quarta-feira, 28 de março de 2018

A P*** DA VELHICE


Numa fila de supermercado.

A senhora à minha frente tem de acomodar as compras conforme pode, pois o senhor de alguma idade que acabou de pagar ainda vai lento no discurso que acompanha o ensacamento das suas. Finalmente, parece dar-se conta e afasta-se para um lado, com a mercadoria atrás, comentando que não gosta de ser empata - que faria se gostasses, brado eu... mentalmente!

Enquanto os meus artigos desfilam pela máquina registadora (ou lá como se chama), o homem prossegue na converseta com a menina da caixa - pobre menina da caixa, sujeita a enganar-se nos trocos, só para lhe dar atenção, sabe-se lá quantas vezes por semana ele passa por lá a sarraziná-la!

Com um fôlego inesgotável, lá vai dizendo que não sei quê e não sei quantos e isto e aquilo - ocorre-me o sketch dos # Gato Fedorento, abençoados sejam! -, para chegar ao ponto culminante, o já esperado, mais ou menos isto: sim, porque quando eu comecei a trabalhar não era como agora, tinha de ir de camisa e gravata, todo engravatadinho! Ignoro se quis dizer que assim é que era bom ou o contrário! Na verdade, é o tipo de asserção usável com ambos os sentidos, consoante a circunstância e/ou o estado de espírito do velho (independentemente da idade) que a profere: este tempo é uma m****, o meu é que era bom (orgulhoso, impante); ou, nem sabes a sorte que tens, havias de ter vivido na p**** do meu tempo (vítima ou coitadinho).

Escusado será dizer que, nesta fase do campeonato, eu, que detesto empatas, conversadores de desnecessidades e discursos de velho, já ansiava por recitar o número de contribuinte, efectuar o pagamento e desandar dali para fora a 150 à hora.

Estava precisamente a recitar o número (de contribuinte), quando o senhor de idade com força de dizer coisas decidiu agregar-me à conversa - cá para mim e contra todas as probabilidades, o homem dispunha de poderes especiais  com os quais detectou o meu estado de espírito e decidiu vingar-se. Ou então era só aquela força de falar e de ampliar a plateia.

Vai daí, diz ele - e eu a meio do número do contribuinte -, esta senhora deve saber do que eu falo e não sei quê e não sei que mais, coisa e tal e etc. Quer dizer, com cerca de meia dúzia de palavras, associou-me àquele tempo, isto é, arrebanhou-me para a quinta da terceira idade!

Raio do velho, era só o que me faltava! Mas onde é que eu entro neste filme? Eu, com as minhas jeans desgastadas, com o meu plumas última moda, a odiar empatas, fala-baratos e saudosistas dos tempos idos…

E é isto que eu detesto na terceira idade técnica, isto de lhe pertencer por via dos sinais exteriores - ok, venham-me cá dizer que pareço mais nova que eu acredito e, aliás, isso há de interessar-me muito! Pela minha parte, continuo com esta excruciante pergunta atravessada: como é que uma mioleira fresquinha, toda a curiosidade e desejo à flor da pele (e a ausência de achaques, para usar uma palavra velha) pode lutar contra a cabra da flacidez, os c****** dos códigos de barras e as f***** da p*** das rugas? Para não falar no maldito e desbocado cartão de cidadão? A resposta é ainda mais pungente: poder, pode, mas não vence!

E depois é assim, que, a partir dos sessenta, um jovem nos ache arrumados no caldeirão da terceira idade é uma coisa, é natural e é da vida! Até dá um certo gozo (ou pena, consoante) imaginar o quão rapidamente lá chegarão, a menos que, entretanto se descubra o segredo da eterna juventude. Agora que um velho caquético, agarrado à p**** do passado nos queira identificar consigo, por via da pertença à terceira idade técnica, ai isso é que não! Já basta o espelho e a data de nascimento aposta no cartão de cidadão.

Obviamente, o c***** do velho saiu do supermercado às arrecuas, a desejar boa Páscoa a toda a gente, a menina da caixa, eu e os que, entretanto, se juntaram à fila e talvez nem tivessem reparado em mim...

Eu vim a correr para casa, disposta a fazer rir um bocado os que passam por aqui.

Já agora, boa Páscoa! 







segunda-feira, 5 de março de 2018

IMPOSSÍVEL ANULAR O MOVIMENTO INVERSO


Aquela imagem não o abandonara nem um só dia, semana, mês ou ano, e tinham sido muitos, demasiados, aqueles dias, semanas, meses e anos, que finalmente deixava para trás (se tal era possível!).

De tanto a ouvir, lamuriada por uns, arremessada por outros, ladrada pelos mais agressivos - e não, nem eram os familiares, mas os advogados -, a acusação grudara-se-lhe à mente e para lá da mente, aos sentidos, para não falar das emoções. E agora ali estava ele, cumprindo a promessa, mais do que promessa, um desejo intenso ou talvez uma necessidade, algo do domínio do imperioso.

