sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

NO PRINCÍPIO, ÉRAMOS TODOS


no princípio, éramos todos
pai, mãe, irmão, avó (a de lá de casa)
galinhas, pombas, coelhos, por vezes
couves, árvores (a figueira, rainha indiscutível)
flores e, claro, as piracantas
baloiço, brinquedos, carrinhos e bonecas 
casa, obviamente, a casa
amigos das brincadeiras
empregadas domésticas

avozinho e avozinha (paternos)

tios, tias, primos, primas 
amigos e conhecidos
vendedores das lojas que frequentávamos

nuvens no outono
chuva e neve no inverno
explosão de cores na primavera
calor e moscas no verão

férias grandes eternas

muito mais, que não caberia nem na biografia do universo

no princípio, não constava o tempo
(falo apenas por mim)
memória imprestável, porque desnecessária
inexistente, pois
desejo e ansiedade, o mesmo
como experimentá-los, não havendo futuro?

no princípio, éramos todos e (porque) não existia o tempo
éramos todos, pois carecíamos de passado ou de futuro
o princípio fazia-se de agora, tão só agora
portanto, éramos todos, gloriosamente todos, para sempre

depois, a distância galgou
esticou-se a idade, sem detenção
a inexorabilidade do tempo a revelar-se
logo, a impor-se
nostalgias e arrependimentos
apreensões e antevisões
ofuscaram o agora

de repente, ou melhor, como se de repente
o agora deixou-se prender nas malhas do passado e do futuro
a aquietação cedeu à memória e à previsão

na verdade, não sucedeu de repente

primeiro, a morte da avozinha
(a morte da menina T. tinha ocorrido no tempo do agora
inspirou certo terror de mistério, é certo
mas ainda não o deslaçar do tecido do todos)

depois, a morte do senhor T.

mais tarde, o imprevisto crescimento de duas crianças
no espaço de nem meia dúzia de anos
deixaram de ser os meninos com quem, no princípio, brincava
como se meus bonecos vivos
a inesperada redução do tamanho do jardim e do corredor de jogar à bola
estranha e indesejada magia

ainda sem perceber bem, à deriva, confusa

mais tarde, morreu o avozinho

anos volvidos morreu a avó lá de casa

só para dizer que, por esta altura, já não éramos todos
tínhamos ido deixando de ser todos
tornou-se esperável a ceifa da passagem do tempo
instalação da incerteza
certeza feita da sabedoria da incerteza
nunca mais seríamos todos
a lastimável conclusão

ainda mais tarde
(mas sempre cedo de mais
não deveria sequer ter ocorrido nunca)
foi a vez da mãe
e do pai
morreram

certo que, no espaço do entretanto
agora espaço-tempo
espaço/tempo
apenas tempo
passado/futuro
(o agora obnubilidado)
o todo que éramos foi ampliado
(sem a minha contribuição
embora com o meu encantamento
digo-o em abono da verdade)

mas já não posso afirmar que fôssemos todos (os todos)
– como poderíamos ser todos
sob o domínio do tempo
abandonada a exclusividade do agora?

do núcleo duro do grupo inicial sobrámos dois
dois de os todos 
contaminados pelo tempo, irmanados
passado comum, futuro sabido, incerto no termo
à espera de se cumprir
como é da vida

mas, no princípio, éramos todos
no tempo em que ainda não existia o tempo
(a consciência do tempo, repito
falando apenas por mim)

no princípio, era seguro, aconchegante
o tempo por revelar, inexistente, pois
agora, na certeza da existência do tempo
da lonjura do passado, da proximidade do (fim do) futuro
impõe-se um regresso ao agora

já não o agora inicial
o do princípio, em que éramos todos
(sempre tínhamos sido e sempre seríamos todos)

todavia, um agora pacífico
olhar desvendado pelo tempo
felicidade de saber que, no princípio, fomos todos, para sempre
certeza (do desejo) de que, quando chegar a nossa vez de abandonar
outros todos desfrutarão dum precioso agora
saberão assimilar o depois
alcançar a paz da espera, como nós
(falo por mim, claro
mas espero que não só)

(em memória de todos os meus queridos mortos e com amor por todos os meus queridos vivos)






terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A PASTA DO PAI

Esta pasta, à semelhança de todos os objectos usados, conta uma história!

