terça-feira, 4 de julho de 2017

O DR. QUINTINO AIRES, O DESENTUPIDOR DE CANOS E OUTRAS PARVOÍCES


I

Longas asas agitavam-se compassadamente
Dos extremos desprenderam-se penas breves
Vieram por aí a flutuar como macacos

II

macacos a flutuar? não, não pode ser, os macacos trepam, saltam, correm e guincham, mas não flutuam. que parvoíce! por vezes, acontece caírem, mas isso é outro departamento. sucedeu com o macaco andré - ignoro quem o baptizou -, habitante da aldeia dos macacos, ali ao jardim zoológico. galgou pela rede acima, lançou-se para os galhos da árvore mais alta e, vai daí, precipitou-se, em voo picado, até se esborrachar no chão, de cabeça. não foi lindo de ver e os outros macacos desataram numa berraria sem limites. o pasquim da manhã noticiou, com estrondo, DESGOSTO AMOROSO LEVA MACACO ANDRÉ AO SUICÍDIO.

o chefe da oposição, cansado de não ser ninguém e invejoso por não ter tirado o país do procedimento por défice excessivo - o máximo que conseguiu foi mergulhá-lo em austeridade excessiva -  apresentou-se aos noticiários nacionais, lamentou, com jeito condoído, o suicídio do macaco, e avançou, determinado, para a responsabilização do governo, designadamente por não ter disponibilizado apoio psicológico ao macaco, que, segundo desenvolvia o pasquim da manhã, acabara de sofrer um violento desgosto amoroso.

no dia seguinte, lá teve de regressar à hora nobre dos noticiários para pedir desculpa, porque, entretanto, veio a saber-se, agora com provas e tudo, que o macaco andré não se suicidara. tratara-se de mero acidente - escorregadela numa casca de banana largada pela macaca flausina, ignoro quem a baptizou -, ao qual, aliás, sobreviveu. a única ponta de verdade era o alegado desgosto amoroso (de primeiro grau).

o chefe do governo limitou-se a não comentar, de resto, nem sequer foi encontrado para perguntas. uns dias depois, veio a saber-se que tinha ido a banhos, para uma manta rota qualquer. cá para mim, o que ele quis foi deixar passar a carruagem até o som dos cães se extinguir - metaforicamente falando, claro. tudo muito pianinho, não fosse ter de dar explicações mais amplas sobre o estado subterrâneo - também metaforicamente - da aldeia dos macacos. para mais, a banhos ou não, já o chefe do governo se via confrontado com um novo escândalo, devido ao furto (?) dum dos submarinos - ou algo assim - do Portas, sem que ninguém se tivesse apercebido. assim tipo, elefante assalta Starbucks a meio da tarde e ninguém dá por nada. abençoada manta rota, ele há banhos bem oportunos. 

por essa altura, indiferente aos factos políticos, o dr. Quintino Aires, sob o esclarecido patrocínio da TVI, ofereceu-se para dar apoio psicológico ao macaco andré, no sentido de o instruir a ultrapassar a desilusão amorosa, por via da aquisição duma performance imbatível. quer dizer, prontificou-se a dar-lhe dicas sobre como fazer amor de tal forma que nunca mais macaca alguma ousaria abandoná-lo. e seguiu para o jardim zoológico, com uma câmara atrás, repleto de boa vontade (e de alguma vontade de protagonismo). 

a chegada do dr. QA foi saudada com enorme gritaria, que ele pensou ser de júbilo e reconhecimento. enganou-se, não passava dum disfarce para o riso que assolou a macacada, especialmente duas macacas que se contorciam de gozo, enquanto diziam:

- ó prima, já viste como o homem é feio?, mais feio só um autoclismo dos antigos, aqueles de maçaneta, ou uma esfregona Vileda consumida pelo uso! 

- eheheh tens razão, quando olho para ele só me vem à ideia um desentupidor de canos, acho que é a boca, faz-me lembrar a parte de borracha dos desentupidores...

- bem visto, para não falar na expressão bovina dos olhos e nas mãozinhas sapudas...

- e na voz, na maneira adamascada ou almiscarada, quer dizer, enjoativa, de falar, sempre acompanhada do sorriso aparvalhado, como se a vida fosse um arco-íris permanente de cambalhotas...

- é mesmo, de o ouvir fica-se logo sem vontade de fazer amor! os televisivos deviam escolher melhor as pessoas que põem a falar do amor!