Vestia roupa simples e descuidada, no sítio de onde vinha não havia lugar a luxos ou a cuidados especiais. Mesmo assim, na noite anterior, procurou esticá-la o mais possível, ao menos que não ostentasse um ar amarrotado. Exceptuados os sapatos, nada pertencia ao vestuário com que ali entrara, nem podia. Entre esse momento e este tinham decorrido vinte longos anos, em que muita coisa, quase tudo, mudara. Só para falar no exterior, exibia cerca de trinta quilos a menos, a pele lavrara-se-lhe de sulcos, mais fundos na testa, talvez reflexo de uma fixação, daquela fixação. Quanto ao interior, seria melhor nem pensar nas diferenças, tantas e tão medonhas se configuravam. Isto, se acreditarmos que o interior pode mudar assim tanto, tema que não vem ao caso. Nem isso lhe interessava, já passara as várias fases, desde a mágoa ao espanto até à resignação/determinação, passando pela raiva e a revolta, a ansiedade e a angústia.

Mas o dia chegou e lá estava ele, dando cumprimento à promessa, com a esperança secreta de encontrar respostas (ou a resposta), como se uma lápide de mármore enegrecida, em luta permanente contra manchas de musgo e humidade, com um nome, duas datas e um texto vulgar inscritos, pudesse ter o condão de lhe fornecer respostas!

Vinte e quatro anos antes, ei-la, aureolada pelo fulgor ruivo dos cabelos, ponto alto da sua atracção, que foi recíproca (ou talvez não). Cruzaram-se por acaso, ambos voltaram as cabeças, os números de telefone trocaram-se no ar como canções de pássaros estouvados, pouco depois os encontros, em menos de  quase nada, a coabitação.

A princípio, o entusiasmo. Depois, o entusiasmo, da parte dele, o desprendimento, da parte dela. Tornou-se arisca, parecia ter vestido o verde frio dos olhos. Ele, cada vez mais mergulhado no negrume dos seus. Em breve, começou a chegar tarde, invocando trabalho e saídas com as amigas. “Trabalho, amigas, e então eu”?,  ele e a sua queixa. Ela a rir e a deslizar para a provocação, “Ai o menino está carente, pobrezinho! Ou serão ciúmes?”, com o sublinhado de uma gargalhada. “Não me chames isso, nunca mais me chames isso!”, e os ciúmes a instalarem-se, a incharem como uma bola de berlim.

Um dia, a constatação. Observou-a de longe, não, aquilo não era trabalho, não eram amigas, era outro gajo. O reboliço, em casa, não desencadeou respostas, apenas fez baixar o som das gargalhadas dela. Ele não ria, deixara de rir o seu riso original e cristalino. Perguntou-lhe, “Afinal o que queres da vida, da nossa relação?”. Sem se dignar responder, ela bateu com a porta. Ele estilhaçou um copo na parede. Fitas de whisky a deslizar pelo branco pálido e sedoso. Quanto desperdício! Acabou por regressar e pedir desculpa. Ele não aceitou. Bateu com a porta do quarto, mandou um livro pelo ar. Aterrou no candeeiro da mesa de cabeceira. Ela ouviu o estilhaçar da lâmpada. 

Passaram os dias e eles sem se falarem, ele a remoer, ela não se sabe bem. 

Passaram mais dias e ela a chegar ao trabalho com um olho roxo, e a sair do trabalho acompanhada pelo outro, o gajo, o mesmo, no meio de uma gesticulação feroz. As portas do carro a baterem como se o seguro cobrisse todos os riscos. Ele bem viu e assim como viu, pensou, é agora, não posso suportar mais este calvário, esta degradação de corno, tenho de a confrontar. Naquela noite, chegou macia, quase submissa, agarrou-se-lhe numa espécie de choro contido, dava para ver que estava arrependida (ou amedrontada?). Ele afagou-lhe os cabelos, desistiu do contra-interrogatório e do ultimato que congeminara em dias sucessivos, sobretudo em noites sucessivas, admitiu para si próprio que também arcaria a sua quota de culpas. Fizeram amor e dormiram juntos pela primeira vez em muitos meses. Combinaram jantar num bar da praia, no dia seguinte. O tempo começava a florir. Ela continuava com um olho roxo, mas agora era o esquerdo e, na coxa do mesmo lado, esvaíam-se-lhe em roxo já a caminho de amarelo umas nódoas negras do tamanho de nozes. Faço as perguntas amanhã, pensou ele antes de adormecer.

O dia seguinte amanheceu sem ela e por qualquer razão ele estremeceu um arrepio, pensou, nunca mais.

Não atendeu os telefonemas dele. Mesmo assim, chegada a hora, ele decidiu ir até ao bar da praia como quem obedece a uma ordem tão incongruente quanto irrecusável. Entrou no bar com os nervos à flor do estômago. Esperou um tempo superior ao devido a qualquer espera, perguntou ao empregado, "Não, não a vi", foi a resposta. Desistiu. Movido pelo desnorte, adentrou-se nas dunas, afundando os pés na areia, com a força duma raiva e duma revolta que pareciam novas, depois da esperança ressurgida na noite anterior. Não demorou muito até que, por entre o uivo do vento, lhe pareceu ouvir um chamamento. Focou-se na origem do som e foi assim que a descobriu. Já não se tratava apenas de nódoas negras. A vida devia ter-se-lhe escapado no esforço daquele chamamento definitivo. O corpo ainda estava quente, o verde dos olhos muito espantado para o cinzento do céu, um manto rubro a cobrir-lhe o peito nu. Uma confusão de pegadas grandes rodeavam-na. Um vulto perdia-se na lonjura. 
Aproximou-se, segurou-lhe a cabeça com a tremura das mãos húmidas e frias, viu o cabo do punhal a sobressair-lhe das costelas frágeis. Retirou-o com a esperança cega de poder anular o movimento inverso. Só então reparou que segurava o melhor punhal da sua colecção. Deixou-se cair, o corpo fechado num soluço mudo.  

