Desde 2019, quando vi "Dor e Glória", ansiava por um novo filme do Pedro Almodóvar, um dos meus realizadores preferidos, tanto mais que considerara aquele uma das suas melhores obras.
Aliás, mencionei-o em texto aqui publicado, em 25 de Outubro de 2019, sob o título "WOODY ALLEN: SO SWEET!" – outro dos meus realizadores –, onde opino sobre o também belo filme, "Um Dia de Chuva em Nova Iorque", estabelecendo um paralelo entre ambos, nos seguintes termos:
Afigura-se-me que "UM DIA DE CHUVA EM NOVA IORQUE" recolhe a espuma de toda a filmografia do Autor, mas uma espuma leve e elegante, talvez como a que se eleva dum suave cappuccino. Neste sentido, pode, pois, falar-se em filme-síntese – à semelhança, aliás, do último e magnífico "DOR E GLÓRIA", de Pedro Almodovar, pese embora a diferença de abordagens, em que, à angústia patente neste, se opõe, naquele, a suavidade e um certo apaziguamento, diferença que, por certo, radica nas distintas personalidades e experiências dos dois realizadores, mas, sobretudo, nos momentos de vida em que cada um se encontra – pela ordem natural das coisas, mais perto do fim, no caso do Woody Allen (embora isto não passe de mera suposição...).
Num caso como no outro, espero que não se trate de despedidas, aliás, angustia-me podermos estar perante filmes-testamento...
Regressando, agora, ao ansiado filme do Pedro Almodóvar, o reencontro sucedeu há dias, com "Natal Amargo" (por qualquer razão, deixei passar as suas longas e curtas metragens, entretanto produzidas e exibidas por cá).
A título prévio, saliento não ter por hábito ler críticas sobre filmes, ao menos antes de os ver, mas, no tocante a este, abri uma excepção, pelo facto de ter deparado com o texto de um Autor cuja escrita e pensamento muito aprecio, o qual (acertada ou erradamente) me levou a supor que, em relação a "Dor e Glória", o filme talvez pudesse representar um retrocesso, por via do retorno à temática e estilo dos filmes dos anos 80, em que sobressaíam certas idiossincrasias, tendo como cenário ou pano de fundo a movida madrilena – como ficou conhecida –, com todos os seus excessos e tiques.
Isto, para dizer que a anunciada expectativa se deixou contagiar pelo receio de que "Natal Amargo" viesse, de algum modo, a decepcionar-me.
Ora – e afirmo-o com gosto – tal receio manifestou-se completamente infundado!
Na verdade, considero-o (mais) uma obra totalmente conseguida, que me maravilhou por razões de ordem vária, das quais destaco:
– A densidade psicológica, traduzida na objectivação dum processo introspectivo de auto-questionamento do próprio autor/criador, em fase de impasse, oscilando entre a vontade de se ultrapassar e a dúvida quanto à capacidade e modo de o conseguir e entre a insistência e a desistência no intento.
– As reflexões sobre o processo criativo, evidenciadas em interrogações de vária ordem, v.g., a criação artística é sempre autobiográfica (ou, no mínimo, comporta um reflexo dessa natureza)?; existem limites (éticos) à utilização de vidas alheias, maxime, se próximas, para a composição da obra artística, mesmo quando os artifícios da narrativa – v.g., mudança de nomes ou alteração de contexto dos acontecimentos – são susceptíveis de impedir a possibilidade de reconhecimento (da pessoa e da vida usadas)?
– As camadas em que se desdobra, a saber, a tentativa de realização de um filme dentro do filme, baseado, aquele, no desígnio deste, enquanto veículo da ideia/reflexão proposta como tema do filme, ou seja, segundo a minha leitura: deve um criador render-se, desistir, perante a escassez de ideias novas (a fim de evitar o risco de repetição, pura antítese da criação) ou, pelo contrário, o recurso a ideias usadas pode, ainda assim, consubstanciar inovação?
A resposta, segundo entendi, é um não rotundo, sendo magistralmente ilustrada pela cena em que o personagem/realizador desenha no écran do computador, uma a uma, em maiúsculas que invadem o écran da tela do cinema, as letras que compõem a palavra FIN, seguida de uma pausa em branco que, intencionalmente (ou assim penso), produz no espectador a convicção de que o filme terminou, impondo o desabafo frustrado, ora bolas, é só isto?; frustração apaziguada logo a seguir, quando se percebe que o guião ao qual se referia aquele fim (o do filme dentro do filme) é retomado, por força da determinação e resiliência do personagem/realizador, e o filme prossegue até acabar quando deve acabar, ou seja, quando o espectador fica habilitado a compreender a sua tese de que o renascimento criativo é não só necessário como possível, ainda que com recurso a temas recorrentes e à custa de muitas não cedências, inclusive à própria amizade (a assistente e amiga que o acompanhou durante vinte anos e não gostou de se ver retratada no filme), e ao apelo lucrativo de um mercado menor (implicando produzir um qualquer lixo para uma plataforma de streaming).
