sábado, 23 de julho de 2016

FEELING SO FUCKING SILLY!


Por esta altura, nada me incomoda mais do que a onda (aliás, tsunami) de calor que se faz sentir, prometendo ficar (como diria aquele escritor que já prometeu falhar e perder, coisas que eu, pela minha parte, cumpri, mesmo sem necessidade de promessas). Bem, há mais uma coisinha altamente incomodativa e irritante, a estupidez. Não deve ser por acaso que lhe chamam silly season. O grande problema é que se contagia. Falo por mim, evidentemente. Ainda há pouco, saí do túnel das Amoreiras a caminho de Alcântara e eis-me, sem apelo nem agravo, em cima da Ponte 25 de Abril! Como se o núcleo (mais) parvo do subconsciente pretendesse impor-me o Algarve, para me encontrar com os restantes quinze ou trinta milhões de portugueses que para lá rumaram ou hão de rumar até ao fim de Agosto e mesmo por Setembro dentro. Menos mal que o atravessamento da Ponte é sempre simpático, sob o prisma panorâmico, que o trânsito, apesar de compacto, se desenrolava sem pausas dramáticas, que já tenho a minha dose de imprevistos, com a aquisição do pertinente jogo de cintura, e, finalmente, que o carro tem ar condicionado. E, mais importante, não está avariado (o ar condicionado). Contrariamente à janela do lado do morto, que deixou de funcionar há uns meses, quer dizer, ela funcionar, funciona, mas num estilo que não lhe serve a função. Passo a explicar, abre na perfeição, mas recusa-se a fechar. Quando se encontra lá em cima, no ponto de encerramento, volta a descer e, desaustinada, põe-se a andar para baixo e para cima, qual leviana imune ao desespero do comando. É claro que, munida da minha prática de adaptação a imprevistos, arranjei, de imediato, uma maneira de a tramar. Manobrei o botão cuidadosamente e, no exacto ponto do fecho, desliguei a ignição ou lá como é que se chama (sem me esquecer de começar por parar o carro...). Advirto que (para além de criatividade) é necessária elevada precisão matemática, mas o que é isso para uma pessoa cheia de reflexos! Evidentemente, achei-me deveras esperta, pelo menos mais do que a janela teimosa. E mais do que os senhores da Santogal, que queriam não sei quantos euros - mais de cinquenta - só para identificarem a raiz do problema e apresentarem orçamento para o arranjo. - Ah!, então o orçamento não é gratuito!, exclamei, após informação (deles) em contrário. - Não, minha senhora, o orçamento é gratuito. Ok - pensei - wathever, sempre soube que os senhores deste ramo, para não falar noutros, consideram as mulheres intelectualmente diminuídas. Ok, a janela será arranjada no Dia se S. Nunca. Reforcei a ideia de trocar de carro e, enquanto não, vou avisando os penduras para não darem ordens à janela. Parece-me que ela não gosta, fica chateada de não poder andar para cima e para baixo a gozar comigo. Os da Santogal também não devem ter gostado, mas isso é problema deles.
Continuando com a estupidez, que o calor já se sabe. Uma pessoa sintoniza a rádio (para a televisão não há, mesmo, paciência, por demasiado gráfica e embrutecedora), a fim de se actualizar sobre o número de mortos do dia resultantes de assassinatos perpetrados a soldo (ou  em mera publicidade gratuita) do Estado Islâmico, do Sr. Erdogan ou doutras entidades igualmente respeitáveis, e depara-se com quê? 
Primeiro, com o diabo à solta no hemiciclo de S. Bento (hemiciclo fica sempre bem e dá para fantasiar se as coisas poderiam ser diferentes caso se tratasse duma sala com outra disposição, por exemplo, oval)! Ainda se vestisse Prada! Mas não, trata-se dum diabo rasca, que o Sr. Costa, num dos seus delírios de optimismo com os pés no ar (como diria o outro), jura combater, na mais pura tradição heroica portuguesa (agarrem-me se não…), e que o Sr. Passos Coelho ameaça reeditar, lá para Setembro, numa das suas tristes exibições de mesquinhez, herdadas duma mal digerida tradição judaico-cristã (no seu pior).