A polícia encontrou-o assim, nem meia hora tinha decorrido. De nada lhe valeu negar! O vento levara as pegadas. O vulto perdera-se para lá das dunas.

Agora, ali estava ele, Artur Alves, frente à campa dela

JOANA ANTUNES
1970 - 1996
ETERNA SAUDADE, PAIS E IRMÃ

à espera de respostas, "quem, porquê?". Já desistira de perguntar, "porquê eu"?

O cemitério era igual a qualquer cemitério, um relvado a perder de vista, ondeando levemente, como se a ondulação fosse necessária para evitar a pasmaceira dos mortos, e, a espaços não simétricos mas não desordenados, lajes de basalto ou mármore, a assinalarem a libertação dos prisioneiros da vida, eterna prisão dos adiados.


(imagem obtida em pesquisa no Google)









quinta-feira, 1 de março de 2018

A GAVETA DA ESCRITORA


Levantou-se e abriu a porta num ímpeto, não tanto para saber quem era, mas para por termo à estridência impertinente com que a campainha lhe perfurava os tímpanos. Diante de si, perfilavam-se dois polícias, o coordenador Victor Fernandes e o inspector Mário Pires, pelo menos assim se apresentaram, anunciando, de seguida e sem mais cerimónias, que vinham fazer uma busca. Perante o seu enorme espanto, mostraram-lhe o mandado judicial e foram entrando, mesmo sem convite.

Mal recuperou a voz, ela perguntou, num rompante de indignação, a que se devia tão inusitada intrusão no seu local de trabalho. Em parcas e frias palavras, o Fernandes remeteu para o papel, o mandado ou lá o que era, sem se deter em pormenores, como se a urgência da tarefa devesse sobrepor-se a tudo, mesmo à natural curiosidade da dona do local.

O Pires - ou Marinho, como era tratado pelos colegas -, arrastava-se atrás do coordenador, olhando para as paredes, que eram quatro, amplas, formando um open space, todo branco e despejado, o que faltava em móveis sobrava em livros. Três das paredes eram revestidas de alto a baixo com estantes brancas, de linhas depuradas, com a única função de dar abrigo a uma imensidão de livros, de todos os formatos, tamanhos e conteúdos - esta última parte ele nem percebeu, não era dado a livros, o que não se poderia dizer do outro, o Fernandes.

Junto da única parede livre, rasgada por duas grandes janelas, filtro duma luminosidade intensa, encontrava-se uma secretária branca, de tamanho XXL e linhas minimalistas. Sobre ela, um computador, em pausa, uma impressora, ladeada duma resma de papel A4 branco e de várias folhas impressas, uma chávena de café, meio cheia ou meio vazia, consoante a perspetiva, e um prato de bolachas, uma delas marcada por uma dentada, um iPhone e um maço de lenços de papel. Do lado direito, sob o tampo, albergava-se uma enorme gaveta, semiaberta.

Para além da cadeira da secretária, em pele preta, de desenho ergonómico, apenas havia, no canto oposto, dois sofás, no mesmo material, mas de cor branca, separados por uma pequena mesa, onde repousavam alguns livros, mais livros. Uma porta dava acesso a uma pequena casa de banho e a um espaço mínimo, destinado a preparar uma refeição ligeira, mas que seria exagerado chamar de cozinha.

Talvez assustados pela profusão de livros - e, seguramente, não eram livros o que procuravam -, os polícias começaram por explorar a mini casa de banho e a mini espécie de cozinha que não chegava a sê-lo. Como, à semelhança do resto, se tratava de espaços tão desimpedidos quanto a brancura e o despojamento geral já faziam supor, a busca foi rápida, aliás, tão rápida quanto infrutífera. Fosse o que fosse que procuravam, estava longe de se encontrar por ali.

Atiraram-se, então, às estantes, deslocando aleatoriamente os livros, como se de trás deles fossem saltar sabe-se lá que segredos!

Ela, que até ali tinha conseguido dominar a indignação - afinal, ignorava o real motivo de tão estranha visita -, agitou-se freneticamente, perante a ameaça em perspetiva de ver os livros, tão trabalhosamente ordenados, espalhados sem critério. Elevou a voz, o Marinho encolheu os ombros, a significar, não é nada comigo, o Fernandes empertigou-se e proferiu, "Senhora D. Joana Moreira, estamos só a cumprir a nossa obrigação". "Mas não precisam de desarrumar tudo, pois não?", respondeu ela, e acrescentou "Se ao menos explicassem o que vieram fazer, talvez eu pudesse ajudar, não?" E ele, mula, a mastigar as palavras, como quem come a resposta, e o outro a encolher os ombros como quem se isenta de responsabilidades, e a esboçar um sorriso meio cúmplice, meio canalha.

