quarta-feira, 31 de agosto de 2016

SAUDADE DE TER SAUDADES


A partir de certa altura, estás sempre à espera, o sobressalto integra o teu dia-a-dia. Não que dele faças depender o curso da vida - ao menos na medida em que depende de ti... -, mas ele está lá, dissimulado de mil maneiras, roendo-te por dentro, estoirando a cada toque de telefone inesperado. Afinal, é a ordem natural das coisas, eles não são eternos! Eles, os que te precederam, te chamaram para este lado - sem consulta prévia, é certo, mas não pode deixar de ser assim! - e, no caso, te marcaram com o ferrão do sobressalto. Os Pais.

Simultaneamente, mesmo a partir de certa altura, não estás à espera, simplesmente porque recusas que possa acontecer, simplesmente porque não queres que aconteça, simplesmente porque não vislumbras como vais poder sobreviver (-lhes). A caixinha do pensamento mágico a abrir-se em toda a sua magnificência e (sabida) estultice. Quem sabe, um qualquer reduto, soterrado na tua maturidade precoce, se tenha recusado a crescer!

Cada vez que os abraças e beijas - não que, por essa altura, sejas muito dada a abraços e beijos - e constatas que estão bem, dás graças a entidades celestiais, cuja existência a razão te recusa aceitar.

Um dia, um maldito 26 de Julho, o telefone toca. Não, não vais entrar em pormenores, excepto os que o título reclama. Não se trata disso, nem o pudor to permitiria. Foi a Mãe. Morreu. Ias escrever, partiu, mas não, isso não passa de eufemismo cobarde, palavreado para enfeitar a realidade - e não és dada a enfeites, ao menos desse tipo.

Passas a escrever-lhe uma carta por noite, embrulhada em lágrimas contidas longos anos. O dia é outra coisa, é o tempo da normalidade, do trabalho, da resolução de problemas (e que problemas sobrevêm!), da resistência à quebra de afectos adquiridos (calha, circunstâncias da vida!), do apoio dos amigos (uma delas frequenta este blog, sabe do que falas e nunca te cansarás de lhe agradecer o apoio!). Enfim, é a vida, em toda a sua dimensão, do lógico ao absurdo. Também a força e o espírito guerreiro... Quer dizer, garante-se o equilíbrio no fio da navalha, caso para afirmar que a sobrevivência sobrevive!

O hábito das cartas nocturnas desvanece-se, a lembrança continua presente, em cada pormenor, o desgosto é enorme.

Desenrola-se um doloroso ano e meio e chega o outro telefonema,  não tão inesperado, outro dia maldito, um 30 de Janeiro. O Pai morreu (e não, não ias escrever partiu).

Renova-se a escrita das cartas nocturnas, embrulhadas em lágrimas, menos líquidas, que há pesos que até o choro turvam. As cartas acabam por cessar, a memória persiste. A recordação magoada reune o que a morte separou e, agora, voltou a unir. Sempre os conheceste juntos. Talvez seja um luto único. Magoa. Muito. Em qualquer pequeno pormenor está impressa a presença da ausência. Dos dois, feitos um. Um luto. Muita mágoa. Demasiada, vivida por dentro, sem deixar transparecer. Sobretudo sem deixar transparecer. Esconder o sofrimento, sempre. Por pudor. Porque não te interessa a solidariedade na miséria. Dispensas. Porque não aguentas a insensibilidade face à miséria. Ou, talvez pior, a agressão. Evitas. Porque já conheces da vida o suficiente para saberes que cada um tem  as suas dores.

O tempo passa. A vida impõe-se, em todo o seu despropósito, quer dizer, na soma de rotinas, incongruências, esperados e inesperados, nada de especial interesse. Impões-te à vida, quer dizer, aguentas e segues. E desfrutas do que podes. Eles, os mortos feitos um, Mãe e Pai feitos Pais,  continuam a acompanhar-te em mil recordações e vazios diários. Compreendes, na pele, o que é a vida para além da morte ou, por outras palavras, a eternidade das almas: a permanência na memória dos vivos, ainda que dum só vivo. Não passa disso.

A vida alegra-se com a (tão desejada) chegada duma nova geração à família. Pouco a pouco, voltas a sentir o Natal - que já deras por morto e enterrado - na plenitude do entusiasmo infantil. Dádiva inesperada e agradecida. Mas a memória, a recordação, persiste, insiste. Continuam e continuarão a viver enquanto assim for. A nova geração vai florescendo e é junto dela que perdes o pudor de os recordar em voz alta. Falas-lhe neles, sempre a sorrir, queres perpetuar-lhes a lembrança para que sejam eternos. As crianças são atentas e maravilhosas, gostam de ouvir histórias de família. Interessam-se. Fazem perguntas.