No decurso da sua longa vida, acolheu e transportou sábios apontamentos (escritos a lápis, em letra impecável) que o seu proprietário, com elevada competência e minúcia, elaborava para servirem de base às lições de Português, Latim e Grego, por si ministradas num Liceu Nacional – primeiro, em Castelo Branco, depois em Faro, Vila Real, Lisboa e, a encerrar o ciclo, novamente Vila Real (Liceu Camilo Castelo Branco). Também nela viajavam os "pontos" – maneira de, então, serem designados os exercícios ou testes – dos alunos, sempre avaliados com exigência e rigor, tornando o Professor tão respeitado quanto temido.

Todavia – como, aliás, será fácil adivinhar –, não é o seu uso ou préstimo que me conduzem a resgatá-la; trata-se, antes, das circunstâncias da sua aquisição, há quase um século, algures pelos anos trinta.

Tão pouco existe mistério ou aventura, drama ou tragédia em tal facto. Há, isso sim, desejo. E, principalmente, confiança e seriedade. E daí? – perguntar-se-ão. 

Já lá vou, mas, a título de enquadramento, devo adiantar que  o meu interesse deriva do contraste entre os valores enunciados e o panorama actual que, desditosamente, o mundo ostenta, caracterizado pela ausência, ou melhor, desprezo pelos mesmos, com toda a carga negativa que tal representa e implica para a Humanidade.

Esta situação é-me tão mais penosa quanto é certo tais valores terem-me sido incutidos como coisa natural, logo, tão fácil de acolher como impensável renegar. Esse ensinamento construiu-se de exemplo e não apenas de palavras, porém estas desempenharam um papel fundamental na sua transmissão, sobretudo quando contadas em forma de história, relato de acontecidos, como meu Pai e minha Mãe tinham por hábito fazer – sendo ambos maravilhosos narradores!

Ora, sucede que o dono da pasta era meu Pai e, apesar das décadas decorridas desde então, guardo num recanto encantado da memória a narrativa que, nas conversas servidas com as refeições, lhe ouvi, a respeito da respectiva aquisição. 

Frequentava ele a Universidade de Coimbra e, já próximo do fim do curso, encantou-se pela mesma, exposta – no esplendor do seu apelativo cabedal – numa montra da cidade; o desejo de a fazer sua não era compatível com o estado das depauperadas finanças, mas falou tão alto que o levou a dirigir-se ao lojista, a quem resumiu a situação e perguntou se seria possível reservar-lha, para, mal pudesse – o que esperava acontecer em breve, quando começasse a trabalhar – a adquirir; respondeu-lhe este que poderia levá-la de imediato e vir pagar quando possível. Assim se cumpriu o desejo e a condição, pela simples interligação de dois valores, do mesmo passo tão simples e tão fortes, a confiança e a seriedade! Duas faces da mesma moeda, a duma Humanidade digna desse nome e que, hoje em dia, parece em vias de extinção. 

Eis, pois, a história que nunca abandonou o meu imaginário... do real, a história que não podia deixar de contar!

Hoje, resgatei a pasta da arrecadação, limpei-a, passei-lhe um creme, deixei secar e poli-a com um pano seco. Mas, acima de tudo, não é o brilho devolvido ao desgastado cabedal que interessa, é o testemunho da história que conta e que, por isso, decidi preservar para memória futura, pois, apesar da diferença dos tempos, entendo ser assim que se constrói o tecido das gerações sucessivas, se assegura a presença dos (já) ausentes, se transmitem os valores estruturantes do verdadeiro Humanismo.

Deposito-a, pois, nas mãos (e no coração) dos que vieram depois de mim e já não auferiram o doce privilégio de a ouvir em primeira mão – a história da pasta do Pai... e esta própria.  






