sexta-feira, 7 de julho de 2023

É ISTO O CÚMULO DA SOLIDÃO?

Quando, há uns anos, eu frequentava o bar terraço do CCB, onde, bastantes vezes, almoçava e passava a tarde a escrever, num ambiente onde conviviam, sem barreiras, estudantes universitários, entregues aos seus livros de estudo, e, em número significativamente menor, pessoas já desligadas do trabalho, entretidas com seus jornais e computadores, havia uma pessoa que destoava do ambiente, calmo, harmonioso e concentrado, reinante.

Tratava-se de uma mulher de aparência normal, que deveria rondar os quarenta anos e se manifestava de forma exuberante, dirigindo-se a um e a outro num tom de voz elevado, cirandando entre uma mesa e outra e assim perturbando, de algum modo, o sossego geral. Não o fazia, todavia, em tom agressivo, mas antes com uma intenção transparecida de quem quer ser (ou parecer) simpático e, sobretudo, denunciando enorme necessidade de se relacionar, de ter a atenção e, quem sabe se o afecto, dos interlocutores.

As pessoas reagiam sem animosidade mas com cautela, pois estavam ali com propósitos próprios, que, seguramente, não passavam por incomodar ou confortar o próximo. Nunca vi ninguém virar-lhe a cara ou omitir uma palavra de resposta, mas também não presenciei mostras de disponibilidade para irem além do necessário ou requerido pelos padrões de educação e tolerância commumente aceites. Quanto a mim – confesso –, à sua passagem, mergulhava a cabeça no computador.

Certa vez, assisti a uma cena algo caricata e constrangedora. Pouco tempo decorria das festas natalícias e ela abordou a mesa onde se encontravam duas ou três raparigas, entregues aos seus estudos, interrompendo-as não sei com que conversa e, de súbito, sacou de um embrulho festivo e fez questão de o oferecer a uma delas, argumentando tratar-se de um presente de natal. Desembrulhado o dito, creio que por ela mesma, saiu um bonito lenço ou cachecol. Foi deveras incomodativo assistir ao desconforto da rapariga, teimando, educadamente, em que não podia aceitar a oferta. Mas ela insistia, insistia. Não me recordo do desfecho, o que me marcou foi o (compreensível) mal-estar da rapariga face àquele desespero de dádiva da mulher que gostava (ou precisava) de falar com desconhecidos.

Acontece que ela se fazia acompanhar de uma espécie de mascote, um boneco de peluche (por vezes, mais do que um) que colocava sobre a mesa, assegurando — imaginava eu! — o papel do inexistente acompanhante.

Entretanto, os empregados do espaço falavam com ela como se tudo fosse normal, animados não sei de que pensamentos ou emoções perante tão estranho comportamento.

No que me concerne, aquilo incomodava-me, pensava se não estava perante o cúmulo da solidão, embora pudesse ser mais grave (ou, talvez, menos...), algo do foro psiquiátrico, mas sentia-me apaziguada por me parecer que a mulher não exibia tristeza, inclusivamente, aparentava estar de bem consigo e suas idiossincrasias.

A dada altura, com grande pena minha, o bar terraço do CCB fechou, arranjei outros espaços de escrita, e nunca mais pensei naquela mulher e na sua particularidade.

Há dias, almoçando no CC Amoreiras, divisei, uns metros adiante, uma mulher a falar na direcção de algo estacionado sobre a mesa, o que parecia ser um boneco de peluche. Pensei que teria alguma criança ao lado, mas, quando me levantei e passei por ela, constatei que não, não havia nem criança nem mais ninguém, apenas a mulher, o boneco e o seu diálogo sabe-se lá se obtinha resposta naquela transação! Com toda a reserva que estes casos me merecem, procurei não olhar para ela, que, pela perspectiva apressada do canto do olho, me pareceu dever rondar os cinquenta anos. Veio-me, então, à memória o caso da mulher do CCB, de que falei acima.

Pouco tempo depois, após almoçar e me preparar para escrever um pouco, no café restaurante da Gulbenkian, qual não foi a minha surpresa, quando, numa mesa ao lado da minha, veio instalar-se alguém em quem não teria reparado, não se desse o caso de assistir à colocação, sobre a mesa, de dois bonecos de peluche, que assistiram, sem reclamações, ao almoço da sua dona ou companheira ou sabe-se lá o quê. Tratava-se da mulher das Amoreiras! Tal como a do bar terraço do CCB, trocou umas palavras com os empregados, uma das empregadas perguntou-lhe, atenciosamente, se o Poupas (presumi, pelo contexto, tratar-se do boneco da Rua Sésamo) tinha ficado em casa, o que ela confirmou. Terminado o almoço, dirigiu breves palavras aos companheiros de mesa, levantou-se e perguntou a um dos empregados se havia alguma exposição. E lá foi à sua vida, talvez mostrar aos seus bonecos os diálogos do Chafes com o Giacometti.

Fiquei a pensar se não se tratará da mulher do CCB.

Mas a maior  (e mais pungente) interrogação que se me suscitou foi esta: será isto o cúmulo da solidão? Aquela que o cantor francês dizia que n’existe pas


(discretamente, fotografei os bonecos)



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