O tempo passa. As lágrimas vão-se perdendo na corrente do tempo. Continuas a lembrá-los diariamente. Continua a custar-te revisitar os cenários de partilha das vidas cortadas. Invadem-te pesadelos, em vez de sonhos belos, excepto um, numa madrugada dum teu aniversário: ela, a Mãe, debruça-se sobre ti, com toda a ternura dum sorriso resplandecente e estende-te uma rosa. O melhor presente de aniversário. Referes-te a presentes sonhados e não àqueles que costumas receber. 

O tempo passa. Já lá vão dezasseis anos. A recordação começa a interromper a sua rotina diária. Os pesadelos seguem-lhe o abrandar. Todavia, de vez em quando, a dor, agora morna, assalta-te, com toda a crueza do desespero profundo, em sonhos esparsos e vívidos. Acordas com a certeza de que, ao abrigo da noite, algum duende maligno abriu a caixinha para onde, afinal, empurraste o sofrimento. Sentes um enorme alívio. Agora é dia, o duende maldito ficou preso nas malhas da escuridão. Com sorte, não se lembra de ti tão depressa. Terá outras caixinhas a desinquietar, espalhadas pela arrumação doutras vidas. 

O tempo passa. Já lá vão dezoito anos. Constatas que a recordação perdeu a cor. Achas estranho. Muito estranho. Se o tivesses que descrever numa palavra dirias, longínquo. Acrescentarias, talvez, desfocado. Ocorre-te a asserção gasta, o tempo tudo cura! Não, não te parece que se trate de cura. Apenas um - como dizer? - evoluir. Não se trata de ter feito o luto, que, de resto, não é nenhuma doença. Muito menos de o ter ultrapassado. Sucede, apenas, que te encontras numa nova fase. A ausência magoa duma forma diferente, porque, agora, se aproxima do esquecimento. Não, não é bem isso, talvez seja uma espécie de afastamento, um longe. Uma ameaça de vazio, velada por um manto de absurdo. Até as lágrimas  manifestam uma recusa surda, presas que ficaram num qualquer nó do tempo. 

Assim como não rejeitaste a dor - não por masoquismo, mas porque não houve maneira - não rejeitas esta espécie de desafiadora ausência de dor. O teu lema é enfrentar. O orgulho e o espírito guerreiro encarregam-se do resto.

O tempo passa. Ainda não encaixas bem esta nova fase. E resumes, (como sempre) sem dramas: sinto saudade de ter saudades! Alguém comenta que a frase daria um bom título para um livro. Respondes que a tens pensada para título dum post do teu blog.





sexta-feira, 19 de agosto de 2016

DEPOIS FOI AQUILO QUE SE SABE!


foi assim
do nada rasgou-se uma alameda de promessas

desfilaram sorrisos e imaginações
cumplicidades irmanadas, de braço dado
narizes no ar, orelhas arrebitadas, olhos desfocados

tudo era atração
bocas entreabertas em forma de beijo
ainda só consumado no desejo

soou música alegre e divertida
guardou-se o pensamento para o desengano
(ingénuo fingimento!)

tudo era encanto
perfumes inebriantes
passadeiras de flores sem espinhos
expressão de promessas incumpridas
(não o são, todas as promessas?)

no fim, afogou-se em vinho
(afoga-se a mágoa em doce vinho?)

tudo era luz, vibração, fantasia, desejo, alucinação
cintilação suspensa no infinito

foi bom, enquanto durou

depois... 

ora!