- parece que estás parva, não se diz do amor, é de amor...

- olha, vai dar uma curva com o Quintino, parva estás tu!

e riram, riram, escondidas num canto, para ele não perceber. 

III

Bem, se conseguiram chegar até aqui, já devem ter reparado que isto começou por tentar ser um poema. Depois, sem que eu saiba explicar porquê - inclino-me para o calor, cada vez me dou pior com o calor - descambou. Assim sendo, descambado por descambado, deixo mais duas pequenas notas: 

1) Espero que o Dr. Qintino Aires nunca passe por aqui, até porque, se passar, é capaz de pensar que me estou a atirar a ele; 

2) Porque, ao falar dele, me veio à mente outro homem igualmente interessante, o Dr. Pedro Arroja, sugiro à TVI que faça mais um reality show, com a seguinte designação e formato: Dá-te Aires e Arroja-te!, onde ambos se baterão por explicar as técnicas do amor e disputarão as mais modernas teorias sobre a proveniência das criancinhas. Ganha o que menos contribuir para o incremento da natalidade em Portugal.







(imagens obtidas em pesquisa no google)




sábado, 1 de julho de 2017

TALVEZ ÍCARO, PELAS RUAS DA AMARGURA


foi largada nas ruas da amargura. não percebeu porquê. quer dizer, mais tarde, quando se interrogou, não obteve resposta.
desenhou um objectivo, o objectivo - isto, antes de se interrogar. voar até ao cu do mundo.
ganhou asas. elevou-se. chocou com um raio de sol. queimou a ponta das asas, desequilibrou-se, veio por aí abaixo. desvoou aos tram-
-bo
-lhões. 
aterrou no beco dos caídos. esparramou-se. completamente ao comprido. não sobrou osso inteiro, pele lisa ou mente cristalina.

desdesparramou-se. Quanta dificuldade! endireitou os ossos, restaurou a pele à custa de muito betadine (mais tarde, veio a saber que betadine já não estava a dar. o mercurocromo tinha sido a vítima precedente. hoje em dia apregoa-se o bepanthene. nessa altura, ignorava tudo isto). clareou a mente. muita teimosia, foi o que foi.

restaurou a ponta das asas. com penas, muitas penas. nada ficou igual, nem os ossos nem a pele nem a mente nem as asas. numas coisas tornaram-se mais fracos, noutras mais fortes. o objectivo permaneceu, alcançar o cu do mundo, em modo de voo.

meteu-se a caminho, elevou-se. desta vez à tardinha, na hora em que o sol começa a abrandar. foi por aí acima, à força de mexer os braços, aliás, as asas. a ponta das asas, agora remendada com penas, começou a voar por si. desprendeu-se do resto. veio por aí abaixo. desvoou aos tram-
-bo
-lhões. 
não aterrou no beco dos caídos. soube amparar-se nas nuvens reboludas. circuitou até uma superfície aquática. mergulhou fundo e voltou. espavorida, a respirar a custo. mas nada de ossos partidos, nem pele arranhada ou mente menos cristalina. bem, talvez um pouco de cada coisa, mas pouco. só uma grande zanga. já tinha passado a fase de perguntar porquê.

o objectivo permaneceu, na essência. alcançar o cu do mundo, não importava o modo. talvez em nome da zanga, talvez por teimosia. talvez pela razão inicial.

não restaurou a ponta das asas. as penas que se f*******. deixá-las voar, dispersar-se. abandonou as ruas da amargura, que se f*******, elas e os becos sem saída e os tram-
-bo
-lhões
trambolhões traumáticos. aliteração? sorriu.

o cu do mundo ainda lá estava, não ia mudar de sítio.
não havia pressa.

meteu-se a caminho, desta vez, a pé. com calma.

ainda vai a caminho, desfrutando a paisagem.
que se f*** o resto, incluídos os porquês, sobretudo os porquês.

obviamente, houve muitos outros voos. outros haverá, talvez. não cabem todos aqui.

  





quarta-feira, 14 de junho de 2017

RABO ASSADO


Avenida da República, Lisboa, Portugal, há poucos dias. Calor de fritar os miolos. Cruzo-me com um casal jovem. Ela, uma miúda magra, enfiada numas calças muito justas, alça uma perna, joga-a para o lado, desenhando um passo incerto e alargado, e declara, tenho o rabo assado! Assim, exactamente isto, com o ar mais natural deste mundo, como quem anuncia, apetece-me um gelado, vou comprar frango assado para o jantar, ou algo do género.

