sábado, 18 de maio de 2019

SEDUÇÃO


Praia em Maio, calor fora de tempo, a passar dos 30 graus.

Alonga-se sobre o pano largo e fresco, imenso como toalha de mesa de gigantes. Estão na moda, esses panos. A barriga, quase inexistente, afunda-se entre o triângulo formado pelo osso púbico e aqueles dois outros laterais, não me lembro agora como se chamam nem estou para ir googlar sobre o assunto, toda a gente sabe do que falo. As pernas e os braços estendem-se num comprimento e estreiteza de top model. O cabelo, longo e castanho claro, esvoaça ao sabor da brisa breve que atenua os rigores da temperatura. A pele brilha, sedosa, embrulhada em protector solar. O peito sobressai num tamanho superior ao indicado pelas demais medidas, mas é mesmo assim, de natureza, não por efeito de silicone ou outra treta qualquer. Nada que a perturbe ou prejudique, antes pelo contrário. Sente-se confortável nas suas medidas. Por acréscimo, não é a única a gostar.

Espreguiça-se sobre uma clássica toalha de praia azul escura, com um desenho qualquer em cinzento, nada de exuberante. Também ele se prolonga por uma altura para lá da norma. O corpo desenha-se-lhe músculo a músculo, exibindo uns abdominais tipo tablete de chocolate.

Para além do mar, em frente, da areia, por toda a parte, do céu lá em cima e das gaivotas que por lá passeiam, pouco há para ver. A praia está quase vazia, não admira, ainda não chegou o Verão e é dia de semana.

Em mais uma volta na toalha, para distribuir a quentura e a cor do sol, ele vê-a, ali ao lado, nem muito perto nem muito longe. Não consegue desviar os olhos, os mesmos que não deram pela sua chegada, ou porque estavam virados para o outro lado ou porque se tinham deixado adormecer. Ajeita os óculos de sol, de lentes verdes escuras e passa uma mão descontraída pelo cabelo, castanho escuro, enrolado em caracóis ligeiros e descuidados.

Também ela dá uma volta, é lei da praia bem distribuir a quentura e a cor do sol. Parece distraída. Ou faz-se distraída, vai dar ao mesmo. Soergue o corpo longo e esguio e coloca uma mão em pala sobre os olhos, lânguidos, fixados no longe, questão de medir distâncias. Acaba por se levantar. Em movimento lento e elegante, o peito a sobressair, orgulhoso, talvez mesmo atrevido, do fato de banho preto, caminha em direcção ao mar. Experimenta a água com um pé, questão de medir temperaturas.

Também ele se levantou. A uma distância prudente, nem demasiado grande nem demasiado pequena, acompanhou-a. Agora está ali, muito perto, a adentrar-se na água, quase a seu lado. 

Ao contacto da água, ela estremece, dá um pequeno salto para trás, furtivo, quase pirueta de ballet. Ele diz, «Está fria.» e, mal lhe vê o sorriso despontar nos olhos caramelo, acrescenta, um pouco estouvado, «A água, quer dizer, a água está fria, também não admira, ainda só estamos em Maio». Ela continua a sorrir, o que o faz sentir-se feliz e entusiasmado. Agora não tem dúvidas de que, finalmente, ela deu por ele. Nem imagina há quanto tempo isso já sucedera, ela a reparar nele, pelo canto do olho, defendida pela cumplicidade das lentes anti-reflexo.

Acabam por vencer a resistência ao frio - ou talvez se tornem imunes ao frio - e adentram-se no mar. Quando saem, cobertos de sal e sol, vêm a falar, ele mais do que ela, juntando às palavras gestos. Enquanto ela se senta no seu grande pano de praia ou lá como é que aquilo se chama, ele vai buscar a toalha. Ficam a uma proximidade de estender uma mão ou um pé e tocarem-se na pele. Não digo que se toquem na pele. Ao menos nesse dia. Mas que sei eu!

Maio continua com sol aberto e temperaturas elevadas, extemporâneas. A praia não saiu do sítio. A temperatura da água do mar é irrelevante. A toalha dele desapareceu. Usam apenas o grande pano tipo toalha de mesa de gigante. Dá bem para os dois e até sobra. Agora vivem pele com pele. 

Chega Junho e Julho e Agosto e por aí fora até um novo Maio. Regressam sempre em Maio, coisa de quem festeja, de quem gosta de anotar datas e festejar. Ele transporta o saco com o pano grande e os protectores e as demais tralhas. Ainda fica com uma mão livre para lhe passar pelo ombro nú, para lhe acariciar o ombro nú. Ambas as mãos dela ficam livres. Gosta de lhe despentear os caracóis, de lhe passear os dedos pelos lábios carnudos. E sorriem, sorriem sempre, como naquele primeiro Maio de mais de 30 graus e brisa fresca de despentear cabelos.

