segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO!


chamo-me António, fiz anteontem setenta e dois anos e não me considero nada mal, quer física quer psiquicamente. não fosse o testemunho da porra do cartão de cidadão e talvez estivesse apto a começar uma vida nova, mesmo que amparado na bondade de alguns comprimidos, colesterol, tensão, tesão, neste último departamento as mulheres têm mais sorte... seja como for, aderi à moda das gentes de calções de lycra que percorrem, em passo rápido ou em corrida, as múltiplas ciclovias com que os autarcas prodigamente debruaram as avenidas da cidade. às vezes até pratico em grupo, somos uns cinco ou seis, a mais nova, uma rapariga de pouco mais de vinte anos, toda ginasticada, está bom de ver, e os outros variando entre a minha idade e a dela, embora mais próximos desta. tenho os pernis mais musculados do que aos quarenta, em que o meu corpo se derramava, um bocado enfezado, submerso em pesada carga de trabalho e com pouco tempo para luxos, por essa altura ainda não havia a cultura dos ginásios, ciclovias nem sonhadas, e, se se visse um velho a correr pela rua fora, pensava-se logo que estava a fugir do asilo ou do Júlio de Matos e, havendo tempo e pachorra, ligava-se para o cento e quinze, ah! pois, isso do cento e doze já é uma modernice. ainda se me nota um pouco de barriga, mas está a diminuir, volta e meia ponho-me a sumos e vegetais para desintoxicar, o cabelo é o pior, deu em arrepiar caminho, da frente para trás, deixando-me a descoberto toda a parte da frente da cabeça, aí até ao meio, em compensação, sobram-me uns tufos que espreitam por trás das orelhas como duendes atrevidos e escorregam pelo pescoço abaixo, enrolando-se no colarinho das camisas ou no rebordo das t-shirts, agora dei muito em usar t-shirts, mas, voltando atrás, devo actualizar que pus fim à rebeldia desses cabelos à solta, tudo por causa da Aurora, Aurora, este nome traz-me sempre à ideia a aurora boreal e daí interrogo-me por que raio se há de dar um tal nome a uma rapariga acabada de nascer, agora talvez já não haja Auroras, digo, raparigas chamadas Auroras, auroras boreais continua a haver e não hei de morrer sem ver uma ao vivo e a cores, que gosto muito dos fenómenos estranhos da natureza... a Aurora é minha amiga recente, mais nova do que eu, deve andar pelos sessenta e picos, mais pico menos pico, vai dar ao mesmo, conhecemos-nos na academia sénior, simpatizámos um com o outro e vamo-nos encontrando por aí para conversar sobre o que calha ou para atualizar estados, como ela gosta de dizer. a dada altura, virou-se para mim e pronunciou, meio a sorrir, talvez com medo que eu levasse a mal, embora não fosse o caso, - ó António, não se ofenda com o que vou dizer, mas parece-me que ficava melhor se cortasse esses excedentes capilares (às vezes, dá-lhe para falar assim, ainda não percebi bem se a gozar ou a sério) que lhe sobrevoam as orelhas e o pescoço, e eu, - ora essa, até agradeço, e, vai daí, resolvi acatar o conselho, fui logo de seguida a um cabeleireiro unissexo, perto do sítio onde tomámos café, ali à Almirante Reis, e fiquei espantado com a dimensão e a decoração do espaço, enorme e todo a brilhar de metais, espelhos e falso cabedal prateado, com um ar muito novo, parecia que tinha entrado numa nave espacial e senti-me protagonista ou simplesmente figurante, tudo dependendo de como o corte saísse, dum filme de ficção científica e nisto dirigiu-se-me um fulano muito rebolado, com umas calças brancas coladas às pernas e ao resto, presas por um cinto cheio de picos metálicos e uma t-shirt preta de gola redonda, sem mangas, com aplicações prateadas na parte da frente, cabelo ultra-platinado, acho que é assim que se diz, pestanas mais reviradas do que as da Marilyn Monroe e uma boca excessivamente brilhante, ignoro o que era aquilo, com um gesto de mão deveras pronunciado, como se segurasse uma bandeja, que, em reacção ao meu pedido seco de corte de cabelo, respondeu - o sinhô mi disculpi, más mi páreci qui dívia fázê um álisámento, sinão o seu cábelo vai crêcê prós lados... e ainda continuava a debitar palpites, quando eu, já a ficar esgazeado, lhe vociferei nova ordem cortante, - é só cortar e rapidinho que estou com pressa, - o sinhô é qui sábi, foi a resposta dele, com um jeito todo amuado, de quem se sente incompreendido, e não, não sou homofóbico, não tenho nada contra homossexuais, não tolero é bichas, montadas em puro exibicionismo como se toda a gente tivesse de saber o que fazem nas suas horas privadas, ora, haja decoro e paciência! a Aurora tinha razão, o cabelo ficou bem melhor, agora a cabeça está mais homogénea, a chamar menos a atenção para a clareira dianteiro-central e transpiro menos do pescoço nas minhas corridas diárias pelas ciclovias