quarta-feira, 22 de março de 2017

LICOR DE MERDA E OUTROS MIMOS PARA # JEROEN DIJSSELBLOEM


Não entendo, por mais que me esforce, não consigo entender! Porquê tanta ira vociferada contra aquele coisinho holandês, com cara de fuinha e nome impronunciável, pela simples razão de ter imputado às atrasadas hordas do sul da Europa um alegado esbanjamento em copos e mulheres, do dinheiro gentilmente cedido pela solidariedade nórdica?

Caiam-me em cima se quiserem, mas não serei eu, por simples receio de destoar da opinião comum/oficial, a abster-me de defender este Diácono Remédios do norte europeu, tão indefeso me parece. Choca-me que, até ao momento e tanto quanto me foi dado testemunhar, nem sequer o Dr. Passado Coelho tenha vindo em sua defesa, sim, esse ex(-futuro)-primeiro-ministro de Portugal, que, quando a mandona Frau Merkel ou o distorcido Herr Schaubel o mandavam ajoelhar, já tinha obedientemente as calças por terra (bem, nem imaginam como ansiava, há anos, poder usar esta máxima, que considerei o máximo, quando a ouvi a propósito dum alto dirigente dum organismo público que tinha por hábito obedecer devota e prontamente a tudo quanto os gabinetes ministeriais mandavam...).

Se eu, como mulher, não me sinto ofendida pelas bocas do Sr. Jeroen Dijsselbloem (ou lá como se chama)? Agora que penso nisso, talvez, pelo menos um bocadinho. Afinal ele limitou-se a referir os copos e as mulheres, enquanto objecto de inqualificável vício. Não percebo porque não incluiu, a par das bebidas alcoólicas (vulgo, copos), por exemplo, os chocolates - como se sabe, muito boa gente desviou o dinheirinho da caridade europeia da salvação de bancos e de políticos corruptos (como era sua função) para a compra de chocolates, na tentativa desvairada de atenuar a angústia e ansiedade geradas pela austeridade; por outro lado,  em matéria de prostituição (vulgo, gastos com mulheres), das duas uma, ou pensa que as mulheres são todas mercadoria ou que são todas lésbicas (note-se que não aludiu a gastos com homens...). Portanto, apesar das suas funções de Diácono Remédios ou, talvez, exactamente em razão das mesmas, parece manifesto que o pequeno Jeroen pecou por preconceito e discriminação. 

Mas agora pergunto-me, quem nunca pecou por preconceito ou por discriminação, para já não aludir a injúria, calúnia, mania da superioridade, todos os inerentes desdobramentos e ismos (racismo, sexismo, etc.) e, o que é mais, falta de vergonha e estupidez pura? Vá lá, atirem pedras! 

Não vislumbrando qualquer pedra a aterrar por aqui, vou directa ao verdadeiro ponto, aquele que me desviou da prossecução da escrita dum magnífico romance em curso para este exercício mais ou menos rasteiro. E o ponto é que importa compreender o Jeroen! Afinal, quando alguém se permite criticar, melhor dizendo, inventar vícios alheios, algo maligno subjaz por lá, algo que pode revestir variadas configurações, uma das quais dá, seguramente, pelo nome de inveja. Ok, podem dizer-me que o coisinho não tem razões para inveja, sendo a capital da sua terra, aliás, conhecida pelos talhos do Red Light District, pela variedade de ganzas livres, vendidas de porta aberta, e, tanto quanto se sabe, pela abundância de copos, por assim dizer - aquilo do símbolo nacional, remetendo para suminhos à base de vitamina C, é só para distrair os pacóvios do sul. Mas, como toda a gente sabe, ter à disposição não é poder! Ou seja, apesar da prodigalidade da oferta, sabemos lá nós as desgraçadas limitações do Jeroen! Daí à inveja, como qualquer bom psicólogo não deixará de corroborar, vai apenas um pequeno passo, quer dizer, um pequeno passo para ele e uma enorme rasteira para a humanidade do sul (isto é só para parafrasear mais ou menos não sei quem).

Vai daí, parece-me, francamente, que o que o Jeroen mais precisa é de compreensão e, ainda mais do que isso, de uma mostra efetiva de mimo. Ora, que melhor mostra efectiva de mimo do que um presentinho? 

Por estas razões, deixando de lado sentimentos mesquinhos, eventualmente ditados pela minha qualidade de cidadã do sul da Europa, preparei, cheia de amor e gratidão pela solidariedade da Europa do norte, um cabaz destinado ao Jeroen Dijsselbloem (em português pronuncia-se Já-era Dizes-só-blasfémias), com a seguinte composição:

- 1 garrafa de Licor de Merda (garanto que é muito bom);
- 1 boneca insuflável (não faço ideia...);
- 1 cruz suástica (muito do agrado do ido Herr Hitler).