terça-feira, 7 de outubro de 2025

MARIA NINGUÉM (7): SURPREENDIDA PELA SORTE

certamente, ninguém ignora que uma coisa é tentar e outra conseguir. se os meus esforços para não adormecer foram hercúleos, não podem restar quaisquer dúvidas: em vez de me deitar, sentei-me na cama, as costas muito direitas grudadas à cabeceira e os olhos tão abertos que mais deviam assemelhar-se a faróis, tanto mais que o breu da noite, cercando o exterior da janela, cujas portadas me abstivera de fechar, contrastava, de certeza, com o brilho emanado das minhas esforçadas pupilas, tão desejosas da protecção das pálpebras quanto pressionadas pela necessidade de permanecerem arregaladas.
aguentei-me assim até me aperceber de que o silêncio reinante era tão espesso que até se conseguia ouvir; então, levantei-me de mansinho e espreitei pelo buraco da fechadura à procura de qualquer indício de movimento; os meus olhos foram invadidos por uma escuridão tão densa quanto a que reinava no exterior. com extrema cautela, experimentei o puxador (já arranjado pela sibila, se é que alguma vez estivera avariado!?) e constatei, não sem alívio, que a porta abria.
saí e, pé ante pé, dirigi-me à casa de banho, não por necessidade, mas para ver o que sucedia e dispor de uma justificação, caso a sibila me surpreendesse, vinda sabe-se lá de onde. como os meus receios não se tivessem cumprido (aleluia!), aventurei-me até à porta da rua. confirmei, tristemente mas sem surpresa, que, essa sim, estava fechada à chave, mas desta, nem rastos. como poderei libertar-me de tão estranho cativeiro?, lamentei-me num sussurro não pronunciado. 
em silêncio, regressei ao quarto e pus-me à janela, procurando ambientar a vista à maldita escuridão, no intuito de conseguir identificar alguma alternativa de fuga. muito vagamente, talvez mais de memória que de realidade, dei comigo a divisar o quadriculado da instalação para trepadeiras que antes havia confundido com um gradeamento. mas, o mais surpreendente foi começar a suspeitar da audição de vozes murmuradas, vindas mesmo dali debaixo da janela; desviando, agora, o foco, da visão para a audição, consegui, a custo, discernir a voz da sibila alternada com outra, mais profunda, aparentemente masculina; apesar do meu esforço hercúleo para apreender a conversa, não logrei tal feito, mas consegui distinguir as palavras "ela", "fuga", "permitir", "tens de ajudar-me" e, repetidamente, "sim", no que se afigurava um assentimento obediente da voz masculina ao que a voz de sibila lhe dizia, sugeria ou pedia (consoante referi, ignoro o teor do discurso, impossível de reconstituir a partir daqueles vocábulos esparsos). 
a impotência de perceber o que se passava, teve, todavia, o efeito de me espevitar a imaginação, levando-me a admitir que a sibila tivesse saído após a minha anterior incursão pela casa e, com sorte (muita sorte, na verdade!), talvez tivesse deixado a porta destrancada. 
munida de todos os cuidados, peguei na minha carteira, e aventurei-me, novamente, até à porta de entrada, agora numa directa, sem escala na casa de banho, visto não se me afigurar provável que, entretanto, a sibila houvesse regressado a casa. e, como se num desmentido da minha maré de azares, eis que deparei com a porta, não só destrancada, mas semi-aberta, pelo que, de imediato, aproveitando aquela sorte inesperada e antes que os desígnios do universo de virassem de novo contra mim, esgueirei-me sorrateiramente pelo pequeno espaço disponível, deslizando, em silêncio – em passos que (passou-me pela cabeça, vá-se lá saber porquê) emulavam uma dança do michael jackson desacompanhada de música; em menos de nada, tempo que, todavia, me pesou como séculos, atingi a macieira por onde tinha trepado em direcção àquele tenebroso destino de prisioneira (como me parecia ser a retenção naquela casa de bruxa). subindo à árvore, refiz o percurso inverso, de dentro do jardim para fora, até ter pisado a terra firme da estrada que me conduzira até ali, nem eu sabia se há um dia, dois dias, dois meses ou dois séculos.
ainda não refeita do salto, apercebi-me de um alvoroço vindo do interior do jardim, urdido de passos apressados e da voz de sibila que, entre o desespero e a raiva, gritava, "corbin, acho que ela fugiu, procura-a na rua enquanto vou ver dentro de casa".
quando ouvi a chiadeira do portão a abrir-se, já tinha dobrado a curva que, felizmente, a rua não tardava a desenhar, e ofegante da correria desvairada, parei um breve momento para recuperar o fôlego e ainda consegui ouvir uma praga proferida pelo tal corbin, ao constatar a minha ausência, seguida da pergunta, dirigida à sibila, "está aí dentro?", e a desesperada e ameaçadora resposta dela, "não, aquela maldita, devíamos ter tratado dela enquanto a tínhamos à mão, está tudo perdido! onde vamos, agora, encontrar o adubo para as trepadeiras?"
gelada com a ameaça contida naquelas palavras e a certeza de que, ao menos a minha intuição e, pela primeira vez na vida, a sorte estavam a bafejar-me, retomei a fuga com quantas forças tinha, sempre a direito, até me distanciar tanto daquela maldita casa, que a noite escura já dera lugar a um auspicioso – pensava eu – clarear e deparei comigo mesmo em frente da minha anterior paragem, a casa onde em tempos trabalhara para o casal de idosos.
os cães, talvez reconhecendo-me pelo faro, abstiveram-se de rosnar, mas não de latir animadamente, no que o dono deve ter interpretado como um anúncio de visitas, pois, logo de seguida, ainda em pijama e com ar ensonado, abriu a porta da rua e, notando a minha presença, sorriu alegremente e exclamou, "afinal regressaste, eu sabia que havia de voltar a ver-te! anda cá, entra e diz-me o que te aconteceu para estares com esse ar ainda mais assustado e exausto do que quando, há meses, passaste por aqui."
há meses? – eis a minha interrogação muda, enquanto, não sem receio, mas completamente exaurida pelo desamparo, me dirigia a ele, ignorando o que se seguiria, mas consciente de que há momentos em que a falta de forças nos deixa tão de rastos que, mesmo após sucessivas experiências traumáticas, nos vemos forçados a ceder às circunstâncias que se nos deparam, não obstante cientes da incerteza e do perigo, mas insistindo em agarrar-nos a uma (talvez vã) esperança num futuro melhor ou, no mínimo, menos mau.