da cidade, embora deva acrescentar que a careca nunca me impediu de despertar o interesse das mulheres, até tendo a acreditar quando se diz que é dos carecas que elas gostam mais, bem, se não gostam também não se queixam, e não digo isto para me gabar. o pior, repito, é mesmo a porra do cartão de cidadão, que bem podia chamar-se espelho do cidadão, da última vez que actualizei o meu, as rugas nasolabiais ficaram tão marcadas que pareciam cicatrizes, fui lá reclamar, a funcionária baixou os olhos para o cartão, levantou-os para a minha cara, voltou a baixar e a levantar e, impavidamente, decretou, - confere, afinal o que é que o senhor pretende?, tirei-lhe o cartão das manápulas e tomei de assalto a ciclovia mais próxima para espalhar a raiva e a frustração, depois, o meu neto mais novo, o Pedrito, que tem cinco anos, pegou a mania de me olhar fixamente e perguntar, com os olhos muito fixos, como quem tira uma fotografia, - porque é que o avô é velhinho? e eu de me rir, a disfarçar, e ele a voltar à carga, - quando é que o avô vai morrer? e eu já meio atrapalhado a tentar explicar-lhe que não sou assim tão velho e que morrer morremos todos e o puto a desatar aos berros, - pai, o avô está a dizer que vamos morrer todos e tu tinhas-me dito que o avô é que ia morrer um dia destes, e o pai muito aflito a ver se o calava, a prometer-lhe um lego ou outra treta qualquer e a dizer-me, - o pai não ligue, são crianças, são coisas que ouvem na escola, até que abreviaram a visita e me deixaram em paz, entregue à problemática do cartão do cidadão e tudo o que lhe vem associado. nem de propósito, há dias, não sei se por causa da exposição às forças da natureza, por via das aventuras nas ciclovias, se por outra razão qualquer, vi-me a braços com uma forte constipação ou resfriado ou gripe, não sei bem, só sei que não podia com o corpo, para ali esparramado na cama sem me conseguir mexer, era só tosse, febre e falta de forças, apetite em fuga e um enorme desamparo, ainda me passou pela cabeça telefonar ao meu filho, o pai do Pedrito, ou à minha filha, mas sei que têm uma vida do caraças, como foi a minha, é só trabalho, trabalho e mais trabalho, e ainda bem, é sinal de que não são vadios nem estão desempregados, e depois também precisam de descontrair e estar com os amigos nos tempos livres, compreendo isso perfeitamente, mas contive-me e resolvi esperar pela D. Gracinda, vem uma vez por semana dar um jeito à casa e sempre me ajuda nestas ocasiões, sem que tenha de chatear os meus filhos, só que desta vez, fosse pela violência da maleita, fosse pelo andamento do cartão de cidadão, dei comigo a pensar coisas que, já não sendo novidade, vou sempre adiando, refiro-me a coisas que qualquer pessoa e, muito mais, uma pessoa avançada na idade, deveria ter devidamente organizadas, tipo, o testamento propriamente dito, incluindo as disposições sobre o funeral, até já há um serviço duma funerária chamado funeral em vida que, segundo creio, responde antecipadamente àquelas disposições, não acredito que se trate de enterrar pessoas vivas!, o testamento vital  e várias outras coisas de ordem prática, pensei que era urgente atar umas pontas que tenho andado a deixar por aí à solta, e, mal me regressaram as forças, embora não suficientes para voltar a atacar as ciclovias, resolvi dar volta aos arquivos e veio-me parar às mãos um dossier com dezenas de cartas que há décadas escrevi aos meus pais quando a empresa para a qual trabalhei de contabilista e, depois, de gestor, me colocou numa filial fora do País, mais concretamente, em Espanha. como as cartas tinham sobrevivido à morte dos destinatários, achei que mereciam um tratamento à maneira antes de serem destruídas, vai daí decidi lê-las, assim uma espécie de ritual de despedida, como se o papel e a tinta e o mais que ali foi gasto, incluindo a memória dos olhos e dos corações que as leram, não devessem ir parar sem mais a uma qualquer central de reciclagem enquanto simples lixo, que era o que certamente lhes sucederia se me sobrevivessem, e uma passagem, em especial, despertou a minha atenção, já não me imaginava a ter produzido uma tal asserção, de resto eventualmente tão sábia ou cínica ou ambas, era dirigida à minha mãe, pessoa deveras ansiosa, sempre preocupada com o bem da família ou melhor, com os males reais ou imaginários que a poderiam afectar, e, a terminar uma frase de incentivo a que descontraísse e gozasse a vida, eu dizia mais ou menos isto, de resto, coração ao largo, que quem nos pôs cá toma conta de nós (seja Deus ou seja lá quem for), e, ao reler esta parte, espantei-me com a frase, com o facto de a ter escrito, e não pude deixar de pensar, ora muito bem, eis o meu momento "olhai os lírios do campo"! Sorri e decidi aplicar esta máxima ao meu caso.