(Imagens obtidas em pesquisa no Google)





sábado, 11 de março de 2017

ASSASSINADO, FINALMENTE!


por fim, quando vi que já não tinha mais nada a ganhar, matei-o. sim, repito, quando vi que já não tinha mais nada a ganhar. 
...
ainda me doem as mãos, aliás, o corpo todo, mas não me dói a alma nem o coração. aliás, não é bem dor, trata-se antes duma espécie de cansaço, próximo da dormência, que me embala num vaivém de descompressão, abandono, alheamento. talvez fosse mesmo esse o meu desígnio, atingir um ponto destes, assim como que um ponto morto.
...
não, não foi uma decisão súbita, muito menos um acto extemporâneo. demorei..., bem, creio que demorei uma vida ou quase, a minha, para conseguir. matá-lo, simplesmente isso. tentara, por diversas vezes, recorrendo aos mais variados métodos, ora um pó de veneno, ora uma corda à volta do pescoço, ora outros truques que não vale a pena enunciar, simplesmente porque falharam. aliás, ele tinha a perspicácia de descobrir, não apenas a minha intenção, mas, o que é mais assustador, as minhas manobras dissimuladas (pensava eu que dissimuladas). nessas alturas, conseguia ser sarcástico ou provocador, fixava-me no exacto momento em que me preparava para verter o pó no copo, sorria com ar matreiro e dizia, - pára lá com isso, está à vista que te falta coragem. com a atrapalhação - por essa altura ainda não sabia dissimular -, quase engoli o veneno por engano. ele riu, passou do sorriso ao riso, afagou-me os cabelos húmidos acabados de sair do duche, virou costas e pavoneou-se a caminho da saída. quase rebentei de raiva e de vexame. noutra ocasião, quando lhe lacei a corda à volta do pescoço, repetiu o mesmo género de provocação. não me repeti na atrapalhação, aí já aprendera a dissimular - aprende-se tudo nesta maldita vida -, olhei-o sedutoramente, num convite a experimentar nova fantasia. foi assim que o apanhei, que o trouxe para a minha rede, que o prendi nas minhas malhas, até finalmente conseguir a realização: matá-lo, sem ele sequer desconfiar.
...
se ele me fazia mal?, pois fazia, obrigava-me a uma luta permanente, levando-me a crer que era por mim, mas não, era por ele. verdadeiro demónio. sedutor, é certo, mas pleno de artimanhas para me fazer sofrer sofrimentos inventados, desnecessários.
...
com o tempo, após inúmeras tentativas infrutíferas (mesmo depois de ter aprendido a dissimular e, assim, o ter capturado na minha rede), surgiu um factor em meu socorro. tornei-me invisível! estranho, não é? não aconteceu de repente, embora o tivesse percepcionado de repente. simultaneamente, compreendi que as batalhas que ele me impunha - fazendo-me crer que eram por mim, embora, na verdade, revertessem sempre a seu favor - já não faziam qualquer sentido, o que, por seu turno, talvez significasse que nunca haviam feito sentido. aconteceu tudo com a força duma explosão e a dor dum trauma. essa força e esta dor espoletaram o êxito da missão: reduzi-lo à insignificância da morte, ele que se impusera ostensiva e egoisticamente ao longo de quase toda uma vida, a minha (e a dele, diga-se em abono da verdade).
...
apenas mudou a justificação, aquilo que sempre se me apresentara como uma necessidade, converteu-se em razão de vingança. 
...
quero dizer, libertei-me dele, matando-o, já não porque isso fosse necessário à minha libertação, mas por vingança, mera vingança. porque agora, tornada invisível, já não se me ofereciam batalhas a ganhar. talvez daí esta sensação de cansaço final. bem vistas as coisas, por esta altura, já era irrelevante matá-lo.
...
todavia matei-o. matei o meu precioso eu.
...
pois, isso já não sei responder, se se tratou de homicídio ou de suicídio. também, who cares?







quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A AUTÓPSIA


Lembro-me que era Primavera, embora talvez fosse qualquer outra estação do ano. Desci do autocarro e encaminhei-me para o edifício de pedra austera, elevando-se silencioso, como se mergulhado em luto eterno, no desnível da calçada, aí a uns três, quatro andares, ou mais ou menos, nunca fui de reparar nesse tipo de pormenores. Franqueei o átrio amplo, perguntei ao porteiro e segui as indicações. Subi umas escadas largas, de mármore (?), debruadas por um corrimão arredondado (?), encontrei-me com um corredor desafogado e depois era virar à esquerda, novo corredor, e encontraria a sala, também do lado esquerdo deste último corredor. Tudo muito liso, cinzento e sombrio, a condizer com o fato de racionalidade (e tédio e...) que levava vestido - por essa altura era o único fato com que cobria a minha frágil nudez. 