Por fim, desistiram dos livros e encaminharam-se para a secretária. Escancararam despudoradamente a gaveta meio aberta, e começaram a retirar o conteúdo, objecto a objecto. Talvez num acesso de organização, o coordenador ordenou ao Marinho, "toma nota, escreve aí: umas tesouras virtuais e um tubo de cola virtual". Interrompeu-se, dirigindo-se a ela, numa ignorância genuína: "Mas isto serve para quê, minha senhora?"

"Para cortar palavras e para colar palavras, respectivamente", respondeu, seca.

Ele prosseguiu:

"Um arquivo de coisas ruins, a saber: desgostos gerais, amores não correspondidos, amores traídos, amores excessivos, abusivos e obsessivos, lutos vários, amizades estragadas, auto-estimas pelas ruas da amargura, frustrações diversas, desesperos, faltas de chuva e de sol, consoante, neuras daquelas de nem se saber como nem porquê, melancolia, zangas, cansaços e etc.;

Um ramalhete de sonhos sonhados (nada a ver com sonhos acordados), arrumado em três modalidades, sonhos belos, pesadelos e sonhos lúcidos; 

Um pacote de mistérios, uns reais outros inventados;

Um molho de parvoíces, por exemplo, notícias de TV e de revistas do cabeleireiro;

Uma colecção de frases estranhas, algumas engraçadas, trazidas pelo ar, sendo uma delas: és mesmo um coca bichinhos, entras numa loja e pões tudo doido;

Uma embalagem de Toblerone, contendo, em vez do chocolate, um triângulo feito de passado (re)inventado, futuro aprisionado e presente mais que passado;

Uma faca de fragmentar ideias, uma lima de polir palavras e um aparador de adjectivos e outros;

Um triturador de realidades capaz de produzir diferenças;

Uma caixa sem lados nem tampa, só a base". O Fernandes interrompeu-se, de novo, para a interpelar, "A senhora desculpe, há-de ter de esclarecer de que se trata tudo isto, mas, para já, diga-me, que caixa é esta?"

"Olhe, o senhor é mesmo ignorante, então não percebe que é uma caixa para se pensar fora dela?! Haja paciência!" Foi a resposta.

Só então despertou para a incómoda realidade, seria possível ter-se enganado na identificação ou na morada? Afinal, nada fazia sentido, nada do que encontrava correspondia ao que procurava. Pouco à vontade, acantonou-se num cochicho com o Marinho, que, entretanto, parara de escrevinhar e recolhera as mãos aos bolsos, como quem se demite de responsabilidades: "Ouve lá, tu conferiste bem os dados, o nome e a morada?", "Eu acho que sim, o chefe não confirmou?" - ouviu-os ela.

Dirigiu-se-lhe, a medo, pedindo o cartão de cidadão. Apelido, Souto Moreira, e não Soeiro Moreira. "A senhora não é psicóloga?",  "Não, sou escritora!".

O Marinho já tinha um pé fora da porta. O Fernandes não demorou a fazer-lhe companhia, empurrado pela Joana, sem oportunidade para apresentar sequer um pedido de desculpas. A porta fechou-se com estrondo.









terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

CAPI E SIBELA


E agora interrogam-se, - mas que título é este?

Muito simples, o título dum livro, mais precisamente, "Capi e Sibela (Uma história de asaços)", da autoria de Salvina Ribeiro, com ilustrações de H. Mourato.


Trata-se dum conto sobre dois pássaros, ele, uma catatua de nome Capi, ela, uma papagaio chamado Sibela. Mas quem diz pássaros, pode dizer pessoas... 

Passado o nascimento, a infância e uma adolescência bem integrada no bando lá daqueles ares, Capi veste o papel de salvador de Sibela, que, por azares do destino, se encontra numa situação de risco, quase à mercê das garras dum qualquer predador. Tornam-se amigos, cúmplices, até que ela sente necessidade de procurar a família, da qual fora precocemente separada, por razões que aqui não convem revelar. Separam-se. Ele regressa ao bando. Ela entrega-se ao seu desígnio, passando por aventuras várias. Até que...  

E mais não posso contar, pois creio que estarão interessados em ler o livro e não perdoariam a antecipação do desfecho. Eu, no vosso lugar, não perdoaria!

Posso é acrescentar que se trata duma narrativa aliciante, onde se surpreende uma cadência serena, salpicada de bom humor e duma enorme sensibilidade. Por outro lado, serve de veículo à reflexão sobre um conjunto de valores humanos, quer no plano da realização individual - v.g., a compreensão das raízes, a independência, a coragem e a perseverança, enquanto factores de equilíbrio emocional e capacidade de decisão -, quer no plano relacional - v.g., a amizade, a cumplicidade e a compreensão do outro, a aceitação da diferença e o sentido da entreajuda. 

Merecem, ainda, realce os belos desenhos que ilustram o livro. 


E agora só me falta esclarecer - para quem não saiba, como era o meu caso - que "asaços" são abraços com asas, quer dizer, abraços entre pássaros ou - digo eu - abraços muito carinhosos.


Pronto, já podem ir ler!







domingo, 18 de fevereiro de 2018

PELO #MÉDIO ORIENTE - II - #ABU DHABI




Um sol espantoso amanheceu sobre o porto Zayed, no Abu Dhabi!





