sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

NO PRINCÍPIO, ÉRAMOS TODOS


no princípio, éramos todos
pai, mãe, irmão, avó (a de lá de casa)
galinhas, pombas, coelhos, por vezes
couves, árvores (a figueira, rainha indiscutível)
flores e, claro, as piracantas
baloiço, brinquedos, carrinhos e bonecas 
casa, obviamente, a casa
amigos das brincadeiras
empregadas domésticas

avozinho e avozinha (paternos)

tios, tias, primos, primas 
amigos e conhecidos
vendedores das lojas que frequentávamos

nuvens no outono
chuva e neve no inverno
explosão de cores na primavera
calor e moscas no verão

férias grandes eternas

muito mais, que não caberia nem na biografia do universo

no princípio, não constava o tempo
(falo apenas por mim)
memória imprestável, porque desnecessária
inexistente, pois
desejo e ansiedade, o mesmo
como experimentá-los, não havendo futuro?

no princípio, éramos todos e (porque) não existia o tempo
éramos todos, pois carecíamos de passado ou de futuro
o princípio fazia-se de agora, tão só agora
portanto, éramos todos, gloriosamente todos, para sempre

depois, a distância galgou
esticou-se a idade, sem detenção
a inexorabilidade do tempo a revelar-se
logo, a impor-se
nostalgias e arrependimentos
apreensões e antevisões
ofuscaram o agora

de repente, ou melhor, como se de repente
o agora deixou-se prender nas malhas do passado e do futuro
a aquietação cedeu à memória e à previsão

na verdade, não sucedeu de repente

primeiro, a morte da avozinha
(a morte da menina T. tinha ocorrido no tempo do agora
inspirou certo terror de mistério, é certo
mas ainda não o deslaçar do tecido do todos)

depois, a morte do senhor T.

mais tarde, o imprevisto crescimento de duas crianças
no espaço de nem meia dúzia de anos
deixaram de ser os meninos com quem, no princípio, brincava
como se meus bonecos vivos
a inesperada redução do tamanho do jardim e do corredor de jogar à bola
estranha e indesejada magia

ainda sem perceber bem, à deriva, confusa

mais tarde, morreu o avozinho

anos volvidos morreu a avó lá de casa

só para dizer que, por esta altura, já não éramos todos
tínhamos ido deixando de ser todos
tornou-se esperável a ceifa da passagem do tempo
instalação da incerteza
certeza feita da sabedoria da incerteza
nunca mais seríamos todos
a lastimável conclusão

ainda mais tarde
(mas sempre cedo de mais
não deveria sequer ter ocorrido nunca)
foi a vez da mãe
e do pai
morreram

certo que, no espaço do entretanto
agora espaço-tempo
espaço/tempo
apenas tempo
passado/futuro
(o agora obnubilidado)
o todo que éramos foi ampliado
(sem a minha contribuição
embora com o meu encantamento
digo-o em abono da verdade)

mas já não posso afirmar que fôssemos todos (os todos)
– como poderíamos ser todos
sob o domínio do tempo
abandonada a exclusividade do agora?

do núcleo duro do grupo inicial sobrámos dois
dois de os todos 
contaminados pelo tempo, irmanados
passado comum, futuro sabido, incerto no termo
à espera de se cumprir
como é da vida

mas, no princípio, éramos todos
no tempo em que ainda não existia o tempo
(a consciência do tempo, repito
falando apenas por mim)

no princípio, era seguro, aconchegante
o tempo por revelar, inexistente, pois
agora, na certeza da existência do tempo
da lonjura do passado, da proximidade do (fim do) futuro
impõe-se um regresso ao agora

já não o agora inicial
o do princípio, em que éramos todos
(sempre tínhamos sido e sempre seríamos todos)

todavia, um agora pacífico
olhar desvendado pelo tempo
felicidade de saber que, no princípio, fomos todos, para sempre
certeza (do desejo) de que, quando chegar a nossa vez de abandonar
outros todos desfrutarão dum precioso agora
saberão assimilar o depois
alcançar a paz da espera, como nós
(falo por mim, claro
mas espero que não só)

(em memória de todos os meus queridos mortos e com amor por todos os meus queridos vivos)