De imediato, passa-me pela cabeça a imagem da Shakira no video clip do seu mais recente disco, a abrir as pernas dum jeito estranho, como quem vai seccionar-se em duas. O mesmo registo de vulgaridade.

Depois, começo a imaginar, cheia de curiosidade, qual a reacção do companheiro, destinatário de tal partilha de estado de rabo, por assim dizer (e não me ocorre uma maneira mais delicada). Infelizmente, como seguimos percursos inversos, não pude testemunhar a reacção do jovem, se de preocupação, de riso ou de vergonha ou qualquer outra. Talvez se tenha enfiado debaixo dalguma pedra solta, resto das recentes obras na avenida, é sabido que os trabalhos camarários deixam sempre buracos e pedras soltas.

Prossegui, sem pensar mais no assunto. Mas aquilo ficou submerso na minha mente sensível, o embate pelo que considerei uma expressão maior de mau gosto e falta de educação - mera constatação, desprovida de qualquer juízo censório, entenda-se - ficou a matutar-me nos miolos, quer dizer, na parte desocupada dos meus miolos. E, dias depois, acabou por vir à tona, em forma de hipóteses várias. Comecei a imaginar a resposta do namorado, caso não se tivesse atirado para debaixo duma pedra ou não tivesse perdido a fala ou a respiração ou ambas. Como não sei de que tipo ele era, vi-me forçada a divagar por um leque de suposições, de que deixo algumas:

(Tipo Velho do Restelo) - Olha, Sandra Vanessa, bem te avisei que não abusasses da pimenta!

(À defesa) - E eu com isso?

(Ao ataque, ciumento) - Tu lá sabes o que andas a fazer (ao mesmo tempo que, num gesto brusco, lhe larga a mão);

(Engraçadinho) - Não será gratinado?

(Sensível) - Ui, tadinha!

(Cinéfilo, evocando o clássico de cinema, O Último Tango em Paris) - Põe manteiga!

(Chocado, a dar razão à mãe, que está farta de lhe dizer que a Sandra Vanessa não é flor que se cheire, e após ponderar se há de meter-se debaixo da primeira pedra, permanecer calado ou fingir um ataque de surdez) - Nem sei que te diga!

(Do tipo dela) - ...


(Imagem obtida em pesquisa Google)




domingo, 11 de junho de 2017

A ACUSAÇÃO


(Nota prévia: o que segue fará parte, com as devidas adaptações, do projecto A Não História de Vladimir Blue, que nasceu neste espaço, em 13/05/2014, e, após alguns posts, continuou fora dele, com o ritmo ditado pela preguiça da autora...)

Desceu as escadas do duplex, quase em voo picado, ao mesmo tempo que gritava, já vou, já vou, parem de espremer a campainha. Mas a campainha não se calou enquanto não abriu a porta, assarapantado, o cabelo colado à testa, devido ao suor do pesadelo, e a mão agarrada ao peito, não fosse o coração escapulir-se, de tão acelerado batimento.

Deparou-se com dois homens, um dos quais, com ar sisudo e agressivo, rosnou:

- Polícia de Investigação Criminal, Coordenador Marques, Abílio Marques - aquela maneira de se fazer passar pelo James Bond de serviço, prosseguindo - e Inspector Neves. O senhor é? 
- Vladimir Blue. Posso saber o que desejam?
- Ora bem, o que nós desejamos mesmo, para começo de conversa, é saber onde o senhor estava ontem, entre as duas e as quatro da tarde. Mas vai responder-nos na sede. Esperamos aqui enquanto se vai vestir.
- Vestir?!
- Sim, a menos que queira vir assim, em pijama. É isso?
- Ah, ok, é que acabei de me levantar e vim por aí abaixo abrir a porta, mas posso dizer já onde estive, lembro-me perfeitamente, não preciso de ir à esquadra para isso, e...
- Não é esquadra, é sede da Polícia de Investigação Criminal...
- Ou isso. Mas, afinal, qual a razão da sua pergunta, será que posso saber?
- Vai saber tudo o que há para saber no momento e no lugar certos, agora é só acompanhar-nos.

Algo hesitante, Vladimir Blue retrocedeu, deixando a porta entreaberta, o que eles consideraram um convite para entrar, metendo os pés no átrio e cruzando os braços, como se tivessem combinado, em desafiadora atitude de espera.