A primeira impressão foi a duma amplitude (territorial) bem mais generosa do que a do Dubai - não fosse o Abu Dhabi o maior dos Emirados Árabes Unidos (UAE), de que é a capital. 

Acresce, não sem surpresa, para um território de ADN desértico, a mancha verde desenhada por variadas árvores (e outro tipo de vegetação), a refrescar a paisagem de tom natural bege arenoso.




O passeio começou por algo que o guia - ainda o mesmo egípcio do percurso da véspera, no Dubai (v. post de 17 de Janeiro p.p.) - apresentou como um souk modernizado, onde poderíamos encontrar artigos tradicionais - não que eu estivesse interessada em souks, em artigos tradicionais ou outros...

Tratava-se, na verdade, duma construção contemporânea, herdeira, quanto ao conteúdo, dos souks tradicionais, mas agregando negócios mais actuais,  com destaque para um grande supermercado que, pela aparência, não ficava a dever nada a qualquer congénere ocidental.

Aproveitei para cambiar dinheiro e comprar duas garrafas de água e regressei ao autocarro, aliviada por deixar tão pouco apelativo local. 

O anunciado ponto alto do dia seria a visita à proclamada impressionante e uma das maiores mesquitas do mundo (alegadamente, a terceira maior), Mesquita de Sheikh Zayed (que a mandou construir e nela está sepultado, tendo a obra sido iniciada em 1996 e terminado em 2007). 

Apenas um parêntesis para referir que o supracitado souk, assim como o porto onde o navio esperava (e sei lá quantos spots mais, viva o culto da personalidade!), também se designam Sheikh Zayed. A referência é a Zayed bin Sultan Al Nahyan (1918-2004), governante do Abu Dhabi e principal arquitecto dos UAE, de que foi presidente durante mais de 30 anos. O actual presidente dos UAE e emir do Abu Dhabi é o seu filho, Khalifa bin Zayed bin Sultan al Nahyan, também designado por Sheik Khalifa.

Embora tendo seguido as instruções emanadas da agência de viagens, no tocante a vestuário, a entrada na Mesquita foi-me vedada, num primeiro round, pelo fiscal islâmico - para o denominar de alguma maneira - encarregado do controlo. Explico: apesar de ter as pernas resguardadas por calças escuras (não poderiam ser brancas!) e não justas (também não permitidas!), o cabelo recolhido num boné, sob uma echarpe que me descia pelas costas e os braços (até aos pulsos), a entrada no templo foi-me, por assim dizer, chumbada! - Porquê?, indaguei, já a levantar fervura. Simplesmente porque a t-shirt era de manga curta e a echarpe transparente! Requisito em falta: braços completamente tapados!

Barafustei, sem êxito, até me lembrar que tinha um casaco no autocarro. Vesti-o, recoloquei a echarpe e apresentei-me, mais uma vez, ao controlo do macho islâmico. Mandou-me levantar a echarpe (prova de que ela cumpria a sua função...), para testar bem a questão dos braços. Embirrou de novo, as mangas do casaco ficavam a cerca dum palmo dos pulsos. Desatei a esticar as ditas com tal ímpeto e mau feitio que o homem, embora cheio de má vontade, se deu por vencido, permitindo-me (tolerando-me?!) a entrada no sagrado recinto. Menor sorte tiveram outras mulheres, que, por infracções idênticas, se viram obrigadas a comprar uma abaya (espécie de túnica preta, até aos pés, que as mulheres usam sobre a roupa).

Uff! fiquei (quase literalmente) furiosa! Escusado será dizer que os homens entram de mangas curtas e, no respeitante às mulheres, o argumento para a restrição prende-se com uma ideia tão estúpida e discriminatória quanto caricata, a saber: evitar distracções!!! Posto isto, a hipótese de os meus braços (aliás, aqueles parcos centímetros dos meus braços) poderem suscitar a distração dos adoradores de Alá ao ponto de os desconcentrarem das suas orações causou-me um certo, por assim dizer, frisson... 

Brincadeiras à parte, dei comigo a reflectir sobre um conjunto de questões: qual a fronteira entre o respeito devido a dada cultura (religiosa) e o cerceamento da liberdade/dignidade humana; como é possível que, em pleno século XXI, ainda haja (tantas) mulheres que aguentam, sem se rebelar, um status quo tão discriminatório e violento; como é diferente percepcionar este tipo de situação nos noticiários e senti-lo na pele... Mas isto devo ser eu, que, desde a infância, mantenho intacta a repulsa por práticas segregativas (seja em razão do género ou outra). Nisso não me tornei indulgente, não!

A este propósito, não posso deixar de referir que li há dias, com iguais doses de espanto e de esperança, que, no Irão, as mulheres estão a ousar manifestar-se publicamente contra a obrigatoriedade de uso dos véus (hijabs), motivo por que, lamentavelmente, vinte e nove foram presas... Oxalá (e sublinho esta expressão!) sejam cada vez mais e com maior êxito as #whitewednsdays (como o fenómeno já é conhecido) e consigam vencer a ditadura obscurantista e machista que sobre elas impende, (alegadamente) em nome de invioláveis comandos divinos. 