Também por essa altura, já gostava de romances e filmes policiais, não me impressionavam as cenas macabras, nem o sangue a esguichar de vítimas estropiadas. A visão daqueles mundos de angústia, conflito e terror, filtrada pela lente das artes do imaginário, atraía-me sem resquício de perturbação. Talvez por isso, ia convencida de que enfrentaria a prova sem a vergonha das reacções (vómitos, desmaios...) anunciadas, nos corredores da Faculdade, pela voz divertida dos colegas mais velhos, os que já tinham passado por . Mas, devo confessar, não ia totalmente convencida. Um fio de inquietação suspendia-se algures, no recesso de dúvida e cautela que, ao confeccionar o meu fato de racionalidade, dissimulara como bolso de recurso, bem no interior.

Foi assim que segui em frente e virei à esquerda. No lado direito do corredor, sucediam-se amplas salas, cujas portas escancaradas expunham uma profusão de cadáveres estendidos (ou exibidos?) sobre marquesas, numa nudez indecorosa de abandono. Foi aí que o meu fato tecido de fios de racionalidade se esticou em rasgões súbitos e mudos, despenhando-se no chão gelado, enquanto a minha nudez desprotegida se confundia com a dos corpos desvalidos dos defuntos.

Retrocedi, impelida pela desorientação do choque, estaquei. Não, não podia desistir. Apanhei os trapos do meu fato e cobri-me com eles o melhor que pude, desapegando-me dos corpos mortos estendidos ali ao lado. Após uma pequena pausa, transpus a distância até à sala de destino.

O horror que me aguardava não era menor. Nem o choque. Nem o impulso de correr dali. O fato ameaçou, novamente, ceder, mas mantive-me firme. Já ali estavam vários colegas. Diziam-se graças, para fingir uma normalidade suportável. Dispusemos-nos à volta da mesa, enquanto o médico e o assistente se preparavam para começar. Coloquei-me na primeira fila. Talvez porque aí seria forçada a segurar o meu fatinho de racionalidade, talvez para me desafiar, sei lá. E vi tudo, sem desviar os olhos, como se precisasse de me demonstrar alguma coisa, talvez uma força que não tinha (e outra que tinha, mas não era equivalente...).

O cadáver sobre a mesa era o de um velho, creio que cego, e, traçada entre o peito e a barriga, tinha uma larga estrada castanho-avermelhada, quase poderia confundir-se com terra batida, rasto do comboio que o trucidara. Depois foi a dança das serras e bisturis, extracção e pesagem de vísceras e tudo o resto que envolve uma autópsia, a primeira autópsia a que assisti, numa aula prática (se foi!!!) da cadeira de Medicina Legal, como jovem aluna do curso de Direito.

Tudo aquilo deu-me muito que pensar sobre a condição humana, mas já não sei que pensamentos (embora não seja difícil de imaginar). Deu-me também uma enorme repulsa por ovos mexidos e omeletas, dada a sua semelhança visual com a gordura que se alberga sob a nossa pele. E provocou-me, ao longo de plúrimos anos, terríveis pesadelos, em que me apareciam talhos de cujos ganchos pendiam corpos humanos e não de (outros) animais. 

(Imagem obtida em pesquisa Google)





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

LIVRO VINDO DO FUNDO DO MAR


avancei por sobre a areia deserta. arregacei os jeans até bem acima dos joelhos, descalcei os reebok, cosi-os um ao outro por um laço dos atacadores e pendurei-os num ombro, abandonando os pés e as mãos ao devaneio da aragem mansa, soprada de offshore. não olhei para o relógio, porque não era tempo de reparar nas horas, aliás, nem levava relógio.

os meus pés dirigiam-se ao mar, saboreando aquela macieza e o tacto de um ou outro seixo polido, sobressaído do vasto areal. pedaços de madeira e plástico vagueavam por lá, roçando-me a distração, antes de me desviar, quase assustada ou repugnada. restos sabe-se lá de que naufrágios. também havia conchas, muitas partidas em figuras estranhas, e algas, penso que eram algas, enfim, sobras de vegetação marinha, agonias do vaivém marinho. e uma ratazana morta. dei um salto em frente, enojada, e os meus pés receberam a primeira lambidela de onda. soube-me bem. em contraste com o ar atormentado da atmosfera, esboçada a cinza, encobrindo mil ameaças, a água oferecia-se quase tépida, despida de agressividade ou de mistério. continuei.

