sábado, 6 de agosto de 2016

O SÉTIMO DIA


Entrou em casa como quem se limita a cumprir mais uma rotina. Atirou-se para o sofá cor de pedra e só encontrou forças para estender as pernas sobre o tampo de vidro da mesa de apoio, que, com o sofá e pouco mais, compunha a decoração da sala. Fixou as pálpebras fechadas, olhos vazios, por dentro, no écran vazio da televisão desligada (mesmo quando ligadas, os écrans são sempre vazios, pensou). Apetecia-lhe uma bebida gelada, mas a inércia e um cansaço pesado impediram-no de se mover. Um calor asfixiante gatinhava pelas paredes, reverberando em ondas opressivas. Fechara o bar pouco antes, após mais um dia, longas horas, a servir álcool aos clientes habituais e aos outros, os que apareciam e desapareciam como se andassem a cumprir a volta ao mundo, com o desígnio exclusivo de experimentar incessantemente locais novos. Era o sexto dia da semana. Seguia-se o sétimo, para descansar. Até Deus tinha descansado ao sétimo dia, depois de se ter dado à invenção do mundo. E, por definição, ninguém o obrigara, nem tivera de aturar o que ele aturava. Horas a fio a encher copos, uns duma coisa outros doutra, a controlar a clientela, gente que, de vez em quando, levantava reboliço, umas chapadas, uns socos, umas cadeiras pelo ar. E ele de intervir, de os acalmar, de restabelecer a calma, aquilo não era nenhuma espelunca, quer dizer, ele sempre se empenhara em que aquilo não fosse nenhuma espelunca. Até tinha contratado um pianista. Nada mau, por sinal. Afundava-se na música (Jazz) com uma entrega semelhante a desespero, talvez fosse mesmo desespero. Pelo menos, tinha a força que só este é capaz de exercer sobre as pobres almas de que se alimenta. Todavia, os sons emanavam com a leveza de breves aves a deambular por céus límpidos, ao sabor de aragens ligeiras e refrescantes. Ela, a mulher alta, esguia, de cabelo dourado a rasar as omoplatas, nunca parava de o olhar, embora com o olhar indecifrável dos míopes. Ocupava sempre a mesma mesa, nem a mais próxima nem a mais distante do piano, como quem pretende escudar-se em terreno neutro. Consoante o ouvia e fitava, fazia deslizar os dedos compridos, de ossos salientes, talvez um pouco masculinos, numa deambulação permanente, ora sobre as pernas, alisando o pano da saia justa, ora à volta duma madeixa de cabelo, como quem precisa de domar ou controlar alguma coisa. Alguma coisa ou alguém, podendo ser ela própria - pensava ele, agora abandonado no sofá cor de pedra. Vinha sempre acompanhada, nem sempre do mesmo homem, com o qual, fosse um ou outro, mal trocava meia dúzia de palavras. E, quando o fazia, mal o olhava, permanecia fixada no pianista, como se hipnotizada pelos sons que ele libertava do piano com uma fluidez de encantamento e uma força de guerreiro. Eles, os acompanhantes, pareciam desempenhar o papel de meros passaportes para a sua entrada no país da contemplação do pianista. Talvez não gostasse de entrar sozinha no bar. Por vezes, tocavam-lhe com os dedos. Eram gestos de ternura, de afirmação ou promessa de posse, ou de mera provocação. Ela não reagia ou, então, revelava enfado ou retribuía mecanicamente, sem olhar, sem sequer olhar. Uma ou outra vez, eles levantavam-se e saiam. Ela permanecia, como quem já se encontra a coberto das fronteiras transpostas, podendo dar-se ao luxo de dispensar o passaporte. Mas, pouco depois, saía também. O pianista, que, na abstração do seu mundo tecido de sons, costumava perder os olhos semicerrados no infinito, não se apercebendo de nada nem de ninguém à sua volta, foi captado pela insistência daquele olhar. Desde a primeira vez, quando a viu entrar num movimento longo e tenso. Retribuiu. Os seus olhos abriram-se para ela. A sua imaginação abriu-se para ela. O seu desejo abriu-se para ela. O coração, não se sabe. Afinal o coração tinha-se-lhe perdido há muito tempo e talvez fosse difícil de encontrar. Talvez já nem existisse. Não que isso devesse fazer qualquer diferença, pois nada no olhar, no corpo ou nos gestos dela sugeria a retaguarda dum coração. Um dia, ele resolveu ousar. Interrompeu a música, agradeceu os aplausos que sobrevoaram o bulício geral, levantou-se e dirigiu-se ao balcão, passando rente à mesa dela e acenando-lhe um sorriso tão cauteloso quanto convidativo. Ela, que, mal ele parara de tocar, baixara a cabeça e mostrara uma inquietação como se fosse urgente partir, retribuiu-lhe o sorriso. Sem cautela, sem a intimidade dum convite, com naturalidade e, sobretudo, com distância. O homem que calhava acompanhá-la naquela noite perguntou-lhe:
- Conheces o tipo?
- Qual tipo?
- Ora, não te faças de parva, o pianista?
- Ah! o pianista, que me lembre não. Porquê, tu conheces? Obviamente, o acompanhante não gostou, sentiu-se feito parvo, ninguém gosta de se sentir feito parvo, fixou-a com olhos afogueados e disse,
- Olha, estou no ir. Vens?
- Não, fico mais um pouco.
Mas só fingiu ficar, como se apenas quisesse desafiá-lo ou desfeitiá-lo. Deu-lhe uma vantagem de cinco minutos, levantou-se e saiu. Antes, porém, dirigiu-se ao pianista, que acabara de beber um gin, encostado ao balcão. Falou-lhe como se o conhecesse de sempre, só para dizer, enquanto lhe passava um papel para a mão, - telefona-me, se quiseres. Ele gaguejou qualquer coisa, não se percebeu bem o quê, e, antes de se ter tornado perceptível, já ela desaparecera pela porta, deixando atrás de si uma sombra de cabelos esvoaçantes e um rasto de perfume duma frescura cortante, com uma nota ácida, tal qual o timbre da voz com que proferira aquelas parcas palavras.  Com o papel amarrotado nas mãos trémulas, ele correu para a porta. Demasiado tarde. Já nem o rasto de perfume permanecia. Ficou especado sob o néon que desenhava o nome do bar, O Sétimo Dia, e só então se fixou no papel. Estremeceu, com um arrepio gelado. Estava liso, tão vazio como o seu copo acabado de beber. 