Não partilham apenas o pano de praia. Também a casa e, sobretudo, partilham-se. Estão felizes. É claro que falo em geral, dos pormenores do dia-a-dia sabem eles.

De repente, um dia, uma dor ou outro sintoma qualquer. Médicos chamados a pronunciar-se. Mau prognóstico, cumprido em menos de seis meses. Ela.

Agora posso dizer que ele está infeliz, muito infeliz mesmo, inclusive nos pormenores do dia-a-dia. Tudo lhe parece ter perdido o sentido. Abre o armário da roupa e fica especado a olhar, fixamente, como se ela pudesse saltar de dentro dum vestido um dum par de jeans. Encontra o pano de praia grande numa gaveta. Segura-o com força, quase o rasgando de dor e desespero. Leva-o para a cama, cheira-o e cobre-se com ele.

Chega um novo Maio. Vai à praia, aquela praia. Estende o pano grande na areia, mas não se deita nele. Dirige-se decididamente para o mar. Já com a água gelada pela cintura, olha para trás, para o pano, talvez com a esperança de a ver a acenar-lhe um adeus ou, quiçá, a levantar-se e vir ter com ele. O pano desapareceu, talvez levado pelo vento agreste, que este Maio não está como os outros. Prossegue. 

Não há vivalma na praia, excepto um passeante solitário. Observa. Aflige-se. Acena. Chama. Não se atira ao mar, que o mar está bravo e, além disso, não sabe nadar. Liga para o 112. Passada meia hora ouve-se uma sirene. O som aproxima-se. Extingue-se.

O corpo deu à costa dois dias depois.

Deixo passar um tempo, para aqui às voltas, e digo para comigo, irritada, «Agora é que a arranjaste bonita! Mataste as personagens, primeiro ela, depois ele! E agora, como vais fazer para prosseguir? Sem personagens não há história, segreda-te a voz da razão. Querias continuar, não os tivesses matado! É no que dá armares-te em deusa, criar e matar gente. Ainda por cima, cedeste a uma love story, para acabares mais depressa. Nesta escolha estiveste bem, toda a gente sabe que, a existirem, as love stories nunca duram muito.»

É Maio, meio de Maio, calor excessivo, extemporâneo, aí uns trinta graus, mais coisa menos coisa. Praia, estou na praia. Estico-me sobre a toalha. Acabei de passar protector solar pelo corpo. A preguiça inunda-me. Viro-me dum lado para o outro, a espaços, para repartir o calor e a cor do sol por cada centímetro de pele. Numa das voltas olho para o lado. Depois, levanto-me devagar e encaminho-me para a água, questão de medir temperaturas... 





terça-feira, 14 de maio de 2019

FORMIGAS DE VERNIZ ALADAS


seguro um pedaço de tempo
escorrega-me das mãos
cai
chão
espatifa-se em mil fragmentos
grito
não eu
ouve-se um grito
soltam-se estranhas criaturas


formigas de verniz aladas

sapos atravessados por setas de cupido
nunca viraram príncipes
talvez medo
ou outra poderosa razão
pobres delas
meninas de conto de fadas
na esperança de milagres

donzelas de alvos mantos gotejados de carmim
ai como é bom ousar, diz uma
para dentro de si
ainda ignorante de arrependimentos

sóis de queimar peles desprevenidas
todavia felizes
por isso felizes

pássaros a cantar em brados e em bandos
é o tempo do gozo colectivo

fixo os olhos no chão
que espanto!
fragmentos reunidos
aquele pedaço de tempo em minhas mãos 
recolheu-se e partiu
não voltará
aquele pedaço de tempo
aquele exacto pedaço de tempo
voou com as formigas
e os sapos
e as donzelas 
e os sóis
e os pássaros
e o que mais

eu fico
ainda







quarta-feira, 8 de maio de 2019

COM O NOME GRAVADO A X-ATO


Nem todos os livros são dedicados. Este, sim: Para a Margarida, minha flor, amor da minha vida. Dedicatória pirosa, pode dizer-se, mas era assim. Aliás, é assim, pois o livro continua a luzir em tudo quanto é estante de livraria e plataforma virtual, para quem o quiser ler. E são muitos, desde o início, mas especialmente a partir do momento em que um leitor atento, por acaso (ou talvez não) jornalista, pousou olhos perspicazes e inquisitivos na dedicatória e reparou em certa coincidência, aliás bem gritante. Daí a questionar-se foi um pulo, por alguma razão era jornalista.

Dois anos antes, Afonso Coutinho escreveu um romance. Não um romance qualquer, um thriller poderoso, daqueles que deixam os leitores de língua de fora, ofegantes e salivantes na expectativa do próximo parágrafo, da próxima frase, da próxima palavra, numa ânsia de descoberta, que não passa de necessidade visceral (e inconfessada) de sangue e mistério, de pavor e violência, vontade de atulhar aquele buraco sem fundo à vista que a natureza original, a criação ou seja lá o que for cavou e deixou exposto, mas a moral insiste em não permitir encher ou sequer explorar. 

