domingo, 29 de junho de 2014

A NÃO HISTÓRIA DE VLADIMIR BLUE (III)

O projecto Vladimir Blue - se assim se pode dizer, o que não é o caso, visto não ter sido programado - apertava os joelhos moles contra a transparência macia daquela aparência de peito, numa inquietação precoce, quando a ferida rebentou, súbita, no seu minúsculo cérebro (apenas meia dúzia de neurónios, por essa altura), acendendo-o, não pela primeira vez, para a estridência do lado de lá, que, mais do que o aguardar, já lhe residia por dentro, firmemente instalado. Ela desviara a cara, num reflexo não suficientemente sincronizado com a habituação, e apanhara, em cheio, na face esquerda, a brutalidade do punho cerrado, sem outra justificação que não fosse um longo historial de álcool, misturado com frustração, raiva e possível confusão da sua pessoa com um saco de box, só podia. Devagarinho, baixou a cabeça e deixou escorregar uma lágrima surda, que, em breve, se misturou com o fio vermelho que lhe escorria pelo lábio rasgado. Acima de tudo, não queria que o seu choro fizesse barulho, não fosse a criança inquietar-se e nascer sobressaltada. Sim, ela, Natasha sem apelido, queria aquele nascimento e garantir que o seu produto surgisse, se não envolvido em paz, está bom de ver que isso seria impossível e ela não era propriamente irrealista, pelo menos, não afectado pelas marcas da porrada física e psicológica infligida por aquele homem, em cujas malhas estupidamente se deixara prender. Ele, pelo contrário, não estava sequer interessado na criança, quase impusera o aborto, não por palavras mas com uma sova monumental, quando a notícia da gravidez lhe fora comunicada.
Vladimir Blue agitou-se no banco, os seus olhos brilharam de fúria e levou as mãos aos ouvidos, com o desespero dum grito engolido. Foi a primeira vez que a Sombra lhe viu as mãos. Eram, de facto, rígidas e nodosas, mas o que mais impressionava eram os cortes em ziguezague que grossas cicatrizes lhe desenhavam na palidez, quase translúcida, da pele, coexistindo com uma rede ostensiva de veias salientes. Aquilo mais parecia uma fotografia por satélite dum campo de guerra inacabada. A Sombra encolheu-se imperceptivelmente, não fosse a agitação de Vladimir Blue piorar.
O projecto Vladimir Blue amarfanhou-se mais, naquele saco de águas cansadas, e aguardou que a estridência fosse desaparecendo, qual eco perdendo-se em círculos concêntricos na lonjura do esquecimento. Aquilo não prometia nada de bom, a qualquer momento podia voltar a estoirar, e era sabido que a surdez do choro se lhe seguiria, porque, mau grado ser surdo ou talvez por isso mesmo, fazia-se ouvir mais alto e feria mais do que se fosse declarado, expansivo, revestido dum qualquer significado perceptível, por exemplo, uma revolta ou uma tentativa de retaliação, para não dizer, de libertação.
As vozes soaram, a dela, tímida e cautelosa, a dele, bruta e potente
- Ao menos poupa a criança, já não falo por mim.
- Se é só por isso toma lá outra, com os meus cumprimentos para a maldita criança – e Piotr voou, novamente, a mão fechada, na direcção do rosto dela.
E foi assim que Vladimir Blue ficou a saber que era uma criança ou melhor, a criança, uma criança talvez nunca pudesse vir a ser, concluiu a Sombra, enquanto ele se levantava num repente de aceleração, seguindo o caminho da saída sul do parque, no seu habitual passo apressado, como quem foge duma qualquer ameaça de perseguição.
 
 

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