sábado, 6 de agosto de 2016

O SÉTIMO DIA


Entrou em casa como quem se limita a cumprir mais uma rotina. Atirou-se para o sofá cor de pedra e só encontrou forças para estender as pernas sobre o tampo de vidro da mesa de apoio, que, com o sofá e pouco mais, compunha a decoração da sala. Fixou as pálpebras fechadas, olhos vazios, por dentro, no écran vazio da televisão desligada (mesmo quando ligadas, os écrans são sempre vazios, pensou). Apetecia-lhe uma bebida gelada, mas a inércia e um cansaço pesado impediram-no de se mover. Um calor asfixiante gatinhava pelas paredes, reverberando em ondas opressivas. Fechara o bar pouco antes, após mais um dia, longas horas, a servir álcool aos clientes habituais e aos outros, os que apareciam e desapareciam como se andassem a cumprir a volta ao mundo, com o desígnio exclusivo de experimentar incessantemente locais novos. Era o sexto dia da semana. Seguia-se o sétimo, para descansar. Até Deus tinha descansado ao sétimo dia, depois de se ter dado à invenção do mundo. E, por definição, ninguém o obrigara, nem tivera de aturar o que ele aturava. Horas a fio a encher copos, uns duma coisa outros doutra, a controlar a clientela, gente que, de vez em quando, levantava reboliço, umas chapadas, uns socos, umas cadeiras pelo ar. E ele de intervir, de os acalmar, de restabelecer a calma, aquilo não era nenhuma espelunca, quer dizer, ele sempre se empenhara em que aquilo não fosse nenhuma espelunca. Até tinha contratado um pianista. Nada mau, por sinal. Afundava-se na música (Jazz) com uma entrega semelhante a desespero, talvez fosse mesmo desespero. Pelo menos, tinha a força que só este é capaz de exercer sobre as pobres almas de que se alimenta. Todavia, os sons emanavam com a leveza de breves aves a deambular por céus límpidos, ao sabor de aragens ligeiras e refrescantes. Ela, a mulher alta, esguia, de cabelo dourado a rasar as omoplatas, nunca parava de o olhar, embora com o olhar indecifrável dos míopes. Ocupava sempre a mesma mesa, nem a mais próxima nem a mais distante do piano, como quem pretende escudar-se em terreno neutro. Consoante o ouvia e fitava, fazia deslizar os dedos compridos, de ossos salientes, talvez um pouco masculinos, numa deambulação permanente, ora sobre as pernas, alisando o pano da saia justa, ora à volta duma madeixa de cabelo, como quem precisa de domar ou controlar alguma coisa. Alguma coisa ou alguém, podendo ser ela própria - pensava ele, agora abandonado no sofá cor de pedra. Vinha sempre acompanhada, nem sempre do mesmo homem, com o qual, fosse um ou outro, mal trocava meia dúzia de palavras. E, quando o fazia, mal o olhava, permanecia fixada no pianista, como se hipnotizada pelos sons que ele libertava do piano com uma fluidez de encantamento e uma força de guerreiro. Eles, os acompanhantes, pareciam desempenhar o papel de meros passaportes para a sua entrada no país da contemplação do pianista. Talvez não gostasse de entrar sozinha no bar. Por vezes, tocavam-lhe com os dedos. Eram gestos de ternura, de afirmação ou promessa de posse, ou de mera provocação. Ela não reagia ou, então, revelava enfado ou retribuía mecanicamente, sem olhar, sem sequer olhar. Uma ou outra vez, eles levantavam-se e saiam. Ela permanecia, como quem já se encontra a coberto das fronteiras transpostas, podendo dar-se ao luxo de dispensar o passaporte. Mas, pouco depois, saía também. O pianista, que, na abstração do seu mundo tecido de sons, costumava perder os olhos semicerrados no infinito, não se apercebendo de nada nem de ninguém à sua volta, foi captado pela insistência daquele olhar. Desde a primeira vez, quando a viu entrar num movimento longo e tenso. Retribuiu. Os seus olhos abriram-se para ela. A sua imaginação abriu-se para ela. O seu desejo abriu-se para ela. O coração, não se sabe. Afinal o coração tinha-se-lhe perdido há muito tempo e talvez fosse difícil de encontrar. Talvez já nem existisse. Não que isso devesse fazer qualquer diferença, pois nada no olhar, no corpo ou nos gestos dela sugeria a retaguarda dum coração. Um dia, ele resolveu ousar. Interrompeu a música, agradeceu os aplausos que sobrevoaram o bulício geral, levantou-se e dirigiu-se ao balcão, passando rente à mesa dela e acenando-lhe um sorriso tão cauteloso quanto convidativo. Ela, que, mal ele parara de tocar, baixara a cabeça e mostrara uma inquietação como se fosse urgente partir, retribuiu-lhe o sorriso. Sem cautela, sem a intimidade dum convite, com naturalidade e, sobretudo, com distância. O homem que calhava acompanhá-la naquela noite perguntou-lhe:
- Conheces o tipo?
- Qual tipo?
- Ora, não te faças de parva, o pianista?
- Ah! o pianista, que me lembre não. Porquê, tu conheces? Obviamente, o acompanhante não gostou, sentiu-se feito parvo, ninguém gosta de se sentir feito parvo, fixou-a com olhos afogueados e disse,
- Olha, estou no ir. Vens?
- Não, fico mais um pouco.
Mas só fingiu ficar, como se apenas quisesse desafiá-lo ou desfeitiá-lo. Deu-lhe uma vantagem de cinco minutos, levantou-se e saiu. Antes, porém, dirigiu-se ao pianista, que acabara de beber um gin, encostado ao balcão. Falou-lhe como se o conhecesse de sempre, só para dizer, enquanto lhe passava um papel para a mão, - telefona-me, se quiseres. Ele gaguejou qualquer coisa, não se percebeu bem o quê, e, antes de se ter tornado perceptível, já ela desaparecera pela porta, deixando atrás de si uma sombra de cabelos esvoaçantes e um rasto de perfume duma frescura cortante, com uma nota ácida, tal qual o timbre da voz com que proferira aquelas parcas palavras.  Com o papel amarrotado nas mãos trémulas, ele correu para a porta. Demasiado tarde. Já nem o rasto de perfume permanecia. Ficou especado sob o néon que desenhava o nome do bar, O Sétimo Dia, e só então se fixou no papel. Estremeceu, com um arrepio gelado. Estava liso, tão vazio como o seu copo acabado de beber. 