não pensava em nada, a ideia era justamente essa, não pensar, aliás, o pensamento andava-me embotado. porquê forçá-lo? mais valia deixar de pensar no pensamento...

fui andando, creio que fui andando, o mar já me cobria as coxas, por cima das jeans que não consegui enrolar mais para cima. paciência, haviam de secar. de repente, algo me bateu na canela da perna direita, soltei uma exclamação dolorida, - ai, ai, debrucei os olhos, aquilo já se desviara e ameaçava recolher com o retrocesso da onda, - não se cansará o mar de não se cansar?, pensei. estendi a mão, com a rapidez e precisão duma caçadora treinada, que não sou, e consegui. ali estava a presa! um objecto duro, que a princípio não identifiquei, porque estava envolvido num enredo apertado e informe de vegetação marinha, certamente vinda do fundo do mar ou do fundo dos tempos, o que vai dar ao mesmo. o coração batia-me de entusiasmo, no pressentimento duma revelação estranha.

encaminhei-me para o areal, com uma pressa de curiosidade, moderada por lentidão forçada, vontade de fazer durar o ansiado momento. os momentos de espera, deste tipo de espera, são os melhores. recostei-me numa duna, não muito longe do mar, àquele nível da maré. esfreguei distraidamente a canela, queixosa do embate, e comecei a afastar, com lentidão apressada, o emaranhado de plantas que colonizava o objecto. surgiu, por fim, qual segredo desvendado, uma garrafa de vidro, perfeitamente arrolhada. agitei-a, não que o seu interior fosse líquido, mas porque lá habitava um pequeno objecto, talvez um pequeno ser, pensei, deixando-me conduzir pela fantasia, de que nunca conseguira crescer. o pequeno objecto andou para cá e para lá, deixando-se antever, com dificuldade, através das paredes enegrecidas da sua garrafa-cárcere. passei uma mão cheia de areia pelo vidro, aclarou um pouco e vi, com espanto, o que me pareceu ser um livro miniatura, de capas vermelhas e folhas de rebordo prateado. do espanto à necessidade de confirmação foi o tempo de bater ruidosamente a garrafa na saliência da rocha mais próxima. dos estilhaços queixosos, saltou o livrinho miraculosamente intacto. aconcheguei-o nas mãos trémulas, parei um pouco a observá-lo, como quem espera algo estranho, por exemplo, que ele começasse a falar comigo.  só depois, com um cuidado rigoroso, me atrevi a abri-lo na primeira página. Esperava, obviamente, uma mensagem vinda de muito longe e de muito antes. Não é isso que se deve esperar do interior duma tal garrafa, devolvida pelo mar?

mergulhei na maior das incógnitas. nem uma página escrita! voltei à capa. ía jurar que também estava em branco, mas, impressas no prateado do rebordo das páginas, apareceram as seguintes palavras, LIVRO EM BRANCO. raio de brincadeira, pensei, com tanto de decepção quanto de apreço pela ideia. aconcheguei-me no encosto da duna, a aragem começava a tornar-se vento e o céu pesava, cada vez mais cinzento. apertei o livrinho entre os dedos, como quem tolhe uma criança com excesso de cuidados.

num sobressalto de pios agudos, escancarei os olhos  para uns tons de cinzento agora mais fundos, a chuva não devia tardar. era a hora das gaivotas. lá no alto, rodopiando sobre a minha cabeça um pouco zonza, coreografavam um ballet pautado por guinchos. pendia-lhes das patas o que me pareceram farrapos esbranquiçados. depois, dum modo sincronizado, largaram os farrapos ou fosse lá o que fosse. iniciaram uma descida lenta, harmoniosa, convergindo-me para o colo, onde, forçando os meus dedos carcereiros, se abriam as capas do pequeno livro. agora ao perto, os farrapos ou fosse lá o que fosse, revelaram-se folhas escritas, de rebordo prateado, apequenando-se à medida que desciam, até serem recolhidas pelo livrinho aberto, qual pássaro de boca escancarada à espera de alimento devido. como que por osmose, fundiram-se nas folhas em branco, restituindo-lhes a vida dos caracteres impressos. quando já nenhuma folha pairava no ar, o livrinho fechou-se lentamente, aliviado, deixando de combater a pressão dos meus dedos ansiosos. quase com medo, segurei os olhos na capa. em branco, estava em branco.

guardei-o, cuidadosamente, num bolso dianteiro dos jeans, desarregacei os jeans, desatei e calcei e voltei a atar os reebok, aconcheguei-me na camisola de malha, estava frio, o céu tinha acabado de escurecer de vez, rumei a casa.

animava-me a antecipação do prazer de ler aquelas páginas que tinham roubado o título ao pequeno livro.