(imagem obtida em pesquisa google)




quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

CAPUCHINHO VERMELHO: VERSÃO URBANA


Certo dia, a avozinha, montada em seus passos miúdos e periclitantes, caminhava através dum descampado, rogando pragas à vida e aos montes de lixo que se iam sucedendo. Da mão flácida e pintalgada de manchas castanhas pendia-lhe um envelope.

De repente, como que surgido do nada e de parte nenhuma, apareceu-lhe ao caminho um lobo, magro e decrépito, que logo a cumprimentou simpaticamente, - Bom dia, minha senhora! Bem, o dia está um pouco fosco, mas o que conta é o nosso estado de espírito, não é verdade? 

Ela encarou-o, de mau humor, e rosnou secamente, - Bom dia.

Cheio de paciência e astúcia, o lobo foi alimentando uma conversa de coisa nenhuma, até conseguir amaciar a avozinha, ao ponto de se atrever a gabar-lhe o chapéu que ela usava, sobrevoando a rala, cinzenta e desordenada cabeleira. - Que bonito chapéu a senhora tem e que bem lhe fica! - Acha?, respondeu ela, fingindo um espanto todo feito de vaidade. Sem dar tréguas ou espaço para reflexão, o lobo indagou, - E esse envelope, aí na sua bela mão, senhora, é o quê, alguma carta do namorado, perdoe-me o atrevimento? Ela fingiu que não sorria e respondeu, - Ora essa, qual namorado qual quê, nesta fase do campeonato! É o cheque da minha reforma, vou levá-lo a casa do meu neto, não que o senhor tenha alguma coisa a ver com isso. - Então adeus, cara senhora, foi um prazer esta conversa, vou andando que se faz tarde. E lá se foi o lobo, deixando-a de boca aberta e ar de lorpa.

Vencido o descampado, seguiu-se um amontoado de prédios de vários andares, todos de tom cinzento ou amarelado, que não dava para perceber se era da cor da tinta ou da sujidade. As ruas estavam povoadas de caixotes de lixo esventrados, de crianças ramelosas e de adolescentes abandonados às paredes, expelindo rolos de fumo e emborcando cervejas. A avozinha reafirmou as pragas ao mesmo tempo que pensava, já estou demasiado velha para isto, da próxima vez digo ao Sandro que vá ele a minha casa se quer o cheque. Mas era pensamento de pouca dura, que, mal via o neto, derretia-se toda, como se vivesse para aquele momento.