Sentiu a transpiração a escorrer pelas costas abaixo, desencostou-se do sofá cor de pedra, desceu os pés do tampo de vidro da mesa de apoio e monologou, por que raio me vem sempre à ideia esta história, de todas as que testemunhei no bar? Podia escrever um romance pelo menos do tamanho de Guerra e Paz, só com as histórias que uma data de bêbedos solitários e lamechas me vomitaram para cima, como se tivesse alguma obrigação de os aturar. E sem pagarem mais por isso, às vezes, até as bebidas ficaram a dever. Todavia, é desta história que me lembro sempre. A história do pianista que nunca cheguei a saber se nem sequer tinha coração, se o tinha perdido ou se o chegou a encontrar. E da gaja, daquela estranha gaja.

Naquela noite decidiu fechar definitivamente o bar. Todos os dias passariam a ser o sétimo dia. Aliás, o sétimo dia passaria a ser a ausência de dias. Apetecia-lhe devorar qualquer coisa. Até não haver sobras. Contemplou os dedos. Começou pelo polegar da mão direita. 

Passados três dias, quando a empregada abriu a porta, deparou-se com uma mancha estranha no sofá cor de pedra. E um bilhete amarrotado. Desdobrou-o, cautelosamente. Em branco, nem uma letra ou um vestígio de cor. Vazio.  

(Nota: Escrevi este texto parcialmente sob influência do livro O Inverno em Lisboa, de Antonio Muñoz Molina, que estou a ler com uma espécie de encantamento pelo cariz poético da narrativa duma história de desencanto.)   







sábado, 23 de julho de 2016

FEELING SO FUCKING SILLY!