(imagem obtida em pesquisa google)







segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO!


chamo-me António, fiz anteontem setenta e dois anos e não me considero nada mal, quer física quer psiquicamente. não fosse o testemunho da porra do cartão de cidadão e talvez estivesse apto a começar uma vida nova, mesmo que amparado na bondade de alguns comprimidos, colesterol, tensão, tesão, neste último departamento as mulheres têm mais sorte... seja como for, aderi à moda das gentes de calções de lycra que percorrem, em passo rápido ou em corrida, as múltiplas ciclovias com que os autarcas prodigamente debruaram as avenidas da cidade. às vezes até pratico em grupo, somos uns cinco ou seis, a mais nova, uma rapariga de pouco mais de vinte anos, toda ginasticada, está bom de ver, e os outros variando entre a minha idade e a dela, embora mais próximos desta. tenho os pernis mais musculados do que aos quarenta, em que o meu corpo se derramava, um bocado enfezado, submerso em pesada carga de trabalho e com pouco tempo para luxos, por essa altura ainda não havia a cultura dos ginásios, ciclovias nem sonhadas, e, se se visse um velho a correr pela rua fora, pensava-se logo que estava a fugir do asilo ou do Júlio de Matos e, havendo tempo e pachorra, ligava-se para o cento e quinze, ah! pois, isso do cento e doze já é uma modernice. ainda se me nota um pouco de barriga, mas está a diminuir, volta e meia ponho-me a sumos e vegetais para desintoxicar, o cabelo é o pior, deu em arrepiar caminho, da frente para trás, deixando-me a descoberto toda a parte da frente da cabeça, aí até ao meio, em compensação, sobram-me uns tufos que espreitam por trás das orelhas como duendes atrevidos e escorregam pelo pescoço abaixo, enrolando-se no colarinho das camisas ou no rebordo das t-shirts, agora dei muito em usar t-shirts, mas, voltando atrás, devo actualizar que pus fim à rebeldia desses cabelos à solta, tudo por causa da Aurora, Aurora, este nome traz-me sempre à ideia a aurora boreal e daí interrogo-me por que raio se há de dar um tal nome a uma rapariga acabada de nascer, agora talvez já não haja Auroras, digo, raparigas chamadas Auroras, auroras boreais continua a haver e não hei de morrer sem ver uma ao vivo e a cores, que gosto muito dos fenómenos estranhos da natureza... a Aurora é minha amiga recente, mais nova do que eu, deve andar pelos sessenta e picos, mais pico menos pico, vai dar ao mesmo, conhecemos-nos na academia sénior, simpatizámos um com o outro e vamo-nos encontrando por aí para conversar sobre o que calha ou para atualizar estados, como ela gosta de dizer. a dada altura, virou-se para mim e pronunciou, meio a sorrir, talvez com medo que eu levasse a mal, embora não fosse o caso, - ó António, não se ofenda com o que vou dizer, mas parece-me que ficava melhor se cortasse esses excedentes capilares (às vezes, dá-lhe para falar assim, ainda não percebi bem se a gozar ou a sério) que lhe sobrevoam as orelhas e o pescoço, e eu, - ora essa, até agradeço, e, vai daí, resolvi acatar o conselho, fui logo de seguida a um cabeleireiro unissexo, perto do sítio onde tomámos café, ali à Almirante Reis, e fiquei espantado com a dimensão e a decoração do espaço, enorme e todo a brilhar de metais, espelhos e falso cabedal prateado, com um ar muito novo, parecia que tinha entrado numa nave espacial e senti-me protagonista ou simplesmente figurante, tudo dependendo de como o corte saísse, dum filme de ficção científica e nisto dirigiu-se-me um fulano muito rebolado, com umas calças brancas coladas às pernas e ao resto, presas por um cinto cheio de picos metálicos e uma t-shirt preta de gola redonda, sem mangas, com aplicações prateadas na parte da frente, cabelo ultra-platinado, acho que é assim que se diz, pestanas mais reviradas do que as da Marilyn Monroe e uma boca excessivamente brilhante, ignoro o que era aquilo, com um gesto de mão deveras pronunciado, como se segurasse uma bandeja, que, em reacção ao meu pedido seco de corte de cabelo, respondeu - o sinhô mi disculpi, más mi páreci qui dívia fázê um álisámento, sinão o seu cábelo vai crêcê prós lados... e ainda continuava a debitar palpites, quando eu, já a ficar esgazeado, lhe vociferei nova ordem cortante, - é só cortar e rapidinho que estou com pressa, - o sinhô é qui sábi, foi a resposta dele, com um jeito todo amuado, de quem se sente incompreendido, e não, não sou homofóbico, não tenho nada contra homossexuais, não tolero é bichas, montadas em puro exibicionismo como se toda a gente tivesse de saber o que fazem nas suas horas privadas, ora, haja decoro e paciência! a Aurora tinha razão, o cabelo ficou bem melhor, agora a cabeça está mais homogénea, a chamar menos a atenção para a clareira dianteiro-central e transpiro menos do pescoço nas minhas corridas