segunda-feira, 17 de abril de 2017

AMOREIRAS 360º PANORAMIC VIEW



Até que, finalmente, cumpri esta visita tão adiada! Subi ao topo do Amoreiras Shopping Center, para observar Lisboa numa volta de 360 graus. O objectivo era, também, fotografar. Escolhi mal a hora, pois o sol batia dum tal ângulo que mal conseguia ver as imagens captadas no écran. A certa altura, desatei a disparar (a câmara, entenda-se!) aleatoriamente. O resultado, ou melhor, uma sua parte, fica a seguir. 


























































quarta-feira, 22 de março de 2017

LICOR DE MERDA E OUTROS MIMOS PARA # JEROEN DIJSSELBLOEM


Não entendo, por mais que me esforce, não consigo entender! Porquê tanta ira vociferada contra aquele coisinho holandês, com cara de fuinha e nome impronunciável, pela simples razão de ter imputado às atrasadas hordas do sul da Europa um alegado esbanjamento em copos e mulheres, do dinheiro gentilmente cedido pela solidariedade nórdica?

Caiam-me em cima se quiserem, mas não serei eu, por simples receio de destoar da opinião comum/oficial, a abster-me de defender este Diácono Remédios do norte europeu, tão indefeso me parece. Choca-me que, até ao momento e tanto quanto me foi dado testemunhar, nem sequer o Dr. Passado Coelho tenha vindo em sua defesa, sim, esse ex(-futuro)-primeiro-ministro de Portugal, que, quando a mandona Frau Merkel ou o distorcido Herr Schaubel o mandavam ajoelhar, já tinha obedientemente as calças por terra (bem, nem imaginam como ansiava, há anos, poder usar esta máxima, que considerei o máximo, quando a ouvi a propósito dum alto dirigente dum organismo público que tinha por hábito obedecer devota e prontamente a tudo quanto os gabinetes ministeriais mandavam...).

Se eu, como mulher, não me sinto ofendida pelas bocas do Sr. Jeroen Dijsselbloem (ou lá como se chama)? Agora que penso nisso, talvez, pelo menos um bocadinho. Afinal ele limitou-se a referir os copos e as mulheres, enquanto objecto de inqualificável vício. Não percebo porque não incluiu, a par das bebidas alcoólicas (vulgo, copos), por exemplo, os chocolates - como se sabe, muito boa gente desviou o dinheirinho da caridade europeia da salvação de bancos e de políticos corruptos (como era sua função) para a compra de chocolates, na tentativa desvairada de atenuar a angústia e ansiedade geradas pela austeridade; por outro lado,  em matéria de prostituição (vulgo, gastos com mulheres), das duas uma, ou pensa que as mulheres são todas mercadoria ou que são todas lésbicas (note-se que não aludiu a gastos com homens...). Portanto, apesar das suas funções de Diácono Remédios ou, talvez, exactamente em razão das mesmas, parece manifesto que o pequeno Jeroen pecou por preconceito e discriminação. 

Mas agora pergunto-me, quem nunca pecou por preconceito ou por discriminação, para já não aludir a injúria, calúnia, mania da superioridade, todos os inerentes desdobramentos e ismos (racismo, sexismo, etc.) e, o que é mais, falta de vergonha e estupidez pura? Vá lá, atirem pedras! 

Não vislumbrando qualquer pedra a aterrar por aqui, vou directa ao verdadeiro ponto, aquele que me desviou da prossecução da escrita dum magnífico romance em curso para este exercício mais ou menos rasteiro. E o ponto é que importa compreender o Jeroen! Afinal, quando alguém se permite criticar, melhor dizendo, inventar vícios alheios, algo maligno subjaz por lá, algo que pode revestir variadas configurações, uma das quais dá, seguramente, pelo nome de inveja. Ok, podem dizer-me que o coisinho não tem razões para inveja, sendo a capital da sua terra, aliás, conhecida pelos talhos do Red Light District, pela variedade de ganzas livres, vendidas de porta aberta, e, tanto quanto se sabe, pela abundância de copos, por assim dizer - aquilo do símbolo nacional, remetendo para suminhos à base de vitamina C, é só para distrair os pacóvios do sul. Mas, como toda a gente sabe, ter à disposição não é poder! Ou seja, apesar da prodigalidade da oferta, sabemos lá nós as desgraçadas limitações do Jeroen! Daí à inveja, como qualquer bom psicólogo não deixará de corroborar, vai apenas um pequeno passo, quer dizer, um pequeno passo para ele e uma enorme rasteira para a humanidade do sul (isto é só para parafrasear mais ou menos não sei quem).