Por esta altura, nada me incomoda mais do que a onda (aliás, tsunami) de calor que se faz sentir, prometendo ficar (como diria aquele escritor que já prometeu falhar e perder, coisas que eu, pela minha parte, cumpri, mesmo sem necessidade de promessas). Bem, há mais uma coisinha altamente incomodativa e irritante, a estupidez. Não deve ser por acaso que lhe chamam silly season. O grande problema é que se contagia. Falo por mim, evidentemente. Ainda há pouco, saí do túnel das Amoreiras a caminho de Alcântara e eis-me, sem apelo nem agravo, em cima da Ponte 25 de Abril! Como se o núcleo (mais) parvo do subconsciente pretendesse impor-me o Algarve, para me encontrar com os restantes quinze ou trinta milhões de portugueses que para lá rumaram ou hão de rumar até ao fim de Agosto e mesmo por Setembro dentro. Menos mal que o atravessamento da Ponte é sempre simpático, sob o prisma panorâmico, que o trânsito, apesar de compacto, se desenrolava sem pausas dramáticas, que já tenho a minha dose de imprevistos, com a aquisição do pertinente jogo de cintura, e, finalmente, que o carro tem ar condicionado. E, mais importante, não está avariado (o ar condicionado). Contrariamente à janela do lado do morto, que deixou de funcionar há uns meses, quer dizer, ela funcionar, funciona, mas num estilo que não lhe serve a função. Passo a explicar, abre na perfeição, mas recusa-se a fechar. Quando se encontra lá em cima, no ponto de encerramento, volta a descer e, desaustinada, põe-se a andar para baixo e para cima, qual leviana imune ao desespero do comando. É claro que, munida da minha prática de adaptação a imprevistos, arranjei, de imediato, uma maneira de a tramar. Manobrei o botão cuidadosamente e, no exacto ponto do fecho, desliguei a ignição ou lá como é que se chama (sem me esquecer de começar por parar o carro...). Advirto que (para além de criatividade) é necessária elevada precisão matemática, mas o que é isso para uma pessoa cheia de reflexos! Evidentemente, achei-me deveras esperta, pelo menos mais do que a janela teimosa. E mais do que os senhores da Santogal, que queriam não sei quantos euros - mais de cinquenta - só para identificarem a raiz do problema e apresentarem orçamento para o arranjo. - Ah!, então o orçamento não é gratuito!, exclamei, após informação (deles) em contrário. - Não, minha senhora, o orçamento é gratuito. Ok - pensei - wathever, sempre soube que os senhores deste ramo, para não falar noutros, consideram as mulheres intelectualmente diminuídas. Ok, a janela será arranjada no Dia se S. Nunca. Reforcei a ideia de trocar de carro e, enquanto não, vou avisando os penduras para não darem ordens à janela. Parece-me que ela não gosta, fica chateada de não poder andar para cima e para baixo a gozar comigo. Os da Santogal também não devem ter gostado, mas isso é problema deles.
Continuando com a estupidez, que o calor já se sabe. Uma pessoa sintoniza a rádio (para a televisão não há, mesmo, paciência, por demasiado gráfica e embrutecedora), a fim de se actualizar sobre o número de mortos do dia resultantes de assassinatos perpetrados a soldo (ou  em mera publicidade gratuita) do Estado Islâmico, do Sr. Erdogan ou doutras entidades igualmente respeitáveis, e depara-se com quê? 
Primeiro, com o diabo à solta no hemiciclo de S. Bento (hemiciclo fica sempre bem e dá para fantasiar se as coisas poderiam ser diferentes caso se tratasse duma sala com outra disposição, por exemplo, oval)! Ainda se vestisse Prada! Mas não, trata-se dum diabo rasca, que o Sr. Costa, num dos seus delírios de optimismo com os pés no ar (como diria o outro), jura combater, na mais pura tradição heroica portuguesa (agarrem-me se não…), e que o Sr. Passos Coelho ameaça reeditar, lá para Setembro, numa das suas tristes exibições de mesquinhez, herdadas duma mal digerida tradição judaico-cristã (no seu pior).





Segundo, em reacção ao morticínio de ontem, em Munique - entretanto, já houve, pelo menos, mais um, em Cabul, com para cima de sessenta mortos, que o Estado Islâmico, perante a dúvida sobre se o primeiro lhe é atribuível, não se fica -, o Professor Marcelo vem dar conta do teor da mensagem que enviou à Sr.ª Merkel, expressando horror e solidariedade, e aproveita para esclarecer que os atentados aumentam a sensação de insegurança na Europa. Ora, aí vou eu de ficar pasmada, pois sempre pensei que, numa tal circunstância, fosse caso para manifestar, sei lá?, contentamento e animosidade, e constatar que não parava de aumentar o sentimento de paz e segurança na Europa. Ao mesmo tempo, recordo, com nostalgia, o tempo em que havia a figura de porta-voz da presidência da República. Para não falar de quando o agora presidente expendia comentários na TVI, estação que, de todo, não frequento. E entro em divagações sobre como seria muito mais divertido se o Professor começasse a comunicar coisas menos óbvias, como por exemplo, quando foi a última queca presidencial (grande lata, o corrector ortográfico, esse grande ditador, queria substituir esta palavra por queda!) e que sensações e advertências lhe suscitou.



Terceiro, espanta-me o conhecimento de que hoje é dia de homenagem ao Sr. Cavaco Silva. Não admira, ouvi a notícia pouco depois de acordar, com os neuróticos ainda em ponto morto. À medida que fui despertando para a vida, quer dizer, para o calor e para a estupidez, acabei por perceber, lembrei-me de ele ter sido, em tempos, o imbatível campeão de rodagem de automóveis, na modalidade olímpica de rodagem-que-te-leva-mais-longe-e-por-mais-longo-aliás-demasiado-tempo de que há memória. Acabei, mesmo, por perceber a razão por que os causadores da queda do BPN, grande responsável por andarmos há anos a viver acima das nossas possibilidades, estão em liberdade. Será, certamente, para poderem homenagear o responsável pela sua ascensão política e, pelos vistos, não só.