Segundo, em reacção ao morticínio de ontem, em Munique - entretanto, já houve, pelo menos, mais um, em Cabul, com para cima de sessenta mortos, que o Estado Islâmico, perante a dúvida sobre se o primeiro lhe é atribuível, não se fica -, o Professor Marcelo vem dar conta do teor da mensagem que enviou à Sr.ª Merkel, expressando horror e solidariedade, e aproveita para esclarecer que os atentados aumentam a sensação de insegurança na Europa. Ora, aí vou eu de ficar pasmada, pois sempre pensei que, numa tal circunstância, fosse caso para manifestar, sei lá?, contentamento e animosidade, e constatar que não parava de aumentar o sentimento de paz e segurança na Europa. Ao mesmo tempo, recordo, com nostalgia, o tempo em que havia a figura de porta-voz da presidência da República. Para não falar de quando o agora presidente expendia comentários na TVI, estação que, de todo, não frequento. E entro em divagações sobre como seria muito mais divertido se o Professor começasse a comunicar coisas menos óbvias, como por exemplo, quando foi a última queca presidencial (grande lata, o corrector ortográfico, esse grande ditador, queria substituir esta palavra por queda!) e que sensações e advertências lhe suscitou.



Terceiro, espanta-me o conhecimento de que hoje é dia de homenagem ao Sr. Cavaco Silva. Não admira, ouvi a notícia pouco depois de acordar, com os neuróticos ainda em ponto morto. À medida que fui despertando para a vida, quer dizer, para o calor e para a estupidez, acabei por perceber, lembrei-me de ele ter sido, em tempos, o imbatível campeão de rodagem de automóveis, na modalidade olímpica de rodagem-que-te-leva-mais-longe-e-por-mais-longo-aliás-demasiado-tempo de que há memória. Acabei, mesmo, por perceber a razão por que os causadores da queda do BPN, grande responsável por andarmos há anos a viver acima das nossas possibilidades, estão em liberdade. Será, certamente, para poderem homenagear o responsável pela sua ascensão política e, pelos vistos, não só.



Enfim, tomara que chova, depressinha!
Se acharem este texto demasiado parvo, por favor não me levem a mal, a culpa é (ao menos em grande parte) do calor! De qualquer das formas, podem sempre procurar melhor, mesmo sem saírem aqui do blog.
Bons banhos!

Nota: fotos obtidas em pesquisa google.
    


sexta-feira, 22 de julho de 2016

A NÃO HISTÓRIA DE VLADIMIR BLUE (UM SALTO, 7 POSTS DEPOIS)