P.S. : este texto é continuação do (post) de 29 de Julho p.p. e, com sorte, irá prosseguir. 




terça-feira, 29 de julho de 2025

MARIA NINGUÉM (6): TRAÍDA POR SIBILA

abri os olhos por virtude da luz forte que rasgava a fenda aberta entre as portadas da janela, desencontradas num encerramento imperfeito. o piscar das pálpebras trouxe-me de volta ao quarto da véspera e, reflexamente, fixei a porta, lembrando, num sobressalto, a chave que a sibila rodara na noite anterior. de um salto, saí da cama e, meia aos tropeções, dirigi-me ao puxador, rodando-o com quanta força tinha e que foi tanta ou tão pouca que o dito me ficou nas mãos, enquanto a porta permaneceu imutável, perfeitamente indiferente ao meu aflito esforço de evasão.
chamei furiosamente, com quanta gana me proporcionaram os pulmões: SIBILA, SIBILA, SIBILA!, mas não sucedeu nada, nem um som do lado de lá da indiferença da porta.
exausta e meia desvairada — estado em que, aliás, me encontrava desde a funesta queda das escadas e o que se lhe seguiu —, abri as portadas da janela de par em par e espreitei através da vidraça, fazendo pala sobre os olhos com as mãos, pois o sol incidia com intensidade desusada àquela hora que eu presumia ser da manhã, embora não tivesse noção exacta de quanto tempo permanecera a dormir, quem sabe se sob sedação. o coração comprimiu-se-me num aperto, mal os olhos o informaram de que o exterior da janela estava quadriculado por forte grade de ferro. vi o quintal da véspera aos quadradinhos, as macieiras carregadas das suas maçãs, o muro e, de braços cruzados a olhar para mim, com um sorriso matreiro, a sibila. tentei comunicar, mas o vidro da janela era demasiado grosso, parecendo impedir a passagem do som ou assim suspeitei. um pensamento precipitado, pois, de imediato, ouvi-a dizer, "o que fazes aí, rapariga? anda mas é ter comigo e aproveitar este tempo maravilhoso que não é eterno". abri a janela, sentindo-me estúpida por o não ter feito mais cedo, e respondi, "não consigo, a porta não abre, está trancada e o puxador ficou-me nas mãos". "ora essa! espera aí, que já vou resolver isso", reagiu a velhota. segundos volvidos, todavia suportados como eternidades, senti a porta abrir-se, sem que a chave tivesse sido rodada.  não consegui abster-me de exclamar, "mas a porta estava fechada à chave". "fechada à chave?, como assim, cá em casa só existe a chave da porta da rua, sou apenas eu e tu és a primeira hóspede que recebo desde que aqui vivo, onde foste buscar essa ideia?", retorquiu ela. gaguejei qualquer coisa, sem capacidade de resposta coerente e ela fixou-me de modo estranho, perdendo, por instantes, aquela bonomia de velhota excêntrica. estremeci num arrepio e, mal recuperei daquela gaguez inesperada, perguntei-lhe, "mas as grades", "quais grades?, interrompeu ela e eu, dirigindo-me para a janela, disposta a dizer, "estas", espequei de espanto e desconcerto, ao perceber que não havia tais grades, havia sim um gradeamento de madeira, muito próximo da janela, para o qual apontei, sem palavras. ela disse, "isso é uma instalação para trepadeiras, ficou aí encostada à espera de melhores dias, quer dizer, da visita do meu amigo corbin, que prometeu vir ajudar-me a fazer isso. bem, agora veste-te e anda daí tomar o pequeno almoço, se assim se pode chamar, pois, não tarda nada são horas do lanche".
obedeci, sempre a olhar para a porta, agora aberta, e em menos de nada apresentei-me na cozinha, onde uma mesa munida de torradas e café fumegante me aguardava. já mais serena, mas ainda perturbada, percebi que estava cheia de fome e, sem réstia de cerimónia, atirei-me às torradas como se não comesse há vários dias ou meses ou anos, sei lá! ela olhava-me regalada, como se feliz por testemunhar aquele prazer que me proporcionava e eu, com um sorriso tímido, pedi-lhe desculpa e agradeci, justificando, "parece que já não comia aí há um ano!" "foi exactamente há um ano e meio", disse ela, como quem fala para si própria e exibindo a falta de dentes num sorriso maroto. ora, eu tinha acabado de introduzir na boca um grande pedaço de torrada e o espanto e o medo causados por aquela sua declaração induziram-me um engasgamento ruidoso e aflitivo, que ela se apressou a interromper, batendo-me nas costas e impelindo-me a cuspir o pão atravessado na garganta. com os olhos em lágrimas, não de choro, mas do sufoco pelo que acabara de passar, não consegui verbalizar a pergunta que se me impunha, mas os meus olhos devem tê-la transmitido, pois ela, sem perder aquele sorriso, agora mais perverso do que maroto, cacarejou, "ai rapariga, és mesmo assustadiça, então não vês que estou a brincar, não sabes que ninguém pode sobreviver sem se alimentar durante um ano e meio?" 
as palavras de sibila não me tranquilizaram, antes senti uma estranha inquietação, causadora de um sentimento de urgência em deixar aquela casa. porém, tinha-me comprometido a ficar uns dias para a ajudar nas arrumações. o melhor é despachar isto o mais rapidamente possível, decidi. fingindo serenidade e esboçando um sorriso – embora, receei, nada convicto –, perguntei à Sibila por onde queria que começasse o trabalho. "qual trabalho", perguntou, ao que respondi lembrando o compromisso que assumira em troca do acolhimento dispensado. "não me recordo de nada disso, aliás, a minha casa encontra-se na devida ordem, como sempre", respondeu ela, para grande desconcerto meu, enquanto, levantando-se e convidando-me a acompanhá-la, me fez correr todas as divisões da casa. assim pude constatar a perfeita ordem e limpeza que imperavam, em contraste com o que presenciara na véspera (ou será que não tinha sido na véspera?, inquietei-me). desarmada e quase sem palavras, murmurei mais um agradecimento pela sua bondade e anunciei a intenção de me ir embora, encaminhando-me para a saída, mas ela declarou firmemente que não podia sair, o sol acabara de se pôr e o melhor seria ficar mais uma noite, fazendo acompanhar as palavras do gesto decidido de rodar a chave na porta da rua e guardá-la no bolso.
mais uma vez, decidi desprezar o medo e engendrar uma maneira de fugir daquele cárcere. o primeiro passo seria não dormir, estar atenta aos acontecimentos, descortinar possíveis pontos de fuga... conseguiria?