Chegada ao destino, subiu as escadas a custo, quatro andares, a arfar, quase a sucumbir, o maldito elevador mais uma vez escaqueirado. Meteu a chave à porta, entrou e estatelou-se no sofá torto e manchado do átrio de entrada, que era também sala de estar, de jantar e do que mais calhava. Recuperado o fôlego, pôs-se a chamar, - Sandro, ó Sandro, olha a avó!

Como o Sandro não desse sinal, levantou-se dolorosamente, balançou nas articulações gastas, e dirigiu-se à outra assoalhada, o quarto. Pelo caminho - um ou dois passos - ainda a animou o pensamento vertiginoso e mágico de que ele pudesse ter ido trabalhar. Mas não, lá estava refastelado na cama! 

- Olá, Sandrinho, é a avó! Olha, trago-te aqui o cheque da reforma, não é muito, mas sempre ajuda.

O Sandro, cheio de mau dormir - deitara-se de madrugada, depois duma valente confraternização com os amigos, acabada em monumental bebedeira -, mexeu-se no emaranhado da roupa de cama surrada, olhou para ela de má vontade, e disse, por entre dentes, - Deixa aí e pira-te que preciso de dormir.

A avozinha, habituada que estava àquele tratamento, não estranhou, mas, desta vez, não entranhou. Com mão enfurecida afastou a roupa de cima dele e preparava-se para o descompor, por uma vez, uma primeira vez, há sempre uma primeira vez, quando, subitamente, estacou, de boca aberta.

Os olhos do neto tinham um tom amarelado, da boca saíam-lhe tufos de pelos compridos, que não eram de gente,  e da cama pendia uma pele esfacelada de lobo,  a escorregar pelo chão, feita tapete.

Sem sequer perguntar fosse o que fosse, por exemplo, - Porque reluzem os teus olhos em brilho amarelo, Sandrinho?, a Avozinha pegou no cheque, bamboleou pelas escadas abaixo, atravessou as ruas decrépitas do bairro, voou sobre o descampado e fechou-se em casa.

(Imagem obtida em pesquisa google)






domingo, 1 de janeiro de 2017

UM PEIXE CHAMADO KAFKA


o mar desdobrava-se, lento, como lençol abandonado sobre corpo nu, solitário, exposto. a espuma das breves ondas quebradas ao de leve roçava-lhe os lábios e o nariz. fazia-lhe cócegas. renda macia, provocadora, de lençol de cetim branco. azul e branco. azul com renda branca.

ren-da-bran-ca. ren-da-bran-ca. ren-da-bran-ca...

acordou com aquele murmúrio, vindo não sabia donde.

não-sa-bi-a-don-de. não-sa-bi-a-don-de...

resistiu a readormecer (re-a-dor-me-cer...). levantou-se dum salto. pulo de gato, pensou. antes de mais nada, mesmo de poder espreguiçar-se, viu-os à sua volta. eufóricos, pequenos olhos malandros, acesos num gozo disparatado, bocas enormes, pelo menos em proporção, abertas num riso desgovernado, deixando espreitar dentinhos afiados como pontas de lápis. rodeavam-o numa dança estranha, dando voltas e mais voltas sobre si próprios, exibindo caudas buliçosas. caudas! só então reparou que tinham cornichos, pelos vermelhos semeados aleatoriamente nos corpos magros e nervosos, pés idênticos a patas de cabra. seguravam tridentes metalizados. são diabretes, é isso, concluiu. 

não paravam de se aproximar, estendiam os tridentes para a sua pele, mordiam-lhe a superfície do corpo nu. agitou-se, enfurecido. desatou a distribuir estaladas em todas as direcções. a cada uma caíam dois ou três, soltando gritinhos estridentes, enquanto rebolavam para longe, no chão, não fosse ele desaustinar aos pontapés. adivinhou-lhes o pensamento. desaustinou aos pontapés. chapadas e pontapés. ora tomem lá, desamparem-me a loja, vociferava com cara de meter medo ao mais empedernido belzebu. acabaram por fugir. assustados. ele ficou. exausto.