No dia seguinte, Vladimir Blue chegou no seu amarfanhado modo habitual, mas, a dado passo, soergueu abruptamente a cabeça, fazendo rodar alguns rostos na sua direcção e despertando súbita agitação na folhagem das árvores, tal o inusitado do gesto. Tudo porque sentiu um impacto surdo, um paf abafado, que lhe ressoou a estilhaço de bomba, tal a auto imersão e a ausência de contactos físicos em que, desde há tanto tempo, seguia o seu rumo, se é que se lhe podia chamar rumo. Elevou a mão ao chapéu e sentiu um empastamento mole e quente, que lhe provocou uma tremura fria, feito da lembrança desesperada do sangue, ainda morno, com que se deparou naquela tão longínqua quanto presente tarde, lá longe, na duna. Fez um esforço para fugir da evocação, levou a mão suja para debaixo dos olhos, agora regressados à posição habitual, a que acompanhava a cabeça descaída, e viu, com alívio, que se tratava apenas do excremento dum pássaro. Os pássaros são com o destino, podem passar anos a cagar ao lado, mas chega sempre um exacto microsegundo em que, sabe-se lá por que conjugação de sortes, te acertam, infalível e implacavelmente, na cabeça ou num ombro. E cagam sempre de alto. Sem saber bem o que fazer à mão peganhenta, malcheirosa e sabe-se lá carregada com quantos veículos de doença, micróbios, bactérias e coisas assim, Vladimir Blue sacudiu-a brevemente, antes de a recolher no recato do bolso da gabardine, onde, por sorte, jazia amarfanhado um lenço de papel, talvez testemunho de lágrimas perdidas no esconderijo da sua reclusão ou de simples ranho inoportuno. Enrolou nervosamente os dedos no trapo de papel, recuperou o ritmo habitual da batida cardíaca e seguiu para o poiso do costume, disposto a retomar os murmúrios. Assim esperou a Sombra, que, na escuridão do seu anonimato, o seguia, qual instigador secreto à continuação, agora que Akemi, a lembrança súbita de Akemi, tinha marcado tão forte e angustiante presença. Mas não, não seria esse o argumento a debitar, ao menos nesse dia, ao menos nos momentos mais próximos. Era demasiado doloroso e, bem vistas as coisas, Vladimir Blue ainda não se recompusera do susto causado pelo ataque da ave. Regressou a Natasha.
Natasha era uma mulher apaixonada. Quer dizer, Natasha procurava a paixão e entregava-se-lhe, sem tréguas e sem reservas. Enfim, não podia viver sem a paixão, não a paixão idealizada, mas a paixão em estado real. Não apenas um objecto de paixão, mas vários. Não é isso a característica dum ser apaixonado, a concretização versus o simples sonho, o desejo suspenso, inerte, inactivo e inoperacional? De que vale ansiar e não ir em busca, não abocanhar com todos os dentes e lábios e corpo, esse concreto sujeito (ou objecto) da paixão? O que distingue tal estado do nada, ou pior, da negação? Um vazio, uma cobardia, uma insatisfação e uma censura permanentes. Em nome de quê? De ilusória segurança, de resguardo frustrado para os tempos do nunca, do nunca há de acontecer, do zero. Vladimir Blue encaixava mais nesta categoria, vivia a paixão por dentro, quer dizer, tinha medo de se (deixar) queimar pela paixão. Akemi - lá voltava Akemi, difícil mantê-la à distância, nesse dia! - era diferente. Brincava com a paixão como quem brinca com fósforos ou lança bombas de Carnaval. E ria, sempre aquele riso em que a brancura imaculada dos dentes perfeitos parecia desenhar a palavra provocação. Vladimir Blue vivia suspenso daquele riso, embora tivesse preferido ler uma palavra diferente, que, verdade seja dita, não sabia exactamente qual. Aquele riso mantinha-o vivo e alerta e assim era mais fácil dissimular a paixão, limitar-se a entrar no jogo da sedução, aquele jogo que o mantinha atado a ela como cão a trela.




Nota: Este é um extracto, não sequencial, da história - com o mesmo título - que aqui comecei a publicar em 13 de Maio de 2013, com continuação por mais seis posts, o último dos quais datado de 8 de Setembro de 2014.







quarta-feira, 13 de julho de 2016

ZÉ MANEL OU A INVEJA DOS PORTUGUESES


Já não tenho dúvidas, os portugueses são mesmo invejosos!


Basta atentar na forma como têm reagido à anunciada contratação  milhionária (sim, não é milionária) do Zé Manel Durão Barroso para os quadros da Goldman Sachs. É certo que não se trata de todos os portugueses. O presidente da República e o ex-primeiro-ministro Passos Coelho não deixaram de lhe assinalar o mérito. Já os restantes, a aferir pela avalanche de notícias, artigos de opinião e reacções ululantes, expressas nas redes sociais, não se têm cansado de dar porrada no coitado do Zé Manel. É só censuras e mais censuras, semeadas de palavrões como honorabilidade, período de nojo, decência, vergonha e outros conceitos igualmente contundentes. Ignoro se o pobre homem - atenção, não disse homem pobre - terá, entretanto, morrido de desgosto ou emigrado para os lados da Síria ou do Iraque, em missão de redenção dos pecados de que, tão agressivamente, tem sido acusado pelos seus concidadãos - para já não falar nos senhores da União Europeia, ex-colegas e afins, também chocados pela sua contratação gold ou goldman ou assim. 