Enfim, tomara que chova, depressinha!
Se acharem este texto demasiado parvo, por favor não me levem a mal, a culpa é (ao menos em grande parte) do calor! De qualquer das formas, podem sempre procurar melhor, mesmo sem saírem aqui do blog.
Bons banhos!

Nota: fotos obtidas em pesquisa google.
    


sexta-feira, 22 de julho de 2016

A NÃO HISTÓRIA DE VLADIMIR BLUE (UM SALTO, 7 POSTS DEPOIS)


No dia seguinte, Vladimir Blue chegou no seu amarfanhado modo habitual, mas, a dado passo, soergueu abruptamente a cabeça, fazendo rodar alguns rostos na sua direcção e despertando súbita agitação na folhagem das árvores, tal o inusitado do gesto. Tudo porque sentiu um impacto surdo, um paf abafado, que lhe ressoou a estilhaço de bomba, tal a auto imersão e a ausência de contactos físicos em que, desde há tanto tempo, seguia o seu rumo, se é que se lhe podia chamar rumo. Elevou a mão ao chapéu e sentiu um empastamento mole e quente, que lhe provocou uma tremura fria, feito da lembrança desesperada do sangue, ainda morno, com que se deparou naquela tão longínqua quanto presente tarde, lá longe, na duna. Fez um esforço para fugir da evocação, levou a mão suja para debaixo dos olhos, agora regressados à posição habitual, a que acompanhava a cabeça descaída, e viu, com alívio, que se tratava apenas do excremento dum pássaro. Os pássaros são com o destino, podem passar anos a cagar ao lado, mas chega sempre um exacto microsegundo em que, sabe-se lá por que conjugação de sortes, te acertam, infalível e implacavelmente, na cabeça ou num ombro. E cagam sempre de alto. Sem saber bem o que fazer à mão peganhenta, malcheirosa e sabe-se lá carregada com quantos veículos de doença, micróbios, bactérias e coisas assim, Vladimir Blue sacudiu-a brevemente, antes de a recolher no recato do bolso da gabardine, onde, por sorte, jazia amarfanhado um lenço de papel, talvez testemunho de lágrimas perdidas no esconderijo da sua reclusão ou de simples ranho inoportuno. Enrolou nervosamente os dedos no trapo de papel, recuperou o ritmo habitual da batida cardíaca e seguiu para o poiso do costume, disposto a retomar os murmúrios. Assim esperou a Sombra, que, na escuridão do seu anonimato, o seguia, qual instigador secreto à continuação, agora que Akemi, a lembrança súbita de Akemi, tinha marcado tão forte e angustiante presença. Mas não, não seria esse o argumento a debitar, ao menos nesse dia, ao menos nos momentos mais próximos. Era demasiado doloroso e, bem vistas as coisas, Vladimir Blue ainda não se recompusera do susto causado pelo ataque da ave. Regressou a Natasha.
Natasha era uma mulher apaixonada. Quer dizer, Natasha procurava a paixão e entregava-se-lhe, sem tréguas e sem reservas. Enfim, não podia viver sem a paixão, não a paixão idealizada, mas a paixão em estado real. Não apenas um objecto de paixão, mas vários. Não é isso a característica dum ser apaixonado, a concretização versus o simples sonho, o desejo suspenso, inerte, inactivo e inoperacional? De que vale ansiar e não ir em busca, não abocanhar com todos os dentes e lábios e corpo, esse concreto sujeito (ou objecto) da paixão? O que distingue tal estado do nada, ou pior, da negação? Um vazio, uma cobardia, uma insatisfação e uma censura permanentes. Em nome de quê? De ilusória segurança, de resguardo frustrado para os tempos do nunca, do nunca há de acontecer, do zero. Vladimir Blue encaixava mais nesta categoria, vivia a paixão por dentro, quer dizer, tinha medo de se (deixar) queimar pela paixão. Akemi - lá voltava Akemi, difícil mantê-la à distância, nesse dia! - era diferente. Brincava com a paixão como quem brinca com fósforos ou lança bombas de Carnaval. E ria, sempre aquele riso em que a brancura imaculada dos dentes perfeitos parecia desenhar a palavra provocação. Vladimir Blue vivia suspenso daquele riso, embora tivesse preferido ler uma palavra diferente, que, verdade seja dita, não sabia exactamente qual. Aquele riso mantinha-o vivo e alerta e assim era mais fácil dissimular a paixão, limitar-se a entrar no jogo da sedução, aquele jogo que o mantinha atado a ela como cão a trela.