Ganha a minha pequena batalha, lá me encaminhei para a sumptuosa mesquita. Mais uma entre o rebanho de turistas que, encaminhados por extensos cordões e atentos vigilantes, deixam atrair a vista e as câmaras fotográficas pela profusão decorativa desta construção monumental, de arquitectura neo-muçulmana.

A brancura e a harmonia do mármore que lhe forma as paredes, o esplendor dos lustres que lhe pendem das cúpulas e dos vitrais que estabelecem subtis diálogos com o exterior, a beleza do desenho e o colorido do tapete persa que se lhe deita aos pés,  a geometria perfeita dos mosaicos e todas as demais riquezas e exuberâncias do local talvez ofusquem um pouco menos do que o novo-riquismo associado. Esta foi a minha impressão geral!

Para além dos motivos típicos, não perdi a oportunidade de fotografar o Corão, multiplicado em várias unidades, talvez à espera de que alguém se concentrasse o suficiente para sentir algum resquício de espiritualidade, num lugar aparentemente vendido ao turismo, embora sem concessões a braços semi-revelados em pretensas transparências.






















Terminada a visita, veio-me à ideia a narrativa de Jesus a expulsar os vendilhões do templo. E não deixei de pensar na diferença, por comparação às mesquitas vivas de Istambul, onde, apesar da presença turística, pude sentir o recolhimento dos fiéis e não me deparei com a sobranceria dum qualquer fiscal em relação a uma turista ocidental (isto, em 2009. Hoje em dia, ignoro)! Será culpa do petróleo? E quando o petróleo acabar? 

Curiosamente, apesar de não professar qualquer religião, sinto-me muito atraída pelo ambiente de certos templos, dado o clima espiritual que proporcionam ou induzem. Já mencionei as mesquitas de Istambul, mas acrescento os santuários xintoístas do Japão e algumas igrejas, como a de S. Domingos, em Lisboa (embora esta, ultimamente, esteja a perder o clima, por virtude da invasão turística. Entra o dinheiro, sai a calma, não se pode ter tudo.)


(Mesquita em Istambul, 2009)
(Templo xintoísta, algures no Japão, 2012)
(Igreja de S. Domingos, Lisboa, 2017)

Como este post já vai longo, retomarei num próximo o tour pelo Abu Dhabi.






domingo, 4 de fevereiro de 2018

ELEVADOR CIRCULAR: O MISTÉRIO


libertou-se do abraço da porta giratória com o ímpeto de quem não aguenta prisões. atravessou toda a largura do átrio num passo apressado, o excesso de espaço causava-lhe vertigens. premiu o botão, exibindo no rosto uma inquietação de horas de espera, apesar de o elevador nem quinze segundos ter demorado a aterrar.

a porta abriu-se, metade para cada lado, desenhando duas curvas perfeitas, e ele precipitou-se para o interior. a porta fechou-se com a mesma eficácia indiferente com que se abrira, enquanto ele estampava uma curiosidade desconfiada no círculo perfeito que o rodeava. nunca vira um elevador circular. as luzes, apesar de não muito intensas, multiplicavam-se por efeito dos espelhos que forravam o interior, todo o interior do veículo - sim, naquele momento, pensou no elevador como um veículo, mais exactamente, uma nave, não espacial, é certo, antes pelo contrário, intra-mural, mas, ainda assim, uma nave.

olhou para cima, para o tecto, como quem quer despistar um observador secreto e insistente. deparou com um par de olhos esbugalhados, um nariz perfurante e uma boca semi-aberta, de lábios finos, por onde se evadiam duas fileiras de dentes alvos e salientes. desviou o olhar daquele excerto de rosto sem o reconhecer. agitou-se numa apreensão que não passava de prolongamento da que o impelira até ali.

prosseguiu a busca, desta vez nos lados, melhor, naquela curva única do círculo perfeito desenhado pelas paredes do elevador. deparou-se com uma nuca lisa, revestida duma sombra de cabelo rapado à máquina zero. devia ter sido louro escuro, a avaliar pelo tom da mancha reflectida no espelho. descia-lhe um palmo de pescoço, logo escondido numa gola preta, assente nas costas direitas dum casaco que deslizava até deixar ver duas pernas de calças, também pretas, pousadas sobre os calcanhares duns sapatos de tipo inglês, pretos. os cotovelos espetavam-se para trás, deixando adivinhar um par de mãos resguardadas nos bolsos do casaco, melhor dizendo, do sobretudo. 

ao contrário do seu, aquele corpo não emitia sinais de tensão. estava ali, limitava-se a estar ali, como se uma paisagem colocada de propósito à sua frente para o desinquietar. um enigma, era o que era.

baixou a cabeça e a surpresa bateu-lhe nos olhos, o chão também era espelhado. e lá estava o outro corpo, reflectido ao contrário, os sapatos tipo inglês a descerem pelas pernas das calças, estas pelo longo sobretudo, este pelo palmo de pescoço à mostra e, finalmente, uma sobra de nuca manchada da falta do cabelo talvez louro escuro.

agitou-se num estremeção violento. disparou um olhar a toda a volta, uns perfeitos 360º. estendeu as mãos como um cego à procura de contacto, de orientação. foi-lhe devolvido o frio da superfície espelhada. apenas isso.   

mesmo assim, resolveu-se. começou por pigarrear, depois disse:

- bom dia! o senhor, por acaso, sabe dizer-me em que piso fica a sala do congresso de psiquiatria?

após breve hesitação, repetiu a pergunta. continuou sem resposta. todavia, o outro permanecia lá, no seu longo casaco preto, de boa fazenda, reparou.

a perturbação aguda duma dúvida insana atingiu-o com a força duma bofetada inesperada. estendeu um braço, como quem quer agarrar certezas. em vez da fazenda suave do sobretudo preto, sentiu a superfície fria do espelho. rodou sobre os calcanhares, um círculo perfeito, 360º. os braços estendidos a toda a volta. nenhum contacto, excepto com a parede de espelho. o corpo vestido de preto continuava lá, de costas para si, mas não conseguia tocar-lhe. só podia estar no interior do espelho, concluiu, espantado com a irracionalidade da conclusão. e ele, onde estava ele, que não se via reflectido? e porque não reparara nisso antes?

o tempo das indagações foi interrompido na exacta fracção de segundo em que o elevador parou e a porta se abriu de par em par, com um ruído metálico de rebentar qualquer par de tímpanos, por mais resistentes que fossem. com o coração a galope, deu um salto em frente, só porque tinha de sair dali.

estendeu uma mão desajeitada e furiosa para a mesa de cabeceira e pressionou o botão do despertador como quem esmaga uma mosca. soltou um palavrão, dois palavrões. levantou-se com um cansaço como se não dormisse há muitas eternidades. apressou-se no duche e no resto. 

ao cruzar a rua, sentiu frio na cabeça, era assim, desde que tinha rapado o cabelo à máquina zero. talvez devesse comprar um gorro. levantou a gola do sobretudo de fazenda preta. caminhou apressado, sobre os seus belos sapatos pretos de tipo inglês. franqueou a porta giratória do luxuoso hotel em que decorria o congresso de psiquiatria. dirigiu-se ao elevador.

surpreendeu-se com a agitação à volta, polícias, jornalistas... perguntou a uma mulher de ar tão espantado quanto o dele, sabe dizer-me o que se está a passar? não obteve resposta, ela nem sequer o olhou, aliás, comportou-se como se não o tivesse visto. mas, perguntada por uma outra pessoa, respondeu, ouvi dizer que desapareceu uma pessoa no interior do elevador!

afastou-se, confuso. inquietava-o uma interrogação: será que me tornei o homem invisível?



(Imagem obtida em pesquisa Google)






quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

PELO #MÉDIO ORIENTE - I - #WHY DUBAI?





A dada altura, começou a apetecer-me conhecer o Dubai, um dos Emirados Árabes Unidos (UAE, da denominação inglesa). O objectivo, confesso, era bastante reduzido, para não dizer fútil: apreciar a skyline e subir ao topo do Burj Khalifa (torre do Califa, alegadamente o edifício mais alto do mundo), para divisar a paisagem de transformação duma natureza árida, porventura hostil, numa espécie de reino da fantasia, por obra e graça do poder do petróleo. E a (muito) mais não aspirava. Surpreendida comigo mesma? Não! Já lá vai o tempo... Tamanhas são as surpresas da vida que, a dado momento, a indulgência (incluída a auto-indulgência) torna-se um hábito. Felizmente!

Eis-me, então, a caminho do Dubai e, já agora e por arrasto, do Abu Dhabi, outro dos UAE, do Bahrain e do Qatar (apenas porque faziam parte do pacote da viagem comprada, na modalidade de cruzeiro - não que aprecie cruzeiros, mera opção de ordem prática, sempre se evita andar a desfazer e fazer a mala de terra em terra, de hotel em hotel, a um fatigante ritmo diário).

A diferença horária (em relação a Lisboa) é de mais quatro horas, e a viagem de avião dura cerca de sete (a de regresso, mais uma), pelo que, tendo partido de Lisboa por volta das 14H, desembarquei no Dubai aí pela 01,30H (do dia 30 de Dezembro passado). 

À chegada, o primeiro impacto derivou da (grande) dimensão, modernidade e beleza arquitectónica do aeroporto.

Seguiu-se a agilidade do tempo e das formalidades de desembarque e de recolha da bagagem (diferentemente do que certas informações, inclusive da própria agência de viagens, faziam esperar).


Depois, notou-se a parca simpatia do (bonito) funcionário do controlo de passaportes, no seu porte altivo, qual faraó do deserto. Vim a notar esta atitude em mais alguma ocasião, por exemplo no guia local duma das visitas no Abu Dhabi, cujo porte recendia a algo semelhante a um orgulho nacionalista, um desprezo pelos turistas, ambos ou outra coisa qualquer. Curiosamente, nunca encontrei semelhante comportamento noutros países de herança ou tradição árabe ou muçulmana, como, por exemplo, Marrocos, Tunísia ou a Turquia.