Escreveu-o com a adrenalina ao rés da boca e da ponta dos dedos, quase a babar-se de prazer, como que espicaçado pela ideia de martírio e vingança e excitado com a concretização dum inimaginável martírio e duma vingança quente, embora executada a frio. E era tamanha a violência envolvida na ideia e no acto que só a realidade poderia superá-la. Quer dizer, o livro impunha-se, convencia, conquistava. Mais, era de molde a provocar retracção das entranhas - ou aquilo a que Vladimir Nabokov aludia como arrepio na coluna - e, no limite, a criar dependência. Em suma, atrairia leitores como mel a moscas.

A primeira Editora que abocanhou o manuscrito já não o largou. Aquilo prometia tornar-se numa mina de ouro. E assim sucedeu. O livro vendeu-se que nem pipocas - e não, descansem que não iria dizer como pãezinhos frescos, expressão tão déja vue (ou déja entendu) ou, para usar um cliché, tão clichê/lugar comum - num qualquer cinema UCI ou Lusomundo. 

O livro, de estilo cuidado e linear e ritmo trepidante, contava uma história de amor e morte. Não existem temas mais banais, poderá dizer-se, e é verdade. Mas não o é menos que todos os grandes temas são banais. Na melhor das hipóteses, tornaram-se banais. Acontece que Afonso Coutinho os abordou com enorme mestria, extrema originalidade e particular violência. E, como convém, o horror marcava logo a abertura, o incipitRezava assim:

O vídeo explodiu no YouTube com estrondo e tingido de vermelho, um vermelho sanguíneo a desdobrar-se como fitas de néon alumiando a mais escura das noites. O corpo deixara de o ser, membros seccionados à altura das axilas e das virilhas, dispostos em forma de cruz, perna seguida de braço, braço seguido de perna. Sobre as mãos, abertas, repousavam os globos oculares, muito escancarados. Pareciam de vidro, mas não eram. Ali ao lado, ele, corpo vivo, agitado num espasmo orgástico, segurava o restante, o tronco, encaixado nas suas pernas nuas, abertas e cobertas de sangue. Não se ouvia outro som, excepto o do seu brado animalesco. O corpo desmembrado tinha sido dela, Margarida, sua flor, amor da sua vida. O outro, corpo vivo, de face tapada, ignorava-se a quem pertencia. Só mais isto, os lábios dela, da que tinha sido Margarida, repousavam ao lado, exibindo um esgar que tanto podia indiciar pavor como gozo, talvez ambos… em momentos diferentes.

O jornalista leu-o sob uma náusea permanente, mas não foi imune à curiosidade, um crescendo de curiosidade. Em sua opinião, o livro estava muito bem escrito, a história era viciante, mas havia mais qualquer coisa, uma inquietação despertada pela suspeita de que por trás da ficção se escondia a realidade. Afinal, não estava tão na moda a mania das autobiografias ficcionadas ou das pseudoficções encapotando autobiografias? E havia ali uma paixão tal que se afigurava impossível tamanho grau de violência emanar apenas da imaginação.

Pôs-se a espiolhar todos os bocadinhos do livro à procura de mais, mais informação: quem era aquele autor, de onde surgira, que história carregava? Bem vistas as coisas, nunca antes se tinha ouvido falar dele. A digressão pela capa, contra-capa, badanas e páginas inicias do livro conduziu-o a uma descoberta inusual: inexistia nota biográfica relativa ao autor. Todavia, mal reparou na dedicatória, precipitou-se para o incipit. Lá estava, em ambos os lados: Margarida, minha flor, amor da minha vida; Margarida, sua flor, amor da sua vida. Um baque espantou-lhe o coração, uma nuvem negra atravessou-lhe a mente, Será que ninguém reparou nisto!, interrogou-se, perplexo e inquieto.

Contactou a Editora, pesquisou na Internet, indagou aqui e ali, por tudo quanto era susceptível de facultar respostas. Em vão: Afonso Coutinho não passava de pseudónimo, inexistindo a mais mínima pista sobre a identidade real do escritor.

A inquietação do jornalista aumentou. A curiosidade tornou-se-lhe indomável, não parava de se repetir: Ignoro como, mas hei de descobri-lo, nem que faça disso a missão da minha vida.

Passados uns dias de agitação, descortinou uma maneira: pôs-se a pesquisar os registos policiais e jornalísticos, à cata de mulheres assassinadas com um modus operandi idêntico ao descrito no livro. 

