segunda-feira, 24 de março de 2014

COUP DE FOUDRE


E foi assim que tudo começou, pelo fim, aliás,  um fim mau (nem todos os finais o são). Olharam-se com antagonismo, como se uma vida inteira de guerrilha e desamor os desligasse, lhes servisse de rio com ocasionais pontes, apenas destinadas a provar que um e o outro se tinham pertencido. Se fosse ao contrário, chamar-se-ia um coup de foudre, mas assim, tal como as coisas aconteceram, não mereciam a honra do francesismo, talvez uma tradução invertida, ódio à primeira vista. Ódio, ódio, talvez seja exagero, mas lá que foi forte antipatia, disso não podem restar quaisquer dúvidas.
Tinham-se cruzado na urgência de agarrar o único táxi disponível, naquela madrugada de imparável chuva grossa e vento gelado, à saída do aeroporto, ele regressado dum sítio qualquer e ela, sabe-se lá donde. Quase se atropelaram na pressa da corrida, as malas chocaram uma contra a outra, não com tanta violência como os seus olhares, ele, dispensando-se de exercer de cavalheiro, ela, chocada com aquela omissão, o taxista, divertido com a cena e tentando adivinhar, no escuro, qual deles seguiria para mais longe.
Aproveitando a confusão, um terceiro adiantou-se, abriu a porta do táxi e anunciou um destino digno de voo, como era, não fosse o atraso do avião e a sua urgência em chegar a tempo dos acontecimentos importantes de daí a 3 horas. O taxista não hesitou, acenou um acordo, o flash da entrada do passageiro, e arrancou com as rodas a chiar no brilho molhado do asfalto.
A cólera deles acompanhou o rasto de chuva erguida pela pressa do táxi, que calhou assentar de chapão nos seus fatos amarrotados, nem a protecção duma gabardine, nenhum previra ter de fazer escala num sítio daqueles, uma lonjura oblíqua de montanhas rígidas, saturadas de águas mil, pendentes em fitas ininterruptas e intermináveis.
Por essa altura, as malas já estavam repostas, apenas levemente arranhadas do choque, não havia nenhum táxi à vista, o vento gelava mais forte e os seus olhos voltaram a mergulhar-se, os dum nos do outro e vice-versa, e só então se viram, sim, aquilo já não era apenas olhar, era ver, um ver de primeira vez. E não contiveram o riso.
E foi assim que tudo acabou, pelo princípio, aliás, um princípio auspicioso (nem todos os princípios o são).
Voltaram a entrar no aeroporto, ele convidou-a para um café, ela aceitou, e depois... 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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