P.S. : este texto é continuação do (post) de 15 de Janeiro p.p. e, com sorte, irá prosseguir. 






quinta-feira, 15 de maio de 2025

RAP DA CARANGUEJOLA ELEITORAL

são múmias ressequidas
passas mais que repassadas
sonhos de criança sonsa
espinhas atravessadas
sóis verdes a brilhar

e o país, triste país, que visão para o país?
ninguém sabe, ninguém diz!

são bonomias forçadas
em vez de zangas espantadas
d. lili deu o mote
quem podia resistir-lhe?
que avance a mota e o capote

e o país, triste país, que visão para o país?
ninguém sabe, ninguém diz!

são modos arruaceiros
setas sempre a disparar
ene matrioskas de trolleys
o silício a dar a dar
e o refluxo a atacar

e o país, triste país, que visão para o país?
ninguém sabe, ninguém diz!

são hospitais do sr. melo
esses e outros que tais
para quem tiver dinheiro
os outros, pobres coitados
morram de espera, nem mais

e o país, triste país, que visão para o país?
ninguém sabe, ninguém diz!

são cassetes, mais cassetes
mas sempre as mesmas cassetes
e vai e anda de roda
bora aí mais uma volta
que o cunhal ainda acorda

e o país, triste país, que visão para o país?
ninguém sabe, ninguém diz!

são promessas arremessadas
casa à borla para todos 
que o senhorio é quem paga
defesa das mães, coitadas
excepto as lá do partido

e o país, triste país, que visão para o país?
ninguém sabe, ninguém diz!

são falinhas mais sensatas
ares assim pró clerical
ideias muito bonitas
tudo muito ideal
falta testar no real

e o país, triste país, que visão para o país?
ninguém sabe, ninguém diz!

são hospitais para os pets
caminhas para os rafeiros 
tomai whiskas felinos 
sem-abrigo, o que é isso?
que continuem trapeiros

e o país, triste país, que visão para o país?
ninguém sabe, ninguém diz!

ninguém sabe ninguém diz
quem quer saber do país?

triste país condenado
povo mais desnorteado
desde sempre a improvisar
desde sempre a delirar
mas nunca a realizar
nem sequer delinear
um ideal, uma ideia
quanto mais concretizar!

 
(Nota: este texto – agora editado e "enriquecido" com o "episódio do refluxo" – ocorreu-me no dealbar do passado dia nove, na fase de transição para o sono; sentei-me na cama, escrevi-o, à pressa, no bloco colocado a jeito sobre a mesa de cabeceira, antes que se me varresse da cabeça, o que, aliás costuma suceder a muitas das brilhantes ideias e textos 😃 que os meus neurónios ousam criar em tal fase.)