Ao fim de aturado trabalho e muita frustração, descobriu que havia um considerável número de mulheres de nome Margarida desaparecidas ou encontradas mortas, vítimas de homicídio, mas só lá para o décimo quinto ano anterior ao da publicação do livro deparou com o caso de certa mulher cujo corpo havia sido encontrado em circunstâncias coreográficas idênticas às descritas naquele macabro incipit. As únicas diferenças consistiam na ausência do assassino - ainda por identificar, como, aliás, já calculava - e no facto de ela ter o nome, Margarida, gravado a x-ato sobre o peito. De resto, permanecia por descobrir a sua identidade, tarefa dificultada por apresentar as pontas dos dedos queimadas e os dentes arrancados, horrores a acrescer aos descritos no livro.
O jornalista suspirou de alívio. E de inquietação…

Daí para a frente, dedicou a vida, exclusivamente, à tarefa de descobrir aquele autor fantasma.
Começou por lançar um desafio, amplamente divulgado em tudo quanto eram redes sociais. Rezava, apenas, isto: 

Afonso Coutinho, não te escondas mais, conta-nos tudo: onde jaz Margarida, tua flor, amor da tua vida?

Não tardou a ser contactado.

Entusiasmava-o a ideia de que o seu livro haveria de causar um estrondo maior do que aquele Com os Olhos nas Mãos, o thriller de Afonso Coutinho. O seu iria chamar-se, Nunca Escrevas uma Dedicatória.

Caso viesse a ver a luz do dia…



Notas: A ideia para este conto surgiu-me de um thriller fantástico, que li há pouco tempo. Trata-se de «O DIA EM QUE PERDEMOS A CABEÇA», romance de lançamento de Javier Castillo. Concretamente, reparei que o livro é dedicado «À minha tudo, pela qual daria a minha vida inteira, pela qual faria qualquer coisa» e que, logo no início, ao referir-se àquela que, por essa altura, se julga ser sua vítima, o protagonista usa uma expressão semelhante, minha mais que tudo, in pp. 12.

A citação de Vladimir Nabokov foi retirada do seu livro «OPINIÕES FORTES».






sábado, 9 de fevereiro de 2019

COMPRAR MARIDO!


Hoje, enquanto procurava um poema escrito há não sei quanto tempo, no tempo em que ainda usava papel e esferográfica (e os animais falavam!), deparei-me com um texto datado de finais dos anos 80 do século passado, no qual relato uma história verídica (entretanto passada ao esquecimento), cuja releitura me fez sorrir. Aqui a deixo:  

A Inês é uma criança muito engraçada. De bebé, era mesmo linda, com uns enormes olhos azuis (ou verdes), farta cabeleira loira e pele clara e sedosa. Agora cresceu, não muito, não parece que vá ser alta. A cabeça é grandota. Não está tão bonita, mas mantém a graça. Aquela coisinha tão pequena diz tudo, exprime-se muito bem. Tem três anos. É filha de uma vizinha -  de bom dia, boa tarde - e tem sido criada pela porteira cá do prédio, com muito carinho, ao que parece.

Um dia destes, ao chegar a casa, fui abrir a janela da sala, como de costume. A Inês estava lá em baixo, no pátio. 

- Olá, Inês!, saudei, cá de cima.

- Olá!, respondeu.

Palavra puxa palavrinha, perguntou-me:

- Porque estás a abrir a janela?

- Para entrar fresquinho, respondi.

- Olha que está vento! (como se quisesse avisar-me para ter cautela, não fosse constipar-me...).

Hoje, a cena repetiu-se. Lá estava ela, como se à minha espera (faz de conta, claro!).

Palavra puxa palavrinha e ela:

- Como te chamas?

- Isabel.

- E o teu marido?

- Não tenho marido.

- Porquê, morreu?

- Não, não tenho...

- Mas vais comprar?

- Sim.

- Então precisas de muito, muito, muito dinheiro! (e os bracinhos acompanhavam as palavras, às voltas, desenhando círculos, como a significar a grande quantidade de dinheiro que seria preciso para comprar um marido...).

É muito engraçada, a Inês! 



(Imagem obtida em pesquisa Google)




