quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

PELO #MÉDIO ORIENTE - I - #WHY DUBAI?





A dada altura, começou a apetecer-me conhecer o Dubai, um dos Emirados Árabes Unidos (UAE, da denominação inglesa). O objectivo, confesso, era bastante reduzido, para não dizer fútil: apreciar a skyline e subir ao topo do Burj Khalifa (torre do Califa, alegadamente o edifício mais alto do mundo), para divisar a paisagem de transformação duma natureza árida, porventura hostil, numa espécie de reino da fantasia, por obra e graça do poder do petróleo. E a (muito) mais não aspirava. Surpreendida comigo mesma? Não! Já lá vai o tempo... Tamanhas são as surpresas da vida que, a dado momento, a indulgência (incluída a auto-indulgência) torna-se um hábito. Felizmente!

Eis-me, então, a caminho do Dubai e, já agora e por arrasto, do Abu Dhabi, outro dos UAE, do Bahrain e do Qatar (apenas porque faziam parte do pacote da viagem comprada, na modalidade de cruzeiro - não que aprecie cruzeiros, mera opção de ordem prática, sempre se evita andar a desfazer e fazer a mala de terra em terra, de hotel em hotel, a um fatigante ritmo diário).

A diferença horária (em relação a Lisboa) é de mais quatro horas, e a viagem de avião dura cerca de sete (a de regresso, mais uma), pelo que, tendo partido de Lisboa por volta das 14H, desembarquei no Dubai aí pela 01,30H (do dia 30 de Dezembro passado). 

À chegada, o primeiro impacto derivou da (grande) dimensão, modernidade e beleza arquitectónica do aeroporto.

Seguiu-se a agilidade do tempo e das formalidades de desembarque e de recolha da bagagem (diferentemente do que certas informações, inclusive da própria agência de viagens, faziam esperar).


Depois, notou-se a parca simpatia do (bonito) funcionário do controlo de passaportes, no seu porte altivo, qual faraó do deserto. Vim a notar esta atitude em mais alguma ocasião, por exemplo no guia local duma das visitas no Abu Dhabi, cujo porte recendia a algo semelhante a um orgulho nacionalista, um desprezo pelos turistas, ambos ou outra coisa qualquer. Curiosamente, nunca encontrei semelhante comportamento noutros países de herança ou tradição árabe ou muçulmana, como, por exemplo, Marrocos, Tunísia ou a Turquia.

Devo acrescentar mais uma primeira impressão positiva e outra negativa, respectivamente: a temperatura amena (embora tendo escolhido esta época por saber tratar-se da menos quente, receava um calor excessivo para a minha sensibilidade, já tão exaurida pelo nosso infernal verão passado); a descoordenação, incompetência, birra ou seja lá o que for do operador turístico local, que, contrariamente ao contratualmente previsto, não assegurou o transfer para o hotel onde deveríamos passar essa primeira noite (ou o que dela restava). Valeu a iniciativa do nosso guia que, vendo, casualmente, passar uma carrinha do hotel, conseguiu fazer parar o motorista e convencê-lo a transportar-nos. Enfim, uma falha lastimável para um país supostamente tão empenhado no turismo, enquanto fonte de receita  (entre outras) alternativa à do petróleo em vias de extinção. 

Uma primeira e não prevista digressão pela cidade, a caminho do porto de embarque - alegada gentileza do guia local, um egípcio extrovertido (pelas razões que se conhecem, os guias turísticos egípcios são forçados a procurar trabalho noutros países), a título de compensação pela falência do transfer da véspera -, permitiu um primeiro contacto com a cidade, donde sobressaiu:

- obviamente omnipresente, a imagem de marca da religião oficial (o islamismo)







- o empenho na implantação de zonas verdes








- a selectividade de certas zonas residenciais, como é o caso do complexo de apartamentos de luxo situados na  marina


- a generosa dimensão das vias de trânsito (chegam a desdobrar-se em oito faixas) e o elevado nível da frota automóvel circulante, onde predominam veículos de proveniência asiática, maxime, Toyota, Nissan e Lexus, muitos deles em modelos tipo jipe, deserto oblige. Não que se deva esquecer um ou outro Ferrari, Lamborghini ou por aí...