diárias pelas ciclovias da cidade, embora deva acrescentar que a careca nunca me impediu de despertar o interesse das mulheres, até tendo a acreditar quando se diz que é dos carecas que elas gostam mais, bem, se não gostam também não se queixam, e não digo isto para me gabar. o pior, repito, é mesmo a porra do cartão de cidadão, que bem podia chamar-se espelho do cidadão, da última vez que actualizei o meu, as rugas nasolabiais ficaram tão marcadas que pareciam cicatrizes, fui lá reclamar, a funcionária baixou os olhos para o cartão, levantou-os para a minha cara, voltou a baixar e a levantar e, impavidamente, decretou, - confere, afinal o que é que o senhor pretende?, tirei-lhe o cartão das manápulas e tomei de assalto a ciclovia mais próxima para espalhar a raiva e a frustração, depois, o meu neto mais novo, o Pedrito, que tem cinco anos, pegou a mania de me olhar fixamente e perguntar, com os olhos muito fixos, como quem tira uma fotografia, - porque é que o avô é velhinho? e eu de me rir, a disfarçar, e ele a voltar à carga, - quando é que o avô vai morrer? e eu já meio atrapalhado a tentar explicar-lhe que não sou assim tão velho e que morrer morremos todos e o puto a desatar aos berros, - pai, o avô está a dizer que vamos morrer todos e tu tinhas-me dito que o avô é que ia morrer um dia destes, e o pai muito aflito a ver se o calava, a prometer-lhe um lego ou outra treta qualquer e a dizer-me, - o pai não ligue, são crianças, são coisas que ouvem na escola, até que abreviaram a visita e me deixaram em paz, entregue à problemática do cartão do cidadão e tudo o que lhe vem associado. nem de propósito, há dias, não sei se por causa da exposição às forças da natureza, por via das aventuras nas ciclovias, se por outra razão qualquer, vi-me a braços com uma forte constipação ou resfriado ou gripe, não sei bem, só sei que não podia com o corpo, para ali esparramado na cama sem me conseguir mexer, era só tosse, febre e falta de forças, apetite em fuga e um enorme desamparo, ainda me passou pela cabeça telefonar ao meu filho, o pai do Pedrito, ou à minha filha, mas sei que têm uma vida do caraças, como foi a minha, é só trabalho, trabalho e mais trabalho, e ainda bem, é sinal de que não são vadios nem estão desempregados, e depois também precisam de descontrair e estar com os amigos nos tempos livres, compreendo isso perfeitamente, mas contive-me e resolvi esperar pela D. Gracinda, vem uma vez por semana dar um jeito à casa e sempre me ajuda nestas ocasiões, sem que tenha de chatear os meus filhos, só que desta vez, fosse pela violência da maleita, fosse pelo andamento do cartão de cidadão, dei comigo a pensar coisas que, já não sendo novidade, vou sempre adiando, refiro-me a coisas que qualquer pessoa e, muito mais, uma pessoa avançada na idade, deveria ter devidamente organizadas, tipo, o testamento propriamente dito, incluindo as disposições sobre o funeral, até já há um serviço duma funerária chamado funeral em vida que, segundo creio, responde antecipadamente àquelas disposições, não acredito que se trate de enterrar pessoas vivas!, o testamento vital  e várias outras coisas de ordem prática, pensei que era urgente atar umas pontas que tenho andado a deixar por aí à solta, e, mal me regressaram as forças, embora não suficientes para voltar a atacar as ciclovias, resolvi dar volta aos arquivos e veio-me parar às mãos um dossier com dezenas de cartas que há décadas escrevi aos meus pais quando a empresa para a qual trabalhei de contabilista e, depois, de gestor, me colocou numa filial fora do País, mais concretamente, em Espanha. como as cartas tinham sobrevivido à morte dos destinatários, achei que mereciam um tratamento à maneira antes de serem destruídas, vai daí decidi lê-las, assim uma espécie de ritual de despedida, como se o papel e a tinta e o mais que ali foi gasto, incluindo a memória dos olhos e dos corações que as leram, não devessem ir parar sem mais a uma qualquer central de reciclagem enquanto simples lixo, que era o que certamente lhes sucederia se me sobrevivessem, e uma passagem, em especial, despertou a minha atenção, já não me imaginava a ter produzido uma tal asserção, de resto eventualmente tão sábia ou cínica ou ambas, era dirigida à minha mãe, pessoa deveras ansiosa, sempre preocupada com o bem da família ou melhor, com os males reais ou imaginários que a poderiam afectar, e, a terminar uma frase de incentivo a que descontraísse e gozasse a vida, eu dizia mais ou menos isto, de resto, coração ao largo, que quem nos pôs cá toma conta de nós (seja Deus ou seja lá quem for), e, ao reler esta parte, espantei-me com a frase, com o facto de a ter escrito, e não pude deixar de pensar, ora muito bem, eis o meu momento "olhai os lírios do campo"! Sorri e decidi aplicar esta máxima ao meu caso.