quinta-feira, 29 de novembro de 2018

ESTA FOTOGRAFIA


1 - APARÊNCIA

Chamo-me Esta Fotografia, Esta, nome próprio, Fotografia, apelido.
Alguém de entre vós, humanos, fez de mim a composição que sou, dito de outro modo, deu-me certa aparência e conteúdo. Não é de todo a mesma coisa, como bem sabeis. 
Talvez possa falar-vos de mim, para além da imagem que se reflecte de mim.
Sei que não conseguis observar-vos de frente, não digo uns aos outros, mas a vós próprios, quero dizer, olhos nos olhos, directamente. Só através de espelhos, esses falsos profetas cheios de enganos e ilusões que vos impedem de penetrar fundo, bem dentro de vós, do que realmente sois. Estão repletos do ruído da distracção, os espelhos, daí os enganos e as ilusões e, por via deles, a negação da essência.
Receio que, talvez por isso, ao olhardes para mim, possais quedar-vos na simples aparência, essa razão de superfície.
Sei que no meu caso, assim à primeira vista, sou uma paisagem clássica de por do sol em mar aberto, um mar calmo e escuro, cortado pela linha do horizonte, que o separa e une a um céu (ainda) um pouco menos escuro, mas a caminho da escuridão total. Lá ao fundo, um pouco acima dessa linha, equilibrando-se num vestígio de nuvem clara, repousa o amarelo redondo do sol, filtrado por neblina breve, a do entardecer, até se diluir, em brilho intenso, numa estrada indelével que caminha sobre o dorso do mar, conduzindo à sobra de um barco.
Mas atenção, isto é apenas a minha aparência, a superfície da composição que alguém fez de mim, e posso dizer-vos que quem só vê isto em mim, vê bem pouco de mim.
Sei que há muitas composições como a que represento, mas - posso assegurar - nenhuma delas representa o que sou, isto é, o momento, o estado, de que resultei, porque sou única, a fusão instantânea entre o ínfimo momento em que o botão da câmara foi premido e o estado de alma de quem o premiu, plasmada em mim para a eternidade, a eternidade do meu tempo de duração.
E é disto que vos posso falar, de tudo isto, que é tanto e tão pouco. Faço-o porque vos quero conduzir para além da minha simples aparência.