procurou sentar-se, mas não encontrou o rabo, quer dizer, um rabo de sentar. olhou para os pés, mas não estavam lá. equilibrava-se sobre um rabo de peixe, não um rabo que desse para se sentar. como é sabido, os peixes nunca se sentam. não foram feitos para se sentar. descansam doutras formas. calcula-se. levou as mãos ao rosto, melhor, pensou que levava as mãos ao rosto, mas não eram mãos, eram barbatanas. mesmo assim, levou-as ao rosto, para esfregar os olhos, não fosse dar-se o caso de ainda estar a dormir, vítima dalgum pesadelo. esfregar os olhos com força era remédio santo para acordar. não encontrou os olhos. ao fim de infindáveis segundos de desnorte - in-fin-dá-veis-se-gun-dos-de-des-nor-te... - verificou que os tinha dos lados da cara e não à frente. aliás, aquilo também não se parecia nada com uma cara. demasiado estreita, espetada para a frente como a quilha dum barco. os diabretes espreitavam à distância, mas ele não os via. estava demasiado ocupado consigo. consigo? comigo?, interrogou-se. sentiu-se completamente desidentificado. caiu no pânico.

as mãos transpiravam-lhe como se uma vaga de desidratação fosse a ordem do dia. os olhos espantavam-se numa tela de absurdo. o coração batia-lhe com tamanha força, velocidade e desordem que nem conseguia ouvir o despertador. o simples acto de respirar tornou-se-lhe tão asfixiante que não teve outro remédio. acordou.

a-cor-dou. a-cor-dou. a-cor-dou...

estendeu o braço para a mesa de cabeceira. parou bruscamente o despertador. no acto, derrubou o livro que, horas atrás, antes de embarcar no sono, deixara aberto. caiu de capa para cima. 

ca-iu-de-ca-pa-par-ci-ma. ca-iu-de-ca-pa-pa-ra-ci-ma. ca-iu-de-ca-pa-pa-ra-ci-ma...

Um Peixe Chamado Kafka, era o seu título.

 (imagem obtida em pesquisa no Google)





quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

JÁ MORRIA!


uma infinidade de passos curtos e inconstantes levou-a até ao cadeirão de verga que repousava à sombra da macieira. Sentou-se devagar, como devagar era a sua existência, já ia para uma eternidade, parecia-lhe. encostou a um lado a bengala brilhante, encimada por uma figura pequena e delicada, talhada em prata, agora escurecida. era um pato ou ou cisne. sempre gostara de animais, quer dizer, como elementos decorativos. reproduções de animais. animais a sério era assunto diverso, requeriam condições especiais, como um jardim ou um quintal onde pudessem habitar e soltar-se para a vida. para estarem presos em apartamentos, isso não, não era coisa que fizesse sentido. agora tinha o jardim, aquele jardim, mas já era tarde.

já era tão tarde, nem dava para perceber aquele atraso, tal a falta de sentido para continuar a permanecer. quer se quisesse quer não, a partir de certa altura - senão, mesmo, do início! - fazia-se tarde para todas as pessoas. era o que sempre constatava quando se punha a olhar para a sua figura, agora tão diminuta, para a sua vida e para a vida, em geral.

recostou-se no cadeirão já um pouco usado, olhou para cima, na medida das possibilidades da sua cervical empedernida - como se estivesse zangada com ela, que disparate! - e prendeu os olhos embaciados nas maçãs verdes que começavam a despontar. o sol, repartido em pequenos pedaços que desenhavam os intervalos da folhagem, quais caramelos de formato irregular, aquecia-lhe as faces. pensou no tempo em que passara tardes inteiras de torreira, na paria, toda oferecida ao clamor ardente do astro-rei, sem se preocupar com coisas que só mais tarde entrariam em artigos de revistas banais, coisas do tipo de cancro de pele, envelhecimento precoce, etc. por essa altura a sua pele era límpida e lisa e brilhante como as faces do mais puro diamante. não que tivesse consciência disso. como tal, também não tinha consciência de que pudesse deixar de ser assim, ou melhor, de que um dia haveria necessariamente de deixar de ser assim. por isso ficou muito espantada quando, décadas depois, um qualquer espelho lhe devolveu uma cara que já não era a sua. mas isso eram águas passadas. foram os tempos do écran total diário, verão ou inverno, trezentos e sessenta e cinco dias por ano, na esperança de sustar estragos futuros. isso agora já não interessava, não que se tivesse habituado àquela cara que não era a sua, que cada vez era menos a sua, apenas se habituara a essa desabituação. não é a mesma coisa.