(imagem obtida em pesquisa google)




quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

CAPUCHINHO VERMELHO: VERSÃO URBANA


Certo dia, a avozinha, montada em seus passos miúdos e periclitantes, caminhava através dum descampado, rogando pragas à vida e aos montes de lixo que se iam sucedendo. Da mão flácida e pintalgada de manchas castanhas pendia-lhe um envelope.

De repente, como que surgido do nada e de parte nenhuma, apareceu-lhe ao caminho um lobo, magro e decrépito, que logo a cumprimentou simpaticamente, - Bom dia, minha senhora! Bem, o dia está um pouco fosco, mas o que conta é o nosso estado de espírito, não é verdade? 

Ela encarou-o, de mau humor, e rosnou secamente, - Bom dia.

Cheio de paciência e astúcia, o lobo foi alimentando uma conversa de coisa nenhuma, até conseguir amaciar a avozinha, ao ponto de se atrever a gabar-lhe o chapéu que ela usava, sobrevoando a rala, cinzenta e desordenada cabeleira. - Que bonito chapéu a senhora tem e que bem lhe fica! - Acha?, respondeu ela, fingindo um espanto todo feito de vaidade. Sem dar tréguas ou espaço para reflexão, o lobo indagou, - E esse envelope, aí na sua bela mão, senhora, é o quê, alguma carta do namorado, perdoe-me o atrevimento? Ela fingiu que não sorria e respondeu, - Ora essa, qual namorado qual quê, nesta fase do campeonato! É o cheque da minha reforma, vou levá-lo a casa do meu neto, não que o senhor tenha alguma coisa a ver com isso. - Então adeus, cara senhora, foi um prazer esta conversa, vou andando que se faz tarde. E lá se foi o lobo, deixando-a de boca aberta e ar de lorpa.

Vencido o descampado, seguiu-se um amontoado de prédios de vários andares, todos de tom cinzento ou amarelado, que não dava para perceber se era da cor da tinta ou da sujidade. As ruas estavam povoadas de caixotes de lixo esventrados, de crianças ramelosas e de adolescentes abandonados às paredes, expelindo rolos de fumo e emborcando cervejas. A avozinha reafirmou as pragas ao mesmo tempo que pensava, já estou demasiado velha para isto, da próxima vez digo ao Sandro que vá ele a minha casa se quer o cheque. Mas era pensamento de pouca dura, que, mal via o neto, derretia-se toda, como se vivesse para aquele momento.

Chegada ao destino, subiu as escadas a custo, quatro andares, a arfar, quase a sucumbir, o maldito elevador mais uma vez escaqueirado. Meteu a chave à porta, entrou e estatelou-se no sofá torto e manchado do átrio de entrada, que era também sala de estar, de jantar e do que mais calhava. Recuperado o fôlego, pôs-se a chamar, - Sandro, ó Sandro, olha a avó!

Como o Sandro não desse sinal, levantou-se dolorosamente, balançou nas articulações gastas, e dirigiu-se à outra assoalhada, o quarto. Pelo caminho - um ou dois passos - ainda a animou o pensamento vertiginoso e mágico de que ele pudesse ter ido trabalhar. Mas não, lá estava refastelado na cama! 

- Olá, Sandrinho, é a avó! Olha, trago-te aqui o cheque da reforma, não é muito, mas sempre ajuda.

O Sandro, cheio de mau dormir - deitara-se de madrugada, depois duma valente confraternização com os amigos, acabada em monumental bebedeira -, mexeu-se no emaranhado da roupa de cama surrada, olhou para ela de má vontade, e disse, por entre dentes, - Deixa aí e pira-te que preciso de dormir.

A avozinha, habituada que estava àquele tratamento, não estranhou, mas, desta vez, não entranhou. Com mão enfurecida afastou a roupa de cima dele e preparava-se para o descompor, por uma vez, uma primeira vez, há sempre uma primeira vez, quando, subitamente, estacou, de boca aberta.

