sexta-feira, 8 de agosto de 2014

E LOGO HOJE...


[E logo hoje, que queria tanto estar contigo, despenharam-se sobre mim centenas de azares!
Primeiro, faltou a água, foi logo à hora a que me levantei e fiz a directa habitual para o duche, caso para dizer, sem acerto, grande balde de água fria. Não vou entrar em pormenores sobre a chamada que fiz para a EPAL e assim, seria maçador...
Quando, passados 45 minutos de tempo e, pelo menos, 45 horas de impaciência, pude, finalmente, meter-me debaixo do chuveiro - a água lisa a sair castanha e a ditar mais uns desesperos de espera, até clarear -, molhei abundantemente o cabelo, joguei a mão ao frasco do champô e, qual não é a contrariada surpresa, quando, devidamente espremido, não exalou nem uma única bolhinha de espuma. Esquecera-me de o substituir, quer dizer, de comprar um novo para substituição, o tipo de esquecimentos que se sofrem caros. Saí do duche, ia escorregando no molhado dos pés contra o pavimento, e fui procurar amostras, daquelas que, ocasionalmente, nos dão nas farmácias ou vêm coladas às páginas das revistas, aliás, para enorme aborrecimento, pois, quando se retiram, acode metade da página atrás, como quem se apaixonou por aquela cola peganhenta e não se dispõe a abandoná-la. Não encontrei nenhuma, o chão ficou todo molhado dos pingos que caíam do meu corpo, reentrei no duche sem saber o que fazer e acabei por fazer uma das coisas possíveis, lavar o cabelo com o gel do duche. Mais tarde viria a constatar que não é a mesma coisa, quer dizer, eu já sabia, mas fiquei a saber demonstradamente, quando, após uma rápida passagem da escova, senti os dedos ameaçados por arame farpado.
Abreviando, maquilhei-me, vesti-me e calcei-me com o requinte que a circunstância exigia - a circunstância, como bem sabes, era ir ter contigo -, mas, tal como diz o ditado, a pressa é inimiga da perfeição.
Quando me apreciei no espelho do elevador, pareceu-me que o blush sobrava do lado direito e que a sombra me escurecia demasiado o olhar, como se tivesse engolido fumo pelos olhos, se tal é possível. Surripiei um lenço de papel e comecei a atenuar os estragos, mas não gostei do resultado, que isto o que torto nasce, etc. (tu sabes o resto).
À saída do elevador, dei de caras com o meu vizinho do 5º-Dt.º, atrelado ao monumento rugidor que é o seu cão, e que, no cruzamento, eu a sair eles a entrar, me deu uma lambidela na perna - o cão,  não o vizinho -, coisa que detesto, detesto ser lambida por cães, aquela baba, acho que, mal por mal, preferia uma dentada. Dei um giro de slide e fiz má cara, instando o vizinho, pode prender o cão? Como se não soubesse a ladainha da resposta, ele não faz mal, é o que todos dizem, estou farta de ouvir.
Fugi para a rua e, mal chegada, enfiei um dos saltos num pérfido abismo do passeio. Partiu, a sorte foi não ter sido o pé.
Recambiei-me para casa, chamei o elevador, agora a cheirar a cão, e troquei os sapatos. Por esta altura o meu atraso deveria ser superior a uma hora e meia, no mínimo. Mesmo assim, investi para a saída, tapei o nariz, enquanto viajava no elevador - ainda cheirava a cão - e fiz ziguezagues pelo passeio, procurando evitar novos abismos da calçada, que bonita seria a calçada portuguesa, se não andasse permanentemente a ser desenterrada para obras, findas as quais, nunca é completamente reposta! Há-de ficar sempre um buraco e meia dúzia de pedras soltas à tona, como se as obras merecessem testemunho eterno.
Eu sei que tínhamos combinado um brunch, mas já são quase horas da sobremesa do almoço. Será que resististe? Se usasses telemóvel nada disto estaria a acontecer, tinha-te telefonado e convidado para passares lá em casa, eu própria prepararia o brunch, sempre se poupava o tempo da deslocação, a minha. Pois não é que, para cúmulo do azar, não consegui encontrar o meu carro, já não é a primeira vez, esqueço-me do sítio onde o deixo, parece impossível. Com a greve dos transportes públicos, tive de ir a pé...]
 
- Não posso crer que ainda estás à minha espera! Mil desculpas, nem imaginas as centenas de azares que desabaram sobre mim! E logo hoje, que queria tanto estar contigo! Estás linda, maravilhosa!
 
- Também estás maravilhoso! Valeu a pena a espera, também queria tanto estar contigo!
 
- Lanchamos?
 
- Claro!
 
  
 
   
 


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