pensou na sua vida por etapas, dos zero aos dez anos, a infância protegida, as primeiras desconfianças do mundo, as expectativas depositadas no futuro, não por ela, entenda-se. dos onze aos vinte anos, a adolescência amordaçada, a juventude enclausurada, um tédio descomunal, um mundo paralelo, sabido paralelo, para fugir a tudo aquilo. dos vinte e um aos trinta anos, um início relampejante da vida, da vida boa e compensadora que podia ter sido e o seu oposto, quando as esperanças se esboroaram. dos trinta e um aos quarenta anos, o mergulho nos infernos, a vida a negar-se-lhe ou seria ela a negar-se à vida? e por aí fora, tudo medido em décadas, nisso era um bocado maníaca. até chegar ao agora, quase a fechar os oitenta e cinco anos, números redondos, a mania dos balanços. nada que verdadeiramente se aproveitasse, que pudesse dizer-se, valeu a pena o esforço e o tormento.

ouviu um remoinho de passos amansando tufos de relva. lá vinha a bandeja do chá, o chazinho, como ela dizia, a outra, a empregada do lar de luxo em que se tinha feito depositar quando concluiu já não ter mais nada a cumprir no mundo lá de fora (não que alguma vez tivesse tido!). que mania aquela, falar por diminutivos, como se os velhos recolhessem à criancice. 

murmurou por entre dentes, já morria (nada que não se viesse repetindo há décadas). a outra, a empregada, ouviu e, com a alegria encomendada que lhe pagavam para exibir, disse, no seu ar apalermado de quem não percebe nada, o quê, senhora D. Maria Luísa, o que é que já morria, o sconezinho delicioso que lhe trago aqui? ainda quentinho, acabado de fazer, é um regalo...

ponha aí na mesa, deixe ficar, interrompeu-a a velha senhora, procurando, sem êxito, dissimular a irritação. 

o sol fez-se menos quente por entre a folhagem da macieira. depois apagou-se. já não era sem tempo.








segunda-feira, 28 de novembro de 2016

PAI NATAL E MENINO JESUS: O ENCONTRO (RAP)


eis o tempo a repetir-se
o pai natal pôs-se a mexer
arranjou lauto farnel
deu um beijo à mãe natal
despediu-se dos duendes
agradeceu-lhes o labor
carregou embrulhos mil
todos muito engalanados
era só papel brilhante
e laçarotes de cetim
mandou assobio às renas
segredou-lhes ao ouvido
não se sabe bem o quê
talvez o itinerário
e pôs-se a milhas, por fim

a tarefa era pesada 
mas muito do seu agrado
fazer numa meia noite
o que poucos tinham feito
em certos oitenta dias
(mesmo assim, só em romance!)
ir do norte até ao sul
do leste até ao oeste
sem deixar no esquecimento
sequer uma chaminé
fosse de casa fraquinha
ou do mais belo chalé

aqueceu-se com licor
cantou uma moda alegre
as renas acompanharam
num suave relinchar
(ou relinchar é de cavalos?)

tudo correu à maneira
até uma certa lareira
esqueceram-se dela acesa
ia queimando a traseira
sacudiu as cinzas da roupa
esboçou uma cara feia
depois riu-se divertido e pensou
ora, é natal, não posso levar a mal
por fim, tudo correu bem
empanturrou a barriga
foi leitinho, bolachinhas
e até um potinho de mel 

já ele ia de regresso, destino rovaniemi,
deparou-se-lhe uma estrela
com brilho descomunal
apontando lá para o longe
para um caravançarai

apressou-se na descida
apeou-se do trenó
as renas a resmungarem
cansadas de meter dó
é só mais um bocadinho
segredou-lhes ao ouvido

ouviu uma vaca mugir
e um burrinho zurrar
passou pela multidão
e quem viu ele
quem viu ele?
um menino pequenino
acabado de nascer
mãe dum lado, pai do outro,
três reis cheios de presentes
e muito mais pessoal
todos em adoração