Os olhos do neto tinham um tom amarelado, da boca saíam-lhe tufos de pelos compridos, que não eram de gente,  e da cama pendia uma pele esfacelada de lobo,  a escorregar pelo chão, feita tapete.

Sem sequer perguntar fosse o que fosse, por exemplo, - Porque reluzem os teus olhos em brilho amarelo, Sandrinho?, a Avozinha pegou no cheque, bamboleou pelas escadas abaixo, atravessou as ruas decrépitas do bairro, voou sobre o descampado e fechou-se em casa.

(Imagem obtida em pesquisa google)






domingo, 1 de janeiro de 2017

UM PEIXE CHAMADO KAFKA


o mar desdobrava-se, lento, como lençol abandonado sobre corpo nu, solitário, exposto. a espuma das breves ondas quebradas ao de leve roçava-lhe os lábios e o nariz. fazia-lhe cócegas. renda macia, provocadora, de lençol de cetim branco. azul e branco. azul com renda branca.

ren-da-bran-ca. ren-da-bran-ca. ren-da-bran-ca...

acordou com aquele murmúrio, vindo não sabia donde.

não-sa-bi-a-don-de. não-sa-bi-a-don-de...

resistiu a readormecer (re-a-dor-me-cer...). levantou-se dum salto. pulo de gato, pensou. antes de mais nada, mesmo de poder espreguiçar-se, viu-os à sua volta. eufóricos, pequenos olhos malandros, acesos num gozo disparatado, bocas enormes, pelo menos em proporção, abertas num riso desgovernado, deixando espreitar dentinhos afiados como pontas de lápis. rodeavam-o numa dança estranha, dando voltas e mais voltas sobre si próprios, exibindo caudas buliçosas. caudas! só então reparou que tinham cornichos, pelos vermelhos semeados aleatoriamente nos corpos magros e nervosos, pés idênticos a patas de cabra. seguravam tridentes metalizados. são diabretes, é isso, concluiu. 

não paravam de se aproximar, estendiam os tridentes para a sua pele, mordiam-lhe a superfície do corpo nu. agitou-se, enfurecido. desatou a distribuir estaladas em todas as direcções. a cada uma caíam dois ou três, soltando gritinhos estridentes, enquanto rebolavam para longe, no chão, não fosse ele desaustinar aos pontapés. adivinhou-lhes o pensamento. desaustinou aos pontapés. chapadas e pontapés. ora tomem lá, desamparem-me a loja, vociferava com cara de meter medo ao mais empedernido belzebu. acabaram por fugir. assustados. ele ficou. exausto.

procurou sentar-se, mas não encontrou o rabo, quer dizer, um rabo de sentar. olhou para os pés, mas não estavam lá. equilibrava-se sobre um rabo de peixe, não um rabo que desse para se sentar. como é sabido, os peixes nunca se sentam. não foram feitos para se sentar. descansam doutras formas. calcula-se. levou as mãos ao rosto, melhor, pensou que levava as mãos ao rosto, mas não eram mãos, eram barbatanas. mesmo assim, levou-as ao rosto, para esfregar os olhos, não fosse dar-se o caso de ainda estar a dormir, vítima dalgum pesadelo. esfregar os olhos com força era remédio santo para acordar. não encontrou os olhos. ao fim de infindáveis segundos de desnorte - in-fin-dá-veis-se-gun-dos-de-des-nor-te... - verificou que os tinha dos lados da cara e não à frente. aliás, aquilo também não se parecia nada com uma cara. demasiado estreita, espetada para a frente como a quilha dum barco. os diabretes espreitavam à distância, mas ele não os via. estava demasiado ocupado consigo. consigo? comigo?, interrogou-se. sentiu-se completamente desidentificado. caiu no pânico.

as mãos transpiravam-lhe como se uma vaga de desidratação fosse a ordem do dia. os olhos espantavam-se numa tela de absurdo. o coração batia-lhe com tamanha força, velocidade e desordem que nem conseguia ouvir o despertador. o simples acto de respirar tornou-se-lhe tão asfixiante que não teve outro remédio. acordou.

a-cor-dou. a-cor-dou. a-cor-dou...

estendeu o braço para a mesa de cabeceira. parou bruscamente o despertador. no acto, derrubou o livro que, horas atrás, antes de embarcar no sono, deixara aberto. caiu de capa para cima. 

ca-iu-de-ca-pa-par-ci-ma. ca-iu-de-ca-pa-pa-ra-ci-ma. ca-iu-de-ca-pa-pa-ra-ci-ma...

Um Peixe Chamado Kafka, era o seu título.

 (imagem obtida em pesquisa no Google)