Nada mais injusto e - retomando a linha inicial deste pequeno desabafo - mais paradigmático da proverbial inveja dos portugueses, excluídos, obviamente, o presidente da República (talvez por questões afectivas) e o ex-primeiro-ministro Passos Coelho (talvez por questões... não sei).

Na verdade, as pessoas falam, falam, mas esquecem-se do meritório percurso calcorreado pelo Zé Manel, até, finalmente, desaguar na Goldman Sachs ou seja, ao serviço - desta vez, directo e assumido - da alta finança, o mesmo é dizer, dos mercados. Percurso esse, marcado por notável persistência, coerência e êxito, pelo que bem deveria suscitar admiração em vez de maledicência. Só não se lembra quem não quer e só não valoriza quem tem um espírito ínvio e povoado de más intenções, sobretudo, invejosas. Eu lembro-me bem e, em nome da mais elementar justiça, chamo aqui as seguintes memórias do dito e, de resto, notável percurso. Foi assim:

1 - Transitou dos extremos radicais dum MRPP em fúria para o acolhedor regaço dum pacato PSD - ou PPD ou PPD/PSD ou lá como se chamava na altura, que não me posso lembrar de tudo... -, com o à vontade com que um tarado sexual passa duma loura magra para uma morena gorda ou vice-versa, demonstrando enorme abertura intelectual, coerência e, enfim, jogo de cintura. Só não vê isto quem não se lembra de, na passagem da creche para a pré-primária, ter trocado, sem remorsos ou complexos, o teddy bear de trapos pela barbie ou pelo action man de plástico;

2 - Confrontado por um incómodo excesso de peso, não hesitou em entregar-se a uma exímia dieta, à base de cherne, nem tão pouco em partilhar o facto com o resto dos mortais, numa atitude que bem demonstra, a par de férrea força de vontade e espírito de sacrifício, enorme transparência. Bem, é de reconhecer que também revela certa ingenuidade, ao não ter antecipado que a amável revelação lhe viria a valer a acintosa - para o peixe - alcunha de cherne. Enfim, aqui foi um bocadinho bronco, ao não levar em consideração que um povo habituado a dividir sardinhas (quando as há), não pode  estar preparado para digerir dietas de cherne;

3 - Encontrou um País de tanga - para usar as suas bonitas, elevadas  e sugestivas palavras - e deixou-o completamente nu. Aliás, não foi bem deixar, foi mais fugir.  Demonstrou, assim, um notável sentido de realidade, de oportunidade e de desprendimento do poder, o que só pode abonar a seu favor;

4 - Pouco antes, dando prova de magnífica visão de curto/médio prazo, não se escusou a servir de mordomo/empregado de mesa, servindo gentil e zelosamente café e bolinhos, aos senhores do mundo, enquanto estes congeminavam (mais) uma intriga bélica, para mais rápida e ferozmente darem cabo disto tudo e enriquecerem pelo caminho. Se esta prestação do Zé Manel não foi duma humildade (para além da já citada visão) a toda a prova, vou ali e já venho e pelo caminho não quero ouvir nada que me contrarie;

5 - Certamente por feliz coincidência (ah! que espanto!), saltou para presidente da Comissão Europeia, cargo que muito devia ter honrado os portugueses, caso não fossem uma cambada de invejosos e mal agradecidos. Não se pode dizer, é certo, que daí tivessem advindo vantagens para Portugal, mas isso deveu-se apenas ao facto de os eurocratas serem uma espécie de sem-pátria, encontrando-se ao serviço da União Europeia (também conhecida por Alemanha) e não do país de origem. Ora, não sendo o interesse da Alemanha (também conhecida por União Europeia) coincidente com o de Portugal - como se vê, por exemplo, pela longa-metragem Tomem Lá Uma De Austeridade, seus Esbanjadores! e pela telenovela Ora Aí Vai Uma Rodada de Sanções, Seus Papalvos! -, não é de admirar que o Zé Manel não pudesse ter feito nada pelo seu amado País ou deixado de fazer algo contra o mesmo - bem, estou a admitir que ele é português... O facto é que demonstrou exemplar isenção e sentido de Europa (ou de Alemanha, tanto faz), no exercício do cargo. Além disso, esmerou-se por colocar o seu accent in English pelo menos ao nível do mordomo da série Downton Abbey. O facto de não ter conseguido não se pode levar a mal, o que conta é o esforço e não se pode - nem convém - ter jeito para tudo;

