terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A PASTA DO PAI

Esta pasta, à semelhança de todos os objectos usados, conta uma história!

No decurso da sua longa vida, acolheu e transportou sábios apontamentos (escritos a lápis, em letra impecável) que o seu proprietário, com elevada competência e minúcia, elaborava para servirem de base às lições de Português, Latim e Grego, por si ministradas num Liceu Nacional – primeiro, em Castelo Branco, depois em Faro, Vila Real, Lisboa e, a encerrar o ciclo, novamente Vila Real (Liceu Camilo Castelo Branco). Também nela viajavam os "pontos" – maneira de, então, serem designados os exercícios ou testes – dos alunos, sempre avaliados com exigência e rigor, tornando o Professor tão respeitado quanto temido.

Todavia – como, aliás, será fácil adivinhar –, não é o seu uso ou préstimo que me conduzem a resgatá-la; trata-se, antes, das circunstâncias da sua aquisição, há quase um século, algures pelos anos trinta.

Tão pouco existe mistério ou aventura, drama ou tragédia em tal facto. Há, isso sim, desejo. E, principalmente, confiança e seriedade. E daí? – perguntar-se-ão. 

Já lá vou, mas, a título de enquadramento, devo adiantar que  o meu interesse deriva do contraste entre os valores enunciados e o panorama actual que, desditosamente, o mundo ostenta, caracterizado pela ausência, ou melhor, desprezo pelos mesmos, com toda a carga negativa que tal representa e implica para a Humanidade.

Esta situação é-me tão mais penosa quanto é certo tais valores terem-me sido incutidos como coisa natural, logo, tão fácil de acolher como impensável renegar. Esse ensinamento construiu-se de exemplo e não apenas de palavras, porém estas desempenharam um papel fundamental na sua transmissão, sobretudo quando contadas em forma de história, relato de acontecidos, como meu Pai e minha Mãe tinham por hábito fazer – sendo ambos maravilhosos narradores!

Ora, sucede que o dono da pasta era meu Pai e, apesar das décadas decorridas desde então, guardo num recanto encantado da memória a narrativa que, nas conversas servidas com as refeições, lhe ouvi, a respeito da respectiva aquisição. 

Frequentava ele a Universidade de Coimbra e, já próximo do fim do curso, encantou-se pela mesma, exposta – no esplendor do seu apelativo cabedal – numa montra da cidade; o desejo de a fazer sua não era compatível com o estado das depauperadas finanças, mas falou tão alto que o levou a dirigir-se ao lojista, a quem resumiu a situação e perguntou se seria possível reservar-lha, para, mal pudesse – o que esperava acontecer em breve, quando começasse a trabalhar – a adquirir; respondeu-lhe este que poderia levá-la de imediato e vir pagar quando possível. Assim se cumpriu o desejo e a condição, pela simples interligação de dois valores, do mesmo passo tão simples e tão fortes, a confiança e a seriedade! Duas faces da mesma moeda, a duma Humanidade digna desse nome e que, hoje em dia, parece em vias de extinção. 

Eis, pois, a história que nunca abandonou o meu imaginário... do real, a história que não podia deixar de contar!

Hoje, resgatei a pasta da arrecadação, limpei-a, passei-lhe um creme, deixei secar e poli-a com um pano seco. Mas, acima de tudo, não é o brilho devolvido ao desgastado cabedal que interessa, é o testemunho da história que conta e que, por isso, decidi preservar para memória futura, pois, apesar da diferença dos tempos, entendo ser assim que se constrói o tecido das gerações sucessivas, se assegura a presença dos (já) ausentes, se transmitem os valores estruturantes do verdadeiro Humanismo.

Deposito-a, pois, nas mãos (e no coração) dos que vieram depois de mim e já não auferiram o doce privilégio de a ouvir em primeira mão – a história da pasta do Pai... e esta própria.