- o recato da extensa zona residencial ocupada pela família reinante (os Maktoum, sendo Mohammed bin Rashid Al Maktoum vice presidente e primeiro-ministro dos UAE), a resguardo de muros claros (curiosamente não muito elevados), interrompidos, a espaços, por elegantes portões, que se abrem a largas alamedas, supostamente conducentes a palácios das mil e uma noites (divagação minha ou talvez não), vedados a olhares curiosos de pobres mortais. Vigora a proibição de fotografar, embora não se entenda muito bem a razão, pois nada está à vista, a não ser um desconhecido (embora não difícil de imaginar) mundo de sumptuosidade, engendrada em berço de ouro negro. Este complexo palaciano estende-se ao longo da costa, tendo o mar arábico ou pérsico ao fundo. A marginal prossegue, a descoberto, com um passeio marítimo, praias, hotéis, etc. E estamos em Jumeirah 









- passámos, ainda, por outras zonas residenciais mais ou menos luxuosas. O mesmo não se diga em relação aos locais de habitação dos operários, construtores dos monumentais edifícios, ou doutros trabalhadores menores.  Não por falta de interesse da minha parte em conhecer essa outra faceta daquela fulgurante realidade e não por não ter (talvez provocatoriamente e em vão, confesso) indagado sobre a mesma...

Em geral, a habitação é bastante dispendiosa, pelo que, ao menos entre os expatriados, é comum partilharem casa e, inclusivamente, quarto (aluguer de camas!). 

Note-se que o nível de vida dos naturais do Dubai - que constituem uma minoria (cerca de 20%) da população total, de proveniências as mais diversas, desde, v.g., a Índia, o Paquistão e a China, a diversos países da África e da Europa - é bastante confortável, dispondo, nomeadamente, de educação e cuidados de saúde gratuitos e não pagando impostos (todavia, no corrente ano, foi introduzida uma taxa de IVA, de 5%, restrita a determinados bens e serviços).

A língua oficial é o árabe, praticando-se, como segunda língua, o inglês (o que bem se compreende, dada a assinalada diversidade de proveniência dos habitantes).

- o conhecido arrojo e modernidade da arquitectura, com destaque para certos edifícios, desde o (já tradicional) Burj Al Arab até à mais recente moldura (assim designada pelo formato), passando pela Torre Cayan (e aí vai outro alegado recorde, a mais alta torre espiral do mundo), e por muitos outros arranha-céus futuristas. Não é de esquecer a construção imobiliária em curso, tanto mais quanto representa um relevante segmento da economia actual (a par com o turismo, o comércio e os serviços financeiros; as receitas do petróleo têm um peso comparativo muito inferior).




(2 imagens do Burj Al Arab)


(a moldura)
(a torre Cayan, ampliada nas 2 fotos seguintes)






(e ainda 2 novas perspectivas da torre torcida)










(a marina)



(copiando o Chrysler building de Nova Iorque?)





(pormenor...)

(o canal aquático, em 2 imagens)

(a construção imobiliária, também nas 3 fotos seguintes)









Com este inesperado passeio, acabámos por fazer o check-in no navio - MSC SPLENDIDA, e não, não gostei do serviço -, por volta das 16H. Às 23H zarpámos com destino ao Abu Dhabi, onde chegámos na madrugada seguinte. 







(3 imagens do skyline nocturno do Dubai, desde o porto Rashid)



Por esse outro Emirado viajarei em próximo post. Como, aliás, ainda tenciono voltar ao Dubai num outro post, para assinalar o último dia deste périplo médio-oriental, com destaque para a subida à Burj khalifa (ou não tivesse sido este capricho o leitmotiv da viagem!).



(dizem que -ainda- é a mais alta do mundo...)


Nota: a (má) qualidade das fotografias deve-se ao facto de, em geral, terem sido obtidas a partir dum veículo em movimento.





quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

AS PIRACANTAS


duas fileiras de piracantas, desenhadas em forma de muro rectangular, ladeavam o caminho conducente do portão grande à parte de trás da casa. o portão - à semelhança do outro, o pequeno, que levava às escadas pelas quais se acedia à porta principal - era de ferro verde escuro, trabalhado em arabescos graciosos. o pai não nos deixava trepar pelos portões, para não esfolarmos a tinta, tão orgulhosa, no seu tom aristocrático. portanto, não escalávamos os portões. mas isto é apenas um aparte. hoje, só estou aqui por causa das piracantas. 



