Viajar, uma das minhas actividades preferidas, era algo que já não intentava há demasiado tempo – refiro-me a viagens para fora do país.
A culpa inicial coube ao COVID-19 – curiosamente, em Outubro de 2019, véspera do respectivo espoletar, empreendi uma magnífica visita à China, supostamente berço do malfadado vírus.
Seguiu-se o que todos sabemos e assim, entre confinamentos e receio de contágios, decorreram os dois anos seguintes sem me atrever a franquear a porta de um avião, navio ou qualquer outro meio de transporte susceptível de me levar à descoberta de novos horizontes (geográfico-culturais).
Apenas em 2023, decidi aventurar-me a nova viagem longe, elegendo como destino a Jordânia, atraída pelo apelo que, de há muito, este país vinha exercendo sobre mim – pela sua riqueza em locais míticos, tais como alguns dos que testemunharam a passagem de Jesus Cristo na Terra, outros cujos simples nomes encerram beleza, mistério e espiritualidade, caso de Petra, um lago salgado, Mar Morto, cujas águas nos elevam ao colo, qual exercício de aconchego e protecção, um deserto, Deserto de Wadi Rum, onde as noites oferecem miríades de estrelas, uma cultura milenar, bíblica, e muito mais.
Tendo por hábito preparar as viagens, desde logo, com recurso a leituras de ordem vária, uma das que nunca falta é a de um guia de viagem; no caso desta, a ronda pelas livrarias que, habitualmente, frequento, mesmo alargada a outras, não respondeu à procura, o que só consegui através de uma visita à Livraria Palavra de Viajante, sita da Rua de S. Bento, em Lisboa, em boa hora descoberta aquando de anteriores dificuldades idênticas.
Apliquei-me com iguais doses de entusiasmo e afinco no estudo do guia, Jordanie (Guide Petit Futé) e considerei-me apta a usufruir da experiência.
Todavia, a poucos dias da ansiada data da partida, eis-me fustigada por uma infecção respiratória, determinante do cancelamento da viagem – felizmente, com direito a reembolso, pelo seguro, do respectivo custo, o que já não foi pouco (em termos materiais), mas não o suficiente para anular a decepção, diria mesmo sensação de derrota.
A vida prosseguiu, como é de hábito, ao menos até terminar – nem Monsieur de la Palisse diria melhor, estou certa! – e, desde então, em anos sucessivos, fui marcando novas viagens, desta feita não para destinos tão exóticos, mas centrada na ideia de conhecer os países europeus por onde ainda não passara.
Assim se sucederam três marcações, todas elas com destino a Munique, mas eis que, sem excepção, acabaram canceladas, uma porque, em dias prévios contraí o dito COVID -19 – feito até então não consumado, o que, quando da apresentação do diagnóstico, levou o médico a rir, perante a minha exclamação, proferida com ar deveras natural e, pelos vistos, aparentemente despreocupado, senão divertido: "finalmente!, sou a única da família que permanecia imune ao vírus"; as restantes, devido a constrangimentos das próprias operadoras turísticas (falta de número mínimo de participantes e outra situação do género).
Não sou de acreditar em bruxas – no domínio do objectivamente indemonstrável, apenas dou crédito a duendes, gnomos, fadas e seres afins –, mas, tal qual reza o provérbio galego, Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!, é dizer, a minha mente céptica (quase) deu mostras de claudicar, vergada à convicção da existência de feitiço a rodear tanto cancelamento e consequente frustração.
Triunfando a racionalidade, que felizmente costuma imperar, eis-me a reservar nova viagem, desta feita, zangada com Munique (por certo, a última culpada!), rumo à Irlanda, em concreto, a Dublin, e apenas por cinco dias.
Decidi no momento, acabara de lanchar na cafetaria do ECI (El Corte Inglés) e, tendo a conversa com o meu interlocutor incidido na temática férias/viagens, saí de lá e, não é tarde nem é cedo, fui directa à Agência de Viagens do mesmo espaço comercial, onde, no momento, adquiri a viagem (apenas avião e hotel, depois logo veria).
