sábado, 25 de outubro de 2014

ALOBÉ, O VINGADOR!

 
aquilo parece ter começado num hotel-SPA de 5 estrelas, maioritariamente frequentado por indivíduos de raça caucasiana e, como é óbvio, de elevado poder económico. surgiu como se do nada, talvez mesmo do nada, e impôs-se com a velocidade dum raio e a voracidade destruidora dum terramoto de grau 9 da escala Richter, quem diz isto, pode dizer, da guerra de 1914-18, da pneumónica ou doutra coisa do género, não falta por onde escolher.
a princípio ninguém percebeu nada, pela simples razão de uma tal ocorrência não ser, de todo, habitual, quer naquele tipo de ambiente, quer entre aquele tipo de pessoas. os efeitos e os sintomas, esses sim, eram conhecidos, mas doutros contextos e com vítimas outras. daí a baralhação e desvario iniciais.
os atingidos foram prontamente transportados para unidades especiais, quase tão luxuosas como o hotel-SPA de 5 estrelas, onde os aguardavam os mais competentes e eficazes técnicos que era possível recrutar. isso sim, isolados da cabeça aos pés, em fatos-máscara de concepção altamente evoluída. enfim, tudo neles era insusceptível de contacto directo com as vítimas. não porque lhes fosse atribuído um valor sequer idêntico ao destas, mas porque eram imprescindíveis no complexo processo do seu salvamento.
enquanto isso, os mais reputados observadores e peritos indagavam em directo, no campo dos acontecimentos e em tempo real, qual poderia ser a causa duma tal catástrofe, porque, como é sabido, o conhecimento da causa das coisas, podendo não ser suficiente, é necessário para a neutralização das respectivas consequências.
apesar da quantidade e qualidade dos recursos disponibilizados, a obtenção de resultados revelou-se morosa e, entretanto, muitos iam caindo, após serem invadidos pelos tão receados ataques de febre, acompanhados de dores de cabeça, mal-estar geral e cansaço, inevitavelmente seguidos da diluição em sangue, vazado para o exterior ou retido sob a pele em medonhas bolhas,  como se algum demónio se lhes tivesse introduzido sorrateiramente nos corpos e se divertisse, furando-lhes as veias com agulhas de acupunctura ou faquinhas mínimas, mas muito bem afiadas. um verdadeiro horror, pobres ricos caucasianos! logo eles, sempre tão protegidos por excelentes redes sanitárias e meios de higienização e, para além do mais, dispondo de infindáveis recursos hídricos, que os traziam sempre devidamente lavados e hidratados. até em excesso, as mais das vezes, como quando pegou moda submeterem-se a banhos públicos de água fria, derramada sobre os seus impecáveis fatos e arrumadas cabeças, apenas para anunciarem a participação em campanhas caritativas, para as quais, todavia,  eram livres de contribuir sem espalhafato, e de publicitar sem manifestações exteriores de desperdício idiota dum recurso que, para tantos outros, era tão escasso. mas isto é apenas um aparte.
finalmente, a eficácia das observações e pesquisas de campo produziu o desejado fruto, permitindo concluir sobre a natureza e a causa da desgraça. na verdade, determinou-se que aquilo se desenvolvera junto dos utilizadores compulsivos de telemóveis, tablets e outros gadgets de ultíssima geração e da mais elevada tecnologia e, já agora, preço, consistindo na migração dum vírus que, a partir do sofware ou do hardware dos aparelhos, se introduzia no corpo dos utilizadores,  através da parte de baixo das unhas, e,  desde aí, se expandia pelo corpo adentro, passando a devorá-lo sem dó nem piedade. donde, as tempestades de sangue expelidas pelos desgraçados ou alojadas, em gordas bolhas, sob a sua pele. não contente com isso, o maldito vírus espalhava-se pelos arredores, apanhando os que tivessem estado em desprevenido contacto com os atingidos.
a comunicação social acompanhou inexcedivelmente o caso, desdobrando-se em requiems, em memória dos falecidos, e em comovidos aleluias, em honra dos regressados.
um comediante dado ao humor negro baptizou o vírus de Alobé, o Vingador. sabe-se lá porquê, caiu em desgraça e teve de partir, feito emigrado. escolheu África e por lá se deixou ficar.
 
 
  (Nota: imagem dum certo vírus, obtida em pesquisa no Google)
    
 
 


Sem comentários:

Enviar um comentário