se, por acaso, não sabem, as piracantas eram, aliás, são uns arbustos pintados de verde intenso (como quase todos os arbustos) e ornamentados com umas bolinhas oscilando entre cor de laranja e vermelho, após a rebentação duma floração alva. não me recordo se as bolinhas se apagavam com o correr das estações (sim, por essa altura, o tempo dum ano dividia-se em quatro estações bem marcadas). sei que estavam lá, para deleite da vista e provocação das infâncias curiosas, pois constituíam um apelo à experimentação. refiro-me a que não resistíamos a mordê-las, como se fossem frutos de mesa e não meros seres decorativos, desafiando a crença de serem venenosas. demonstrámos que não o eram. sobrevivemos à degustação sem sombra de envenenamento ou simples dor de barriga.

os seus galhos eram, aliás é bem provável que continuem a ser, bastante espinhosos. posso afirmá-lo com a pele das pernas. um dia, andando de bicicleta em seu redor, arranjei maneira de cair. derramei-me literalmente sobre as benditas piracantas. talvez irritadas com a intrusão, quem sabe se exercendo vingança por lhes andar a roubar os coloridos adereços, receberam-me com os espinhos em riste. vi-me forçada a recolher a casa e pedir ajuda (coisa que já então detestava fazer), tal o desgraçado estado em que as pernas me ficaram. mas não, não resultou daí qualquer espécie de desamor.

para mim, as piracantas eram um dado adquirido, tão natural e permanente como as paredes da casa ou a paisagem da serra imperiosa ao fundo. quer isto dizer que, para mim, as piracantas eram eternas.

depois cresci, mudei de cidade, estive vários anos sem as ver e sem pensar nelas, até porque sabia que estavam lá, como a casa estava lá e a serra e a sucessão das estações do ano e tudo o mais... estava lá

e quando regressei - já não para ficar, mas só para passar férias - lá as encontrei! no seu exacto lugar, nas suas preciosas cores, no posto que lhes assinalara no calendário da eternidade. e assim, a cada novo regresso de férias. até que...

...até que certa vez já não estavam lá!


os pais, vá-se lá saber porquê - creio que devido ao cansaço inerente aos cuidados requeridos pela manutenção e alinhamento das piracantas -, tinham mandado cortá-las (substituindo-as por duas longas fileiras de radiantes hortênsias).


(Imagem obtida em pesquisa no Google)

barafustei, chocada por aquela desistência. posso mesmo dizer que a vivi como se uma traição. não sem razão. afinal, com o abate das piracantas caiu-me por terra a crença numa certa forma de eternidade, a do aconchego da infância.







sábado, 25 de novembro de 2017

O SENTIDO DA VIDA DO SR. JOBERT


o sr. Jobert descongelou. em sentido figurado, entenda-se (não que tivesse sido libertado duma câmara frigorífica onde tivesse entrado por engano ou para onde o tivessem empurrado por acidente ou, bem pior, por descarada maldade)! apenas quero dizer que, até então, a sua vida fora muitíssimo hirta, espartilhada por varetas, das quais, apesar de inúmeras tentativas, não conseguira libertar-se. donde provinha tudo isso, não é o momento nem interessa indagar. o importante é que o sr. Jobert, finalmente, descongelou, ou seja, desenvencilhou-se das varetas que, durante anos e anos, por sinal os mais duradouros da sua vida, lhe impuseram aquela tão incómoda quanto prejudicial rigidez.

o menino Jobert tinha sido uma criança como outra qualquer. talvez. para dizer a verdade, não sei nada sobre a sua infância, se foi alegre ou taciturna, calma ou ansiosa, equilibrada ou disparatada. também não interessa nada, já vai tão longe a infância do sr. Jobert! lembro-me agora, de raspão, muito de raspão, de ter ouvido dizer que fora uma criança feliz, mas, como não foi ele a dizê-lo, ignoro se se trata da verdade ou não. afinal, como pode alguém testemunhar os estados de alma de outrem, quando, as mais das vezes, nem o próprio os conhece? de resto, devo admitir nunca me ter cruzado com nenhum conhecido do sr. Jobert, pelo que esse hipotético testemunho só pode pertencer ao domínio da invenção (embora não premeditada, não é minha intenção deturpar os factos).

na adolescência, Jobert começou a dar mostras de inquietação, seguida de tédio. posso afirmá-lo, porque li os papéis para onde começou a confessar-se ou a desabafar, por volta dos quinze anos, e que foi mantendo até descongelar. portanto, tudo o que passo a referir baseia-se nesses papéis. não que sejam muitas coisas, até porque a vida do sr. Jobert foi pobre de acontecimentos. o mesmo não se diga dos seus pensamentos. eram bem profundos, repletos de sentido, mas, em geral, tristes ou desesperados. porquê trazê-los aqui?