2 - SUBSTÂNCIA

No princípio era o tempo da normalidade. Casaram-se e tiveram filhos, dois. Tudo corria bem ou, pelo menos, na forma do costume, expressão habitual em cartas de antigamente. Podia falar-se de um quadro clássico, como o que, ao primeiro e desprevenido olhar, é visível em mim. Digo isto para simplificar, porque, se formos a ver bem, não há clássicos na vida das pessoas, cada caso é um caso, e, por vezes, mais do que um caso, que as coisas nem sempre se apresentam lineares e o que parece hoje de uma maneira, amanhã já assumiu outros contornos, de deixar uma criatura com a cabeça à roda e as pernas às costas, por assim dizer e se é que me entendem.
Depois, os dias começaram a trazer surpresas indesejadas, ou era uma dor ou um cansaço, não qualquer dor ou cansaço, uma dor e um cansaço de arrelia especial, para além do tolerável. Seguiu-se a ida ao médico, não por vontade - já se sabe, ainda está para nascer quem sinta vontade de ir ao médico, mesmo os hipocondríacos -, mas por absoluta necessidade. Ou então foi mesmo por aqui que começou, não pelo anúncio de dores ou de cansaço para além do suportável, mas através de simples exames de rotina (malditos sejam ou benditos, depende do ponto de vista).
O certo é que ela estava sentada frente ao médico, com as dores ou o cansaço ou os resultados dos exames de rotina pendurados no corpo ou nas mãos e um olhar interrogativo, suspensa das palavras mágicas que se seguiriam, como se seguiram, fatais.
Ele era um médico de pura tradição anglo-saxónica e avançou logo, frio, sem lhe fugir os olhos, como apenas se podem enfrentar olhos alheios, “A senhora tem cancro”.
Ela desatou a escorrer suores frios e a equilibrar tonturas e a torcer as mãos e a pensar para dentro, eu bem sabia que estas dores e este cansaço não podiam ser normais ou quem me mandou fazer as malditas análises, e ele, sem ao menos lhe perguntar se precisava de um copo de água ou de uma mão confortadora, perguntou-lhe, na sua frieza anglo-saxónica, “Quer perguntar alguma coisa?”.
A vontade dela era responder, “Sim, quero perguntar se tem a certeza do que está a dizer, se não se enganou”, mas a coragem desacompanhou-a. Sem coragem nem convicção, porque bem no fundo de si própria bem sabia que era verdade, aliás, estava farta de saber, mesmo antes de ter ocupado a cadeira à frente daquele desbocado frígido. Engolindo uma lágrima, para não lhe dar trunfos - sim, também sabia ser anglo-saxónica, nem que fosse só em modo de faz-de-conta -, endireitou-se de encontro às costas da cadeira e disparou, “Quanto tempo?”. Ele mexeu-se num desconforto nada anglo-saxónico, como se a pergunta dela fosse um rematado disparate ou uma bala disparada contra si, e tateou, “Como assim, quanto tempo?”. Enquanto via os filhos a desfilar na sua frente, um de dez e o outro de catorze anos, e, atrás deles, como sombra de enquadramento, o marido, ela endireitou-se mais um pouco, chegou mesmo o corpo à frente, como se fizesse questão de ficar mais perto dele, e num arremedo de normalidade, como quem se informa sobre o tempo, esclareceu, “Ora, quanto tempo tenho de vida!”, ao que ele, talvez um pouco tocado por aquela garra, respondeu, procurando amainar a frieza, “Bem, as coisas não são bem assim, hoje em dia o cancro pode ser apenas uma doença crónica e não uma causa de morte necessária. Teremos de fazer mais exames e só de posse dos resultados estaremos em condições de avaliar a situação e determinar a estratégia de tratamento a utilizar”. Ainda ia dizer mais coisas, mas ela interrompeu-o, insistindo, “Mas quanto tempo?”. Só então ele pareceu ter tomado consciência de que ela merecia ser acalmada, já não digo acarinhada, esboçou um sorriso a que não estava habituado, e afirmou, “Como lhe disse, vamos ter de fazer mais exames para aferir a gravidade da situação e determinar a melhor estratégia de cura”. “Cura, mas afinal tem cura?”, aventurou-se ela. “Pode ter, é prematuro antecipar conclusões ou simples prognósticos”, respondeu ele, lacónico. Talvez cansado daquela guerra que não era sua, começou a traçar rabiscos impenetráveis numa folha de papel timbrado, que lhe estendeu, anunciando: “Agora, o mais depressa possível, vai fazer estes exames e, logo que tenha os resultados, vem falar comigo, para definirmos o modo de actuar”. E, sem mais cerimónias, levantou-se.
Ela desceu as escadas do hospital, quase a tropeçar, dirigiu-se à rua, e as palavras ditas martelavam-lhe a cabeça. Curiosamente, não as palavras “a senhora tem cancro”, mas as palavras “modo de actuar”. De “modo de actuar evoluíram para modus operandi e isso transportou-a a uma sensação de dejá vu, memória de algum livro de estudo, experiência profissional, filme policial ou qualquer outra distracção.
Chegou a casa sem se lembrar como.  Pendurou o casaco no cabide da entrada e pensou em fazer o jantar. Os rapazes já tinham chegado, estavam nos respectivos quartos, o pequeno a construir um lego, o outro a jogar playstation. Irritou-se com a desarrumação dos quartos, por mais que lhes dissesse, eram incapazes de arrumar as roupas como devia ser, quem diz as roupas, diz as mochilas, os sapatos, os brinquedos e etc. Deteve-se no quarto do mais novo, preparada para levantar a voz numa admoestação, mas, em vez disso, estreitou-o nos braços, num abraço muito apertado, um abraço a roçar o desespero, e disse, “Filho, meu filho”. Ao fim de um tempo, entre a surpresa e o incómodo, ele libertou-se e, olhos nos olhos, perguntou, “O que se passa, mãe?”. “Nada, só que te amo muito”. “Isso já eu sabia!”, respondeu ele, com um ar maroto. E riu-se, mas era um riso inseguro, a suspeitar desgraça.
O marido chegou mais tarde, beijou-a como de costume, indagou, “Então a consulta correu bem?”. Foi aí que ela parou para pedir colo ou apenas porque já não aguentava mais, tanto faz, deixou as lágrimas cair e os soluços falar mais alto do que a resposta que tinha para apresentar e esta era, “Tenho cancro, mas não sei mais nada de concreto, nem sequer quanto tempo me resta de vida”. E as dores e o cansaço atacaram forte, ou em vez disso, ela limitou-se a pensar, quase num grito, por que raio me havia de ter dado para ir fazer os malditos exames de rotina?. 
O marido, ocultando como pôde a tremura das pernas, procurou animá-la, que iam vencer aquilo juntos, que, hoje em dia, o cancro já não era necessariamente mortal, que mortal era estar vivo - conseguiu brincar e ela conseguiu sorrir -, que não se atormentasse, que iriam consultar outro médico, os médicos que fosse necessário, e fariam tudo para sair daquela situação e dela iriam sair vencedores, nem podia ser de outra maneira. 
De repente, a voz do mais velho, encostado à porta da cozinha, fez-se pergunta ansiosa, “O que se passa, pai?”. “Nada, filho, não é nada, não te preocupes, vai por a mesa, que nós já levamos o jantar”, “Mas eu ouvi…”, “Não ouviste nada, são coisas da tua mãe e minhas, só isso”.
Em vez de por a mesa, bateu a porta da rua e desapareceu na noite. E o estrondo foi de tal ordem que o mais novo apareceu, esbaforido, a querer saber, “O que foi?”, e  só então reparou na palidez do pai e na cara afogada em lágrimas da mãe, afligiu-se e repetiu, em agonia, “O que foi?”, e pensou que o pai tinha sido despedido, porque vinha ouvindo ruídos de que o país estava em crise, muitos despedimentos e insolvências, e andava inquieto. O pai apressou-se a sossegá-lo, “Não te preocupes, filho” e logo a mãe, “Sossega, filho, não é nada, sou só eu que estou um pouco doente, mas vou ficar melhor, prometo”. “Doente como?”, inquietou-se o miúdo. “Ora, filho, não é nada de especial, as pessoas adoecem e depois curam-se e é isso mesmo que vai suceder comigo, juro”. E ele, o miúdo, rodeou-lhe o corpo com os braços finos, de criança, e desapareceu, sabe-se lá para onde, talvez para onde pudesse ir pensar na vida sozinho, será que a mãe vai morrer? E eles deixaram-no ir, porque não tinham nada melhor para lhe dizer e estreitaram-se nos braços um do outro.
O pai foi encontrar o mais velho a uns quarteirões de casa. Tinha os olhos vermelhos e dava pontapés violentos a tudo o que se lhe atravessava no caminho. “Anda, vamos para casa, filho” e rodeou-lhe os ombros. E foram e, no caminho, explicou-lhe - afinal já tinha catorze anos -, com palavras cautelosas e brandas - afinal ainda só tinha catorze anos -, o que se estava a passar. Depois, em resposta às perguntas difíceis, discursou sobre a esperança, aquela que havia de, forçosamente, “matar a fera”, disse.
Depois seguiu-se, verdadeiramente, o calvário. Primeiro a intervenção cirúrgica, depois a quimioterapia, os enjoos, a fraqueza, os cabelos a entregarem-se-lhe nas mãos como quem se rende e desiste de lutar por aquele corpo exaurido, depois a radioterapia, o corpo a arder como que para provar que está vivo. E aquela angústia permanente, a finitude anunciada em concreto, a dor funda, o sentimento de perda, de falta, o desgosto, já não tanto por si - que talvez fosse mais fácil desistir -, mas por eles, os seus meninos, o mais pequeno tão indefeso e confuso, o mais velho tão indefeso e confuso e revoltado, ambos tão órfãos, assim os vê, assim os imagina, assim os lamenta, assim se lamenta. E o marido, o companheiro incansável das horas boas e das horas más. Já não é por si, mas por eles. E então um pensamento involuntário - se é que há pensamentos involuntários, mas isso não vem ao caso - cruzou-lhe a cabeça, quando morrer, já nada sentirei, nada verei. E censurou-se, achou este pensamento perverso, egoísta, e pensou que não podia morrer, proibiu-se de morrer e decidiu lutar, prosseguir a luta, com força redobrada.