Sentiu a transpiração a escorrer pelas costas abaixo, desencostou-se do sofá cor de pedra, desceu os pés do tampo de vidro da mesa de apoio e monologou, por que raio me vem sempre à ideia esta história, de todas as que testemunhei no bar? Podia escrever um romance pelo menos do tamanho de Guerra e Paz, só com as histórias que uma data de bêbedos solitários e lamechas me vomitaram para cima, como se tivesse alguma obrigação de os aturar. E sem pagarem mais por isso, às vezes, até as bebidas ficaram a dever. Todavia, é desta história que me lembro sempre. A história do pianista que nunca cheguei a saber se nem sequer tinha coração, se o tinha perdido ou se o chegou a encontrar. E da gaja, daquela estranha gaja.

Naquela noite decidiu fechar definitivamente o bar. Todos os dias passariam a ser o sétimo dia. Aliás, o sétimo dia passaria a ser a ausência de dias. Apetecia-lhe devorar qualquer coisa. Até não haver sobras. Contemplou os dedos. Começou pelo polegar da mão direita. 

Passados três dias, quando a empregada abriu a porta, deparou-se com uma mancha estranha no sofá cor de pedra. E um bilhete amarrotado. Desdobrou-o, cautelosamente. Em branco, nem uma letra ou um vestígio de cor. Vazio.  

(Nota: Escrevi este texto parcialmente sob influência do livro O Inverno em Lisboa, de Antonio Muñoz Molina, que estou a ler com uma espécie de encantamento pelo cariz poético da narrativa duma história de desencanto.)   







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