6 - Expirado o prazo de validade do tacho, perdão, do ilustre cargo europeu, foi lindo - e digno de agradecimento... e também divertido, convenhamos! - ver o Zé Manel rondar a velha Pátria - aquela que, por questão de elevado sentido de isenção, não pôde amparar, enquanto ao serviço da... daquela -, manifestando disponibilidade para a servir, desta feita, como magistrado supremo. Apesar de toda a bondade e generosidade da oferta, os seus compatriotas, ressabiados sabe-se lá porquê, mandaram-lhe sinais de que não valia a pena dar-se ao incómodo. Só chegado a esta fase do campeonato, quero dizer, do percurso, se entregou nos braços da alta finança internacional, certamente bem menos invejosa e mais reconhecida do que a generalidade dos portugueses.

Estavam à espera que ele fizesse o quê, seus invejosos?

          




segunda-feira, 11 de julho de 2016

HÁ PESSOAS ASSIM


Ontem, a Praia Grande estava assim, parecia uma praia do mar do norte. Enigmática, sombria, nostálgica. Belíssima, como sempre. 


Captei umas imagens que, vistas em sequência, me sugeriram um filme. Deixo-as a seguir, precedidas dum argumento possível:

Assim acontece com certas pessoas. A princípio quase não se deixam ver. Insinuam-se, apenas, semi-encobertas (semi-descobertas?) por uma esquina do mundo. 
Imagine-se uma folha de papel, dobrada em guardanapo.

Depois avançam, porque a vida é isso. A vida é comando. não se compadece com paragens. Ainda que os passos sejam lentos, possam ser lentos, reflectidos.
Imaginem-se umas mãos elegantes a desdobrar um guardanapo sobre os joelhos. Movimentos suaves, pensados, quase calculados.

Praticamente indiferente, se há ou não testemunhas do percurso. Há pessoas assim. Desdobram-se das esquinas do mundo porque tem de ser. A vida é isso, um ter de ser. Portanto não podem deter-se. A não ser para pensar. A vida também é pensamento, não é apenas caminhar à toa, caminhar por ter de ser.
Imagine-se um guardanapo displicentemente pousado nuns joelhos. Os vincos distenderam-se. Aguarda, apenas. Sabe o que o espera. Está preparado para o que o espera. Não serão os seus vincos as esquinas do mundo?

Depois há o momento da paragem. Contemplar, esbater as esquinas do mundo. Deixar-se contemplar ou não. Tanto faz. A vida cumpriu-se. A vida também é paragem, detenção.
Imagine-se um guardanapo, de esquinas já desfeitas, tranquilamente abandonado sobre a mesa.


















segunda-feira, 4 de julho de 2016

DISCURSO A JUDAS


Tinha acabado de atingir o topo do penhasco. Subira com passos largos e rápidos, como se empurrada pela mais aflita das urgências. Os ténis, na realidade azuis, pareciam esfregões acastanhados, tal a camada de poeira grossa que os surpreendera no percurso. As jeans colavam-se-lhe à pele e os cabelos desgrenhados à cabeça, efeito de escorregadia camada de transpiração. A ascensão revelara-se dura, embora não tão dura quanta a dureza do discurso que preparara para lhe debitar. Até o vento, responsável pela camada de poeira espessa que lhe tingira os ténis, era escaldante. Transportava assédio em vez de alívio. Por falar em assédio, não seria assédio o que se preparava para fazer? Interrogação breve e logo apreendida, que os vingadores e justiceiros não costumam deter-se em questões de consciência, convictos que estão da superioridade das suas razões. Aquilo, a interrogação, fora puro momento de fraqueza, talvez efeito do sol a pique sobre a cabeça destapada, acompanhando-a, na penosa mas decidida escalada, com a persistência e a fidelidade das determinações irrevogáveis.