Sucedeu isto no dia 3 do passado mês de Junho e, obviamente, o entusiasmo com que regressei a casa foi assinalável.
Na noite seguinte mal dormi, não devido à excitante perspectiva de retomar os passeios internacionais, mas antes, por efeito de certas dores no corpo, que, logo pela manhã, me levaram de urgência ao único hospital onde consegui médico especialista no assunto, em Cascais. A situação, merecedora de intervenção imediata, embora não revestisse gravidade especial, também não era de molde a passar sem demora, pelo que, embora a questão das dores tivesse sido significativamente atenuada, o facto é que permaneceu, causadora de incómodos e constrangimentos vários e, aliás, requerendo outras intervenções, ainda em curso.
A congeminação sobre a hipotética presença de feitiçaria, retornou de pleno, e, como se as circunstâncias presentes não bastassem, eis que, alguns dias volvidos, outra frente de moléstia atacou (também traduzida em dores, mas, ao menos na aparência, não evidenciadora de particular gravidade).
E eu, como costuma dizer-se e passe o lugar comum, a ver a vidinha a andar para trás, mais um voo interrompido, ou, parafraseando a exortação das diversões de feira – nova partida, nova viagem –, nova marcação, novo cancelamento!
Assim permaneci, em angustiante expectativa, até à própria véspera, dia em que acordei de tal maneira indisposta que decidi mesmo não ir. Contudo, a força do pensamento positivo, o esforço de vontade e superação ou, quem sabe se a influência dum eventual Anjo da Guarda ou de qualquer outro ente benigno que, por vezes, calhe dar um ar de sua graça, para não mencionar o acaso, destino ou outra intervenção/entidade indemonstrável, enfim, qualquer razão para lá do domínio do conhecimento racional (ao menos, do meu), acabou por conduzir à reversão da desistência, por feliz desnecessidade.
No dia previsto, parti, bem mais bem disposta e animada do que na véspera, com destino a Dublin, capital da República da Irlanda.
Desta vez, dadas as circunstâncias descritas – e apesar de, no meio de tantas atribulações, ter conseguido disponibilidade para consultar um guia de viagem, Dublin (CityPack), adquirido na minha livraria de eleição, a BERTRAND, bem como diversos sites, na NET –, considerei-me deficientemente preparada, mas, que interessava isso!, encontrava-me de novo em modo descolagem, no ar, em trânsito a caminho do mundo!
Se leram até aqui, presumo (e compreendo) que se questionem sobre o interesse deste relato, em que, sob a promessa de uma viagem à Irlanda, acaba por se encadear uma sequência de fracassos pessoais..., embora com final feliz!
Convido-Vos, todavia, a perspectivarem o caso da seguinte maneira: o marco inicial das viagens não começará algures, bem lá atrás, como, de resto, tudo o que caracteriza o percurso da vida, essa viagem maior? Ou seja, não foi tudo o acontecido desde a minha última viagem que me levou até esta? E isto, apenas em termos imediatos, pois tudo na nossa vida ascende a um tempo antes e se prolonga pelo tempo depois, esses dois tempos que, fundidos num único, talvez anulem a própria ideia de tempo ou, inclusive, o seu conceito habitual (tecido de medida e dimensão, limites, pois). Não será a existência um mero (e contínuo) transitar, com passagem por estações várias, das quais tendemos a reconhecer como decisivas, senão definitivas, a primeira chegada e a última partida ou as que como tal entendemos (nascimento e morte), ignorantes de tudo o que não conseguimos atingir pelo caminho da compreensão racional?
Em todo o caso, a título de compensação, tenciono vir a reportar por aqui algo sobre a viagem a Dublin, propriamente dita, quanto mais não seja, deixar umas dicas para quem lá for parar sem grande preparação, com foi o meu caso.
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