Devo acrescentar mais uma primeira impressão positiva e outra negativa, respectivamente: a temperatura amena (embora tendo escolhido esta época por saber tratar-se da menos quente, receava um calor excessivo para a minha sensibilidade, já tão exaurida pelo nosso infernal verão passado); a descoordenação, incompetência, birra ou seja lá o que for do operador turístico local, que, contrariamente ao contratualmente previsto, não assegurou o transfer para o hotel onde deveríamos passar essa primeira noite (ou o que dela restava). Valeu a iniciativa do nosso guia que, vendo, casualmente, passar uma carrinha do hotel, conseguiu fazer parar o motorista e convencê-lo a transportar-nos. Enfim, uma falha lastimável para um país supostamente tão empenhado no turismo, enquanto fonte de receita  (entre outras) alternativa à do petróleo em vias de extinção. 

Uma primeira e não prevista digressão pela cidade, a caminho do porto de embarque - alegada gentileza do guia local, um egípcio extrovertido (pelas razões que se conhecem, os guias turísticos egípcios são forçados a procurar trabalho noutros países), a título de compensação pela falência do transfer da véspera -, permitiu um primeiro contacto com a cidade, donde sobressaiu:

- obviamente omnipresente, a imagem de marca da religião oficial (o islamismo)







- o empenho na implantação de zonas verdes








- a selectividade de certas zonas residenciais, como é o caso do complexo de apartamentos de luxo situados na  marina


- a generosa dimensão das vias de trânsito (chegam a desdobrar-se em oito faixas) e o elevado nível da frota automóvel circulante, onde predominam veículos de proveniência asiática, maxime, Toyota, Nissan e Lexus, muitos deles em modelos tipo jipe, deserto oblige. Não que se deva esquecer um ou outro Ferrari, Lamborghini ou por aí...







- o recato da extensa zona residencial ocupada pela família reinante (os Maktoum, sendo Mohammed bin Rashid Al Maktoum vice presidente e primeiro-ministro dos UAE), a resguardo de muros claros (curiosamente não muito elevados), interrompidos, a espaços, por elegantes portões, que se abrem a largas alamedas, supostamente conducentes a palácios das mil e uma noites (divagação minha ou talvez não), vedados a olhares curiosos de pobres mortais. Vigora a proibição de fotografar, embora não se entenda muito bem a razão, pois nada está à vista, a não ser um desconhecido (embora não difícil de imaginar) mundo de sumptuosidade, engendrada em berço de ouro negro. Este complexo palaciano estende-se ao longo da costa, tendo o mar arábico ou pérsico ao fundo. A marginal prossegue, a descoberto, com um passeio marítimo, praias, hotéis, etc. E estamos em Jumeirah 









- passámos, ainda, por outras zonas residenciais mais ou menos luxuosas. O mesmo não se diga em relação aos locais de habitação dos operários, construtores dos monumentais edifícios, ou doutros trabalhadores menores.  Não por falta de interesse da minha parte em conhecer essa outra faceta daquela fulgurante realidade e não por não ter (talvez provocatoriamente e em vão, confesso) indagado sobre a mesma...

Em geral, a habitação é bastante dispendiosa, pelo que, ao menos entre os expatriados, é comum partilharem casa e, inclusivamente, quarto (aluguer de camas!). 

Note-se que o nível de vida dos naturais do Dubai - que constituem uma minoria (cerca de 20%) da população total, de proveniências as mais diversas, desde, v.g., a Índia, o Paquistão e a China, a diversos países da África e da Europa - é bastante confortável, dispondo, nomeadamente, de educação e cuidados de saúde gratuitos e não pagando impostos (todavia, no corrente ano, foi introduzida uma taxa de IVA, de 5%, restrita a determinados bens e serviços).

A língua oficial é o árabe, praticando-se, como segunda língua, o inglês (o que bem se compreende, dada a assinalada diversidade de proveniência dos habitantes).

- o conhecido arrojo e modernidade da arquitectura, com destaque para certos edifícios, desde o (já tradicional) Burj Al Arab até à mais recente moldura (assim designada pelo formato), passando pela Torre Cayan (e aí vai outro alegado recorde, a mais alta torre espiral do mundo), e por muitos outros arranha-céus futuristas. Não é de esquecer a construção imobiliária em curso, tanto mais quanto representa um relevante segmento da economia actual (a par com o turismo, o comércio e os serviços financeiros; as receitas do petróleo têm um peso comparativo muito inferior).




(2 imagens do Burj Al Arab)


(a moldura)
(a torre Cayan, ampliada nas 2 fotos seguintes)






(e ainda 2 novas perspectivas da torre torcida)










(a marina)



(copiando o Chrysler building de Nova Iorque?)





(pormenor...)

(o canal aquático, em 2 imagens)

(a construção imobiliária, também nas 3 fotos seguintes)









Com este inesperado passeio, acabámos por fazer o check-in no navio - MSC SPLENDIDA, e não, não gostei do serviço -, por volta das 16H. Às 23H zarpámos com destino ao Abu Dhabi, onde chegámos na madrugada seguinte. 







(3 imagens do skyline nocturno do Dubai, desde o porto Rashid)



Por esse outro Emirado viajarei em próximo post. Como, aliás, ainda tenciono voltar ao Dubai num outro post, para assinalar o último dia deste périplo médio-oriental, com destaque para a subida à Burj khalifa (ou não tivesse sido este capricho o leitmotiv da viagem!).



(dizem que -ainda- é a mais alta do mundo...)


Nota: a (má) qualidade das fotografias deve-se ao facto de, em geral, terem sido obtidas a partir dum veículo em movimento.