Espalhou o olhar em redor, mas não o viu. A certeza estremeceu-lhe, por efeito de repentina e inusitada dúvida, ter-se-ia enganado no local? Mas não, os vingadores e justiceiros nunca se enganam, conhecem bem o objectivo e o ponto de chegada, elegem cuidadosamente o percurso mais funcional, a infalibilidade é a sua marca. Estava apenas a olhar na direcção errada, mero deslize, talvez devido à extenuação da subida, à pressão daquele sol fosco, tapado por nuvens vermelhas de sangue estagnado, a empurrá-la para baixo e a interferir-lhe com a retina, como fogo a brincar com crianças desarmadas. 

Deslizou as mãos tensas e inquietas pelas longas coxas, deixando largos traços de suor, um de cada lado, estradas simétricas dirigidas para o fundo, parecendo apontar uma vertigem de vazio. Para o fundo. Era isso, lembrou-se de espetar os olhos lá em baixo. Desvio inesperado, afinal esperara encontrá-lo ali, no cume do penhasco. Vingadores e justiceiros não costumam depender de desvios, tal a certeza dos seus desígnios. Todavia, por vezes, necessitam dum inesperado jogo de cintura. Há que reconhecer.

E era mesmo lá no fundo, metade para cada lado, como boneca de porcelana feita em fanicos, que ele se encontrava, aliás, jazia. Já pronta para descer, em largas passadas escorregadas, deteve o olhar num galho raquítico duma árvore raquítica das poucas árvores raquíticas que por ali se erguiam a custo, toldadas pelo rodopio da poeira seca e pelo desprezo da humanidade. Do galho pendia um resto de corda perdida a meio dum rasgão imperfeito e, tudo indicava, violento. Encontrou-lhe o resto lá em baixo, à volta do pescoço magro dele, último enfeite duma vida desperdiçada. Não foi isto que ela pensou, evidentemente. Os vingadores e justiceiros não se detêm em tal tipo de reflexões. Fazem o que têm a fazer e, orgulhosamente, passam à missão seguinte, como quem come tremoços de enfiada.

Lá em baixo a desolação não era menor, a mesma secura, o mesmo ar queimado pelo incêndio do sol toldado. Pairavam aves estranhas, prontas a atacar, apenas aguardando a partida dela. 

Finalmente podia debitar o discurso. Com a secura altiva duma tacada certeira de campeão de snooker, penetrou os seus olhos nos dele - sem sequer reparar que estes já moravam, irremediavelmente, para além das pálpebras descaídas como persianas mudas - e disse:

- Muito bem, Judas, foi de homenzinho, isso de ires a correr suicidar-te, depois de teres traído o teu amigo e mestre, a troco de meia dúzia de euros! Parabéns!

Ele não respondeu. Por motivos óbvios.





sexta-feira, 17 de junho de 2016

NA CASA-MUSEU DR. ANASTÁCIO GONÇALVES


Em 21 de Maio passado, tive (mais uma vez) a grata oportunidade de ir desenhar, ao vivo, na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves- http://www.patrimoniocultural.pt/pt/museus-e-monumentos/rede-portuguesa/m/casa-museu-dr-anastacio-goncalves/ -, enquanto o Violinista Jacinto Neves e o Cravista Mário Paulo Alves, ensaiavam para o concerto a ocorrer nessa noite e local (Melodias Palacianas, pelo ConcentusPerTempora-Ensemble).

Não posso dizer que os desenhos dos músicos me tenham corrido muito bem... Nem, mesmo, o da estatueta de mulher... Um bocadinho melhor terá resultado a brincadeira sobre a bonita e inspiradora pintura A Praia, de João Vaz (sobretudo, atendendo ao facto de só dispor de grafite e esferográfica, e de não estar, propriamente, vocacionada para cópias). 

Apesar da pobreza dos resultados, partilho-os aqui, como testemunho duma tarde muito bem passada e, mais importante, de agradecimento à Casa-Museu, pela simpatia com que sempre recebe e proporciona estas experiências, e aos talentosos Músicos, pela generosidade e amabilidade prodigalizadas.


