sexta-feira, 21 de março de 2014

NÃO DIGAS QUE NÃO TE AVISEI!


o teu corpo parecia uma mão fechada, não, uma mão fechada contra a outra mão, os dedos, muito brancos, muito frios, feitos laços-presos, atando-se uns aos outros, como quem se debate numa agonia viva, bem viva, militante, desconhecedora da desistência, apesar do fracasso incessante. sim, porque era disso que se tratava, dum fracasso teimoso, desde o princípio da imemória, está bem, inexiste imemória, como talvez inexista inexiste, mas percebes o que quero dizer, é quanto basta.
porque vinha essa espécie de embalagem vazia, ausência,  dos confins disso, da imemória? assim, feita companhia predestinada, só podia ser isso, destinada a fazer-te da vida deserto, mar desabitado, embora só tenhas percebido mais tarde. mais tarde? tenho dúvidas, sei que, por dentro, bem no fundo do dentro, sempre soubeste. só que essa ideia estúpida de persistir, forçar o teu corpo tenso no abraço das mãos contorcidas, dedos tão feitos arames de prender, sempre em círculo, dervixes, um polegar enrolando-se no outro, em voltas e voltas e voltas, no sentido dos ponteiros do relógio e no inverso do sentido dos ponteiros do relógio, e depois dizias, bloqueio.
pois bloqueias, não posso iludir-te da tua própria lucidez, segurar-te a cabeça entre mãos leves e dizer, repousa, distende-te, abandona esses dedos-giz, tão hirtos e pálidos e gelados, de tanta insistência desesperada e teimosa. sabes, até a persistência tem limites ou devia ter. um dia vais perceber isto (ou irias perceber isto?), isto que acabo de te dizer, com a certeza de todas as urgências, com a inteligência de todas as dúvidas, com o imediato de todas as acções. já vai ser tarde, todavia, tu sabes, tão bem quanto eu. sabes porque sentes o teu corpo-nó, estrangulado nos dedos-arame, até o espírito preso de voar, só a presença das sombras da imemória - está bem...- e a certeza das sombras que serão.
vá lá, não posso amparar-te a cabeça, cantar uma canção morna, olha, uma morna, podia ser, Cesária Évora, por exemplo, sabes que um dia encontrei a Cesária Évora no aeroporto de Copenhaga e lhe pedi um autógrafo? sabes que ela me deu o autógrafo embalado numa pergunta, era inverno, e ela perguntou-me o que fazia eu em Copenhaga, férias, respondi, e ela, mas está só, veio ter com família? não, vim só, não tenho cá família nem amigos, vim de férias, apenas. não lhe disse que tinha ido espanejar fantasmas, mas não teria valido a pena, mesmo assim o espanto dela não tinha limites, naqueles olhos tristes, um pouco desorbitados, não lhe fazia sentido o meu lugar ali, assim, como eu lhe disse, naquela falta de circunstância. é no que dá ser-se de pertença dalguém ou duma tribo, ter-se alguém ou uma tribo de pertença e não se conceber a possibilidade, mera hipótese académica, doutras vidas - foi o que pensei.
nem sei porque te conto isto, talvez para que percebas o porquê de não poder amparar-te a cabeça, cantar-te ou contar-te coisas melodiosas, doces, dizer-te que vai passar, que desenlaces o arame farpado que te prende o corpo e já te apanhou o espírito ou lá como se chama essa coisa etérea que te anima ou, melhor dito, desanima.
não penses que sou sádica, só não gosto de te assistir a essa agonia de adiamentos compulsivos, alimentados por golfadas tão súbitas quanto passageiras de etéreos faz-de-conta, como se.
como se nada, é o que é, estás farta de saber. e cansada. nem sei por que esperas, não entendo. apenas sei que é até quando.
não digas que não te avisei.
  
 
 
 
 
  

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