Este percurso é feito à base (ou à custa) de um processo de tentativa e erro, cedência ao modelo anterior versus adopção arriscada, porque polémica, de um novo rumo, é dizer, experimentação de novos caminhos, mudança de paradigma.
Efectivamente, aquilo que pode considerar-se a primeira parte do filme – através do filme dentro do filme, ou, como acima também referi, da sua primeira camada – aparenta hesitação, balança entre o retorno à temática emocional e kitsch dos primeiros filmes do realizador/não personagem, o auto-retratado Almodóvar (v. a cena de streaptise, a da festa louca, onde reina o excesso e a droga, ou as alusivas à da relação com a mãe), e a busca de temáticas inovadoras, consubstanciadas, v.g., na procura duma transição de paradigma (tão bem ilustrada pela personagem do bombeiro, um stripper especial, apenas nas horas vagas e por necessidades financeiras, que se recusa a vender o corpo, com a profissão principal de bombeiro, por vocação altruísta, confirmada no cuidado dedicado à companheira, que, de outro modo, também sugere a mudança da anterior opção pelo predomínio de personagens homossexuais...) e na incorporação de temas actuais, como o da saúde mental, tudo isso sublinhado pela mudança estética do cenário, com os interiores, o vestuário e o próprio perfil dos artistas/personagens bem mais cool, aliás, praticamente oposto ao dos tais filmes dos anos 80 (em cuja evocação, na cena de streaptise e na da festa da droga, o contraste, de resto e a meu ver, intencionalmente, fica a claro, inclusive, na escolha dos actores, com particular evidência para Rossy de Palma), não esquecendo a evocação de Chavela Vargas (apesar de esta ser uma constante na filmografia do realizador, de quem era amigo e grande admirador).
Todavia, constatado o falhanço da tentativa, emerge a segunda camada, após aquele FIN enganador e frustrante, e a temática ganha um cunho autobiográfico e introspectivo, em que o personagem/realizador se enfrenta e desafia, na linha já anunciada em "Dor e Glória". Acabando por demonstrar que a criação não tem fronteiras ou limites, incluindo quando se serve da repetição de temas, no caso e em particular, a exploração de acervos biográficos.
Tendo vindo a reflectir sobre estes e outros aspectos do processo criativo, não hesito em aderir a tal tese, pelas seguintes razões: por um lado, creio ser consensual o carácter reduzido dos grandes temas objecto de obras artísticas e, por consequência, a sua repetição, pelo que o critério de aferição da criatividade da obra se desloca do tema eleito para a maneira como é abordado; por outro lado, enquanto criadora de textos e imagens, frequentemente ignoro de onde provêm as histórias que produzo, sabendo apenas que me saltaram da cabeça para as mãos antes de aterrarem no meio onde acabam plasmadas. Esta constatação aconselha, talvez, mas sem carácter definitivo, a excluir do seu carácter autobiográfico, que, no caso de outras, consciente ou inconscientemente, me servem de veículo de explicitação autobiográfica, nem sempre claro para os destinatários (de resto, quantas vezes não nos aconteceu ler, ver, ou ouvir uma obra artística e ficar na dúvida sobre se é pura invenção ou antes confissão voluntária ou involuntária do autor?). Em qualquer dos casos, e como creio decorrer do acima exposto, não subscrevo a opinião segundo a qual o carácter biográfico ou autobiográfico de uma obra deva funcionar como critério de apuramento da sua criatividade.
Por exemplo, este desenho de minha autoria, embora destituído de significado ou propósito intencional, na concepção/criação, e abstracto, na aparência, segundo posterior análise racional – baseada na interpretação da respectiva ambiência e das formas, sugestivas de espermatozóides e óvulos, que nela confluem –, assume natureza autobiográfica, pois reflecte, de maneira inequívoca, a minha concepção da geração da vida como momento de escuridão ameaçadora, visto nos remeter para um mundo obscuro e inexplicável, fonte primeira da angústia existencial, nossa companheira de vida, desde que, sem direito a audiência prévia, somos fabricados e despejados neste mundo, ou, na magnífica formulação do poeta: "Venho da terra assombrada do ventre da minha mãe..." (poema "Fala do Homem Nascido", de António Gedeão, que viria a servir de letra à belíssima canção homónima, tão bem interpretada pelo Adriano Correia de Oliveira).