 (A minha brincadeira sobre A Praia)

(A Praia, de João Vaz - imagem obtida em pesquisa Google)

(Espero que o Jacinto Neves não se ofenda)

(Espero que o Mário Paulo Alves não se ofenda )

(Ainda bem que a estatueta não pode ofender-se)









segunda-feira, 13 de junho de 2016

NUMA PRAIA DO MAR DA MORTE


A casa morava numa praia do mar do norte. Casa isolada, praia bravia. Vento gemente ou irado, consoante, sempre a ventar. Enfiava-se pela chaminé adentro, enchia-lhe as paredes de letras e outros símbolos. Desconhecia-os, mas lia-lhes o sentido, como quem capta habilmente pensamentos alheios ou decifra mistérios (é quase a mesma coisa). Refiro-me à pessoa que morava na casa que morava, isolada, numa praia bravia do mar do norte. Longa era a extensão que conduzia ao mar. Multiplicava-se em areia cinzenta, rodopiando sob o vento, a mando do vento. Longa era a extensão das dunas que separavam do lado de lá, o lado de sabe-se-lá-onde. A vegetação seca e esguia inclinava-se sob a força do vento, como quem foi condenado a fazer vénias à terra. Todavia, ao primeiro sinal de amaino do carrasco, levantava-se até à vertical perfeita, como quem diz, orgulhosamente, não verguei, não vergarei, limito-me a cumprir a sentença, este maldito ter-de-ser, contra o qual não há saída, e daí...

Por cima acolchoavam-se camadas sucessivas de nuvens espessas, grávidas, sempre prontas a explodir em gritos de chuva grossa. Muitas vezes acompanhados do estoiro dos trovões. Mesmo quando se desintegravam, havia sempre nova camada, eterna reserva de cinzento. Apesar disso, certas vezes, uns raios de sol faziam gala de as trespassar. Apareciam e desapareciam, esquivos e provocadores, como se a sua função fosse apenas a de lembrar, alô, alô, o sol existe, é brilhante e aquece, mas não para aqui.

Não que a pessoa que morava na casa que morava na praia se importasse muito com isso. Gostava de chuva, gostava de cinzento. O problema é que também gostava doutras coisas, mas essas não estavam ao seu alcance. Coisas que o vento, vindo sabe-se lá donde, contava, em seu contínuo ventar. Eterna ventania, transmitida em ondas médias e frequência modulada. Com imagem agregada.

E o mar.

Havia o mar, afinal era uma praia. Praia bravia do mar do norte. Poderia ser a praia de Scheveningen, na Holanda. Hipótese plausível, se a tornassem vazia de tudo (farol incluído), excepto da casa. Afinal tratava-se duma casa isolada.

O mar bramia, como quem chama imperiosamente. Um dia, ela, a pessoa, decidiu atender. Estava cansada da conversa do vento, da luta das plantas da duna, do inchaço das nuvens, da inquietação da areia, da provocação esquiva dos raios de sol. E de tudo o resto, sobretudo, de tudo o resto, ou seja, do nada. Tomou as rédeas da decisão que sempre soubera ser sua, espécie de reserva fiel e reconfortante, e caminhou a direito, sempre em frente, em direcção ao chamamento do mar, deixando-o convencer-se que era a ele que obedecia. Não se deteve na fímbria da rebentação, castelo de espuma impetuosa. Adentrou um pé, depois outro, um joelho, o outro joelho, a cintura e assim por diante. Em menos, muito menos, do que leva a contá-lo, tinha os olhos mergulhados no mar. Não os abriu, porque nunca conseguira abrir os olhos dentro de água, como se isso fosse mais difícil do que abri-los para dentro de si. Não fez qualquer diferença. A sua intenção não era de descoberta. Era mesmo e apenas fechar os olhos. Cerrar os ouvidos. Des-sentir. 

Por entre um riso descontrolado - ou seria o mar dentro de si a fazer glu-glu, enquanto o seu corpo, quase a deixar de ser, esbracejava numa incongruência libertadora - sobrou-lhe um pensamento sarcástico, não tarda nada, vão inventar que uma pessoa morava numa casa isolada numa praia bravia do mar da morte





(Fotos obtidas em pesquisa - sobre Scheveningen - no Google)