direi, apenas, que o sr. Jobert trabalhou com afinco, mas, talvez por ser tão hirto, não teve sorte nas coisas do trabalho. amou profundamente, mas talvez por ser tão hirto, a sorte não lhe sorriu nas coisas do amor. e o mesmo sucedeu nos restantes capítulos que, segundo as normas estabelecidas, completam o leque das relações humanas: a família, os amigos e o resto. mesmo no jogo. não será exagero afirmar que o sr. Jobert sofria duma qualquer inquinação que lhe impedia o triunfo! imagine-se, até conseguia desmentir, por negativa dupla, o provérbio, sorte ao jogo, azar ao amor. como já se disse, acumulava azar em ambos (para além dos demais campos da vida). evidentemente, cheguei a colocar a questão: as coisas passavam-se assim devido à sua rigidez ou, inversamente, esta derivava do facto de as coisas sucederem assim? nunca cheguei a nenhuma conclusão (nem creio haver resposta para tal tipo de questões).

a partir de certa altura, o sr. Jobert retirou-se, porque chegou o tempo de se retirar. do trabalho insatisfatório e pesado, dos amores desejados, sonhados e não vividos, dos amigos ausentes, da família demasiado ocupada para dar pela sua existência, e do resto. estava  muito cansado. mesmo muito cansado.

então, olhou para trás e sentiu um enorme alívio. escreveu nos seus papéis: já passou. acrescentou um ponto de exclamação e um smile. confesso que fiquei espantada com o smile. depois caí em mim e achei que fazia todo o sentido. o smile, o ponto de exclamação, a frase, o (triunfal) descongelamento do sr. Jobert. tudo fazia todo o sentido!

voltei ao alfarrabista onde adquirira o livro desconjuntado em cujas entranhas deparara com os papéis manuscritos do sr. Jobert. ansiosa de curiosidade, indaguei sobre a sua origem e a do seu proprietário. respondeu-me ele: 

- olhe, foi uma coisa deveras estranha, um velhote que eu nunca vira apareceu por cá, mirou e voltou a mirar um e outro livro, sem se decidir por nenhum, e, enquanto me distraí na atenção a um cliente, esgueirou-se, deixando esse livro, agora seu, sobre um canto do balcão. mal me apercebi, corri para a rua, mas já nem a sombra lhe vislumbrei. esperei dias, depois meses e a seguir anos, pelo menos uns dez, que ele voltasse para recuperar o livro. nunca voltou. foi assim que acabei por o colocar à venda. curiosamente, nunca reparei nos manuscritos de que fala. de resto, nunca consegui saber nada sobre o tal velhote, apesar de ter perguntado a diversos clientes.

o alfarrabista ainda continuou a dizer coisas - certas pessoas, quando não sabem, vão sempre dizendo coisas, talvez convencidas de que assim preenchem o vazio da ignorância -, mas deixei de o ouvir. 

já na rua, exultava com a convicção de ter percebido a razão por que o sr. Jobert, finalmente, descongelara. e senti-me muito feliz por ele.







terça-feira, 21 de novembro de 2017

NUNCA NENHUM ABRAÇO SERÁ O ÚLTIMO!



E disse que nem sequer pudera dar-lhe um último abraço, como se não fosse óbvio que nunca se consegue dar o último abraço!

Não me lembro onde ouvi ou li aquela frase. Posso até ter sido eu a pensá-la, sei lá!

Apenas estou certa de que nunca se consegue dar o último abraço.

Pela simples razão de que ninguém está interessado no último abraço! O último abraço é o que sela uma união partida, é o abraço para nunca mais - por exemplo, eu para aqui, condenada a permanecer neste mundo, e tu para ali, de partida para a lonjura do desconhecido sem regresso, sem possibilidade de regresso.

Por outro lado, o último abraço é um mito. Não, é uma aspiração do desejo, o desejo que brota da nostalgia, dos confins do aconchego perdido.

Portanto, quando te vi pela última vez e te abracei ou não te abracei, não é verdade que esse tenha sido o último abraço, e também não constitui motivo para me lamentar, mais tarde, no tarde da autocensura (autocomiseração?), de não ter podido (ou conseguido?) dar-te o último abraço.

Entendes-me? Penso que sim. Afinal, até tu, apesar da grande generosidade dos teus afectos ou talvez por isso mesmo, deves ter sentido que não pudeste dar algum último abraço. Igualmente por isso, pela generosidade dos teus afectos, nunca me dirias que te falhei o último abraço. E como gostaria de o ter dado!