Subiu as escadas, duas a duas, e, ainda mais rapidamente, pensou, já me relacionaram com ela, como poderá ter sido?, estou certo de não ter deixado vestígios, aliás, nem pegadas, aquele vento maluco tê-las-ia desfeito, com toda a certeza. Só se fui seguido para a duna, mas não me lembro de ter visto ninguém e, quando me vim embora, fartei-me de olhar para trás, à procura de mirones. Bem, a verdade é que toda a gente sabia que namorávamos, devem lá ter chegado por essa via. Nada do outro mundo. Basta-me acompanhá-los sem levantar ondas e responder às perguntas. Bem vistas as coisas, não tenho nada a confessar ou a temer.

A escuridão apavorada da noite cedera lugar à clareza da lógica, aleluia!, possuía um belo raciocínio matemático, esteio seguro para os trambolhões a que a emoção, não raras vezes, o expunha.

Já mais calmo, o batimento cardíaco serenado, dirigiu-se à casa de banho, passou a cara por abundante água fria, esfregou-a energicamente com a toalha felpuda, lamentou as olheiras descaídas quase até aos cantos da boca, o que poderia não dar muito bom aspecto, mas, enfim, sempre seria menos mau do que quando os atendeu à porta, vestiu um dos seus fatos de marca, sobre uma camisa com monograma e uma gravata casual, e desceu, enviesando um desvio em direcção à cozinha. Precisava desesperadamente dum café.

Quando o cheiro forte e convidativo se espalhou pela casa, o Neves (simplesmente Neves, pensou) disse, em voz tonitruante, a destoar do seu ar enfezado: 
- Ó Vladimir, não temos cá tempo para cafés, acompanhe-nos e é já, que se faz tarde.

Estremeceu, a chávena oscilou-lhe na mão sobressaltada e um respingo manchou-lhe as calças imaculadas. Aquelas manchas lembraram-lhe o sangue que vira escorrer do pescoço fino e acetinado de Akemi, os olhos toldaram-se-lhe numa névoa feita de água reprimida. Recompôs-se, sem perda de tempo, pousou a chávena no balcão da cozinha, olhou a máquina, já se tinha desligado, era automática, o último modelo da Nespresso. Fazia-lhe mesmo falta, aquele café abortado.

Quando se dirigiu à porta, já os dois polícias se encaminhavam para ele, caras de poucos amigos, olhares espantados no luxo liso do apartamento, nada de bugigangas, só grandes janelas, de alto a baixo, um sofá tão liso quanto branco, uma mesa de vidro, um enorme quadro quase a ocultar uma das paredes, cinzento, em várias gradações de cor e textura.

- O que é aquilo - perguntou o Marques, Abílio Marques.
- Aquilo?
- Sim, aquela tábua cinzenta pendurada na parede.
- Ah! é um quadro, intitula-se, Um Pouco de Nada. Gosta?
- E pagou por isso?
- Sim, claro, não foi oferta, mas, por acaso, tenho um mais pequeno, todo em tons de azul, também do mesmo pintor, oferecido pela minha namorada.
- E quem é a sua namorada?
- Como assim? O que é que isso interessa?
- Responda, limite-se a responder.
- Ok, não é segredo nenhum, a minha namorada é minha colega na Universidade e chama-se Akemi.
- Chama-se ou chamava-se?
As pernas tremeram-lhe, uma fuligem rosada cobriu-lhe o rosto. Disse:
- Como assim?
- Ora, a sua namorada, essa Akemi, está morta, não é verdade?
- O quê, o que está para aí a dizer? Como, está morta?
- Olhe isso é o que lhe viemos perguntar, como a matou, aliás, com o quê, como, até já sabemos.
- O senhor tem a noção da monstruosidade do que está para aí a dizer, dessa acusação sem sentido?
- Então vamos começar pelo princípio, ou seja, onde esteve ontem entre as duas e as quatro da tarde? Mas vai responder na sede. Toca a mexer, que já se faz tarde. Olhe e não se esqueça de trazer o telemóvel.












terça-feira, 23 de maio de 2017

PERDA


Rostos desfilam-me, claros, nos horizontes da memória
Rostos idos, entenda-se
Retidos num sorriso, numa exclamação, ou noutra expressão determinada
Suspensos nas pregas do tempo, imutáveis, vívidos

