quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O MOLESKINE DE JANETE (IX)


(Continuação)
 
Francisco, consumido como ia nos seus atribulados pensamentos, atendeu o telemóvel sem grande entusiasmo, com um – Sim? cinzento escuro, mesmo antes de reparar que a chamada provinha dum número privado, não que isso o incomodasse, não pertencia à legião dos que, certamente por detestarem surpresas ou recearem ameaças fantasmas, nunca atendiam chamadas de origem desconhecida. Do lado de lá, alguém, já consciente da estranheza daquela voz, titubeou, antes de perguntar, -Manel?, - Não, Francisco!, - Desculpe, foi engano. Desculpas ignoradas, Francisco desligou, abruptamente.
 
Enquanto caminhava, tentava ordenar as ideias, sem se atrever a tocar nas emoções, que, apanhadas numa ponta se escapavam pela outra, esperneando perante qualquer manobra de aproximação.
 
Como era de esperar, chegou a casa derrubado pelo cansaço, desestabilizado por um enorme mar de dúvidas e amargurado pela sensação de fracasso.
 
Tomou um duche, preparou uma salada de tomate, rúcula e queijo feta, que acompanhou com uma fatia de pão integral e um sumo de framboesa, e recostou-se no sofá, fixando os olhos no écran vazio do LCD, enquanto o espírito vagueava, à solta, qual cavalo selvagem, pelos mundos de Rita e de Filipa, ora estabelecendo comparações involuntárias, ora gemendo queixas, fossem reais ou imaginárias. Tudo sem chegar ao âmago fosse do que fosse e sem retirar o proveito de uma qualquer hipotética conclusão, que o pudesse serenar e, sobretudo, com uma ansiedade não reconhecida doutros tempos, bem melhores, mais lineares e menos cheios de interrogações e angústias.
 
Incapaz de conviver com aquele estado por mais tempo, pegou no telemóvel e marcou o número de Rita, coisa que já não fazia desde a sua tão inesperada quanto traiçoeira partida - afinal era dono do seu orgulho e, por muito que, em certos momentos, tivesse estado preste a tombar para o lado de lá da tentação, sempre conseguira resistir. E, agora, quando, finalmente, ganhou a determinação e a coragem suficientes, esperava-o uma voz indiferente, uma voz que se dava a todos e não pertencia a nenhum, dizendo, com a sua irritante neutralidade, - o n.º de telemóvel que marcou não se encontra atribuído.
 
- Então é isso, ela não só não me contactou como fez tudo para que eu não a pudesse contactar, disse-se Francisco, com indignada amargura, não isenta duma boa dose suplementar de revolta.
 
Mais este fracasso impediu-o de ligar a Filipa, não fosse ela ter-lhe dado um número de telemóvel desactivado! Seriam desilusões a mais para uma noite só e, sinceramente, não se achava com forças para tal. Não que tivesse consciência disso, mas agiu em conformidade, como se uma insuspeita cautela o protegesse, se não da vida, pelo menos da desilusão.
 
Pensou na semana que se aproximava, apresentando-se com a sua proverbial máscara de segunda-feira fim de festa - e era verdade, bem vistas as coisas, o fim-de semana tinha sido uma bela festa, mas, como tal, conhecera o seu fim e, mal maior, sem qualquer certeza de reedição – e dirigiu-se à cama. Afinal, já não era nada cedo e ele precisava de descansar. Oxalá não voltassem a aparecer-lhe asas ou ventoinhas ou quaisquer outros objectos estranhos, perturbadores do seu sono. E, sobretudo, não ecoasse a frase do costume.
 
Mas, lembrando-se da frase, levantou-se e foi ao Google pesquisar o contexto em que Drácula a teria proferido.
 
Saiu da cama como se um sonâmbulo e viu os seus pés – como eram grandes e estranhos aqueles pés, terminados em garras afiadas, no lugar das unhas! –, seguidos dumas pernas tensas como elásticos esticados, dirigirem-se à sala, onde, momentos depois, chegou o resto do corpo, culminando numa estranha cabeça de gigantone, inchada de tanto pensamento – assim supôs – e munido de compridas mãos, que pousaram sobre o teclado do computador, o qual se revelou não ser um computador, mas um piano. Assistia a tudo aquilo como se se visse de fora e tivesse consciência da irrealidade da situação. Mas esta sensação não resistiu à música que saía do piano, obediente ao comando das suas mãos percorrendo as teclas de marfim, quais reluzentes e perfeitos dentes. E a música sussurrava, em suave toada, parecida com um manto de veludo anil:
 
Longe, numa colina
 
Verde sob azul
 
Ela espera, num desespero surdo
 
Todavia controlado
 
Não que chegues
 
Mas chegar a ti
 
Não está só, nem fome, nem frio
 
Apenas incerteza, extrema solidão
 
Um desejo maior
 
Algum dia, um dia próximo
 
Chegar a ti, para te contar
 
Contando-se
 
Talvez cantando
 
Ouvia aquilo suspenso duma nuvem de fascínio e os seus dedos não paravam de fustigar as teclas, na esperança de eternizar a toada, deixá-la desvendar-se, revelar a sua origem e substância.
 
Subitamente, o ruído selvagem dum Fórmula 1 irrompeu triunfalmente, como só os selvagens conseguem irromper, sem qualquer sentido de respeito ou atenção, impondo-se sem cuidar do que os rodeia, são assim os triunfos, pelo menos alguns triunfos, como aquele, estatelado nos seus tímpanos, desintegrando a melodia do piano, fazendo-o dar um salto na cama, mais desconexo do que a correria do seu coração desgovernado.
 
- A esta hora? Mas quem ousa tocar a campainha tão furiosamente a esta hora? – Perguntou-se, ao fim de alguns segundos de retoma da realidade.
 
Dirigiu-se, então, à porta, perguntou, - quem é? e alguém respondeu, - desculpe, foi engano!
 
Mas esta gente tinha tirado o dia para o chatear? Primeiro a voz anónima do telemóvel, agora a mão anónima da campainha da porta. Seria alguma espécie de conspiração?
 
O calor não ajudava. Abriu todas as janelas para deixar o ar esgrimir-se, em correntes cruzadas, passou a cara por água e estendeu-se no sofá. Eram 05H e, daí a duas, tinha de se levantar, partir para a vida e mostrar o que valia. E o que valia ele, realmente? - Perguntou-se.
 
Fechou os olhos, respirou fundo e invocou, mentalmente, a frase, - O desespero tem suas formas próprias de trazer a calma. - Teria? - Questionou. Fosse como fosse, a frase possuía – ou ia ganhando - qualquer coisa de apaziguador e ele precisava desesperadamente que alguém ou alguma coisa, nem que fosse uma simples frase, o apaziguasse. Como ele precisava disso! E, também, dum pouco de ar fresco.
 
Não seria, mesmo, por causa do calor que grande parte da população tinha abandonado o País? - Raio de ideia mais estúpida! - Censurou-se, em nada contribuindo para restaurar a sua fragilizada autoestima.
 
Bela maneira de aterrar numa segunda-feira!
 
 
 
 
 
 
 

2 comentários:

  1. Bela maneira de contar uma história sobre os estados de alma, as vivências e sentimentos, as dúvidas existenciais.

    Em particular gosto do Fancisco, da descrição das suas emoções. A apresentação da Rita é mais ficcionada ainda que se esteja a revelar bastante interessante, passados os episódios algo surrealistas.

    Continua.

    ana

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    1. Muito obrigada, Ana. É sempre um gosto receber um comentário - para mais, simpático -,dum(a) leitor(a).

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