Não, não gostaria nada de ter dado esse abraço! Quem está interessado em abraços que selam a separação fatal, definitiva?!

Queria, mesmo, era ter continuado a abraçar-te, abraçar-te hoje, amanhã e até sempre.

Por isso, resolvi prodigalizar os meus abraços. Não a torto e a direito, mas a quem gosta de os receber e retribuir. Inspirada em ti, embora aquém de ti!

Mas sei que nunca nenhum abraço será o último!

(Imagem obtida em pesquisa Google)




sexta-feira, 17 de novembro de 2017

ENQUANTO HOUVER UM LEITOR


Um encontrão violento quase o atirou ao chão. Equilibrou-se a custo, na exata fronteira entre o passeio e a rua, por onde circulava um trânsito desabrido e barulhento. Elevou os olhos numa interrogação muda, como quem aguarda um pedido de desculpas, mas já o outro se afastava, gesticulando e falando alto para o telemóvel preso à cara, qual excrescência indecorosa.

Ainda mal se recompusera, já uma voz impaciente o instava a mexer-se, fazendo-o sentir-se um empecilho. Prosseguiu em passo mais rápido do que o usual, não por pressa, mas para evitar novas agressões.

Um quarteirão adiante, franqueou a porta dum café, encaminhou-se para uma mesa recuada, despiu o casacão cinzento, ajeitou-se na cadeira e pôs-se a observar, através da montra, a agitação muda que desfilava no exterior.

O passeio fazia-se estreito para a quantidade de pessoas que nele se cruzavam, todas movendo as lábios em conversas frenéticas, as mais das vezes tendo os telemóveis como únicos interlocutores.

Procurando não dar nas vistas, retirou do bolso do casacão cinzento um volume pequeno, aí do tamanho dum tablet, revestido de papel de embrulho. Aconchegou-o nas mãos plissadas das rugas duma vida longa e mergulhou nele os olhos cinzentos e gastos. Apressou-se a resguardá-lo, quando o empregado, rapaz novo, talvez nem vinte anos, vivaz, com o nome Jorge afixado na camisa, se aproximou. Pareceu-lhe surpreender nele um olhar estranho. Tentou dissimular a inquietação, repreendendo-se intimamente pela possível inépcia na proteção do tesouro ou, em alternativa, pela tendência paranóica, antes fosse este o caso. Não lhe passara despercebida a atenção dissimulada que Jorge costumava dedicar à sua entrada no café e a pressa com que se adiantava aos colegas para o atender. Não lhe alimentou a tentativa de entabular conversa, como tem passado?, há uns dias que não aparecia, está uma confusão lá fora, etc. Limitou-se a acenar a cabeça, numa cortesia seca - forma de ser descortês -, atalhando com o pedido habitual, chocolate quente e torrada. Jorge ainda disse, com este frio sabe mesmo bem um chocolate quente! Ele manteve-se impassível.

Enquanto comia a torrada com o vagar ditado pela fragilidade dentária e sorvia, em golos espaçados, a bebida doce e reconfortante, atravessou a montra, por cima dos bolos que a decoravam, reflectindo sobre o cenário exterior. Como é possível que, ano após ano, as pessoas entrem nesta espécie de loucura coletiva, enchendo ruas e lojas numa entrega desmesurada a um consumismo inútil e injustificado, em nome, dizem, do Natal? - interrogou-se. Caiu numa espiral de memórias, pairou nos tempos da infância, em como apreciava o ritual da oferta e em como os hábitos eram mais razoáveis e as escolhas mais criteriosas. Recuperou o momento em que, pelos seis anos, recebeu aquele presente. Ocorreu-lhe o nome, a autoria, o enredo, as imagens, o formato, o cheiro, sim, até o cheiro! Apertou o objeto que retirara do abrigo cinzento. Pensou num bunker, sim, aquele tipo de objetos tornara-se maldito pela percentagem dominante, como classificava os governantes e os que, com o seu voto acéfalo, lhes conferiam o poder. 
Jorge personificou-se como se vindo do nada e perguntou-lhe se queria mais alguma coisa. Mal-humorado, disparou:
- Porquê, já vão fechar?
- Não, ainda não! - respondeu o rapaz, sem denotar aborrecimento.
Pediu a conta.
O empregado desanimou. Aspirava à existência duma linguagem especial, destinada a irmanar os amantes daquele tipo de objetos, de que, sendo criança, o pai lhe falara em segredo, mostrando-lhe alguns, escondidos no sótão. Pena o desaparecimento misterioso do pai, pouco depois! A mãe nunca lhe revelou o esconderijo, se é que o conhecia. Mais tarde, por pesquisas na NvET - Núcleo virtual de Estupidificação Total, ficou a saber que, outrora, tinha havido locais destinados a guardar tais objetos e a receber pessoas que os quisessem ver ou deles dispor temporariamente. Mas essa informação, que só por erro dos gestores da NvET persistira nos respetivos ficheiros, foi retirada e ele expulso da USZ  - Universidade do Saber Zero, por violação da regra da proibição da curiosidade. Por isso, em vez de engrossar as fileiras dos que compunham o frenesim lá de fora, estava ali a servir. Especialmente por isso, sentia-se tão curioso em relação ao velho de olhos cinzentos e tão desejoso de conversar com ele.
Escureceu, o halo dos candeeiros da rua fazia rodopiar os flocos de neve como se estrelas cadentes.  O homem recolheu o objeto no bolso do casacão, deixou o dinheiro da conta em cima da mesa e saiu. Ficou satisfeito por Jorge não ter reaparecido. Na realidade, postara-se, discretamente, no passeio oposto.