E ESSA É A ESCURIDÃO QUE TU VÊS NO MEU MAR A ANOITECER

Passou muito tempo, podia ter sido apenas um dia, um mês, um ano, que seria sempre demasiado tempo, mas foi mais do que isso. Foram dois, três, talvez mais anos, não que isso interesse muito, porque bastava que tivesse sido apenas um ano, um mês ou até um simples dia que iria dar ao mesmo, aquele machado pendente sobre a cabeça, sentença mortífera sem causa acusatória.
Mas a luta continuou e, como nem toda a luta que continua, estava a dar os seus frutos, o mal parecia ter sido contido, eliminado, pelo menos já não havia necessidade de mais tratamentos, o cabelo reconciliara-se com o corpo, até irrompera mais forte, as sobrancelhas reapareceram, os resultados dos exames mostraram-se esperançadores.
Ela manteve a atitude de guerreira, o sorriso voltou a alegrar os seus olhos. Ah!, se pudesse olhar agora os seus olhos, olhos nos olhos, directamente, sem espelhos de premeio, quantas revelações encontraria!, mas podia olhar bem fundo o olhar do marido, e isso reforçou o seu sorriso e adoçou-o. 
As crianças já andavam como que esquecidas do que foi, “como que”, sublinho, pois esquecimento definitivo é coisa que não existe, nem nestas nem noutras lides, tudo é lastro que nos compõe ou descompõe, apesar da memória e, paradoxalmente, por via dela.
E uma esperança sustentada deitou as garras de fora, qual flor de primavera estendendo pétalas ao vento. E ouviram-se os primeiros risos ao fim de muito tempo. E o médico - afinal era um óptimo médico - até já conseguia recebê-la com um sorriso aberto e congratulá-la, que “conseguiu, é uma lutadora, parabéns”, e ela, “obrigada, senhor doutor”, e o marido, que passou a acompanhá-la às consultas, exultava de contentamento descarado.
Mas ainda dominava um fundo de medo, a fera mordera forte, lançara o feitiço da finitude em modo concreto, ainda estremecia ao pensar na próxima revisão.
E aproximava-se a data, aquela data com que sonhou tantas vezes, e agora ainda mais, porque era cada vez mais merecido festejá-la. Ainda estava tudo muito fresco, sabia que as revisões nunca se podem dar por terminadas, mas aí, encheu-se de coragem - que, aliás, já demonstrara ser a sua marca -, manteve bem alta a bandeira da esperança que teve forçosamente de inventar ao longo deste tempo tão longo de agonia, e decidiu, Vou, vamos. Faça-se a festa, afastem-se os fantasmas, que se dane a fera, enterre-se a fera. E ele, o marido, não esperava outra coisa.
Trataram dos bilhetes, das malas, e partiram. Partiram para alto mar, que calhou ser o mediterrâneo. Foram fazer a festa, que afinal não é todos os anos que se festejam as bodas de prata, nem é todos os dias que se festejam outras vitórias bem mais radicais. E a esperança, embora trémula, venceu. E valeu a pena.
E ela aproximou-se da popa do barco e premiu o botão da câmara fotográfica. Assim nasci.

