpridas
adiamentos tácitos
(ou será tácticos?)

gloriosas certezas do que não
e um mar por perto
(calhando)











quinta-feira, 3 de setembro de 2015

E, NO ENTANTO... NADA


As paredes jaziam, raspadas de velhas, cal sobre cal, pó sobre pó, dedadas, restos espirrados, sujidade de tempo acumulado, raspadas de tentativas frustradas de branqueamento, como cabelos mal pintados, de raízes à mostra, traços de branco, giz, aqui e ali, atraiçoando desígnios de disfarce. Levantavam-se, na vertical, é certo, mas pode dizer-se que jaziam, como pessoas erguidas, cujos olhos rastejam pelo chão, atraídos por nenhuma outra força que não a da gravidade.
Sentado na cadeira exausta, tomada dum equilíbrio instável, ameaçando derrota próxima, portanto, mais incerta que a sua própria, que era derrota há muito consumada, fixava-se naquelas paredes-testemunha, as tais paredes jacentes, embora na vertical, paredes que tinham servido de ouvido a palavras e silêncios de natureza vária, de espera, espécie de esperança, que a espera é ainda uma ponta de esperança, se não a esperança mesma, de incerteza, que é uma esperança em vias de revolta e de extinção, de raiva, que é um murro fechado na boca das esperanças mortas, de dor, de réstia, réstia de tudo o que costumava ser e já não era, nunca mais seria, e, no entanto…
- Então, Sr. Joaquim, a esperança é a última a morrer, vá lá, anime-se! Hoje é dia de arroz doce, aquele de que gosta tanto, não diga nada aos outros, guardei-lhe uma tacinha extra, anime essa carinha, sorria, ainda que seja só para mim, só um sorrisinho!
E ele calado, a fingir-se de mudo, a fingir-se de morto, e a pensar, que patético, tacinha, carinha, sorrisinho, deve pensar que tenho cinco anos ou por aí, deve pensar que o arroz doce me consola destas paredes sinistras, coladas dos restos de tantos sussurros e gritos e silêncios e mortes. E, no entanto…
Entreabre-se a porta, de mansinho, como se uma dúvida - entro, não entro? -, como se um receio - vale a pena, não vale a pena?, arrisco, não arrisco? - e lá vem ela, de sorriso hesitante, que a ausência é longa e o receio não lhe fica atrás.
- Olhe quem está aqui, Sr. Joaquim, a sua filha, eu bem lhe disse para se animar! Vou deixá-los os dois, devem ter muita conversa a por em dia. Depois volto com o arroz doce, não se esqueça, tacinha extra…
Esforça-se por não desviar os olhos da parede, há alturas na vida em que não convém desabituarmo-nos dos horizontes garantidos, por maus que sejam, sobretudo por isso, mas não consegue resistir, embora fingindo desinteresse, como se procurasse algum objecto distante, outra parede, de preferência menos, menos, menos aquela.
Não estende a mão para receber o embrulho, nem a cara para segurar o beijo, as palavras continuam caladas dentro da sua boca de lábios descaídos, maldita seja a força da gravidade, que, enquanto jovens, nos atrai para cima, é a força da leveza, e depois nos chama para baixo, sempre mais para baixo, como se voar não devesse ser possível, coisa lixada, ao menos para quem gosta das alturas.
Enquanto ele divaga para dentro, ela divaga para fora ou por fora, circula os olhos arredios pelas paredes, merda de paredes, bem podiam aplicar-lhes uma camada de tinta garrida!, sempre animava os velhos, aqueles restos entretidos à espera, à espera, à espera
- Pai, não pude vir antes, tenho tido uma vida super ocupada, sabe como é, o trabalho … 
E eu com isso, pensa ele, enquanto ela prossegue o monólogo de desculpas esfarrapadas e de culpas escancaradas, amassando o embrulho com dedos nervosos, carregados de anéis, ou serão anilhas?,  pensa ele, agora divertido, alheado da parede mesquinha, já para além de si e, sobretudo, para além dela, daquela filha. O último a morrer é mas é o sentido de humor, qual esperança, qual quê!, continua ele para consigo.
A Teresa entra com a taça de arroz doce na mão, pergunta se não está a incomodar, que não, claro que não, responde a filha, aliviada com aquela presença, é que são horas do lanche do Sr. Joaquim, justifica-se, enquanto ele, distraído da parede, pede canela. Surpresas com aquele desemudecimento, agitam-se à sua volta, - Sr. Joaquim, Pai, está a ver que consegue falar?! E ele, regressando ao interior, - parecem duas galinhas tontas!
Polvilha o arroz doce abundantemente, muito abundantemente, com a canela, fina chuva castanha por entre os furos da tampa do frasco, e, terminada a tarefa, faz uma pausa como que a criar suspense, dirige um olhar malandro a cada uma delas, à vez, primeiro à Teresa, depois à filha, saboreia-lhes a inquietação, e depois, num gesto de força resgatada sabe-se lá onde, atira a taça contra a parece, no meio duma gargalhada rouca e fraca, enfim, com a força de que é capaz.
Recolhe-se ao mutismo para não mais as olhar, fixos que lhe pendem os olhos, na parede.
E, no entanto... Nada. Em absoluto.