segunda-feira, 28 de abril de 2025

WW III: CRÓNICA DE UM DIA ANUNCIADO


Há dois dias retida em casa, achaques diversos, estómago, coluna…
Hoje, faço um assinalável esforço para me levantar, mas tem de ser, preciso de ir levar aquelas duas miraculosas injecções para a coluna, passar pelo cabeleireiro e, sobretudo, arejar, distrair (ou não fosse a rua o meu modo de sobrevivência!). É uma da tarde, o visor do rádio está morto, a luz da mesa de cabeceira, também. Verifico a instalação eléctrica, não provém daí o apagão. Sigo para a cozinha, agoniada e com as dores lombares a apertar o cerco. Fixo-me nas árvores da rua, enquanto telefono para o número das avarias da empresa de electricidade. Estranho, a chamada não é estabelecida. Ligo para outro número da empresa, mas a mensagem anuncia grande demora no atendimento. Volto a tentar o primeiro  número. Sem êxito. Tento consultar a Internet, mas já não dá,  acciono os dados móveis, todavia, após um auspicioso início, vão abaixo. A rede já foi, em todas as suas vertentes e funções.
Penso na falta do som do rádio, minha companhia de levantar, de começar o dia.
Regresso ao quarto, vejo os miúdos universitários que habitam um dos prédios da frente. Pergunto se sabem alguma coisa, se têm rede. Rede também não têm, mas sabem ter-se tratado de um apagão geral, na Europa.
Penso no que não podia deixar de pensar, pirataria, ataque informático, Putin, Trump, ambos de conluio?
Penso que os receios infundidos pelo estado do mundo se estão a concretizar talvez (ainda) mais rapidamente do que esperava.
Penso, com preocupação, na minha família, será que algum foi apanhado no metro ou num elevador? E a minha sobrinha-neta, será que a sua intervenção cirúrgica, marcada para amanhã, poderá realizar-se? Como estará ela, já tão nervosa com a perspectiva, como a achei há dias!
Sigo a rotina de antes de sair de casa, com as devidas adaptações. Pequeno almoço, uma tosta com compota (não gosto, mas tento acalmar o enjoo), desacompanhada de café (isto das máquinas eléctricas!, comprar café solúvel para emergências, anoto mentalmente na lista de compras); lavo a louça, faço a cama, banho, ora bolas!, não dá para tomar banho, a caldeira funciona a electricidade e gás... 
Antes de sair,  renovo a conversa através da janela, os miúdos não sabem mais nada. Estão animados, como se nada fosse. Ainda bem, abençoada juventude!
Tirar o carro da garagem é impossível, o sistema é de monta-autos (elevador). Bem podia tê-lo deixado na rua, mas, vá-se lá adivinhar! 
Desço os quarenta e dois degraus que me separam da porta da rua, alumiada pela lanterna do telemóvel, saio. Um raio de um calor infernal (cada vez suporto menos o calor!). Mudo-me para o lado da sombra.
Circulam bastantes pessoas, com ar descontraído, como se nada fosse, ainda bem, algumas nas esplanadas dos cafés que continuam abertos.
Vou interpelando algumas, sobretudo as que olham para telemóveis (que, afinal, não funcionam), no sentido de obter informação, mas cada qual apresenta a sua versão. Versão um: apagão geral na Europa; versão dois, apenas em Portugal Espanha e sul de Itália ou França; versão três, para além destes, Marrocos. Quanto às causas, apenas uma versão, avaria numa central de França, pelos vistos conectada com toda a rede europeia, sem suspeita de ataque informático. Previsões, em geral, desconhecidas, até que alguém fala em até 72 horas.
Entro num café, com o objectivo de comprar um ou dois bolos secos (nem me lembro que também vende pão),  mas não compro nada, só há bolos com creme, o que, na circunstância, não me parece aconselhável.