Outros rostos, os mais queridos, desvanecem-se, em sombra, nos horizontes da memória
Ameaçam perder-se para sempre
Ocultos nas esquinas do tempo, deslavados, fugidios
Revelam-se apenas por ínfimas parcelas
Uma boca, uns olhos, o mero esboço dum gesto perdido
Em vão, tento recuperar-lhes a voz, o olhar, o sentido
Sim, em vão

Recorro aos registos fotográficos
Desesperada forma de suprir a fuga destes rostos
Baralho-me nos horizontes da memória
Já não distingo o que lhes pertence e o que ficou simplesmente registado

Ocorre-me a palavra perda, formulo-lhe o pensamento
É isto a perda
Um tremendo animal que se alimenta de grandes esquecimentos e de pequenos truques


(Vídeo obtido em pesquisa no YouTube)








sábado, 6 de maio de 2017

A MULHER QUE ACABOU A CONTAR AS PALAVRAS


Os tempos iam-se sucedendo, primeiro lentamente e depois nem tanto, quando notei que falava cada vez menos. Descontadas as palavras de saudação e poucas mais, quase inexistiam conversas. Não que me fizessem grande falta, sempre fui mais de ouvir que de falar, ao menos até certa altura, justamente aquela em que as conversas começaram a escassear ou me dei conta disso. De qualquer das formas, sempre considerei que o mundo podia passar muito bem sem as minhas asserções. Cheguei assim ao ponto de, por dias seguidos, me limitar a exclamar bom dia, ao acordar, um bom dia dirigido a mim mesma, entenda-se. Obviamente, atrás do cumprimento, escondia um sorriso sardónico, uma vaga esperança, uma teimosia ou qualquer outra amostra de razão ou emoção. 

Digo isto por crer que tal estado foi a causa (última) da minha decisão: partir. Partir sem mais e sem propósito especial, a não ser o objectivo único de me afastar para um longe cada vez mais distante, de me confundir com realidades cada vez mais outras, em suma, de estranhar cada vez menos a ausência das palavras.

Não, não me podia queixar de falta de ligações, tinha-as, algumas até bem profundas, embora, isso sim, em número reduzido. Acontece que notava cada vez mais a fragilidade dos respectivos laços de sustentação, ou porque se criam fortes ao ponto da desnecessidade de demonstração, ou porque se julgavam eternos ao ponto da desnecessidade da urgência, ou porque... sei lá!, (já) não interessa. Fossem quais fossem as razões ou a sua falta, concluí que  os dois lados das minhas ligações, o meu e o dos outros, não partilhavam o mesmo tempo ou o mesmo lugar ou ambos. 

Gizado o diagnóstico, apressei-me a concretizar a decisão: parti. As despedidas foram breves, detesto dramas e dar nas vistas. Tudo se passou como um até logo (aliás, na vida quase tudo não passa dum até logo, embora, frequentemente e a posteriori, transformado em até nunca, por força da natureza das coisas,  das circunstâncias, do acaso ou sabe-se lá do quê, consoante).

Fiz-me à estrada, por assim dizer, usando tudo quanto se movia, desde automóveis e camionetas até aviões e navios, passando por comboios e quantos outros meios de transporte se possam imaginar. Presidia um só critério: levarem-me cada vez mais longe.

Através do mundo, cruzei-me com muitas pessoas e com ninguém, por vezes falei, nunca muito, cheguei a comunicar gestualmente, por desconhecimento da língua, outras vezes nem assim, que o significado dos gestos não obedece a um código universal. Alternadamente, senti-me entusiasmada, atordoada, cansada, despropositada, aparvalhada, perdida e encontrada (por efémeros segundos). Nunca admiti descontinuar o desígnio inicial, regressar apresentava-se-me como uma impossibilidade.

Já muito caminho adiantado, deparou-se-me a possibilidade de embarcar numa nave espacial, a caminho duma das primeiras viagens intergalácticas destinadas ao comum dos mortais, categoria a que pertencia. 

Por essa altura, ocorrera-me começar a contar as palavras proferidas diariamente. Não se tratou propriamente duma decisão racional, não pretendia, por exemplo, lançar as bases ou recolher dados para um estudo sobre a influência da falta de uso das cordas vocais no respectivo estiolamento ou, porventura e hipótese mais radical, na perda da fala. Talvez se tratasse, apenas, duma espécie de mania, do domínio da obsessão-compulsão: palavra dita, (logo) palavra contada. Talvez fosse isso. Ou não.