E ESSA É A CINTILAÇÃO QUE TU VÊS NA MINHA ESTRADA DE LUZ SOLAR REFLECTIDA NO DORSO DO MAR 

3 - ENTENDIMENTO

Apresso-me a concluir: não se limitem a ver em mim um simples por do sol no mar!
Embora me aventure a pensar que não foi assim que me viste pela primeira vez, antes de te ter contado a minha história; quase me atrevo a apostar que a razão por que te afastaste de mim foi porque o teu olhar me captou a escuridão, apenas a escuridão, quem sabe se lá bem no fundo não sentiste a camada subterrânea de angústia que me integra! E por isso fugiste de mim. Afinal, não são vocês, os humanos, pedaços uns dos outros, ecos repartidos do espírito universal? Depois, mas só depois de me teres levado a revelar-me, incompreendida que me senti, conseguiste alijar o peso da angústia, surpreender e celebrar a força e a esperança e regozijar-te com a vitória. E sentiste-te grata e, sobretudo, mais rica. E concluíste que com as fotografias é como com as pessoas, nem sempre a primeira impressão é a que acaba por contar, digam o que disserem.

E ESTA É A PARTE EM QUE PENSASTE QUE TALVEZ EU SEJA UM AMANHECER E NÃO UM POR DO SOL


(Fotografia de Manuela Moringa)















quarta-feira, 28 de novembro de 2018

QUANDO JB SE ENTREGOU!



Decorrido pouco mais de um mês da eleição para a presidência, Jair Bolsonaro entrega-se, finalmente.

O Brasil e o mundo acordaram estupefactos, quando o novo presidente eleito do Brasil, cuja posse está agendada para 1 de Janeiro próximo, anunciou que desistia do cargo, abrindo caminho a todo o tipo de especulações e convulsões sociais, que têm confrontado os seus correligionários e detractores, aqueles aventando hipóteses de conspiração, estes regozijando-se com a confirmação da falta de confiança e credibilidade que sempre defenderam ser a marca de Bolsonaro.

A situação apresenta-se tanto mais caótica quanto é certo que o anúncio não se fez acompanhar de qualquer razão ou justificação.

Começaram, assim, a ser adiantadas e a proliferar hipóteses para todos os gostos, desde presumíveis razões de saúde a ameaças e investigações criminais de que poderá estar a ser alvo, passando por tantas outras que mais parecem um concurso ao prémio de mente delirante do ano.

Curiosamente, instalou-se um florescente mercado de apostas, que está a levar os cidadãos brasileiros (e não só) à loucura e, seguramente muitos deles, à insolvência.

Cautelosamente, as potências internacionais têm-se eximido a comentar o assunto, à excepção dos EUA, que, pela voz do presidente Donald Trump, veiculada - como não podia deixar de ser - por um tweet precipitado e explosivo, não se inibiu de atribuir a decisão de Bolsonaro a manobras subterrâneas do PT, manifestando-lhe a sua inteira solidariedade e disponibilizando-lhe toda a ajuda, inclusive, armada.

Todavia, estamos em condições de afirmar que as razões são bem mais terrenas do que as especulações, sobretudo as de Trump, fazem supor.

Fontes próximas da igreja frequentada pela mulher de Bolsonaro informaram-nos que a verdadeira razão da desistência do ex-capitão tem um nome, um nome de mulher. Chama-se Rosa! É lisboeta, tem 25 anos e trabalha como enfermeira no hospital em que Jair foi tratado da facada sofrida durante a campanha eleitoral. Aí se conheceram e apaixonaram!

Dispomos, ainda, de dados para confirmar que o destino do casal será a capital portuguesa, onde não será de estranhar que a comunidade brasileira, mas também os próprios portugueses, preparem manifestações - de sentido contraditório - para receber o feliz casal.

Caso para dizer, “do Brasil a um aconchego chamado fado”, Bolsonaro entrega-se nos braços de uma mulher.

Nota: Este texto, totalmente inventado, surgiu de um desafio para criar uma notícia a partir de um título escolhido ao acaso. O título que escolhi, "Do Brasil a um aconchego chamado fado", pertence a um dos números da revista Ípsilon, mas ignoro qual a matéria abordada no mesmo... Trata-se, pois, de mera ficção, distinta das tenebrosas fake news, desde logo por não pretender passar por verdadeira...

(Imagem obtida em pesquisa Google)