Em conversa, a empregada, perante a versão da tal avaria em França, mostra-se  céptica, avança que isto foi mas é coisa do Trump. Concordo, ao menos ao nível da probabilidade.
Ainda acrescenta, bem andavam a falar no kit de emergência, mas este país! Não, digo, não é o país, somos nós, as pessoas, olhe, eu própria ando há tempos a pensar nisso, mas vou sempre adiando. Imagine que nem uma lanterna ou velas tenho em casa. Pois é, concorda, deixamos sempre tudo para depois.
Sigo para a loja do chinês, na esperança de encontrar o dito objecto, agora tornado essencial. Esgotadas, já foram todas! Miraculosamente, lá desencantam uns kits de lanternas para bicicleta. Fico logo com um dos três disponíveis e duas embalagens de pilhas extra.
Mais à frente, numa loja quase a fechar, consigo comprar pão.
O trânsito amontoa-se, caótico, como seria de esperar, com os semáforos em greve. Ouvem-se bastantes sirenes.
Já vi mais do que uma pessoa carregada com sacos do ECI. Uma delas informa-me que o supermercado está aberto e aceitam pagamentos multibanco. Talvez pudesse lá ir abastecer-me de qualquer coisa justificada pela situação. Mas não, apesar de ser tão próximo, falta-me a vontade e, sobretudo, as forças par continuar sob a espessura do calor.
Estou à porta de casa, subo os quarenta e dois degraus com recurso à lanterna acabada de comprar.
Penso em como irei ocupar este tempo, sobretudo esta perspectiva de silêncio, de falta de contacto (embora abstracto) com o mundo. No Covid, ainda havia telefones e Internet e aproveitei para fazer imensas coisas em casa. Neste momento, nem sei em que posição estacionar o corpo queixoso. E a incerteza, a falta de notícias, de saber o que se passa, incomoda-me. Contudo, permaneço calma, não fossem as maleitas e ia passear até ao jardim da Gulbenkian.
Penso que este acontecimento representa uma pequena amostra dos padecimentos daqueles que sofrem o terror das guerras (obviamente, os ucranianos surgem-me em primeiro lugar).
Curiosamente, enquanto falava com um desconhecido (hoje só falei com desconhecidos), à procura de notícias, abeirou-se de nós um homem jovem, a pedir, anunciando ser ucraniano. Não demos esmola (porque nunca se sabe se é fingimento).
Penso em contradições e arrependimentos, no abstracto e no concreto...
Desligo o telemóvel, para poupar carga. Lamento, ontem à noite, não ter deixado o computador a carregar, pois estava com metade da carga. Preguiça, vício de procrastinação.
Agora estou a escrever no iPad, que, mesmo não sendo usado, perde a carga muito mais rapidamente do que o computador. Já só tem 13%, nem deve dar para rever este texto, destinado ao blog, como crónica de um dia anunciado.
Penso no Papa Francisco, que talvez tenha partido em bom momento. E ocorre-me pedir-lhe que interceda pelo mundo, mas depois recordo que, agora, ele é pó de estrelas!
Ignoro se estou a ser apocalíptica, mas o que pensar perante a ameaça dos Trumps e dos Putins desta vida?
P.S.: Este texto foi escrito por volta das dezassete horas do dia 28 de Abril de 2025. Agora, que acabo de o editar, (obviamente) já há luz. O Primeiro-Ministro veio comunicar ao País o que se passa. Continuo sem saber qual foi a causa do apagão, nem sei se alguma vez nós, comum dos mortais, virá a saber. Mal possa, vou tratar do Kit de emergência. Amanhã irei à loja do chinês, reclamar da lanterna que deixou de funcionar (agora só dá luz se se mantiver o dedo premido)...