Nota: Este é um extracto, não sequencial, da história - com o mesmo título - que aqui comecei a publicar em 13 de Maio de 2013, com continuação por mais seis posts, o último dos quais datado de 8 de Setembro de 2014.







quarta-feira, 13 de julho de 2016

ZÉ MANEL OU A INVEJA DOS PORTUGUESES


Já não tenho dúvidas, os portugueses são mesmo invejosos!


Basta atentar na forma como têm reagido à anunciada contratação  milhionária (sim, não é milionária) do Zé Manel Durão Barroso para os quadros da Goldman Sachs. É certo que não se trata de todos os portugueses. O presidente da República e o ex-primeiro-ministro Passos Coelho não deixaram de lhe assinalar o mérito. Já os restantes, a aferir pela avalanche de notícias, artigos de opinião e reacções ululantes, expressas nas redes sociais, não se têm cansado de dar porrada no coitado do Zé Manel. É só censuras e mais censuras, semeadas de palavrões como honorabilidade, período de nojo, decência, vergonha e outros conceitos igualmente contundentes. Ignoro se o pobre homem - atenção, não disse homem pobre - terá, entretanto, morrido de desgosto ou emigrado para os lados da Síria ou do Iraque, em missão de redenção dos pecados de que, tão agressivamente, tem sido acusado pelos seus concidadãos - para já não falar nos senhores da União Europeia, ex-colegas e afins, também chocados pela sua contratação gold ou goldman ou assim. 

Nada mais injusto e - retomando a linha inicial deste pequeno desabafo - mais paradigmático da proverbial inveja dos portugueses, excluídos, obviamente, o presidente da República (talvez por questões afectivas) e o ex-primeiro-ministro Passos Coelho (talvez por questões... não sei).

Na verdade, as pessoas falam, falam, mas esquecem-se do meritório percurso calcorreado pelo Zé Manel, até, finalmente, desaguar na Goldman Sachs ou seja, ao serviço - desta vez, directo e assumido - da alta finança, o mesmo é dizer, dos mercados. Percurso esse, marcado por notável persistência, coerência e êxito, pelo que bem deveria suscitar admiração em vez de maledicência. Só não se lembra quem não quer e só não valoriza quem tem um espírito ínvio e povoado de más intenções, sobretudo, invejosas. Eu lembro-me bem e, em nome da mais elementar justiça, chamo aqui as seguintes memórias do dito e, de resto, notável percurso. Foi assim:

1 - Transitou dos extremos radicais dum MRPP em fúria para o acolhedor regaço dum pacato PSD - ou PPD ou PPD/PSD ou lá como se chamava na altura, que não me posso lembrar de tudo... -, com o à vontade com que um tarado sexual passa duma loura magra para uma morena gorda ou vice-versa, demonstrando enorme abertura intelectual, coerência e, enfim, jogo de cintura. Só não vê isto quem não se lembra de, na passagem da creche para a pré-primária, ter trocado, sem remorsos ou complexos, o teddy bear de trapos pela barbie ou pelo action man de plástico;

2 - Confrontado por um incómodo excesso de peso, não hesitou em entregar-se a uma exímia dieta, à base de cherne, nem tão pouco em partilhar o facto com o resto dos mortais, numa atitude que bem demonstra, a par de férrea força de vontade e espírito de sacrifício, enorme transparência. Bem, é de reconhecer que também revela certa ingenuidade, ao não ter antecipado que a amável revelação lhe viria a valer a acintosa - para o peixe - alcunha de cherne. Enfim, aqui foi um bocadinho bronco, ao não levar em consideração que um povo habituado a dividir sardinhas (quando as há), não pode  estar preparado para digerir dietas de cherne;

3 - Encontrou um País de tanga - para usar as suas bonitas, elevadas  e sugestivas palavras - e deixou-o completamente nu. Aliás, não foi bem deixar, foi mais fugir.  Demonstrou, assim, um notável sentido de realidade, de oportunidade e de desprendimento do poder, o que só pode abonar a seu favor;