Comecei a viagem espacial em companhia de trinta e cinco pessoas, incluída a tripulação. O espaço era exíguo, mas havia um lounge, com bar ao canto, destinado ao convívio daquela gente suspensa em tanto de ociosidade quanto de curiosidade. Aí eram organizados passatempos, em especial, quando atravessávamos anos-luz de escuridão, creio que destinados a serenar alguma mente mais ansiosa e susceptível a ataques de claustrofobia. 

Calhou-me ganhar um dos passatempos, uma espécie de concurso em que venceria quem, num dado período de tempo, conseguisse proferir menos palavras. Num primeiro momento, fiquei admirada, pois nunca tive sorte ao jogo (nem ao amor ou a qualquer outra coisa, diga-se de passagem). Logo a seguir, caí em mim, e concluí, cheia de convicção, ora, está tudo explicado, isto não foi sorte, foi competência, fruto de muito tempo a contar palavrasPassei a interrogar-me sobre o prémio, alguma merda, pensei, com a sorte que me costuma assistir (diverte-me sempre usar esta expressão)! Mas não, tratava-se dum passeio numa nave monolugar, toda artilhada de automatismos, que me levaria ao Asteróide B612, em visita ao Principezinho. Não era mau de todo e sempre cumpria o objectivo de me conduzir para o mais longe. 

Animada de contentamento, agradeci o prémio, muito obrigada (duas palavras, contei) e preparei-me para partir. Um dos viajantes propôs-se comprar-me o prémio, mas, evidentemente, rejeitei, embora com certa cortesia, obrigada, mas não, quem sabe não ganha para a próxima (dez palavras, contei, quase um recorde). E lá fui a navegar, com a promessa do regresso da nave-mãe daí a umas horas, que não me preocupasse, e eu, ok, tudo bem, cheia de vontade de atingir o mais longe.

Passado um tempo, não sei calcular quanto, avistei um pontinho minúsculo que rapidamente se fez ali. Era o Principezinho, escarrapachado sobre o B612, uma perna para cada lado, quase a escorregar para o infinito. Os olhos derramavam-se-lhe pela cara abaixo, reflectindo em mim um olhar muito triste. Levantei a capota da nave, disse-lhe, olá, Principezinho (duas palavras, contei) e fiquei-me por aí, a tempo de não perguntar o que me ía saindo pela boca fora, porque estás tão velho? (seriam quatro palavras, suspirei, com pena). Ele não foi capaz de dizer nada, a não ser através do olhar. Fez-se-me uma vontade pungente de o convidar a vir comigo, talvez conseguisse arranjar-lhe ocupação, quem sabe, uma digressão pelos ministérios, escritórios e fábricas do Planeta Terra. Simultaneamente, um brilho intenso levou-me o olhar para outro lado. Seguiu-se um fragor de estilhaços e era a nave-mãe a desintegrar-se em fogo de artifício. Quando libertei o olhar daquela visão irreal e incandescente, já não vi o Principezinho.

Duma coisa, duma única coisa, estava certa, atingira o ponto mais longe da minha viagem. Como se o Principezinho e os ocupantes da nave ainda pairassem por ali, disse, adeus (uma palavra, contei). A última palavra.










sábado, 22 de abril de 2017

FOLHA EM BRANCO


uma gaivota convenceu-se que era pessoa, bicou uma nuvem e convenceu-se que era algodão doce. agradou-lhe o sabor, sentiu-se feliz, deliciada.

uma pessoa deu um salto e mergulhou a cabeça um pouco abaixo da superfície eriçada do mar, convencida que era gaivota. esticou os lábios e apanhou um pedaço de plástico brilhante (o brilho era mero efeito do reflexo solar). convenceu-se que era um pedaço de sushi. sentiu-se indisposta, agoniada, com a garganta a arranhar, do lábio superior correu-lhe um fio de sangue. passou a detestar sushi.

moral da história?

antes gaivota por um voo que pessoa por um mergulho

antes gaivota otimista que pessoa pessimista

o algodão doce tem uma textura e um sabor cem vezes mais agradável que o plástico

o sonho é que conta, a realidade só atrapalha

a poluição das nuvens nota-se menos que a do mar

as aparências iludem (mas isso já era sabido…)

se não tens imaginação, inventa

para um escritor inexiste folha em branco (existem, sim, folhas queimadas, ressequidas, desfeitas em nada, que podem ser restauradas, nem que seja à custa de palavras, apenas palavras, umas a seguir às outras, embora desligadas de sentido útil... ou lógico... ou real)

nem tudo o que se diz é verdade