quarta-feira, 23 de abril de 2025

AUTOBIOGRAFIA: FUNDAMENTO


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Se tal imagem não constituiu a verdadeira recordação inicial, então qual teria sido a recordação inicial? Teria sido de mim (sim, até àquela altura, não creio ter-me ainda reconhecido enquanto eu)?

Muito mais tarde, ao longo do caminho da vida, ocasionalmente, sobretudo antes de adormecer, lançava-me à procura da primeira recordação e da seguinte e da seguinte, no obsessivo intuito de surpreender uma ordem capaz de me explicar ou organizar, como se carecesse de referências seguras para me sentir em harmonia e como se o controlo, fosse lá do que fosse, dependesse disso, precisamente disso, como se o caos não pudesse servir-lhe de fundamento.

Curiosamente, também me comportava assim em relação às coisas, necessitava de organização à volta, tudo nos seus devidos sítios, tal qual se isso condicionasse a possibilidade de (auto)domínio e libertação.

Acontece que as tentativas de organização dos factos da vida se perdiam, sistematicamente, no prelúdio de sonos agitados, como quem, partindo sempre do mesmo início, não consegue atingir um ponto final, sequer um ponto e vírgula, perdendo-se em abruptos parágrafos, na impossibilidade de estabelecer escalas intermédias, excepto uns quantos parêntesis espantados, talvez mesmo desconexos.

Quanto às coisas, algo de semelhante sucedia, nunca atingindo o ponto de arrumação definitivo, aqui pela entrega à divagação, quando não à preguiça, do (re)começo ou do seguimento, talvez porque o critério e o grau de exaustão requeridos, ou melhor, auto-impostos, eram de tal maneira exigentes que os esforços se pereciam em adiamentos sucessivos.

Tudo isto gerava-me (do mesmo modo que era gerado por?) uma ansiedade permanente e uma sensação de desordem que me manietava a liberdade de acção, aliás, de voar e de me sentir preparada para o último voo (ou mergulho, vá-se lá saber se a morte é voo ou mergulho, elevação ou descida!). Ou a isso, a esse adiamento repetido e angustiadamente sabido inacabado, servia de esfarrapada desculpa.

Os adiamentos formavam rios caudalosos, ramificados em afluentes vários, até que decidi escrever-me, talvez assim conseguisse avançar com a organização das memórias, talvez com esta chegasse a libertar-me das coisas, sobretudo da prisão das coisas – sim, as coisas funcionam como uma espécie de carcereiros; as memórias, ou melhor, as emoções guardadas (ou inventadas) nas memórias, quanto a estas não restam quaisquer dúvidas da sua natureza de carcereiras.

Impunha-se domesticá-las! Que melhor forma do que começar por conhecê-las, descrevê-las, tentativa de organização do caos?

Lancei mãos à obra, pela terceira ou quarta vez (em décadas)…
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