4 - Pouco antes, dando prova de magnífica visão de curto/médio prazo, não se escusou a servir de mordomo/empregado de mesa, servindo gentil e zelosamente café e bolinhos, aos senhores do mundo, enquanto estes congeminavam (mais) uma intriga bélica, para mais rápida e ferozmente darem cabo disto tudo e enriquecerem pelo caminho. Se esta prestação do Zé Manel não foi duma humildade (para além da já citada visão) a toda a prova, vou ali e já venho e pelo caminho não quero ouvir nada que me contrarie;

5 - Certamente por feliz coincidência (ah! que espanto!), saltou para presidente da Comissão Europeia, cargo que muito devia ter honrado os portugueses, caso não fossem uma cambada de invejosos e mal agradecidos. Não se pode dizer, é certo, que daí tivessem advindo vantagens para Portugal, mas isso deveu-se apenas ao facto de os eurocratas serem uma espécie de sem-pátria, encontrando-se ao serviço da União Europeia (também conhecida por Alemanha) e não do país de origem. Ora, não sendo o interesse da Alemanha (também conhecida por União Europeia) coincidente com o de Portugal - como se vê, por exemplo, pela longa-metragem Tomem Lá Uma De Austeridade, seus Esbanjadores! e pela telenovela Ora Aí Vai Uma Rodada de Sanções, Seus Papalvos! -, não é de admirar que o Zé Manel não pudesse ter feito nada pelo seu amado País ou deixado de fazer algo contra o mesmo - bem, estou a admitir que ele é português... O facto é que demonstrou exemplar isenção e sentido de Europa (ou de Alemanha, tanto faz), no exercício do cargo. Além disso, esmerou-se por colocar o seu accent in English pelo menos ao nível do mordomo da série Downton Abbey. O facto de não ter conseguido não se pode levar a mal, o que conta é o esforço e não se pode - nem convém - ter jeito para tudo;

6 - Expirado o prazo de validade do tacho, perdão, do ilustre cargo europeu, foi lindo - e digno de agradecimento... e também divertido, convenhamos! - ver o Zé Manel rondar a velha Pátria - aquela que, por questão de elevado sentido de isenção, não pôde amparar, enquanto ao serviço da... daquela -, manifestando disponibilidade para a servir, desta feita, como magistrado supremo. Apesar de toda a bondade e generosidade da oferta, os seus compatriotas, ressabiados sabe-se lá porquê, mandaram-lhe sinais de que não valia a pena dar-se ao incómodo. Só chegado a esta fase do campeonato, quero dizer, do percurso, se entregou nos braços da alta finança internacional, certamente bem menos invejosa e mais reconhecida do que a generalidade dos portugueses.

Estavam à espera que ele fizesse o quê, seus invejosos?

          




segunda-feira, 11 de julho de 2016

HÁ PESSOAS ASSIM


Ontem, a Praia Grande estava assim, parecia uma praia do mar do norte. Enigmática, sombria, nostálgica. Belíssima, como sempre. 


Captei umas imagens que, vistas em sequência, me sugeriram um filme. Deixo-as a seguir, precedidas dum argumento possível:

Assim acontece com certas pessoas. A princípio quase não se deixam ver. Insinuam-se, apenas, semi-encobertas (semi-descobertas?) por uma esquina do mundo. 
Imagine-se uma folha de papel, dobrada em guardanapo.

Depois avançam, porque a vida é isso. A vida é comando. não se compadece com paragens. Ainda que os passos sejam lentos, possam ser lentos, reflectidos.
Imaginem-se umas mãos elegantes a desdobrar um guardanapo sobre os joelhos. Movimentos suaves, pensados, quase calculados.

Praticamente indiferente, se há ou não testemunhas do percurso. Há pessoas assim. Desdobram-se das esquinas do mundo porque tem de ser. A vida é isso, um ter de ser. Portanto não podem deter-se. A não ser para pensar. A vida também é pensamento, não é apenas caminhar à toa, caminhar por ter de ser.
Imagine-se um guardanapo displicentemente pousado nuns joelhos. Os vincos distenderam-se. Aguarda, apenas. Sabe o que o espera. Está preparado para o que o espera. Não serão os seus vincos as esquinas do mundo?

Depois há o momento da paragem. Contemplar, esbater as esquinas do mundo. Deixar-se contemplar ou não. Tanto faz. A vida cumpriu-se. A vida também é paragem, detenção.
Imagine-se um guardanapo, de esquinas já desfeitas, tranquilamente abandonado sobre a mesa.