Há quem acredite no poder inspirador
do amor ou da arte ou doutra coisa qualquer.
Eu acredito, mas acreditar,
acreditar, acredito mesmo é no poder inspirador da estatística, apesar de ter
fama de viver pendurada no árido enredo das ciências, para mais, a matemática.
Sem pretender negar a beleza e a poesia da matemática, aliás, sempre tive muito
boas notas a matemática, não sei se por acaso ou se por aquela raiz comum da
lógica e da harmonia, outras formas de arte, suas bases ou margens ou
distâncias próximas.
Tanta divagação para dizer algo tão
simples: acredito no poder criativo e curativo da estatística, quando não no
seu poder redentor, por via do onírico, o que nos remete para o abençoado prado
dos sonhos bons, ou seja, os sonhos sem futuro, que, todavia, enquanto duram,
nos levam às alturas da transcendência. Claro que o mesmo se aplica aos sonhos
maus, os ditos pesadelos – de que sofro não sem um certo prazer ansioso, o de
acordar, saber que foi mentira, respirar fundo, transcrever, constatar,
analisar, sossegar e esperar pelo próximo, porque há sempre um próximo, envolto
na sua cor castanho-escuro. Mas, como os sonhos, também os pesadelos têm
duração limitada e, se não nos transportam à altura da transcendência, por
vezes até sim, empoleiram-nos nas margens do confronto com paisagens irreais ou
julgadas irreais, nem sempre destituídas de assombrosa imponência e beleza, que
há vários domínios da beleza, nem só nem sempre o belo é o belo.
Está bem, volto à estatística,
assunto a propósito do qual espraiei esta conversa. Para que não haja
confusões, mudo de parágrafo.
É assim: hoje em dia, há um País –
obviamente há mais, mas, por agora, só este me interessa - em que a classe
trabalhadora diminuiu de número e a classe dos muito ricos aumentou de número;
a zona de ninguém que as separava (recomendável distância) ou unia (ameaça)
definhou, deu-lhe um mal, deu-se mal, desapareceu, morreu, adeus, goodbye.
Estatisticamente, este País está
muito melhor, menos gente a trabalhar, mais gente a desfrutar, gente, esta, que
só pode ter ascendido daquela ou da desnecessária defunta.
É disto que eu gosto na estatística,
agora, cada trabalhador-em-saldo (esquecera-me de dizer, não releva em termos estatísticos,
mas o trabalho compra-se agora à cotação do saldo…) pode aspirar directamente
ao mais alto grau da classe económico-social ambicionada, sem passagem
pela maçadora etapa intermédia da defunta zona de ninguém; um futuro muito
mais promissor se perfila. E muito mais rápido. A lei das probabilidades
repousa, obviamente (como convém), no esquecimento dos jackpots televisionados
em directo de casas pelintras e outras que tal, na morte dos avisados avisos do
pensamento, estropiados por eufóricos ou deprimidos depoimentos de formadores
de opinião (constante ciclotimia da ameaça clara ou surda, repetida ao limite
da exaustão, de preferência embrulhada em emoção), do assassinato das promessas
nadas-mortas, alardeadas ao som de hinos arrebatadores, por pseudo-políticos de
inspiração canina, enfim, por aí.
Se inventei esta estatística? Claro
que sim. Mas não é original, o poder criativo, inspirador e redentor das
estatísticas certinhas e oficiais é bem superior ao desta! E o oposto é
igualmente válido.
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