Vai daí, parece-me, francamente, que o que o Jeroen mais precisa é de compreensão e, ainda mais do que isso, de uma mostra efetiva de mimo. Ora, que melhor mostra efectiva de mimo do que um presentinho? 

Por estas razões, deixando de lado sentimentos mesquinhos, eventualmente ditados pela minha qualidade de cidadã do sul da Europa, preparei, cheia de amor e gratidão pela solidariedade da Europa do norte, um cabaz destinado ao Jeroen Dijsselbloem (em português pronuncia-se Já-era Dizes-só-blasfémias), com a seguinte composição:

- 1 garrafa de Licor de Merda (garanto que é muito bom);
- 1 boneca insuflável (não faço ideia...);
- 1 cruz suástica (muito do agrado do ido Herr Hitler).





(Imagens obtidas em pesquisa no Google)





sábado, 11 de março de 2017

ASSASSINADO, FINALMENTE!


por fim, quando vi que já não tinha mais nada a ganhar, matei-o. sim, repito, quando vi que já não tinha mais nada a ganhar. 
...
ainda me doem as mãos, aliás, o corpo todo, mas não me dói a alma nem o coração. aliás, não é bem dor, trata-se antes duma espécie de cansaço, próximo da dormência, que me embala num vaivém de descompressão, abandono, alheamento. talvez fosse mesmo esse o meu desígnio, atingir um ponto destes, assim como que um ponto morto.
...
não, não foi uma decisão súbita, muito menos um acto extemporâneo. demorei..., bem, creio que demorei uma vida ou quase, a minha, para conseguir. matá-lo, simplesmente isso. tentara, por diversas vezes, recorrendo aos mais variados métodos, ora um pó de veneno, ora uma corda à volta do pescoço, ora outros truques que não vale a pena enunciar, simplesmente porque falharam. aliás, ele tinha a perspicácia de descobrir, não apenas a minha intenção, mas, o que é mais assustador, as minhas manobras dissimuladas (pensava eu que dissimuladas). nessas alturas, conseguia ser sarcástico ou provocador, fixava-me no exacto momento em que me preparava para verter o pó no copo, sorria com ar matreiro e dizia, - pára lá com isso, está à vista que te falta coragem. com a atrapalhação - por essa altura ainda não sabia dissimular -, quase engoli o veneno por engano. ele riu, passou do sorriso ao riso, afagou-me os cabelos húmidos acabados de sair do duche, virou costas e pavoneou-se a caminho da saída. quase rebentei de raiva e de vexame. noutra ocasião, quando lhe lacei a corda à volta do pescoço, repetiu o mesmo género de provocação. não me repeti na atrapalhação, aí já aprendera a dissimular - aprende-se tudo nesta maldita vida -, olhei-o sedutoramente, num convite a experimentar nova fantasia. foi assim que o apanhei, que o trouxe para a minha rede, que o prendi nas minhas malhas, até finalmente conseguir a realização: matá-lo, sem ele sequer desconfiar.
...
se ele me fazia mal?, pois fazia, obrigava-me a uma luta permanente, levando-me a crer que era por mim, mas não, era por ele. verdadeiro demónio. sedutor, é certo, mas pleno de artimanhas para me fazer sofrer sofrimentos inventados, desnecessários.
...
com o tempo, após inúmeras tentativas infrutíferas (mesmo depois de ter aprendido a dissimular e, assim, o ter capturado na minha rede), surgiu um factor em meu socorro. tornei-me invisível! estranho, não é? não aconteceu de repente, embora o tivesse percepcionado de repente. simultaneamente, compreendi que as batalhas que ele me impunha - fazendo-me crer que eram por mim, embora, na verdade, revertessem sempre a seu favor - já não faziam qualquer sentido, o que, por seu turno, talvez significasse que nunca haviam feito sentido. aconteceu tudo com a força duma explosão e a dor dum trauma. essa força e esta dor espoletaram o êxito da missão: reduzi-lo à insignificância da morte, ele que se impusera ostensiva e egoisticamente ao longo de quase toda uma vida, a minha (e a dele, diga-se em abono da verdade).
...
apenas mudou a justificação, aquilo que sempre se me apresentara como uma necessidade, converteu-se em razão de vingança. 
...
quero dizer, libertei-me dele, matando-o, já não porque isso fosse necessário à minha libertação, mas por vingança, mera vingança. porque agora, tornada invisível, já não se me ofereciam batalhas a ganhar. talvez daí esta sensação de cansaço final. bem vistas as coisas, por esta altura, já era irrelevante matá-lo.
...
todavia matei-o. matei o meu precioso eu.
...
pois, isso já não sei responder, se se tratou de homicídio ou de suicídio. também, who cares?







quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A AUTÓPSIA


Lembro-me que era Primavera, embora talvez fosse qualquer outra estação do ano. Desci do autocarro e encaminhei-me para o edifício de pedra austera, elevando-se silencioso, como se mergulhado em luto eterno, no desnível da calçada, aí a uns três, quatro andares, ou mais ou menos, nunca fui de reparar nesse tipo de pormenores. Franqueei o átrio amplo, perguntei ao porteiro e segui as indicações. Subi umas escadas largas, de mármore (?), debruadas por um corrimão arredondado (?), encontrei-me com um corredor desafogado e depois era virar à esquerda, novo corredor, e encontraria a sala, também do lado esquerdo deste último corredor. Tudo muito liso, cinzento e sombrio, a condizer com o fato de racionalidade (e tédio e...) que levava vestido - por essa altura era o único fato com que cobria a minha frágil nudez. 

Também por essa altura, já gostava de romances e filmes policiais, não me impressionavam as cenas macabras, nem o sangue a esguichar de vítimas estropiadas. A visão daqueles mundos de angústia, conflito e terror, filtrada pela lente das artes do imaginário, atraía-me sem resquício de perturbação. Talvez por isso, ia convencida de que enfrentaria a prova sem a vergonha das reacções (vómitos, desmaios...) anunciadas, nos corredores da Faculdade, pela voz divertida dos colegas mais velhos, os que já tinham passado por . Mas, devo confessar, não ia totalmente convencida. Um fio de inquietação suspendia-se algures, no recesso de dúvida e cautela que, ao confeccionar o meu fato de racionalidade, dissimulara como bolso de recurso, bem no interior.

Foi assim que segui em frente e virei à esquerda. No lado direito do corredor, sucediam-se amplas salas, cujas portas escancaradas expunham uma profusão de cadáveres estendidos (ou exibidos?) sobre marquesas, numa nudez indecorosa de abandono. Foi aí que o meu fato tecido de fios de racionalidade se esticou em rasgões súbitos e mudos, despenhando-se no chão gelado, enquanto a minha nudez desprotegida se confundia com a dos corpos desvalidos dos defuntos.

Retrocedi, impelida pela desorientação do choque, estaquei. Não, não podia desistir. Apanhei os trapos do meu fato e cobri-me com eles o melhor que pude, desapegando-me dos corpos mortos estendidos ali ao lado. Após uma pequena pausa, transpus a distância até à sala de destino.

O horror que me aguardava não era menor. Nem o choque. Nem o impulso de correr dali. O fato ameaçou, novamente, ceder, mas mantive-me firme. Já ali estavam vários colegas. Diziam-se graças, para fingir uma normalidade suportável. Dispusemos-nos à volta da mesa, enquanto o médico e o assistente se preparavam para começar. Coloquei-me na primeira fila. Talvez porque aí seria forçada a segurar o meu fatinho de racionalidade, talvez para me desafiar, sei lá. E vi tudo, sem desviar os olhos, como se precisasse de me demonstrar alguma coisa, talvez uma força que não tinha (e outra que tinha, mas não era equivalente...).

O cadáver sobre a mesa era o de um velho, creio que cego, e, traçada entre o peito e a barriga, tinha uma larga estrada castanho-avermelhada, quase poderia confundir-se com terra batida, rasto do comboio que o trucidara. Depois foi a dança das serras e bisturis, extracção e pesagem de vísceras e tudo o resto que envolve uma autópsia, a primeira autópsia a que assisti, numa aula prática (se foi!!!) da cadeira de Medicina Legal, como jovem aluna do curso de Direito.

Tudo aquilo deu-me muito que pensar sobre a condição humana, mas já não sei que pensamentos (embora não seja difícil de imaginar). Deu-me também uma enorme repulsa por ovos mexidos e omeletas, dada a sua semelhança visual com a gordura que se alberga sob a nossa pele. E provocou-me, ao longo de plúrimos anos, terríveis pesadelos, em que me apareciam talhos de cujos ganchos pendiam corpos humanos e não de (outros) animais. 

(Imagem obtida em pesquisa Google)