no princípio, éramos todos
pai, mãe, irmão, avó (a de lá de casa)
galinhas, pombas, coelhos, por vezes
couves, árvores (a figueira, rainha indiscutível)
flores e, claro, as piracantas
baloiço, brinquedos, carrinhos e bonecas
casa, obviamente, a casa
amigos das brincadeiras
empregadas domésticas
avozinho e avozinha (paternos)
tios, tias, primos, primas
amigos e conhecidos
vendedores das lojas que frequentávamos
nuvens no outono
chuva e neve no inverno
explosão de cores na primavera
calor e moscas no verão
férias grandes eternas
muito mais, que não caberia nem na biografia do universo
no princípio, não constava o tempo
(falo apenas por mim)
memória imprestável, porque desnecessária
inexistente, pois
desejo e ansiedade, o mesmo
como experimentá-los, não havendo futuro?
no princípio, éramos todos e (porque) não existia o tempo
éramos todos, pois carecíamos de passado ou de futuro
o princípio fazia-se de agora, tão só agora
portanto, éramos todos, gloriosamente todos, para sempre
depois, a distância galgou
esticou-se a idade, sem detenção
a inexorabilidade do tempo a revelar-se
logo, a impor-se
nostalgias e arrependimentos
apreensões e antevisões
ofuscaram o agora
de repente, ou melhor, como se de repente
o agora deixou-se prender nas malhas do passado e do futuro
a aquietação cedeu à memória e à previsão
na verdade, não sucedeu de repente
primeiro, a morte da avozinha
(a morte da menina T. tinha ocorrido no tempo do agora
inspirou certo terror de mistério, é certo
mas ainda não o deslaçar do tecido do todos)
depois, a morte do senhor T.
mais tarde, o imprevisto crescimento de duas crianças
no espaço de nem meia dúzia de anos
deixaram de ser os meninos com quem, no princípio, brincava
como se meus bonecos vivos
a inesperada redução do tamanho do jardim e do corredor de jogar à bola
estranha e indesejada magia
ainda sem perceber bem, à deriva, confusa
mais tarde, morreu o avozinho
anos volvidos morreu a avó lá de casa
só para dizer que, por esta altura, já não éramos todos
tínhamos ido deixando de ser todos
tornou-se esperável a ceifa da passagem do tempo
instalação da incerteza
certeza feita da sabedoria da incerteza
nunca mais seríamos todos
a lastimável conclusão
ainda mais tarde
(mas sempre cedo de mais
não deveria sequer ter ocorrido nunca)
foi a vez da mãe
e do pai
morreram
certo que, no espaço do entretanto
agora espaço-tempo
espaço/tempo
apenas tempo
passado/futuro
(o agora obnubilidado)
o todo que éramos foi ampliado
(sem a minha contribuição
embora com o meu encantamento
digo-o em abono da verdade)
mas já não posso afirmar que fôssemos todos (os todos)
– como poderíamos ser todos
sob o domínio do tempo
abandonada a exclusividade do agora?
do núcleo duro do grupo inicial sobrámos dois
dois de os todos
contaminados pelo tempo, irmanados
passado comum, futuro sabido, incerto no termo
à espera de se cumprir
como é da vida
mas, no princípio, éramos todos
no tempo em que ainda não existia o tempo
(a consciência do tempo, repito
falando apenas por mim)
no princípio, era seguro, aconchegante
o tempo por revelar, inexistente, pois
agora, na certeza da existência do tempo
da lonjura do passado, da proximidade do (fim do) futuro
impõe-se um regresso ao agora
já não o agora inicial
o do princípio, em que éramos todos
(sempre tínhamos sido e sempre seríamos todos)
todavia, um agora pacífico
olhar desvendado pelo tempo
felicidade de saber que, no princípio, fomos todos, para sempre
certeza (do desejo) de que, quando chegar a nossa vez de abandonar
outros todos desfrutarão dum precioso agora
saberão assimilar o depois
alcançar a paz da espera, como nós
(falo por mim, claro
mas espero que não só)
(em memória de todos os meus queridos mortos e com amor por todos os meus queridos vivos)