perguntou-se, angustiado
e que faço eu agora
já sem nada para dar?
o menino remexeu-se
virou-se para ele e disse
ora essa, pai natal
não quero qualquer oferta
já te vi, fico feliz
o pai natal,  intrigado
ia mesmo perguntar
mas o menino interrompeu-o
e disse-lhe devagar
quantos meninos no mundo
já viram o pai natal
o verdadiro?
pensa nisto! 
ah! sorriu o pai natal
está bem visto, meu menino...
... Jesus, o meu nome é Jesus
digo-te antes que perguntes
ah! gaguejou o pai natal...
não te assustes, bom velhinho
que não te vou acusar
de concorrência desleal
acho mesmo que nós dois
formamos a equipa ideal
amamos as criancinhas
e mantemos, em conjunto
a magia do natal

despediu-se o pai natal
de coração mais quentinho
montou-se no seu trenó
regressou ao polo norte
esperavam-no, animados
os duendes e a mãe natal
contou-lhes o sucedido
com enorme excitação
abraçaram-se, contentes
beberam uns grogues quentes
e lá foram descansar


(imagem obtida em pesquisa no google)




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA


Balzac e a Costureirinha Chinesa, da autoria de Dai Sijie, é um livro simplesmente delicioso! Conta-nos a história de dois adolescentes oriundos da burguesia intelectual chinesa, que, em plena Revolução Cultural, ao mando do Grande Timoneiro Mao Tsé-Tung, são desterrados para uma aldeia suspensa no tempo e na montanha da Fénix Celestial, junto ao Tibete, a fim de serem reeducados às mãos de camponeses praticamente analfabetos e tacanhamente incultos (à chegada, o chefe da aldeia quase destruiu o violino dum dos rapazes, que confundiu com um simples brinquedo burguês, logo, objecto proibido pelos rigores da revolução...). 

O percurso de (re)aprendizagem passa pelo cumprimento de duras obrigações, incluindo, nomeadamente, o trabalho nos campos e nas minas. Todavia, os talentos narrativos, sobretudo dum dos jovens, acabam por lhes render inesperada vantagem, ao transformá-los em veículos orais dos filmes que passam numa aldeia vizinha, introduzindo na aldeia a única modalidade de cinema aí conhecida, o, por assim dizer, cinema falado...

No percurso, surgem mais dois personagens-chave, uma jovem costureira, a costureirinha, filha do alfaiate da região, e um outro rapaz, também em reeducação. Com aquela surgem os mistérios do amor, com este revela-se um objecto proibido, altamente desejado pelos dois protagonistas, uma mala de livros de autores (ocidentais) clássicos, entre os quais, Balzac (sendo que, em matéria de livros, os comandos revolucionária apenas permitiam o Livro Vermelho...).

São, justamente, estes dois elementos que vêm a estabelecer o fio condutor da acção e a determinar o seu desfecho, pondo, nuclearmente, em evidência a magia e o poder da literatura. Isto, sem deixar de fazer sobressair um conjunto de (outros) valores, como a amizade, a entreajuda, o entusiasmo e o destemor da juventude, o poder de adaptação e de superação (só para mencionar  alguns).

Mas, o que torna este livro verdadeiramente delicioso é, a par da fluidez e limpidez da escrita, a perspectiva adoptada na narrativa, duma pureza da ordem da quase inocência, duma leveza de pássaro distante, que, sem pretender branquear a rudeza da situação de partida -  está lá, em toda a sua nudez -, coloca a tónica nos valores - da ordem dos acima mencionados -, que acabam por sobressair mesmo em situações limite e, logo, em contraponto aos seus opostos. Não esquecendo um fio de humor ou de brincadeira, que perpassa todo o romance.    

Note-se que o Autor, nascido em Chengdu, Sichuan, China, em 1954,  foi, ele próprio, colocado em reeducação entre 1971 e 1974. Mais tarde, veio a estabelecer-se em França, tendo publicado este livro em 2000. Em 2002, adaptou-o e levou-o, sob sua direcção, ao cinema.





    

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

MOON, SWEET MOON!







Ainda não vi a prometida grande LUA de hoje, mas ontem, na hora crepuscular, registei-a assim, maravilhosa!