Andou uns bons quarteirões, desceu ao metro, entrou na carruagem sobrelotada, saiu quando tinha de ser, e, por fim, denotando já algum cansaço, vertido na fundura das olheiras, atravessou uma rua e chegou a casa. Meteu a chave à porta, sem reparar que, colado a si, estava Jorge. Só no interior se apercebeu, instando-o, num sobressalto agressivo, a sair.
- Tenha calma, senhor, peço-lhe apenas que me ouça, depois vou-me embora - disse Jorge, sem sombra de violência, mas tirando-lhe as chaves da mão e fechando a porta.
O velho, dividido entre a impotência e a raiva, atirou-se para cima do sofá gasto, pelo menos tão gasto quanto ele, e anunciou:
- Enganaste-te no alvo, não possuo nada que valha a pena roubar!
- Não venho roubar, senhor, venho antes fazer-lhe uma oferta, um pedido e duas perguntas…
Perante a muda e espantada interrogação desenhada no rosto do velho, prosseguiu:
- Gostaria muito de saber o seu nome e o do seu tesouro, refiro-me ao embrulho que costuma trazer consigo.
Como o outro permanecesse mudo, adiantou, a medo:
- Estou a falar do livro e queria muito pedir-lhe que mo mostrasse. Compreendo o seu espanto, principalmente pela minha idade e pela forma como o abordei, mas, como sabe, não conviria ter esta conversa em público, para salvaguarda de ambos. Sabe, eu já tive um livro, aliás, mais do que um, nas mãos. Eram do meu pai, escondia-os no sótão e mostrava-mos em segredo, deixando-me folheá-los e lê-los. Depois desapareceu misteriosamente e nunca mais peguei ou sequer vi um livro. Até vislumbrar o seu, através do disfarce de papel de embrulho. 
O velho, agora mais calmo, reparou verdadeiramente no rapaz, nos seus olhos cinzentos e na franqueza que deles emanava. Como quem exclui uma última dúvida, indagou:
- E que livros eram esses?
Sem revelar qualquer hesitação, Jorge citou vários títulos, mas deteve-se num, não podendo evitar um apontamento nostálgico: 
- Lembro-me como se fosse hoje, ainda lhe vejo as imagens e lhe sinto o cheiro…    
O velho interrompeu-o,
- E que querias oferecer-me?    
- Pois - disse o rapaz, enquanto retirava um objeto que trazia escondido entre a camisa e o casaco -, é isto, uma capa de tablet, para substituir o papel de embrulho com que costuma envolver o seu livro, parece-me que assim será mais convincente e correrá menos riscos.
O velho só tinha mais uma pergunta:
- E que livro era esse de que te recordas tão bem? 
O rapaz respondeu, sem hesitar. Apaziguado, o velho retirou do bolso do casacão cinzento o seu precioso livro e entregou-lho, dizendo:  
- Toma, ofereço-to, agora vai embora e não te esqueças de usar essa capa de tablet, não vá alguém descobrir o que levas aí. Exibia um sorriso feliz. Depois, apagou os olhos.
O rapaz não insistiu em perguntar-lhe o nome.